devaneios da própria máquina de escrever (episódio #43)

ler livros — livros no navio enquanto alguém reclama de enjoos, livros na fila da padaria, em casa, ao escritório, na sala de espera do oftalmologista, livros no autocarro, no trem, no intervalo dos jogos de futebol americano, & também em lugares mais óbvios tais quais bibliotecas, livrarias, cafés, praias, parques, livros enquanto o filho sai da escola, livros enquanto a esposa lhe passa um sermão indecoroso, livros para fugir das garras da tv, ao leito de morte de um amigo, na cozinha enquanto o guisado não fica pronto, livros na quinta, livros na sexta, livros para esquecer de alguém, livros para esquecer de si.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #42)

robert gould estava em pé a mexer nos papéis sobre a mesa de estudos. a esposa saiu do banho enrolada na toalha: o que estás a fazer, robbie? o marido ajeitou os óculos de leitura enquanto segurava uma espécie de lista: li noventa & oito livros este ano. helen vestia a roupa de dormir: ora, muitos parabéns, robbie. não, não, não, ele disse, não é disso que se trata. helen abraçou o marido como se abraçasse uma criança perdida, deu-lhe um beijo na testa: então, do que é que se trata? ele tirou os óculos, esfregou os olhos, deu um peteleco na lista: noventa & oito livros & me sinto vazio como os diabos, como se não tivesse realizado coisa alguma. oh, robbie, ela sussurrou, oh, robbie, vamos deitar. os dois se ajeitaram na cama. robert gould apagou a luz do abajur: te contei que ontem sonhei com o meu pai? helen virou a cabeça na direção do marido: com o teu pai? sim, com o meu pai. permaneceram em silêncio. helen estava prestes a fechar os olhos quando lembrou-se da última vez em que deixara o marido a falar sozinho & no dia seguinte ele se mostrava absolutamente intratável: como… foi, o sonho? robert gould ligou a luz do abajur, colocou o travesseiro na cabeceira da cama para encostar-se: estou sentado na areia, é bem cedo, sei lá, sete, oito horas, no máximo, meu pai nos acordava muito cedo para irmos à praia, & a praia estava praticamente vazia quando chegávamos, talvez um aposentado a praticar o running, ou uma moça com trajes new wave a fazer yoga, de forma que papai pegava o melhor lugar, a melhor mesa, & logo fazia amizade com o dono da barraquinha diante da qual arrumávamos as nossas trouxas, & o resultado era que todos adoravam as conversas do meu pai, o jeito extrovertido do meu pai, & chamavam-no de chefe, sempre traziam as nossas comidas primeiro, serviam-nos o peixe frito, perguntavam para o meu pai se «tudo certinho por aqui, chefe», & meu pai dizia que sim, tudo certinho, &tc, daí lá estou eu sentado na areia, pequeno, branco, loiro, desengonçado, sunga com motivos ducktales, tio patinhas, emburrado porque eram sete horas da manhã, sonolento, colérico, enquanto papai era tratado como um rei & perguntava-me com uma voz leve, brincalhona, descompromissada, sem entender nada do meu azedume, papai perguntava-me se eu queria milho verde com manteiga, ou um potinho de salada de frutas com leite condensado, enquanto estou a observar as ondas, & não me viro para o meu pai, não viro, quero continuar a mostrar a ele que estou zangado, muito zangado, que não faz sentido acordar tão cedo para ir à praia, & no fundo eu adoraria um milho verde com manteiga, um potinho de salada de frutas com leite condensado, mas não pretendo ceder, & de birra, sem tirar os olhos do mar, apenas digo não!, não quero nada!, & consigo sentir o ar expelindo dos pulmões do meu pai, o desapontamento do meu pai, a melancolia que invade o coração dele por ser tratado com tamanha indiferença pelo próprio filho, o príncipe… helen não aguentara ouvir tudo — decidiu que lidaria com os complexos do marido no dia seguinte, ao pequeno-almoço, depois de uma noite de sono mais ou menos revigorante.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #41)

