As oscilações do coração de uma borboleta

Na selva vive uma Borboleta. Todos os dias ela passa horas ao espelho ajeitando cuidadosamente as asas. Enquanto tenta escolher as cores adequadas, a Borboleta repete consigo mesma: preciso de estar aprumada para achar o meu príncipe encantado etc. A Onça, que não mora longe, telefona à tardinha para saber se tudo bem com a Borboleta. Elas então conversam muito e numa altura a Onça sugere o seguinte: tu estás sempre ao espelho, saia um bocadinho, a selva é vasta. A Borboleta, um pouco fora de si, responde que não pode, impossível, precisa de arrumar as asas, ficar bonita para o caso de encontrar o príncipe encantado, nunca se sabe. Essa Borboleta, que deve dormir sozinha novamente esta noite, completará oitenta e seis anos depois de amanhã.*

— P. R. Cunha


*Tudo isto é inteiramente verdade.

Autoestrada

O automóvel está a trepidar como se tivesse a doença de Parkinson. É o pneu, ela diz. Ele segura o aro do volante com força. O pneu, ela repete. Ele para o carro no acostamento, aperta o botão do pisca-alerta. A estrada está vazia, é início de tarde, talvez 14h. Com as costas das mãos ele enxuga o suor que desliza sobre a testa. O pneu furou, tenho a certeza disso — ela diz. Ele abre a porta, sai e dá uns pontapés no pneu dianteiro esquerdo. Furou, ela diz, imóvel no banco do passageiro. Uma camioneta amarela passa em alta velocidade; ele limpa as mãos na bermuda e acompanha a camioneta até ela desaparecer no horizonte da estrada. O pneu furou mesmo, ela insiste e depois cospe um pouco de tabaco mascado com evidente desdém. Ele então começa a rir, uma risada ruidosa, uma risada de louco.

— P. R. Cunha

João Maria — Lisboa, Portugal

Estou sentado a uma mesa dentro da biblioteca do centro universitário em que fiz a faculdade de jornalismo. Escuto o ronronar distante do aparelho de ar condicionado, perco-me num labirinto de pensamentos que aos poucos tomam forma e me levam a conclusões sentimentais. Este ano Portugal já me dera um bocado de presentes. O maior desses regalos foi, sem dúvida, ter conhecido pessoas como o João Maria — poeta lisboeta cuja poesia faz-nos recordar d’aquele velho adágio: não se é poeta quando se quer e porque se quer, é-se poeta quando se merece a estranha visita do sonho-criador. Há poucos dias o Johnny dedicara um belíssimo relato autobiográfico a este tropical que vos escreve. Gostava de compartilhá-lo convosco, à laia de vaidade.

— P. R. Cunha


Quem me trata p’lo meu nome saberá que o meu forte não é a prosa. O meu pensamento é poético, versado, quase que se divide sozinho dentro de mim. A meio de ler a obra de Paulo Cunha, alguém que guardo como um fabuloso amigo, deparei-me muitas vezes com memórias de tons existencialistas e decididos. […]

Continua em Queda do dia em texto (para P. R. Cunha) — CALIATH

Por um sábado sem benzina no Brasil (voltar a escrever [quase] todos os dias)

Parque — ao som das gaivotas.

Podem estar à vontade, meus fidalgos. Um vosso humilde servidor com ar cortês e gentil, olhando pela janela, diz que cá neste electro-sítio há quanto se quer. Noutros termos: julgo-me feliz, senhoras & senhoras. O João Maurício Brás falara sem receio que quando um escritor se torna muito estudado — até que ponto devemos/podemos confundir vida-e-obra, ficção-e-realidade, o que-é-o-quê? — deixa com frequência de ser vivido. A análise, portanto, possui algo de esquartejamento e artificialismo. Se simplesmente escrevemos que determinado personagem encontra-se num café e leva a chávena aos lábios, poucos perguntariam se esse personagem seria ou não o próprio autor. Ato corriqueiro: ir ao café, tomar o café, etcétera. Mas daí acrescentamos que sentimentos de amor fazem com que o personagem leve a chávena aos lábios, ele está à espera de alguém, e, como se sabe, para um enamorado toda a demora é um sacrifício. N’um abrir e fechar de olhos, fantasia se transforma em biografia: ora!, quem o autor está a esperar?, que amor é esse que o aflige? Digo-vos que a viagem é de longe, e com boa fome tudo sabe bem. Mas os fidalgos muitas vezes se enganam. Acontece de a caneta-livre ser o maior tesouro que um romancista pode possuir, quando é rijo o braço e esforçado o coração. A tinta, porém, também falha. De forma que — não raro sem saber — observamos as linhas do escritor dançarem sobre o pedaço de papel a pedir perdão, se a mágoa e a vida o tornaram um bocadinho injusto. Ele não fez por mal.

