Outra viagem à volta do meu escritório

Alguns amigos que costumam me visitar ao escritório já sabem que quando a minha escrivaninha está entulhada de livros, e papéis, e canetas, e lápis, e pequenos cartões repletos de hieróglifos é porque estou metido em alguma coisa, como se diz, de fôlego. A sala está serena, as prateleiras mostram-se impecáveis, as obras devidamente ordenadas, mas a escrivaninha, meu verdadeiro sítio de trabalho, parece ter sido revirada por um furacão categoria 4. Isto costuma deixá-los confusos, um bocadinho irrequietos.

Acontece que a bagunça é ilusória. Ou melhor: para os olhos deles, sim, a mesa está realmente um caos. No entanto, é o método que meu cérebro criou para se organizar. A neurociência tem nos mostrado com detalhes que nossos neurônios não são lineares; lidam com possibilidades, cortam caminhos, prolongam outros. Assemelham-se mais a um tronco de árvore do que a uma longa e reta highway norteamericana. 

A escrivaninha torna-se, portanto, o reflexo do modus operandi de quem a utiliza. Por isso que muitos dirão que uma das tarefas mais importantes do escritor é achar um espaço fixo, adequado às repetições diárias, em que será possível habitá-lo com ideias, possibilidades, recomeçar a empreitada de onde parou.

José Luis Gutierrez é um colega mexicano. Ele diz que não consegue escrever. Ou que antes conseguia, mas hoje não dá conta, aposentou-se. Gutierrez utilizava o próprio computador para criar narrativas. Ao sentar-se, movia rapidamente o cursor do rato para um vídeo no YouTube, depois, numa nova aba do browser, tentava responder aos emails, abria outras abas para monitorar Twitter, Facebook, Instagram, e enquanto se desdobrava para não ter um aneurisma, precisava ainda de lidar com as mensagens que a noiva lhe mandava pelo telemóvel. Não me admira o facto de ele não conseguir escrever nada depois desses constantes bloqueios mentais.

As vias do pensamento humano podem não ser lineares, mas isso está longe de significar que o cérebro esteja adaptado às multitarefas. Cientistas de universidades britânicas demonstraram que dedicar-se a mais de uma função ao mesmo tempo diminui a produtividade em ao menos 60%. É como se o sistema cerebral preferisse trabalhar com temas isolados, para só depois expandi-los, mesclá-los, remodelá-los.

O escritório, ter um sítio para onde ir, um sítio onde se pode montar o próprio ambiente, de acordo com as próprias particularidades torna-se ainda mais essencial quando o escritor precisa de lidar com essas distrações modernas. Comentei com o Gutierrez a respeito desses pormenores e acrescentei ainda que quando começo a escrever quase nunca utilizo o computador. Acho que se uma tempestade geomagnética afetasse as infraestruturas atuais — e nos levasse de volta à Idade Média em termos tecnológicos — eu conseguiria me virar sem grandes conflitos*. Caderninho de anotações e a boa e velha caneta é tudo de que o escritor realmente precisa quando se depara com ideias interessantes. Só depois, com a estrutura do texto devidamente elaborada, sento-me ao computador para transcrever. 

À laia de desfecho, talvez fosse a altura de fazer-vos uma branda confissão: aprendi a escrever ficção utilizando uma velha Olivetti Lettera 22 que pertencera ao meu avô materno e cujo barulho infernal levava-me para outras dimensões (possivelmente a um daqueles vales cósmicos sobre os quais a física quântica tanto comenta). De forma que instalei um software chamado Noisy Typer que simula o som das máquinas de escrever quando digito as teclas do meu computador. É assustadoramente eficaz.

Aprendi também a não sentir vergonha dessas minhas peculiaridades: escrever é o trabalho mais importante da minha vida, ao passo que fiz, faço, e ainda farei de tudo para aperfeiçoá-lo. Antes de sentar-me para criar, tomo o café como se fosse um imperador asteca, mantenho as minhas rotinas, desligo o telemóvel, desconecto o computador da Internet, concentro-me numa única tarefa, cultivo escrivaninha estranha, do meu jeito, com as minhas bagunças metodicamente arrumadas. 