não sou humano. vivo dentro do p. r. cunha. somos vários, milhares. quero dizer: eu sou eu, único, mas há outros da minha espécie que se hospedam noutras cabeças literárias. alguns tentaram nos tirar do anonimato, estudaram-nos, perseguiram-nos, escreveram teses sobre os nossos modos, procuraram termos para nos rotular — «gêmeo indomável», «homônimo», «duplo», «deus», «pseudônimo», «consciência», «diabo», «doppelgänger». nobres tentativas, mas, de minha parte, digo que a nomenclatura ainda deixa um bocadinho a desejar. eu gosto de fotografias antigas, cartografias, café sem açúcar, john cage, do teatro de tadeusz kantor, história das guerras (quentes, mundiais, frias, regionais), dos contos mais obscuros da susan sontag. eu acumulo, p. r. cunha escreve. ou melhor, transcreve. & às vezes ele até recebe alguns elogios & quando isso acontece p. r. cunha aceita-os com certa vaidade. ah!, mas quando as coisas não vão lá muito bem, quando as ideias não surgem com a frequência que ele tanto gostaria, p. r. cunha — indigno!, cafajeste!, sem-vergonha! — aponta o indicador para a têmpora & culpa-me, sem pudores. onde já se viu… há também alturas em que me perco em divagações aleatórias: a vida dos artistas, dos gênios, as noites de boemia, a bebedeira, o canto de um pássaro, a perdição, o delírio, os sabores, a voz de uma mulher. até perceber que p. r. cunha está ali, à espreita. o danado está a tomar notas — vida, artistas, pássaros, boemia, bebedeira, voz, mulher, noite, sabores. no dia seguinte, leio qualquer coisa no blogue «dele», ou num esboço de capítulo do livro «dele», ou um artigo para revista com as MINHAS ideias, com os MEUS devaneios. é terrível. por isso estou aqui a colocar, como se diz, os pingos nos «is». cansei, sim, estou farto de tanta exploração. & agora, sem nada a perder, desafio o meu hospedeiro a publicar-me. vejamos se ainda lhe resta alguma migalha de dignidade.

— p. r. cunha (?)

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #39)

martin & a namorada decidiram ir nadar no lago. ela ficou de ligar para uma amiga & martin convidou o ignacio, que conta anedotas de um jeito tosco & teatral o que sempre arranca boas gargalhadas de toda a gente. encontrar-se-iam à orla por volta das 10h. algumas nuvens se amotinavam no céu matutino & a impressão era de que a tempestade desabaria a qualquer momento. o trajeto até ao lago, no entanto, é absolutamente tranquilo. fernanda estava ao volante — martin ainda não aprendeu a dirigir. ele abrira toda a janela do passageiro & por vezes colocava a cabeça para fora & sentia a brisa enquanto contava o número de vacas que pastavam despreocupadas. martin sentiu inveja do sossego das vacas. numa altura, precisaram de parar o carro no estacionamento de terra improvisado & seguir o resto do caminho a pé. fernanda ficava a levantar o próprio telemóvel bem alto a ver se encontrava sinal. a amiga dela respondera pelo whatsapp que não podia ir ao lago hoje, alguma coisa a respeito de um almoço com os pais. martin sentiu a primeira gota de chuva cair no ombro. ele andava na frente para abrir espaço entre as matas. quando chegaram à orla deserta, fernanda estendeu a toalha & martin colocou a mochila em cima de uma rocha ao lado. ela se afastou para analisar a superfície verde do lago. martin aproximou-se & segurou-a pela cintura. fernanda encostou a cabeça no tórax dele & percebeu que uma espécie de pé estava a boiar não muito longe de onde eles estavam. «merda, martin, diz que aquilo ali não é o que estou pensando», ela apontou para o corpo de bruços. não parecia real, não mesmo. parecia um objeto sintético, um daqueles robôs que recebem pele artificial para simular a aparência humana. martin riu-se contidamente: «deve ser coisa do ignacio». daí ele gritou & bateu palmas: «haha!, pronto, ignacio, essa foi boa, muita boa, agora chega de tretas», mas nada de ignacio. o corpo pálido, adiposo, continuava a boiar: jeans, camisa social branca, sapato desportivo nike desamarrado. fernanda pegou uma pedra da orla & jogou-a no cadáver. a pedra foi amortecida pela epiderme hipotônica & fez um barulho como se tivesse atingido um saco de batatas. «chega mais perto dele, martin», ela pediu. martin notou um rótulo de coca-cola grudado no braço esquerdo & percebeu também que havia um ferimento, ou melhor, uma grande abertura no dorso do cadáver, mas nenhuma mosca, nenhum cheiro. parecia um banhista distraído, talvez um pouco bêbado, que resolvera tirar uma pestana onde não devia. martin endireitou-se & fez uma varredura-trezentos-&-sessenta-graus no local. uma parte dele ainda tinha esperança de ver ignacio saindo de trás de alguma árvore, com aquele sorriso debochado & senil: é tudo brincadeira, seus idiotas. mas essa possibilidade se mostrava cada vez menos razoável. martin chegou ainda mais perto do cadáver & começou a dar uns chutes, bem de leve. depois, com força, sacudiu o morto, que desvirou-se na água feito um boneco de pano encharcado. fernanda soltou um rangido de susto & cobriu a boca com as mãos, não podia acreditar no que estava acontecendo. o rosto do homem lembrava uma gelatina derretida, o nariz torto, os globos oculares deslocados, a pele avermelhada. martin pediu para ela correr, pegar o telemóvel, ligar para a polícia. a chuva agora começara a cair com força. fernanda tentava desesperadamente levantar o aparelho para o céu, à procura de sinal, qualquer sinal.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #38)

