Partida de xadrez

Fim da tardinha. Luz amena. Um pequeno e simpático tabuleiro de madeira cuidadosamente polida por carpinteiros habilidosos, sessenta e quatro casinhas quadriculadas, trinta e duas peças esculpidas com esmero e capricho, dois jogadores civilizados, um vento brando a bater na testa desses gentis-homens, jogam sentados, ao silêncio, fazem apenas breves e indiferentes movimentos com os dedos — por que diabos, então, saímos de uma partida dessas transpirando, perturbados, decrépitos, como se tivéssemos lutado contra um exército invencível, ou atropelados por manadas de elefantes selvagens?

— P. R. Cunha

Esteroides anabólicos androgênicos (EAAs), fatores de liberação

Estratégias de jogo — sugestões de profissionais gabaritados, sérios, com muitos diplomas pregados na parede, talvez uma série de livros impressos por editoras universitárias com a nobre, porém pouco eficaz, finalidade de divulgar o conhecimento médico às pessoas comuns: divertir-se nas quadras, beber água durante os treinamentos, não levar as competições tão a sério, desenvolver um hobby agradável, sair com amigos, praticar o intercurso com parceiros confiáveis (deixar propositalmente o adjetivo confiável em aberto). Carlos Mourinha, um experiente jogador de badminton que perdera a capacidade de ser calmo e descontraído, abre a porta do apartamento e deita para o chão uma sacola com aquele tipo de papel com o qual fazem embalagens de pães (tipo francês); a sacola contém: 1) petecas; 2) três raquetes Yonex 85g, 67cm, empunhadura 9cm, etiquetas da loja de departamento ainda grudadas nos cabos das raquetes com colinha irritante que demora para sair; 3) cushion, grips e over-grips para maior firmeza e conforto às mãos, também dedos, ao segurar a raquete durante o jogo, aquilo a que costumam chamar de «pegada». Vê-se logo que é uma sacola sólida, firme, duradoura, de fato ideal para carregar toda a sorte de equipamentos badmintons. Experiente jogador, bandana UA (Under Armor) na cabeça, cabelos encaracolados, camisa polo azul com golas levemente desgastadas, um número maior do que aquilo que os inspetores de moda julgariam ideal, óculos com armações arredondadas, parece um bocadinho com o David Foster Wallace, e/ou com o James Joyce, uma espécie de acidente genético, como se DFW e o próprio Joyce decidissem de repente ter um filho juntos: Carlos Mourinha, que senta na cama e fala em voz alta, sinal de que as coisas não andam bem, falar consigo é mau presságio — tudo o que faço, ele diz, tudo o que faço é jogar badminton, preciso de um descanso. Boa classificação no ranking mas sem aquela desenvoltura de outrora. Quinze a vinte minutos em quadra, com a cabeça em outra dimensão (palavras do treinador), demora para entrar no ritmo, comete muitos erros etc. Carlos Mourinha, frustrado, já cogita seriamente a possibilidade de estimulantes ilegais.

— P. R. Cunha

Fragmentos de um romance inacabável (parte II) – livro do caos / viagens

Escrever livro é como se preparar para uma longa viagem a um país estrangeiro sobre o qual pouco sabemos — porque, em verdade, busca-se apenas conhecer algo mais de si mesmo. A jornada é um pretexto. Quando o Escritor não está a trabalhar em algum manuscrito, sente-se prostrado, observa a lenta aproximação do vazio, mostra-se incapaz de se concentrar em algum propósito. Precisa de traduzir esse estado melancólico em alguma nova forma de escrita, fugir do momento-Roland-Barthes, aquele instante em que tudo parece terminado, o mundo silencioso em que dorme um sono leve, o Escritor.

Dissidência em relação ao Brasil, aos amigos, à realidade.

A morte é algo que acontece alhures, até acontecer consigo, dentro da própria casa. A morte, como toda a gente sabe, não pede licença. A morte não bate à porta, prefere arrombá-la. A morte é uma estrela enorme, pesada, supergigante. A morte não se deixa ver, tocar, ouvir, nem respirar. A morte tem algo de invisível. A morte acaba.

É sobre as próprias ansiedades que o Escritor está a falar, sobre a ansiedade moderna, ansiedade de todos nós, pois não. 

