Encontro com a sombra

Para a LPD

A duras penas Samara e Bianca abriram caminho entre as dezenas de funcionários barulhentos que estavam parados à porta do escritório do sr. Toledo. Antes de entrar, elas se viraram rapidamente para aqueles rostos angustiados que aguardavam resposta.

O escritório mostrava-se escuro. A pouca luz do crepúsculo que conseguia ultrapassar as brechas das cortinas de quatro janelas altas iluminava morosamente o piso de granito que em melhores tempos fora motivo de orgulho para aquela multinacional em ruínas. Samara fechou a porta atrás de si e as vozes desconexas foram de súbito abafadas pelo sistema de vedação. Ela respirou fundo e disse friamente: «Certo, Toledo, qual foi a decisão que você tomou?»

O sr. Toledo estava sentado numa dessas cadeiras giratórias que costumamos encontrar na sala dos presidentes de grandes empresas. Mantinha a cabeça baixa como uma criança que aprontara alguma; olhos pequenos, úmidos e retorcidos debaixo das peludas sobrancelhas. Mexia constantemente nos cabelos grisalhos, parecia querer aquecer a caixa craniana para que a substância esponjosa ali dentro funcionasse de uma vez por todas.

Bianca aproximou-se do sr. Toledo: «Você precisa tomar uma decisão, papai…»

Ouviram duas batidas na porta.

— P. R. Cunha

Dama inacessível por quem nutre sentimentos ambivalentes e o trapézio de Kafka

Escrevo
raivoso
amargo.

Você é um cara bom, ela disse, um escritor interessante, leu lá uns autores austríacos obscuros, ela disse, tem estilo, sem dúvida que tem estilo, ela disse, escreve profissionalmente, se eu coloco as coisas que você escreve ao lado das coisas que um escritor profissional escreve, não se nota a diferença, de forma alguma, ela disse, quem é quem, ambos profissionais, ela disse e acendeu um cigarro. Você me ama?, perguntei. Não, ela disse.

» O trapézio de Kafka

Kafka gostava de comparar o próprio ofício de escritor com as manobras arriscadas dos artistas circenses. Tu estás numa corda bamba, és um equilibrista, deslocas de modo instável. Ponto A (saída) até ao ponto B (chegada). O escritor tenta manter-se reto, segura apenas uma cadernetinha, talvez um lápis. Tem, portanto, muito menos que o trapezista do teatro de variedades — e para este ainda esticam uma rede por baixo.

— P. R. Cunha


Trapezistas

Sob o título de «O enxadrista extravagante»

A verdade é que precisamos estar um bocadinho insatisfeitos para escrever, sabes? Se não estamos um bocadinho insatisfeitos, um bocadinho furiosos, de aí que escrever não faz muito sentido: largas este trabalho antes que ele dê cabo de ti.

(Dum livro a sair.)


Um jogador de xadrez de Copacabana suicidou-se pelo simples fato de ter perdido cinquenta partidas. Consta-se que dizia repetidas vezes: — No dia em que perder a quinquagésima partida enforco-me.

Certa vez, chegou-se ao porteiro do prédio em que morava e disse-lhe:

— Senhor porteiro, não vivo nove dias.
— Ora!, que ideia, tens saúde, vais viver ainda um monte.
— Para a quinquagésima derrota, faltam apenas duas. Em lá chegando, enforco-me.

E, como lá chegasse, — enforcou-se. Quem descobriu o cadáver do infeliz jogador foi o próprio porteiro. Ao ver o maníaco pendurado n’um candelabro, fez-se pálido como uma estátua de mármore de Itália e deitou a correr pelo prédio gritando:

— Ai!, que desgraça!, perdeu a quinquagésima partida.

Ao funeral do enxadrista muitos moradores notáveis de Copacabana, inclusive dois famosos diplomatas, se lhe referiram com palavras de justo louvor.

— P. R. Cunha

Domingo azul — à noite, obscura, é a Lua que decide aquilo que tu podes ver

A mesma cabeça
paralisia/movimento
juventude/velhice
dissolução/composição
fadiga/sossego
liberdade/servidão
peso
leveza
é a mesma cabeça.

— P. R. Cunha

Tudo isto é como uma zombaria sobre o sentido e o fim da própria existência

Heinrich von Kleist cometera o suicídio em 11 de outubro de 1811 — 174 anos e três dias depois, minha mamã foi levada ao hospital porque sentira fortes dores, contrações, e meu papá bem sabia que dali a pouco chegar-se-ia ao mundo um novo varão, fruto de vossas obras. Nasci a 14 de outubro de 1985, Dia de Pokrov, durante o qual os russos celebram a passagem do outono para o inverno; a primeira neve. O pequeno bebê de papá & mamã não sabia, mas algures lhe aguardava uma vida complexa, controversa, polêmica, assombrosa, estranha, desprezível, por vezes agradável. Numa palavra: como costuma ocorrer aos bebês, esse bebê de papá & mamã não sabia de nada. Logo mais, com trinta e dois anos, ainda sem saber lá de muita coisa, o bebê-adulto dirá que escreve livros de literatura, relatos autobiográficos, autoficção, tipo-pós-romance-Foster-Wallace-com–Hubert-Sally. Sacrificará a veracidade dos fatos à imagem que porventura (perhaps, em inglês) pretenda criar, escreverá um pequeno trecho com uma absurda associação suicídio-Von-Kleist/próprio-nascimento: cento e setenta & quatro anos e 3 (três) dias depois. Nem todos os dados serão de absoluta confiança.

— P. R. Cunha

Vossa sombra vos seguirá como uma sombra (poema [?] de dois mil e nove)

O ansioso será ansioso
o colapso total do homem
será o colapso
total do homem

Certa fama de exaltado
ou desequilibrado
olhos inesquecíveis
——— como diria uma antiga

«A poesia não é
um jogo
de críquete»
pois não

Em que esfera
do viver poderia
este poema
[realizar-se]

Ao que parece não faz ideia
mas é sabido
obtém licença poética
com propósitos assassinos.

— P. R. Cunha

Pautas ao contrário do que estava igualmente previsto

Faça um balanço para tentar perceber o que correu mal e bem no processo. Causas iniciais: pragas geradas pela bioengenharia, fendas para outras dimensões (não me arriscar ao sci-fi, não sei escrever sci-fi sem soar 1] pedante; 2] estúpido; 3] piegas 4] etc.), experiências nucleares dão errado, outras experiências químicas realizadas inadequadamente. Ameaças: chuva ácida, terremotos, baratas contagiosas, lobos gigantes, piscinas de ácido, falta de recursos. Sobreviventes: 19.6% da população.

— P. R. Cunha