devaneios da própria máquina de escrever (episódio #12)

arrumar a escrivaninha para um novo trabalho, nova empreitada, quantas portas serão abertas, escancaradas, outra vida. 

(& era como se minha cabeça estivesse hibernando, até que, de repente: booooom!)

vamos supor que francisco & samir sejam amigos, conheceram-se em criança, na escola. vamos supor também que eles não se encontram há décadas, vinte anos talvez. sabemos que vivem na mesma cidade; francisco é advogado, mora perto da praia; samir é arquiteto, mora ao cimo da serra. ambos estão naquela fase a que chamamos — não sem um comedimento desconfortável — de meia idade. aconteceu de franciso ser contratado para defender o caso de um empresário que, assim como samir, possui residência ao cimo da serra. francisco raramente sobe a serra, não lhe apetece o clima frio das montanhas, de forma que decidira aproveitar-se da ocasião & convidar o longevo amigo para, como se diz, colocar a conversa em dia. samir mostrara-se de facto muito surpreso com a ligação de francisco: eu realmente não esperava, ele disse, & antes de se despedirem ao telefone, combinaram hora (às 15h) & local do encontro (cafeteria da serra). vamos supor que francisco tenha aparecido, vamos supor ainda uma última vez que francisco tenha esperado cerca de duas horas pelo amigo arquiteto — mas samir nunca apareceu.

— p. r. cunha

Sistemas de irrigação

A tímida lua de uma noite de outubro que se esconde atrás das nuvens como se tentasse cobrir as cicatrizes da própria superfície que, assim explica a astronomia, fôra bombardeada por toda a sorte de pedras espaciais.

Do lado de fora da casa dos Mendes, o sistema de irrigação automático entra em funcionamento e aos poucos começa a deixar a relva noturna com um aspecto brilhante e vistoso que Ruy Sereno, vizinho, tanto admira.

Ruy Sereno está a segurar a chávena perto da janela, admirando aquele feito da engenharia de jardinagem. A esposa se ajeita sob o cobertor de lã comprado durante a última visita do casal aos Andes chilenos: o que está fazendo, Ruy? — ela pergunta —, sai dessa janela, parece louco. O vapor do chá embaça os óculos fundo de garrafa do Ruy, que responde: são os Mendes de novo, com aquela magnífica chuva artificial.

O jato de água completa uma volta: 360º de relva molhada. Quando o jato se aproxima da casa dos Mendes, respinga na janela do quarto dos pequenos irmãos Bento e Adriano. Os dois estão sentados no tapete. Bento chora enquanto Adriano tenta consolá-lo. Escutam um barulho. Surge homem com máscara de oxigênio que segura-os pelo braço.

Bento e Adriano tateiam o corredor escuro. O homem com máscara de oxigênio puxa-os com mais força. Bento engole o choro. Quando chegam à porta indicada pelo mascarado, percebem que o sr. e a sra. Mendes também estão ali. Eles se abraçam. O mascarado abre a porta e de lá brilha um clarão estranho. Escutam-se vozes abafadas, gritos talvez, até que a porta se fecha novamente.

A família Mendes permanece unida na escuridão do corredor. Todos esperavam alguma coisa, todos queriam saber, e no entanto, temendo talvez a resposta, ninguém ousava perguntar.

— P. R. Cunha

Cem jardas para o livro

Por questões justificáveis, a escrita costuma ser associada ao academicismo — ou pelo menos à erudição. Talvez porque o «colocar ideias num determinado contexto» seja, amiúde, a continuidade de uma jornada cuja travessia mostrara-se repleta de leituras. E o erudito (eis a lógica duvidosa) lê mesmo um bocado.

Distorções parecidas parecem também assombrar esta outra atividade considerada por muita gente como um jogo intelectual: o xadrez. Ainda no panorama acadêmico, poucas reações costumam ser mais cômicas do que a do professor que precisa de confessar que não sabe jogá-lo. Consideram o xadrez um desafio ao cérebro; de forma que manusear as peças sobre o tabuleiro seria uma constatação da própria inteligência, amostra de sagacidade.

Curiosa insegurança.

Quando perguntaram para o Grande Mestre Bobby Fischer — provavelmente o maior de todos os tempos — o que achava dessa glorificação intelectual do xadrez, ele respondera com a frieza da praxe: é apenas uma superfície lisa com casinhas quadriculadas, só isso. Boris Spassky, ao que parece, pensa da mesma forma.

Não surpreende, portanto, que muitos ainda se sintam deveras incomodados quando essas práticas santificadas são deslocadas do pedestal para alturas mais, digamos, mundanas.