Escrever serve, portanto, para resgatar. O Escritor constrói outros universos porque luta contra a própria finitude, pretende afastar-se desse fim. É um cabo de guerra do qual sabe não poder sair vencedor, mas esforça-se para adiar a derrota. Que pelo menos o depois da escrita seja diferente do antes da escrita etcétera.

E o que ocorre quando a garantia de segurança é retirada do menino, a garantia do «tudo está sob controle»? Quando os fatos reais começam a demonstrar que as regalias infantis foram apenas miragens, ilusões passageiras? Quando um acidente automobilístico destrói todas as pretensões de grandeza do menino? A existência não é mais um lugar confortável.

Disponibilidade para as catástrofes, uma vida boa que nunca chega.

Escritor aparentemente (só aparentemente) fazendo-se de bobo.

— P. R. Cunha

Se pretendo ser escritor

A minha amiga poetisa G. lembrou-me que hoje é dia dos seres humanos que escrevem. Coincidentemente, estava a organizar meus textos mais antigos e deparei-me com este curioso manifesto (na falta de melhor termo) que escrevi em 2009, aquando vivia para São Petersburgo. Eu tinha 24 anos na altura.


SE PRETENDO SER ESCRITOR

Hoje eu moro na Rússia, perto da antiga casa do Dostoiévski. Hoje eu pretendo ser escritor.

As pessoas que me leram (basicamente: mãe, pai, o editor de suplementos do Correio Braziliense, namorada, uma prima que mora em Ipanema) disseram que minhas estórias são melancólicas, introspectivas, «têm qualquer coisa de crua ali», sinceridade etc.

Se pretendo ser escritor, que tipo de escritor pretendo ser:

Há os escritores ácidos. Escrevem para tumultuar, tirar-nos da zona de conforto. (Utilizo-me do tempo presente à guisa de estilo, mas a maioria dos autores que citarei adiante já, como se diz, bateu as botas): Hemingway, os melhores ensaios do Orwell, Christopher Hitchens, Swift, Handke, Norman Mailer, Ginsberg, S. Thompson, Bernhard, Kerouac, Burroughs, Dos Passos, Casanova, Sade, Bukowski. Outros escritores são bonzinhos e contemporizam; o sr. Chesterton, por exemplo, bonzinho, os contos alienígenas do Bradbury, bonzinhos, a prosa bucólica do Walden, idem.

Eu pretendo ser um escritor ácido & bonzinho, inverno & verão, Rússia & Brasil, luz & sombra. Um escritor bipolar, portanto — assim como o rapaz que segura esta caneta azul (presente da minha madrinha, a Marli).

O que é um escritor? Escritor é aquele que constrói frases. Um engenheiro gramatical.

Gostava de ser isto: engenheiro gramatical.

Quem sabe um dia.

— P. R. Cunha

Assim era o Herbert

O Herbert tinha dentro de si, ela disse, aquela certeza ingênua de que podia ganhar a vida de maneira decente, com as próprias mãos — e aqui ela sacode as mãos —, sem precisar lamber as botinhas a ninguém. Um homem amiúde calado, ela disse, mas quando começava a falar, não parava, falava pelos cotovelos, e citava uma série de termos da geografia portuguesa: Pedrógão Grande, Aveiro, Zêzere, Trás-os-Montes, Beira Baixa, Leiria, Entre-os-Rios, Bragança, Mirandela, Freixo de Espada-à-Cinta, Mesão Frio, Murça, Torre de Moncorvo, Valpaços e não só.

A gramática, dizia o Herbert, ela disse, a gramática para ele era apenas instrumento, ferramenta. O Herbert lembrava então de uma cena em que o pai dele tentou pregar um quadro do Cézanne, acho que o Femme au chapeau vert, utilizando o cabo de uma antiga chave de fenda 3/16 x 12”. Talvez o martelo se mostrasse mais adequado para aquele empreendimento, dizia o Herbert, mas o objetivo (i.e.: deixar o quadro grudadinho na parede) fôra devidamente alcançado, acrescentando ainda, o Herbert, que a moldura permanecia exatamente no mesmo lugar, sem qualquer sinal de instabilidade. 

