Foguetes para a Rússia

Morei em São Petersburgo em 2009. Há dez anos, num mesmo 15 de agosto, recebia das delicadas mãos da senhora coordenadora do Departamento de Línguas o meu diploma russo. Nem precisaria dizer que essa foi a minha maior conquista de sempre, mas o digo mesmo assim. Uma década se passou e continuo à procura de respostas, muito consciente de que não faço a menor ideia do que significa estar vivo. Como escrevera um desiludido Geoff Dyer: toda a disciplina e ambição intelectual daqueles primeiros anos dissiparam-se.

Conversa com Andrei Vasilyevich à mesa perto do busto de Mendeleev, Universidade de São Petersburgo, crepúsculo: o despropósito da pergunta «o universo é infinito?»; por conta da expansão do espaço-tempo boa parte do cosmos mostra-se já inatingível para as pretensões humanas, então, filosoficamente, o universo é infinito. Vasilyevich reforça o facto de que o astronauta quase não consegue dar um simples pulinho até à Lua sem ser tragado pelo vácuo. Dificuldade da nossa espécie animal: reconhecer/aceitar as próprias limitações etc.

Doze seres humanos pisaram em solo lunar. Todos relataram perturbadora ansiedade durante os minutos que antecederam o descolamento que levaria o módulo de volta para o planeta Terra. Charlie Duke ajusta o próprio capacete enquanto observa a paisagem acinzentada pela janelinha da Apollo 16: certo, e se esta porcaria não funcionar?, e se ficarmos presos aqui?, o que faremos se tudo der errado?

Agora organizo fotografias que tirei durante o período russo: o Almirantado, o Cavaleiro de Bronze, o Palácio de Inverno, as catedrais, o percurso no Transiberiano, a Praça Vermelha, o último grande passeio que fiz com meu pai antes dele morrer. Sinto uma ansiedade diferente das inquietações lunáticas, oposta. Perguntar-se: será que um dia regressarei à Rússia?

— P. R. Cunha


Processed with RNI Films. Preset 'Fuji FP 100C'

Meu muito agasalhado papai — primeiro plano — encanta-se com as formas da Catedral de São Basílio, Praça Vermelha (maio de 2009)

Cristas temporárias (como um relógio de Dali)

Nos anos 1990 meus pais trouxeram de Portugal um daqueles galos do tempo — que a revista Ípsilon chamara de «objecto (quase) obsoleto». O nosso também ficava em cima da televisão. Papai gostava de deixar a janela aberta para que o bondoso galo avisasse possíveis tempestades. Muitas vezes mudava-se de cor, mas não acertava na meteorologia. Minha mãe, que aprendera a admirar as façanhas do galito del tiempo, metia a culpa nos filhos. Pelos vistos, os nossos dedinhos oleosos a tocar na escama sensível do meteorologista afetavam sobremaneira a capacidade do galo de prever se chuva ou sol.

* * *

Quem passeia à tardinha pela Quadra Interna 28, mais especificamente ao conjunto 2, consegue observar monsieur Dimanche trabalhando em alguma pintura impressionista. O ateliê do belga naturalizado brasileiro fica ao rés da rua e uma enorme fachada de vidro oferece aos transeuntes um honesto espetáculo pictórico: Dimanche a mover cores com tanto à vontade e confiança. A claridade opaca do entardecer realça o cenário, além de emprestar um estilo descompromissado às pinturas. Dir-se-ia ainda que os pincéis fazem parte da companhia de dança do teatro Bolshoi, tamanha a leveza de toda a operação. Certa feita tomei coragem e aproximei-me da vidraça. O pintor descansara os óculos arredondados no compartimento do cavalete e ofereceu-me uma chávena de café. Madame Dimanche trouxe-nos também uns docinhos apetitosos. O pintor sorrira e tirara da estante empoeirada o meu Paraquedas – um ensaio filosófico: livro taciturno, mas um bom livro, ele disse. A biblioteca contava ainda com edições raras de Charles Dickens, Ovídio e Sêneca. Enquanto tomávamos silenciosamente o café, olhei em redor: uma data de telas com pontilhados milimetricamente dispostos, como se o ateliê fosse uma espécie de alucinação onírica. Sobre a escrivaninha de Dimanche, que (um pouco como Man Ray) escreve o que não deseja pintar e pinta o que não pode escrever, havia um desgastado galo do tempo português. Dimanche tocara nos meus ombros e num tom divertido dissera: às vezes funciona, outras tantas vezes não funciona.