Há uma mesa cheia de docentes universitários. Estou sentado para a ponta direita, visivelmente desconfortável (spoiler alert: não sou docente universitário). Um dos professores me pede para discorrer a respeito do meu processo de escrita. Eu me arrumo na cadeira, bebo um gole de café e explico:

«Futebol americano, NFL. O escritor em muitas ocasiões faz as vezes do quarterback, precisa de saber lançar a bola direitinho, sim, mas sem ser afobado. Se percebes a aproximação da defesa, guarda a bola, tem calma, espera. Quinze jardas para a frente, quatro jardas para trás, mais doze adiante. Se há buracos na linha adversária, ótimo!, não hesites em acionar o running back. Deixa-o correr. Corre, running back, tu dizes. A secundária agora se mostra povoada? Então joga a bola para o alto, vê se o tight end está em forma. O fim do livro depende disto, da quantidade de touchdowns que a tua equipe consegue emplacar. E estejas preparadinho para deixares o campo completamente arruinado, com toda a sorte de escoriações. Pode ser um jogo brutal…»

Pela fisionomia assustada do professor, deduzi que aquilo não era bem o que ele estava esperando. E quando, irrequieto, voltou-se rapidamente aos outros colegas para discutir «pormenores universitários», daí tive a certeza de que não era mesmo o que ele estava esperando.

— P. R. Cunha


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 Quarterback é atacado pela defesa adversária: tal escritor a escrever livros. (Imagem: NFL Archives)

Castelo em ruínas mostra-se inapto para receber a velha rainha

Chamam-na Dolores. O cérebro de Dolores está cheio. Cheio de imagens, de publicidade inútil, de filmes, de músicas, de barulhos, de discussões, de empréstimos, de obrigações, de tecnologias, cansaço, contas a pagar, um caso mal resolvido com o colega da firma, infiltração na casa de banho. O cérebro de Dolores está cheio e ela precisa de escrever romance. Ela se dá conta de que há muitas variáveis. Ela sabe que diante de tantas variáveis fica difícil escrever romance, simplesmente não há foco, e que a falta de foco é o verdadeiro motivo da própria falta de grandeza, e, poder-se-ia dizer ainda, falta de romance etc. Excesso de opções. Dolores costuma explicar meio que para si mesma que o cérebro é bem uma espécie de castelo. Então o castelo de Dolores está em ruínas. Um castelo que necessita de reparos se pretende receber a rainha, cuja alcunha a história do mundo reconhece como Literatura. Mas é sabido também que Dolores gosta de dançar, paixão que lhe apetece desde tenra infância, como se pode ver a seguir:

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Quando Dolores dança, Dolores consegue pôr um pouco de ordem em seus devaneios. E o romance, o livro prometido, até se mostra um bocadinho mais atingível.

— P. R. Cunha

Sátiras existenciais

Jorge G. Castañeda disse certa vez que o mundo é um estereótipo. Ou melhor, que a sociedade moderna amiúde é pautada por coleções de esteriótipos: os latinos preguiçosos (la siesta, samba, caipirinha), os britânicos pontuais (Big Ben, metropolitanos/comboios/autocarros que saem no horário previsto), os alemães perfeccionistas (rigor, controle de qualidade, indústria automotiva), os franceses metódicos (etiqueta, dandismo, perfumes). A lista é interminável.

E que tal este clássico e esclarecedor experimento psicológico? Dois indivíduos, um é médico, o outro é civil. Vestem o médico com roupa civil (t-shirt azul, jeans, sapatos confortáveis) e o civil com roupa de médico (jaleco branco, instrumento para auscultação do peito etc.). Dentro de uma sala colocam pessoas aleatórias que não fazem ideia do que está a acontecer. O médico vestido de civil entra e dá uma série de orientações científicas completamente corretas e verificáveis. Depois, ao mesmo grupo, o civil vestido de médico conta umas tantas baboseiras que nem sequer soam plausíveis. O inquietante resultado: as pessoas tendem a acreditar mais no civil fantasiado de médico do que no próprio médico.

Julgamento pré-conceitual, ou à falta de melhores termos: um jaleco alinhado vale mais do que mil receitas.

Ontem um colega com quem cursei a faculdade de jornalismo confessara-me em tom de bazófia que se surpreendeu sobremaneira quando descobriu que eu estava a praticar crossfit: «Não sabia que os intelectuais metiam-se nesses lances…» A frase deu-me cabo da cabeça. Por mais coisas estranhas que eu seja, intelectual definitivamente não é uma delas, tentei explicá-lo antes de perguntar, à guisa de pesquisa metodológica, em que lances, afinal, metem-se os intelectuais. Ao que o colega me responde: «Ora, clube do livro, seminários sobre literatura chinesa, associação dos apreciadores de James Joyce, coisas assim».

Estamos todos a perceber a ideia. Não pretendo me alongar mais do que o necessário. Gostava apenas de terminar com outra constatação padronizada. Os tipos que criticam quem pratica exercício físico são, regra geral, os mais «adiposos» (para dizê-lo com carinho), não têm qualquer instrução formal no assunto, e mesmo assim sentem-se muito à vontade para dar pitacos como: tanto quanto eu sei dizer, não estás fazendo os movimentos corretamente. E falam-no enquanto entornam uma latinha de cerveja duvidosa, coçam a barriguinha pelancuda, lambendo os restos de comida entre os dedos.