Não é sempre uma travessia elegante, pois não, mas é bem agradável quando funciona.

— P. R. Cunha


*Alas!, este blogue, no entanto, deixaria de existir.

Forças Armadas

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Poeta escondido escrevia sinceros poemas sobre todas as coisas. Sentia-se à vontade para enaltecer o mar, o padrão amarelo e preto de uma abelha ligeiramente zangada, ou perceber o despretensioso movimento das asas da cotovia matinal. Mas um dia comentaram por alto que o comandante das Forças Armadas estava obcecado pela poesia de Poeta — o que, naturalmente, restringiu sobremaneira a sua capacidade de escrever poemas.

— P. R. Cunha

Projeto promissor

Um dramaturgo de Niterói, cansado de assistir aos mesmos espetáculos, decidira montar uma peça inovadora, com diálogos e cenários que fugiam dos chamados clichés de sempre. Ao escolher o elenco, o dramaturgo de Niterói fazia com que os atores assinassem um termo de responsabilidade para se ter a certeza de que todos iriam comprometer-se com afinco ao projeto. Não é necessário listar cada um dos pormenores do termo, mas talvez fosse interessante notar que o décimo e último artigo do documento basicamente isentava o dramaturgo de Niterói de qualquer culpa caso a vida dos atores de alguma forma corresse perigo durante os ensaios. Acontecia que antes de os atores lerem os respetivos textos um assistente de palco amarrava ao pescoço das personagens uma corda cuja extremidade era acoplada a um complexo mecanismo que apertava ou afrouxava o laço de acordo com os caprichos do próprio dramaturgo de Niterói. Se por um acaso ele achasse que os atores não estavam a se esforçar ao máximo, se por um acaso o dramaturgo de Niterói achasse que os atores estavam a fazer, como se diz, corpo mole, ele então acionava de forma gradual o mecanismo para apertar o laço. Por se tratar de um artista muito meticuloso com a própria obra, dir-se-ia obcecado e exigente com a própria obra, o dramaturgo de Niterói não demonstrava qualquer tipo de tolerância com os atores, apertando o laço sempre que lhe desse na gana. Como o palco durante as semanas de ensaios transformara-se em uma verdadeira vala de corpos asfixiados, os polícias tiveram de intervir e finalmente cancelaram o, de acordo com a imprensa local, «muito promissor» projeto do dramaturgo de Niterói — que hoje vive em Camboinhas, a poucos metros da Praia do Sossego.

— P. R. Cunha

O tipo que escreve e o tipo que trabalha com aceleradores de partículas: afinidades

Para o Rodrigo dMart

Acho curioso que alguns familiares ainda se surpreendam quando descobrem que escrevo ficção — mesmo depois de oito anos dedicando-me (quase a tempo inteiro) às fazendas literárias. Arregalam os olhos como se de súbito eu me transformasse num alienígena inescrupuloso com ambições apocalípticas. Via de regra, preciso de adotar posturas complacentes (i.e. discreto balançar de cabeça, utilizar termos vagos tais como: sim, sim, compreendo; pois não; percebo; sei bem como é; posso imaginar etcétera) enquanto comentam que toda a gente que conheceram e que porventura mexia com esse troço literário morrera cedo demais — ou suicídio, ou abuso de drogas (alcoolismo, primordialmente), ou solidão —, e que não conseguem imaginar por que cargas de água alguém com bons discernimentos haveria de se dedicar a tarefas (e aqui transcrevo ipsis verbis) «tão absurdas, destrutivas, que não levam a nada», por quê?