— P. R. Cunha

O amor praticado por duas personagens que conversam entre si, discutem, brigam e depois ficam tranquilas

Por um fim de tarde de primavera, deambula com a Maria Júlia pela praia de Copacabana, contempla as ondas que Tom Jobim imortalizara, rodeia com um braço sentimental os ombros dela e diz: a paisagem do Rio de Janeiro é composta por praias, montanhas, calçadão, pedras portuguesas, Corcovado, trilhas, táxi amarelo, Maria Júlia, areia, céu, Lua — estrelas.

Se o escritor brasileiro não ganha prêmio, ele reclama. «Então tome um prêmio, escritor brasileiro.» Agora o escritor brasileiro, na sua insolência sempre voltada para o exagero opulento, diz que o prêmio paralisa, entorpece. Neve do prêmio, solidão do prêmio, as inúmeras possibilidades secretas do prêmio. Sentir-se culpado por ganhar o prêmio, e por aí vai.

«A biografia do escritor é tudo aquilo que, acoplado ao sufixo, revele a sua natureza de aglutinações sígnicas. Geografia e lexicografia, viagem e linguagem» — João Alexandre Barbosa, 1979.

É necessário escrever de uma vez, numa sentada, como se diz, antes que o cérebro atrofie. As pessoas podem/devem achar uma porção de coisa: não estou a crer que este ser humano ganhara prêmio no estrangeiro. Voltar à normalidade.

Mal du prix — mal do prêmio. Dor aguda, debilitante, febre temporária, pois não.

O que é que me entusiasmava… Estar entre o mar e o longe. Desde que o tempo estivesse razoável.

— P. R. Cunha

É uma premiação portuguesa, com certeza

Neste momento, estou a escrever isto na minha velha Precision PT-4000. É bem cedo e os primeiros raios de Sol atingem o teto e as paredes do meu quarto de juventude, como costumo chamá-lo. Tudo fica tão claro e embranquecido que tenho a impressão de que jogaram-me dentro de uma enorme embalagem de leite longa vida. Aqui consigo batucar minha Precision de maneira muito irritante durante horas. Às vezes a Rosa — que é a nossa talentosíssima cozinheira — bate à porta para averiguar se tudo bem. A gentileza com que ela pergunta se ainda sou uma pessoa que possui sanidade mental é particularmente tocante. Posso datilografar a Precision com força sem que desmantele; é realmente uma máquina de escrever muito boa.

//Parágrafo introdutório à guisa de distração. 

Com lágrimas nos olhos, enfim, anuncio aos amigos deste electro-sítio que sou o vencedor do VII Prémio Aldónio Gomes (2018), com a novela Paraquedas – um ensaio filosófico. A entrega será feita em cerimónia pública, em 15 de dezembro, dia do aniversário da Universidade de Aveiro. Esta notícia, sem dúvida, vai render-me boas alvíssaras.

O anúncio oficial pode ser lido aqui.

— P. R. Cunha

A arte e a maneira de abordar escritores que porventura escreveram livros ruins

Então você investiu dinheiros numa obra literária — chegou em casa, sentou-se à escrivaninha e começara a folhear o livro. Alas!, trata-se de uma narrativa horrorosa, ilegível. Você, naturalmente, está agora a se sentir um bocado lesado e diz para consigo mesmo: que assim não fica, preciso de reclamar com o autor, gângster, salafrário, bandido etc.

Mas como fazê-lo?

A verdade é que quando o escritor escreve algo ruim ele acaba descobrindo de um modo ou de outro. Percebe quando se dá mudança de atenção, descobre pelo jeito diferente que dele se afastam, por se evitar comentário, pelo rosto choroso da mamã que arranca os cabelos a pensar: e o gajo largara tudo para escrever e ainda me escreve isso —, ou mesmo pelo modo indiferente da suposta pessoa amada que não consegue esconder ojeriza.

Noutros termos, quer se diga claramente ao escritor ou não, ele tomará conhecimento de alguma forma. Ao passo que saber compartilhar uma crítica com um literato (i.e.: o senhor vai me desculpar, mas o seu livro é terrível, odiei-o) é sem dúvida uma verdadeira arte.

Respire fundo, acalme-se: comunicar a notícia de maneira branda e gentil faz com que o escritor continue depositando esforços para quem sabe um dia aprender o próprio ofício adequadamente.

Quanto mais simples o modo de se expressar, mais fácil é para ele ponderar depois. Alguns apreciam quando recebem a crítica na intimidade do próprio gabinete, através de carta convencional e/ou electro-carta. Mostre que você possui um coração e evite, portanto, recorrer de imediato às redes sociais ou aos tabloides irascíveis — isso magoaria imenso o sentimento alheio. 


Post scriptum: não se surpreenda, no entanto, se mesmo depois de tanto zelo receber respostas belicosas do escriba, tais como: Tu que não compreendes patavina de literatura; Eu cá sou o melhor escritor do mundo, não te devo um vintém; Nunca escrevi para leitores d’esta geração, minha obra é para aqueles do futuro; e assim por diante.

— P. R. Cunha