— P. R. Cunha

Este desejo louco de fazer haikus enquanto seguro um martelo

Casa vazia, relativo silêncio, atmosfera aprazível — aproveitar enquanto não vêm ruídos, humanos, livros guardados (por enquanto), uma folha de papel, lápis à moda antiga, o relógio da parede que não deixa esquecer que o tempo é um maratonista de longas distâncias.

1.
menino
à janela ——
chora a chuva

2.
leitura de um romance
o nada finlandês
autocarro atrasado

3.
arvores abatidas
perfume de benzina
(outro) inverno em Brasília

— P. R. Cunha

Valsas filosóficas

Escrevo isto com uma caneta Pentel Wow! 1.0 mm, BK440, verde.

Sempre quando sai de casa, algo ruim (estranho desconforto) acontece. Quando volta, porém, as coisas se estabelecem novamente, se acalmam — a velha imagem do retorno.

Haiku com aparência aleatória, ato mínimo de enunciação que diz: escrevo hoje, agora, escrevo aqui, presente.

luz de mesa
folha de ideias
dúvida no coração

O processo é este: átomo —> matéria, do mínimo, do fragmentado (é Barthes) ao contínuo.

Uma barata quando se desespera começa a balançar as patas para todas as direções: uma forma de desespero.

Wittgenstein e Heidegger (mas também Cassirer & Jaspers [de forma branda, à moda «não queremos bater no peito pateticamente para ofender o outro»]) disseram que filosofar é estar a dois passos do desfiladeiro. Aponto, então, as atenções do meu observatório para o mais vertiginoso de todos os precipícios: o vale da minha consciência, dos meus pensamentos — que raras vezes me dão sossego, que me despertam tarde da noite e me colocam a escrever tudo o que se passa quando a força reflexiva destrói os diques que procuram proteger, sem lograr êxito, a tranquilidade do meu cérebro.

Filosofar: olhar ao redor, tentar compreender o absurdo de existir. Não é necessário recriar as correntes da praxe. Pode-se utilizar (adaptar[?]) o vasto banco de dados. Neste caso, especificamente: dançar a valsa fúnebre do século vinte, com todos os tons contraditórios, ora otimistas, ora a cantar barbáries.

De forma que estas hipóteses que vos apresento agora são tão minhas como de qualquer outro que porventura tenha chegado às mesmas conclusões; ou mesmo que tenha se aproximado delas, porém com outras terminologias. Estas coisas acontecem.

Por que cargas d’água eu existo? Começo com esta clássica pergunta.

Exemplo de realidade (nada muito aprofundado, como se verá): marco um encontro com Alguém, este Alguém comparece ao encontro — corroborando a ideia de que nós dois havíamos nos comunicado (por telemóvel, digamos), marcado o encontro (num determinado espaço, num determinado tempo). Ambos estamos ali, ao passo que a nossa conversa (marcação do encontro) só pode ter acontecido (naquilo a que chamamos de «realidade»), do contrário, não estaríamos ali.

A pergunta que se segue: se um de nós dois (eu ou Alguém) deixasse de existir, o que aconteceria?

Enquanto eu existo, tudo existe. Se eu deixo de existir, tudo também deixa de existir. Pois a realidade (como eu a vejo) é mediada pela minha consciência de existir. Eu-vejo, eu-sinto, eu-represento etc. etc.

Suponhamos que o Alguém deixasse de existir — morresse, portanto. Havíamos, como se sabe, marcado um encontro. Eu compareço ao encontro (eu-existo), o Alguém não. Alguém está morto. O encontro continua a valer, porque eu ainda estou aqui. Alguém não vai.

Se Alguém deixa de existir, eu, no entanto, continuo a existir. O outro (grosseiramente falando) não é fundamental para a minha realidade/existência, apenas modifica (posso ficar triste quando Alguém morrer, mas isto não altera o facto de eu-estar-vivo-agora).

Vejamos, entretanto, o que aconteceria se eu morresse. Se eu morro, a luz se apaga (eis aqui uma tosca justificativa ao haiku introdutório). Se eu morro, não há encontro. Pois a mediação da minha consciência foi desligada. Alguém pode até aparecer — mas eu-não-estou-lá. O mediador foi-se embora.

Repito à guisa de reforço: eu existo, tudo existe. Minha consciência morre/cessa, nada mais existe. Nem mesmo o universo em expansão, as estrelas, a Bulgária, a costureira que mora no apartamento 502. Isto vale mesmo para qualquer indivíduo que se meta em filosofias (i.e. apuros) desta natureza.

— P. R. Cunha