À primeira vista, o CERN (anacrônimo de Conseil Européenne pour la Recherche Nucléaire) aparenta ser apenas um gigantesco e entediante túnel circular onde partículas estranhas colidem umas com as outras, sem propósito. Pelo menos é essa a imagem que muitos críticos utilizam quando questionam os apoios financeiros ao maior laboratório de física de partículas do mundo. Um bando de nerds a brincar de videojogo nas profundezas da fronteira Franco-Suíça, gastando dinheiro público com experiências cujo teor nem os próprios humanos que ali trabalham conseguem decifrar. 

Acontece que a ciência de partículas não é uma trilha com caminhos pré-determinados, estáticos. Um experimento leva a outros experimentos por vezes imprevisíveis, uma descoberta leva a novas descobertas. De forma que, ao tentar compreender a intricada origem do universo, os cientistas do CERN estão a desenvolver também incontáveis tecnologias que serão utilizadas em áreas como a computação e a medicina. A World Wide Web, à guisa de exemplo, foi lá inventada; além de diversos dispositivos utilizados para diagnosticar doenças, aperfeiçoamento da implementação do magnetismo, desenvolvimento de técnicas para se praticar engenharias… e não só.

Guardadas as devidas proporções, fazer literatura é como trabalhar no CERN. Lidamos com imprevisibilidades, desafios, com resultados fascinantes capazes de gerar incríveis efeitos colaterais. Tentamos descobrir como as coisas difíceis operam, como responder perguntas intricadas — somos desbravadores. Sim, é verdade, muitos morrem ao meio do caminho, ou perdem os botões, ou terminam sozinhos na cave de um sanatório. Mas os riscos valem a pena quando o que produzimos mostra-se capaz de mudar a vida de tantas pessoas. E é por isso que nos entregamos a tarefas tão absurdas, destrutivas, que (só parecem) não levar a nada.

— P. R. Cunha

Caderno de viagem: Évora entre ossos e feridos

Grosso-modo, estás a viver uma vida boazinha, és feliz, e as coisas amiúde correm-te apropriadamente. Até que chega a morte, a perda, um desastre e não te mostras de forma alguma preparado para o que vem a seguir.

A velha dicotomia de sempre: vida & morte, deusas imprevisíveis que lutam entre si, mas também, ao fim e ao cabo, dependem uma da outra.

Estás em conflito contigo mesmo porque passaras a tua existência em casulos hermeticamente fechados, protegido do mundo, sem lidar com a possibilidade, como se costuma dizer algures, da finitude. Nessa tua morada, ninguém morria, ninguém morreria. Era tudo calmo, era tudo certo.

(O viajante que acaba invariavelmente por utilizar elementos da própria biografia em seus relatos de viagem.)

A bandeira de Évora.

A bandeira de Évora é qualquer coisa curiosa. De longe, a trepidar ao sabor do vento alentejano, parece uma bandeira como tantas outras, com formas triangulares amarelas e vermelhas a preencher a superfície do pano. Mas se chegares perto, perceberás um brasão assustador adornado com motivos medievais. Dentro do escudo dourado, certo cavaleiro com armadura metálica ergue espada ensanguentada — é Geraldo Geraldes, o Geraldo sem Pavor, galopando um saudável cavalo negro.

Triunfante, o animal salta a cabeça de duas vítimas decapitadas, e daí compreendes a origem do sangue que escorre pela espada do supracitado cavaleiro: vem dum homem e duma mulher; mouros. A faixa branca a contornar o escudo que diz MUI NOBRE E SEMPRE LEAL CIDADE DE ÉVORA parece querer justificar o assassínio cometido por Geraldo Geraldes.

Esta bandeira causa-te um inverno na espinha.

Dada a tua tendência natural para o inconcebível, decides agora visitar a Igreja de São Francisco, cujos limites, contaram-te, abrigam convento, museu, coleções diversas (presépios Canha da Silva), órgão setecentista, sala régia, sala dos castros, etc., além da Capela dos Ossos — construída no século XVII com o «propósito de provocar pela imagem a reflexão sobre a transitoriedade da vida humana».

