À guisa de mudança (outras ondas)

No mês passado a câmera de segurança de determinado estabelecimento comercial capturara a luta de um jovem estudante contra 2 (dois) bandidos perigosamente armados. A luta portanto desse estudante contra os dois (2) sujeitos peçonhentos que tentavam roubar-lhe a mochila, mas o jovem estudante não queria de forma alguma ceder, isto é: desfazer-se da supracitada mochila, pois dentro dela estava um raro tratado escrito por Giacomo Casanova — coisa que os bandidos não tinham como saber, nem ao menos faziam a ideia de quem seria o tal Casanova. Apenas insistiram (os bandidos) em puxar a mochila do estudante precisando recorrer finalmente à força e à faca que um deles enfiara no dorso do gajo sem demonstrar qualquer sinal de remorso. Os jornais comentam que o sacrifício do escolar que poder-se-ia dizer arriscara a própria vida para defender Casanova inflamara/reanimara o mercado editorial (i.e. livresco) durante um par de semanas, até tudo voltar às chamadas normalidades — jovem estudante, Giacomo Casanova & obsessão pelos livros esquecidos novamente.

intrigazinha

Que o Chico Buarque tenha lá recebido o Prémio Camões antes de Gonçalo M. Tavares / walter hugo mãe / Dulce Maria Cardoso & outros parece-me um imperdoável disparate — à moda Bob Dylan Nobel da Literatura.

(…)

fechas a cortina
do teu quarto de hotel
e sentes
num repente
que poderias estar em
qualquer outro sítio.

(Anotado em dezembro de 2018 num quarto de hotel / Lisboa [ou teria sido Aveiro{?}] )

P. R. Cunha abandona momentaneamente a literatura arquitecto-construtivista da capital federal para entregar-se outras vezes às influências marítimas da sempre inspiradora cidade de Niterói, Rio de Janeiro, na América do Sul. Ocasiões em que o autor compreende que como o Caldo Primordial de compostos orgânicos, os crustáceos e os moluscos (Cephalopoda) também a sua percepção de mundo + próprio tacto com os verbos nasceram das profundezas oceânicas. Uns minutinhos de tréguas do betão/concreto armado. A aeronave nestas alturas voa já para os portos cariocas, enquanto a alma sente aos poucos o gosto salgado das imensas possibilidades náuticas — como diz P. R. Cunha pro domo sua.

— P. R. Cunha

O amor praticado por duas personagens que conversam entre si, discutem, brigam e depois ficam tranquilas

Por um fim de tarde de primavera, deambula com a Maria Júlia pela praia de Copacabana, contempla as ondas que Tom Jobim imortalizara, rodeia com um braço sentimental os ombros dela e diz: a paisagem do Rio de Janeiro é composta por praias, montanhas, calçadão, pedras portuguesas, Corcovado, trilhas, táxi amarelo, Maria Júlia, areia, céu, Lua — estrelas.

Se o escritor brasileiro não ganha prêmio, ele reclama. «Então tome um prêmio, escritor brasileiro.» Agora o escritor brasileiro, na sua insolência sempre voltada para o exagero opulento, diz que o prêmio paralisa, entorpece. Neve do prêmio, solidão do prêmio, as inúmeras possibilidades secretas do prêmio. Sentir-se culpado por ganhar o prêmio, e por aí vai.

«A biografia do escritor é tudo aquilo que, acoplado ao sufixo, revele a sua natureza de aglutinações sígnicas. Geografia e lexicografia, viagem e linguagem» — João Alexandre Barbosa, 1979.

É necessário escrever de uma vez, numa sentada, como se diz, antes que o cérebro atrofie. As pessoas podem/devem achar uma porção de coisa: não estou a crer que este ser humano ganhara prêmio no estrangeiro. Voltar à normalidade.

Mal du prix — mal do prêmio. Dor aguda, debilitante, febre temporária, pois não.

O que é que me entusiasmava… Estar entre o mar e o longe. Desde que o tempo estivesse razoável.

— P. R. Cunha

Sobre «VBA Rules» & Dulce Delgado

vba

Por vezes faço grandes esforços para não dar a perceber a minha condição agorafóbica (s. f. [Psicopatologia] — Estado patológico caracterizado pelo medo de atravessar espaços públicos, como largos ou praças). Donde o marcado exagero dos meus relatos literários e certa timidez na hora de, como se diz, conviver. Não possuo contas em redes sociais, nada de perfil no Facebook, nem autorretratos no Instagram, self-made-tv no Snapchat. A plataforma WordPress (é assim que se chama?, plataforma?) proporciona-me esconderijo agradável: leiam cá o que eu escrevo, desnecessário expor-me, dizer que o Totó irascível comeu minha roupa de cama e depois fez bagunça imensa à casa de banho. Mas divago. Ontem descobri que existe um curioso brinquedo de electro-compartilhamento a que chamam de Versatile Blogger Award — o award remete-me de imediato ao The Oscars Academy Awards, o que não deixa de valorizar um bocado a empreitada. Mamãe, veja só, recebi um award. Mamãe orgulha-se dessas coisas. Acessei o sítio web do Versatile e deparei-me com o acordo tácito da brincadeira. Em tradução livre, explico que os responsáveis pelo projeto sugerem o seguinte:

Se você foi indicado, então você recebeu o prêmio Versatile Blogger.
1) À guisa de cortesia, diga obrigado para a pessoa que lhe deu o prêmio;
2) Inclua o endereço do blogue dessa pessoa, também à guisa de cortesia;
3) Depois, selecione 15 blogues/blogueiros que você descobriu recentemente ou segue com regularidade;
4) Indique esses 15 blogues para o Versatile Blogger Award — talvez seja uma boa incluir o link desses sítios;
5) Finalmente, diga sete fatos sobre si para a pessoa que nomeou-lhe.

Mais do que temer a timidez social, receio de ser lá acusado de fulano antidesportivo. Ao passo que responderei desta forma:

Agradeço à Dulce Delgado (escritora-fotógrafa-ilustradora-poetisa-etc.) pela indicação — pode-se encontrá-la nestes endereços: discretamente.wordpress.com & instagram.com/dulce_em_pausa. A Dulce é-me fonte inesgotável de criatividades. Eis sete fatos a meu respeito: UM) Perante questionários de awards, não sei bem o que fazer; DOIS) Gosto um bocado de suco de tangerina; TRÊS) Tenho trinta e dois anos, abandonei o jornalismo para escrever literatura, muitos — inclusive eu — não compreendem ao certo o que me levou a dar esse passo; QUATRO) Se houvesse um duelo Schopenhauer vs. Wittgenstein eu provavelmente apoiaria o Wittgenstein; CINCO) Gosto de cineastas das antigas — i.e.: Pasolini, Moravia, Citti, Tarkovski, Bergman, Kurosawa; SEIS) Eu tenho dez dedos nos pés — cinco no direito, cinco no esquerdo; SETE) Perdi meu pai quando jovem e até hoje estou a aprender a lidar com essa perda irreparável.

É bem este o modo como as coisas se passam comigo. E sobre as indicações de blogues alheios, o caro leitor tratará de perceber que nos breves dois meses de existência este torto sítio recebeu engrandecedoras intervenções aos comentários — meu Versatile Blogger Award vai para cada uma/um dessas/desses queridas/queridos leitoras/leitores.

— P. R. Cunha