Chave de fenda, martelo, Cézanne, gramática — Herbert.

Uma vez me falaram que ele tinha uma doença chamada alexitimia, condição terrível em que o indivíduo se vê incapaz de exprimir a própria vida emocional. Mas isso era uma grande bobagem, ela disse, o Herbert não tinha alexitimia coisa nenhuma.

O Herbert estudava cérebros, queria aprender como eles funcionavam. Um homem tem de tratar das necessidades básicas antes de se pôr com luxos, ela disse com ares conspiratórios. E quando ele falava sobre os cérebros, miudezas relacionadas aos cérebros, que temos neurônios que disparam e fazem novas conexões a todo o momento, e que esses disparos, o Herbert explicava gesticulando à beça, ela disse, esses disparos determinariam o caráter de todas as nossas experiências, ela disse, quando o Herbert falava sobre esses assuntos cerebrais sentia sempre que dava um bocadinho nas vistas dentro dos inúmeros cafés que costumava frequentar.

Torneio de futebol em criança, primeiro beijo, a primeira ereção, os tombos, as primeiras reprovações, quebrar a perna nas férias, algum sucesso acadêmico, outros fracassos amorosos, universidade, prêmio de literatura, paternidade, doenças, viagens alhures, quase morrer afogado num desastre náutico; nunca somos os mesmos, o Herbert costumava dizer. E depois de uma significativa perda, ela disse, o Herbert me contou uma das coisas mais fascinantes que já ouvi: que não é o tempo que cura o luto, somos nós que nos modificamos, transformamo-nos num outro, a carcaça pode até ser a mesma, mas lá dentro é outra coisa, criamos novas sinapses, seguimos em frente, esquecer-se é tão importante quanto lembrar-se.

Ele tinha por hábito levantar a chávena de café, como se estivesse a brindar com os deuses, era gozado de assistir. Minha satisfação com o café, dizia o Herbert, minha satisfação com o café é sagrada, de maneira que detesto ser incomodado enquanto tomo o meu café, dizia o Herbert, o sujeito tenta relaxar e beber um café, e de repente alguém está a lhe chamar sobre os ombros, e você vira, e percebe que esse alguém se aproxima, um alguém que de certeza lhe conhece, mas você não faz ideia de quem seja, você só quer tomar o seu café sem ser incomodado, e o tal sujeito faz que quer um abraço, aquela posição absurda de abraços em público, e diz: «porra, Herbert!, onde você se meteu?!», mas você ainda não faz a menor ideia de quem seja essa pessoa, você não lembra, existe um vazio na sua consciência, um vazio do tipo: «quem diabos é esse ser humano que quer meu abraço?», você tenta, mas não consegue recordar, você pousa a chávena sobre a mesa, levanta, dá-lhe um caloroso abraço e grita: «pois quanto tempo, meu amigo!», e você começa a se odiar, muito, dali em diante. Assim era o Herbert, ela disse.*

— P. R. Cunha


*Há algo de reconfortante nesta de se esconder num quarto fechado, à escrivaninha, rabiscando narrativas etc. A luz da luminária que aquece o meu cocuruto enquanto a caneta desliza, ou melhor, dança sobre as linhas de um palco de papel creme. Durante vários meses acordei com este nome, Herbert, na cabeça e o personagem começou a me perseguir como um palhaço de Stephen King. Até que recebi um WhatsApp do editor de certa revista literária chamada BIGCRUNCH (desse jeito: anglicismo, caixa alta, tudo junto) a encomendar contos e achei que poderia ser um momento interessante para exorcizar o Herbert. A estória acima, portanto, seria publicada no primeiro número da BIGCRUNCH — junho de 2018 —, mas por questões financeiras a revista nunca chegou a existir.

O que a ansiedade do P. R.-civil ensinou ao P. R.-escrevinhador

» Estipule metas realistas;
» Chávena de café;
» Mantenha o traseiro sobre a cadeira;
» Não espere por nenhuma inspiração metafísica;
» Chávena de café;
» Escreva sempre, mesmo quando aborrecido;
» Não comece as atividades do dia seguinte antes de terminar as atividades de hoje;
» Chávena de café;
» Tenha sempre uma boa noite de sono entre todas essas coisas.

— P. R. Cunha