o menino acorda com os gritos da briga dos pais. é o quinto, ou melhor, o sexto domingo seguido que isso acontece. o menino acha que os pais brigam aos domingos porque é justamente o dia em que o pai, motorista de trator, fica em casa. os gritos trafegam em todas as frequências audíveis: graves, agudos, médios etc. o pai claramente é o contralto da orquestra. a voz da mãe modula-se de acordo com o andamento da partitura: por vezes tenor, daí soprano, noutras vezes barítono. a sinfonia é insuportável, pensa o menino. nos dias da semana, os pais não brigam porque cada um fica, como se diz, «na sua». o pai a dirigir trator, a mãe a vender miudezas na quitanda da dona célia, uma senhora redondinha que nunca tira o lenço da cabeça. o menino está claramente a desenvolver uma aversão aos domingos. ele sai de casa para arejar os próprios pensamentos. o sol da manhã já se mostra cruel. o menino vai até à beira do rio. a água do rio que passa & jamais volta, ele lera qualquer coisa do gênero na biblioteca da escola, em algum livro sobre o conceito de tempo, passagem do tempo, entropia, algo assim. o menino agacha-se & ao colocar a água na boca ele pensa que ninguém jamais tocará naquela água novamente. ele agora reflete se deve cuspir a água de volta para o rio, a ver se o acaso levaria aquela mesma porção de líquido às mãos de uma outra pessoa. antes de decidir (se cospe ou não cospe), o menino escuta um barulho distante de tiro de pistola. os pássaros assustados abandonam apressadamente os galhos das árvores. & o silêncio. aquele silêncio de morte, tão comum aos domingos, sussurra o menino.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #35)

eu havia marcado de encontrar o meu amigo bob, bob flynn, ao café-restaurante da rua noventa às 7h30 da manhã, mas cheguei uma hora antes, ou seja, às 6h30 da manhã, tão cedo que o café-restaurante ainda nem sequer estava aberto, escreve ray. a ideia de chegar com tanta antecedência surgiu-me na noite anterior, quando fui até à cozinha preparar qualquer coisa para comer & deparei-me com duas baratas gigantescas a fazer sexo. eu nunca tinha visto nada parecido. as baratas cruzam de uma maneira completamente despudorada, não fazem questão nenhuma de olhar uma para a antena da outra, & agora que estou analisando a cena retrospectivamente, talvez o ato não seja muito diferente do sexo entre certos casais que estão juntos há, sei lá, vinte, trinta anos. dois simulacros de pessoas que entram embaixo dos lençóis, fazem o que têm de fazer, viram-se cada um para o próprio lado da cama & vida que segue. enquanto as baratas fornicavam num dos quadradinhos 20x20cm do piso esmaltado com borda arredondada da minha cozinha, tentei imaginar, à guisa de entretenimento, um início alternativo para aquele livro «a metamorfose», escrito ao que parece por um tal de kafka, sugestão do meu próprio amigo bob flynn: quando certa manhã a barata acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em seu esgoto metamorfoseada num animal humano monstruoso. a ideia, portanto, era conversar a respeito dessas miudezas de barata com o meu bom & velho amigo bob flynn, que chegara ao café-restaurante pontualmente às 7h30 da matina. sempre foi do feitio do bob chegar aos nossos encontros sem atraso. numa ocasião, acho que nos anos noventa ou algo assim, zelda — minha primeira esposa — & eu convidamos bob & aretha para jantar. lembro-me de que estava a cair uma tempestade terrível, as ruas foram interditadas, voos foram cancelados, mas bob tocara a campainha exatamente à hora combinada, abrira a porta para aretha passar & até hoje não sei como ele consegue fazer isso. acho que o bob controla alguma fenda misteriosa no tecido espaço-tempo, só pode ser. a funcionária do café-restaurante entregou-nos o cardápio & perguntou se poderia nos ajudar com alguma coisa. pedimos duas chávenas de café sem açúcar, uma cestinha com torradas. a funcionária rabiscou com a caneta bic azul & retirou-se sem tirar os olhos do bloquinho de anotações. então descrevi a cena pornográfica que se passara na noite anterior sobre os azulejos da minha cozinha. o bob, que havia deixado o chapéu-panamá no encosto da cadeira, levou-me absolutamente a sério, compenetrado, sim, escutara tudo com muita atenção.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #34)

vistosa a ideia de que a capacidade criativa do ser humano nasce quando a criança se dá conta de que possui um ego, «algo» dentro de si com fortes inclinações fecundadoras. está ali a circunstância, o caminho para transcender-se (& o digo sem nenhuma conotação mística-religiosa). o pequeno sujeito afasta-se dos limites impostos pelo corpo biológico, deixa de ser apenas criatura para também fazer parte de um contexto potencialmente produtivo — criar um objeto artístico?, criar-se a si mesmo? picasso dizia que toda a criança é artista, o problema é permanecer artista em adulto. é a tal imagem da semente: se negligenciado, o fruto não se desenvolve — semente nas entranhas da terra sem água para crescer. noutros termos: observardes as janelas se abrirem não fará muito sentido se não tiverdes força o bastante para mantê-las abertas depois.

— p. r. cunha