O céu matutino, azul e completamente sem nuvens de Évora contrastava com o vento glaciar que cortava-te a alma. Sentes aquela estranha sensação de estares a ser observado por algo ou alguém.

À entrada da Capela dos Ossos, com duas colunas ao estilo romano, podes ler a famosa inscrição:

NÓS OSSOS QUE AQUI ESTAMOS PELOS VOSSOS ESPERAMOS 

De início, ficas perturbado com a visão das paredes interiores — repletas de crânios, de toda a sorte de ossos humanos. Ossos que não estavam ali para brincar, isso era certinho. Mas, tal e qual ocorre com o noticiário moderno (quanto mais atrocidades alguém lê, menos escandalizado fica), a capela macabra aos poucos torna-se um bocadinho mais aprazível até que finalmente chega a altura de poder colocar o visitante no seu devido posto.

Aqueles restos de pessoas que um dia foram não te deixam esquecer de que tu também irás, cedo ou tarde, ter aquele mesmíssimo fim: transformar-te-á num mero amontoado de osteócitos, osteoblastos e osteoclastos. Serás também caveira, esqueleto.

Poema sobre a existência
(Este soneto do Padre António da Ascensão Teles pode ser lido no interior da capela.)

Aonde vais, caminhante, acelerado? 
Pára…não prossigas mais avante; 
Negócio, não tens mais importante, 
Do que este, à tua vista apresentado. 
Recorda quantos desta vida tem passado, 
Reflecte em que terás fim semelhante, 
Que para meditar causa é bastante 
Terem todos mais nisto parado. 
Pondera, que influído d’essa sorte, 
Entre negociações do mundo tantas, 
Tão pouco consideras na morte; 
Porém, se os olhos aqui levantas, 
Pára…porque em negócio deste porte, 
Quanto mais tu parares, mais adiantas.

(…)

Ouviste dizer que algumas pessoas não se aguentam nem cinco minutinhos dentro da Capela dos Ossos; não dão conta de olhar para aquele espelho cadavérico. Fogem. Mas aquela decoração esquelética causara-te outra coisa. Tens, mais do que jamais tiveras, a certeza de que o derradeiro suspiro chegará, e queres aproveitar o interlúdio da melhor maneira possível.

Refletes também a respeito dos donos daqueles ossos, se um dia teriam imaginado que um escritor brasileiro nos seus trintas, a levar uma vida algo dissipada, escreveria sobre aquela estranha morada, quatro século mais tarde.

Ficas ali dentro, em absoluto silêncio, a observar os rostos sem pele até serem horas de ir para outros sítios da Igreja de São Francisco, porque nesta vida não se pode atrasar. Poderás dormir imenso quando morreres.

Segues para a frente.

Estás em Évora, afinal.

— P. R. Cunha


O livro Paraquedas – um ensaio filosófico do P. R. Cunha já se encontra disponível à lojinha do sítio web. Para mais informações, aperta aqui.

Já se pode adquirir o livro «Paraquedas – um ensaio filosófico» à lojinha do sítio web do P. R. Cunha

Dizem que o livro que escrevemos é uma criança, um bebê. E como todos os miúdos, o nosso livrinho precisa também de cuidados muito tempo depois de chorar as primeiras lágrimas amargas neste mundo complexo, terrível e valioso.

Meu Paraquedas demorou quase dois anos para abrir, outro ano para ser premiado/revisado/editado/lançado pela Universidade de Aveiro e agora, ao que parece, chegara o momento cujo desfecho aflige qualquer pai com inclinações protecionistas. Chegara o momento de dizer adeus, de dizer: vai, criatura, vai e senta-te noutras prateleiras, vai contar a tua história para outros olhos, não me faltarão saudades da vida que levávamos juntos; sê feliz, menino, pai te ama.

Porque, ao fim e ao cabo, a criança não cabe mais no berço.

— P. R. Cunha


É possível visitar a lojinha e ler mais detalhes a respeito de Paraquedas – um ensaio filosófico (aperta aqui). Fica aberta 24h, de domingo a domingo.