Pautas ao contrário do que estava igualmente previsto

Faça um balanço para tentar perceber o que correu mal e bem no processo. Causas iniciais: pragas geradas pela bioengenharia, fendas para outras dimensões (não me arriscar ao sci-fi, não sei escrever sci-fi sem soar 1] pedante; 2] estúpido; 3] piegas 4] etc.), experiências nucleares dão errado, outras experiências químicas realizadas inadequadamente. Ameaças: chuva ácida, terremotos, baratas contagiosas, lobos gigantes, piscinas de ácido, falta de recursos. Sobreviventes: 19.6% da população.

— P. R. Cunha

O amante (esboço de cena)

Sala de estar dos Medeiros. Ela — sentadano sofá aler revista de arquitetura. Ele — a preparar uísquepara um trago vespertino.

SRA. MEDEIROS
Belas casas, jardins, pomares, terraços,
automóveis importados na garagem,
gabinetes com muitos livros,
como lê, essa gente, céus!

SR. MEDEIROS
Ele há de ser reputado
como um gracioso
lorde, ou mecenas,
homem afortunado.

SRA. MEDEIROS
Do que fala?
Toma um trago e
perde lá as estribeiras.

SR. MEDEIROS
Do amante.

SRA. MEDEIROS
Amante?

SR. MEDEIROS
Do seu, é claro.
Virtuoso, honesto.
Veleja?

SRA. MEDEIROS
Enlouqueceu?

SR. MEDEIROS
Fica a ler arquitetura,
mas, a sério, pensa nele,
não pensa?

SRA. MEDEIROS
Em quem?

SR. MEDEIROS
Não se faça de tola,
pode ser?

SRA. MEDEIROS
Não tenho amante
nenhum.

SR. MEDEIROS
Dupla negação.

SRA. MEDEIROS
Como é?

SR. MEDEIROS
Não, nenhum
dupla negação.
Então que há alguém
é que há.
(entorna o copo num só gole,
levanta-se para preparar
outro
)

SRA. MEDEIROS
Bem que a
minha mãe falou.

SR. MEDEIROS
E o que falara,
a mãezinha?

SRA. MEDEIROS
Não se meta
com os escritores,
loucos, todos,
doidos.

SR. MEDEIROS
Bem, vejamos.
Eu cá
(coloca cubos de
gelo no copo
)
Eu cá tenho inclinações
a vilanias, certo
endoidei.
Fico a beber. Fico a escrever.
Depois bebo outra vez.
Escrevo outra vez.
E o amante?
Veleja?

SRA. MEDEIROS
Sim, veleja.

— P. R. Cunha

Fortunato (excerto [2015])

PRIMEIRA CENA

Sete e quinze da manhã.
Pousada.
Fortunato entra pela direita. Está a segurar 
maleta marrom à moda antiga. O recepcionista fica a observá-lo. Fortunato ergue a mão para cumprimentá-lo.

FORTUNATO
Fortunato.

RECEPCIONISTA
Pois não.

FORTUNATO
Deixei meu automóvel em casa,
percebe? É a esposa.
Não está nada bem.
Vim de Uber.

RECEPCINISTA
Compreendo.

FORTUNATO
As coisas
não estão fáceis.
E se precisamos viajar,
uma viagem realmente
imprescindível, como se diz.
Preciso viajar, eu digo.
E fica para casa a esposa.
E se a esposa anda enferma.
Daí a viagem perde um pouco
o sentido.
E toda a gente lhe pergunta:
Mas vai viajar e deixa ali
a esposa enferma, isso não se faz.
Definitivamente.
(Olha ao redor)

RECEPCIONISTA
Compreendo.

FORTUNATO
A televisão fica ligada
até as tantas ou o quê?
(Ele tira uma brochura do
bolso do paletó)
É que não posso com as
televisões
elas me atrapalham
um bocado mesmo.
(Ele aponta para alguma
coisa específica na brochura)
Veja você mesmo: pousada para
repousos.
Pois, sim, cheguei de longe,
viagem imprescindível,
para descansar.
(O recepcionista chama o Oswaldo)

RECEPCIONISTA
Oswaldo, a TV.
(Oswaldo desliga a TV)

FORTUNATO
Assim está melhor.
(Inspira de forma dramática)
O ar do campo, percebe?

RECEPCIONISTA
Se o senhor diz.

FORTUNATO
Não venho pelo luxo.
Nada disso.
Forma alguma.
Não esbanjo.
Esposa doente.
Quero apenas descansar.
A esposa ficou.
Mas tenho o direito
de descansar, o senhor
não acha?

RECEPCIONISTA
Acho que temos todos lá o
direito de descansar, sr. Fortunato.

FORTUNATO
Um quarto simples, cama bem arrumada,
casa de banho, e é tudo.

RECEPCIONISTA
E quanto tempo pretende
cá ficar, sr. Fortunato?

FORTUNATO
Se a esposa bate as botas,
volto. Se não bate, fico mais um tanto.
Preciso descansar.

RECEPCIONISTA
Sete dias.

FORTUNATO
Justo.
(Recepcionista digita qualquer
coisa ao computador)
Eu costumava cá ficar
em criança.
(Gira a cabeça, um pouco
inconformado)
Está mudado.
Muito mudado.

RECEPCIONISTA
Sete dias.

FORTUNATO
Sete dias.

RECEPCIONISTA
Forma de pagamento?

— P. R. Cunha

Homem-máquina

Há um prédio de escritórios onde os robôs começam a substituir os humanos e está a correr bem. Menos para o Martins, um vendedor de seguros acima do peso que come muito e fora orientado a caminhar até o trabalho à guisa de melhor saúde. Mas como se viu demitido por um gerador de algoritmo que consegue prever os riscos de taquicardia com bastante precisão, o Martins engordara mais um bocado e dizem que só sai do pequeno apartamento para comprar a torta de amora que tanto aprecia.

— P. R. Cunha

António furioso

Às vezes acontece de eu acordar no meio da noite sem motivo aparente — abro os olhos, tento mexer os pés, não se movem, tento mexer as mãos, nada, a cabeça pesa trezentos quilos, o corpo imutável afunda nos vales do colchão, lembra um cadáver. Começo a suar, estou morrendo, acabou. Quando enfim me recupero dessa angústia terrível, ligo para o António e ele atende furioso: quem é? Sou eu, eu digo. Vai se foder, ele diz, são três horas da manhã. Tive aquele negócio de novo, eu tento me explicar, mas o António desliga. O Antônio desliga e provavelmente comenta com a esposa que não era nada, daí ele abraça a esposa e os dois voltam a dormir. Fácil. Mas eu não durmo, fico apavorado, vou até o computador que está em cima da escrivaninha e procuro no Google: acordar + não conseguir se mover + doença e a busca gera aproximadamente trezentos mil resultados sobre «paralisia do sono».

— P. R. Cunha

O trompetista

Um trompetista local, que segundo a opinião de diversas autoridades musicais era tido como muito talentoso, compôs no seu próprio trompete uma melodia para a pessoa que tanto amava. Antes de mostrar a ela — tratava-se naturalmente de uma surpresa —, o trompetista tocara a melodia para toda a gente do bairro e toda a gente do bairro foi unânime: sem dúvida, muito bonita a melodia, está de parabéns, etcétera. Quando, no entanto, ele finalmente mostrou a melodia à pessoa amada, ela, por sua vez, não achou bonita, achou feia: é uma melodia feia, foi portanto o que ela disse. Desde então, não se sabe do paradeiro desse talentoso trompetista.

— P. R. Cunha