— P. R. Cunha

Excertos de possibilidades

De um texto a escrever: como o crossfit modificou a minha forma de lidar com a escrita — desafiar-se constantemente, saúde de corpo & cérebro (vide escritores japoneses [Mishima, Murakami, Tanizaki, Kawabata, Miwa]), não subestimar os próprios limites &, o mais importante, continuidade, rotina, manter a máquina trabalhando (em física: momentum).

Lembrar-me de assistir:

Letter to Jane (Godard/Gorin, 1972);
Persona (Bergman, 1966).

Andrei Tarkovski & a obsessão pelo processo criativo. Nos anos 1970, três versões diferentes de Сталкер (Stalker). Contato de toda a equipe de filmagem com materiais altamente tóxicos de usinas/fábricas desativadas em Tallinn. Longas exposições. Possível causa das mortes de Alexandr Kaidanovsky (o Stalker), Anatoli Solonitsin (o Escritor) & do próprio Tarkovski: contaminação industrial.

Esta minha estranha necessidade de também explicar, seguidas vezes, o que faço, o que estou a fazer, a relevância — certo desconforto diante da pergunta: por que diabos escreves literatura? & a minha atitude defensiva & explosiva ao dar as explicações mais esdrúxulas possíveis.

Dois sonhos que se repetem frequentemente. #1: estou a afundar num pântano & escuto uma voz andrógina: «A cura para um velho amor não é um novo amor, mas novas dores, novas decepções». A voz mete imenso medo. Acordo pouco antes de ser engolido pelo pântano. #2: estou deitado numa cama & há uma arma automática apontada à minha cabeça. É preciso dormir assim, com a arma a poder disparar a qualquer momento.

— P. R. Cunha

Quem é que está a rir agora

SALA DE INTERROGATÓRIO, 21H54

O polícia Ionesco fecha a porta atrás de si. Joga a pasta com os documentos de investigação sobre a mesa. A mesa de metal range e balança como se fosse uma velha locomotiva soviética. A mulher sentada assusta-se imenso com o barulho, recua. Os dedos nodosos dela movem uma madeixa de cabelos que está a cobrir-lhe o olho direito (especificamente o olho direito). A mulher parece embriagada, ou sob efeito de soníferos (calm caps).

IONESCO: dama, vou precisar que repita… [breve pausa, Ionesco fita a câmera de segurança, prossegue], por obséquio, preciso que repita o seu nome.

[Sem olhar para o polícia, a mulher diz: Marta.]

IONESCO: de quê?

MARTA: isto é mesmo necessário?

IONESCO [toma notas, levanta a manga do paletó, olha para o próprio relógio, depois compara-o com as horas do relógio de parede da sala de interrogatório]: sim, dama, completamente necessário.

MARTA: Marta, Marta de Albuquerque, senhor. [Um senhor que soa teatral, jocoso, como um soldado rebelde que responde sem vontade aos superiores.]

IONESCO: gostava que a senhora Marta de Albuquerque contasse-me o que realmente aconteceu na noite de ontem.

MARTA [olha para as mãos de Ionesco, sem anel]: já foste casado?

IONESCO: como é?

MARTA: não sejas um idiota, a pergunta é simples. Já foste casado?

IONESCO: não compreendo como isso pode nos ajudar aqui, senhora Marta de Albuquerque.

MARTA: briga entre marido e mulher, foi isso, uma simples briga entre marido e mulher. Se tivesses sido casado, compreenderias.

IONESCO [sem esboçar qualquer tipo de reação abre um dos envelopes e tira uma pilha de fotografias. As imagens mostram um homem roxo com inúmeras facadas no peito, o pescoço aberto, os olhos vidrados e sem vida parecem antever um encontro com o próprio diabo. Ionesco organiza metodicamente as fotos sobre a mesa, tal qual psicólogo durante aqueles estranhos testes de sanidade]: simples briga entre marido e mulher.

