Preparação literária em hipóteses (considerações finais)

Como é que mostro a minha admiração em relação a um texto? Principalmente ao lê-lo muitas vezes, ao gostar imenso dele enquanto o aprecio, ao citá-lo, remodelá-lo, possuí-lo, etc.

Peguemos emprestada esta ideia: ao lermos um livro que nos agrada fazemos gestos e expressões faciais que seriam aquilo a que se chama de gestos de aprovação. Aprende-se a artimanha, disse Wittgenstein, adquiri-se um juízo cada vez mais refinado. Filtramos.

O público-leitor, podemos repetir quantas vezes quisermos, é, antes de qualquer outro, o próprio-escritor. Escritor que escreve para aproveitar o presente — pois a posteridade, dói admitir, pode não vos dar a mínima. Além disso, estaremos com terra na boca, dentro de um caixão.

«Escrevo para visitar-me: pintar, compôr, escrever, sim, visitar-me», disse Henri Michaux, que se queria nenhures.

Schöpferische Indifferenz, não eram esses os termos que os germanófanos (pensemos em Schnitzler, Jünger, Kleist, Tieck, Kafka) gostavam de utilizar? «Indiferença criadora.»

Se ninguém me leu…, paciência.

Como aquelas mensagens que, no leito de morte, com respiração ofegante, o moribundo ainda teve tempo e forças para exprimir.

Não é propriamente literatura, mas compartilho convosco as últimas palavras de Beethoven, adequadas ao contexto: e a comédia, enfim, acabou. 

Escrever como se a comédia pudesse acabar a qualquer momento.

E nesta cidade do acaso, neste emaranhado de ruas da sorte com que a literatura por vezes se assemelha, talvez alguém decida abrir as páginas da vossa morada, visitar o vosso livro, permanecer um bocadinho aos vossos verbos. Fascinantes possibilidades.

— P. R. Cunha

Preparação literária em hipóteses (parte III)

«Nenhum artista é artista vinte e quatro horas por dia.»

Não haverá uma pitada de ironia no fato de que essa frase fora escrita por Stefan Zweig? Justo ele, que nem diante do próprio suicídio deixou de fazer arte — cabelos engomados, gravata impecável, a camisa devidamente abotoada, a última cena montada em Petrópolis-RJ antes de se despedir dos palcos mundanos.

Mas, afinal, o artista — e para os efeitos destas hipóteses vamos tratá-lo logo de escritor —, o escritor precisa de trabalhar a tempo inteiro?

Sim e não (ambiguidade propositadamente calculada).

O escritor consegue produzir o essencial, tudo aquilo que vai perdurar, apenas em alguns raros momentos de inspiração — a ideia geral ainda é do sr. Zweig.

São necessários milhões de pessoas em uma nação até surgir aquele/aquela a que chamaremos de bom escritor/boa escritora, milhões de horas tediosas precisam de passar, milhões de palavras arremessadas ao lixo para, enfim, observarmos uma histórica estrela cadente da literatura que de forma breve iluminará a noite das nossas insignificâncias.

Trata-se, portanto, de ofício que exige disciplina, continuidade. A ideia não é necessariamente «trabalhar» a tempo inteiro, mas manter os canais abertos, manter a luneta virada para o céu. Se estivermos desprevenidos a locomotiva se vai alhures, não embarcamos… 

Manter-se num estado de vigília espontânea, era isso o que eu estava querendo dizer.

Lembremos agora, à guisa de reforço, a quantidade de terra, e lama, e dejetos que o minerador precisa de se ver livre antes de conseguir encontrar pedras preciosas. 

Pois, o bom escritor e a boa escritora nunca deixam de ir ao fundo, de limpar, não desanimam quando se deparam com falsos diamantes. Se estiverem na mina certa, sabem que o aguardado tesouro vai aparecer: questão de tempo.

— P. R. Cunha