MARTA [solta um desdenhoso humn]: francamente… [pausa]. Estávamos no quarto. A minha irmã tinha acabado de ligar. E ela tem um daqueles casamentos perfeitinhos, sabes?, o marido perfeitinho, os filhos perfeitinhos que tiram notas perfeitinhas, e passam as férias a ler Gontcharóv, Tchekhov, escutando Claude Debussy, e escrevem resenhas a explicar os porquês de acharem que o niilismo de Sartre faz mais sentido do que o niilismo de Nietzsche. Eu desligo o telemóvel e digo: Francisco, quero o divórcio, do jeito que está não pode. Mas o Francisco nem me olha, fica a ler o jornal, como se, sei lá, como se eu estivesse a fazer a previsão do tempo, se chuva, se sol, essas coisas. Então eu decido insistir, porque, sabes, quero mesmo resolver tudo de uma vez por todas. O Francisco continua lendo o jornal: Francisco, estou a falar a sério, quero o divórcio. Devo ter repetido isso umas cinquenta vezes, percebes? E estava a aturar o silêncio do Francisco da melhor maneira possível, eu inspirava e expirava e dizia para mim mesma: tem calma, mulher, tem calma. Até que numa altura eu disse: Francisco, estamos a nos divorciar, amanhã vem aqui uma advogada, vamos nos divorciar, e o Francisco ri-se, um daqueles risos que duram apenas alguns segundos, riso de escárnio, prepotente, riso imbecil, de uma superioridade desprezível. [Marta olha para a mesa, dá duas batidinhas com o indicador na superfície lisa de uma das fotografias do homem mutilado]: pois bem, garanhão, quem é que está a rir agora?

— P. R. Cunha

Tipos que descrevem

No início de cada curso de escrita criativa costumo instigar os participantes a responderem à famigerada pergunta: o que é um escritor? Não se trata de uma retórica socrática, eu realmente não sei a resposta correta — se é que há resposta correta.

Na escala mais primária, escritor seria aquela pessoa que escreve. Certo? Trata-se, porém, de uma definição deveras abrangente que só faz germinar novas indagações: os jornalistas são escritores?, e os escribas?, qual seria a diferença entre o autor Herman Melville e Bartleby, o jovem escrivão pálido?

Alguém, de certeza, sairá ofendido.

Muitos sugerem distinguir o escritor-artista daqueles que utilizam a linguagem e as palavras para fazer textos sem fins literários. Interessante segregação. É claro que haveria ainda a ardilosa tarefa de se definir o que é artístico, o que é literário. 

Gay Talese e Tom Wolfe sem dúvida não se incomodavam quando eram chamados de jornalistas, e as reportagens que escreveram superaram inúmeros romances pretensiosos que foram lançados na altura em que os dois publicavam artigos em jornais e revistas. Talese, inclusive, reuniu diversos desses textos numa coletânea chamada Writer’s life (Vida de escritor [lançado no Brasil pela Companhia das Letras]).

Os alunos do curso então começam a se perguntar se escrever é realmente um trabalho — no sentido industrial do termo. Surge a figura do flâneur, o ocioso, o dândi comum ao século XIX que fora retratado por Baudelaire como «errante solitário que perscruta, persegue, percorre o inferno urbano, vive de rendas, tem todo o tempo disponível para si».

Marcel Proust talvez seja um dos arquétipos mais emblemáticos dessa belle époque da vadiagem, e muito provavelmente porque representava a transição do antigo modus operandi (nostalgia) para as incertezas que assolavam o mundo depois da Primeira Guerra Mundial. Basta lembrar que Proust escrevera boa parte de Em busca do tempo perdido deitado na cama.

Outra figura recorrente é a do jogador. Os amadores jogam, apostam, competem, enviam os manuscritos às editoras, aos prêmios. E somente quando são publicados (e recebem pela própria criatura [ainda no contexto mercantilista]) é que podem se considerar «escritores de verdade». A analogia com o concurseiro mostra-se quase inevitável. Aquele que estuda para concursos, por mais embasamento teórico que possua, não pode ser chamado de funcionário público até que seja aprovado nos exames.

São respostas livres, despretensiosas, aleatórias, um bocadinho polêmicas. O próximo curso de escrita criativa começa esta semana — e não vejo a hora de poder apreciar novas hipóteses sobre o que é, afinal, um escritor.

— P. R. Cunha

Como guardar imagens chilenas apropriadamente

Nestes meus quase 34 anos de planeta Terra jamais cogitei a possibilidade de não levar o aparato fotográfico às viagens. Desta vez estou a fazê-lo.

(Ainda não é a viagem, mas o início, o começo despretensioso — prévias [previsões].)

Defender a ideia de que o nosso cérebro também é um mecanismo imprevisível que captura os tais momentos do tempo perdido. Caixa craniana/câmera escura registram, arquivam, revelam mensagens do passado.

Minhas últimas duas viagens: Niterói & Portugal (de Lisboa até Aveiro) — contaminado pela quantidade absurda de gentes a tirar fotografias; a mais delicada de todas as atividades predatórias, como diria Susan Sontag. A culpa, o remorso: eu, com a minha Canon, também fazia parte do grupo voyeurístico.

Ir aos concertos e não conseguir prestar atenção, porque os telemóveis luminosos e as câmeras tomaram conta de tudo.

A lente da máquina e o olho humano precisam de luz. E aqui começo as minhas reflexões propriamente ditas.

Acontece que o universo no qual vivemos possui um limite de velocidade: 299,792 km/s; a chamada velocidade da luz. Habitamos este espaço físico com regras específicas onde nada pode ultrapassar esses 299,792 km/s. 

Estamos constantemente em viagem: as informações do nosso corpo percorrem o espaço até chegar aos outros receptores.

Duas pessoas estão a um metro de distância e conversam sobre, digamos, os negócios de determinada empresa. A título ilustrativo, podemos chamá-las de Marcos e Luana. Por causa do limite de velocidade da luz, Marcos está a ver Luana com um atraso (delay) de 3,3 nanossegundos.* Pode parece um simples bate-papo comercial que supostamente ocorre no presente, mas Marcos e Luana estão sempre um bocadinho no passado. O cérebro a captar fótons espectrais.

*0.000000003 (em segundos).

Tudo o que vemos em redor é como foi, não como é. O agora absoluto, para a luz, não existe. Vivemos a observar atrasos, à espera de um presente que nunca chega.

Os corpos celestes podem esclarecer. A Lua brilhosa que aparece elegante numa noite sem nuvens está a cerca de 380 mil quilômetros de distância — de forma que a luz demora quase dois segundos para chegar até nós. O Sol, a 149.6 milhões de quilômetros, ilumina a nossa atmosfera com oito minutos de atraso.

Ao que tudo indica, mandaremos humanos para Marte — 227.9 milhões de quilômetros da Terra. E aqui o arranjo torna-se um tanto macabro. Se algum astronauta morrer em solo marciano, os terráqueos só saberiam 14 minutos depois.

Agora, voltemos às comparações olho-humano/lente-fotográfica; captação de luz, de imagens, das informações que se mostram atrasadas. O fotógrafo que mira a própria câmera a fim de preservar a história, o acontecimento. Viu algo que lhe interessou imenso, apertou o botão. Crê conservar uma cena que de outra forma desapareceria. 

Armazenamento de memórias, falhas. Uma fotografia minha em que estou a brincar no parquinho com os meus irmãos (1988), o papel está a perder a cor, as bordas dilaceram-se. Se imagem digital, a instabilidade dos servidores eletrônicos — hoje, estão a operar, amanhã, não se sabe ao certo (quedas repentinas do sistema de grandes corporações [motivos desconhecidos], dados irrecuperáveis). O cérebro humano que também se deteriora (Alzheimer).

Tudo se perde.

Existir num passado constante e a angústia de não conseguir capturá-lo adequadamente. A fotografia como extensão da incapacidade cerebral de manter-nos ao presente, a fotografia (Sontag, de novo) como criação de um mundo em duplicata, de uma realidade de segundo grau. Uma busca dramática para interceptar a velocidade da luz.

No cenário vertiginoso de um agora ausente, tirar a câmera da mochila e apontá-la outra vez para o que já foi. Eis a sina de quem se apaixona por fantasmas. 

— P. R. Cunha


Processed with RNI Films. Preset 'Agfa Optima 200 Faded'

Metaimagem, constrangimento: câmera apontada para outra.

Realidade paralela

Um coveiro de Niterói que durante mais de quarenta anos enterrou os mortos da cidade e era conhecido por toda a gente como «Raimundo, aquele que enterra os nossos mortos» faleceu de forma súbita na noite passada enquanto lia, segundo testemunhas, o romance Paraquedas – um ensaio filosófico de P. R. Cunha. Certo colega de profissão, que fora escalado pelo cemitério para preparar a cova do notável coveiro apreciador de literaturas, dissera aos repórteres que poucas vezes sentiu-se tão perturbado: amanhã, este coveiro enterrará um amigo coveiro, dor terrível. Autoridades locais investigam o caso e não descartam a possibilidade de proibir as vendas do supracitado romance até que os detalhes sejam devidamente esclarecidos. Raimundo deixa uma viúva inconsolável e duas filhas.

— P. R. Cunha