Machine learning

As tendências tecnológicas
estão a dizer
tema inevitável
teletrabalho
teleconsultas
streaming
drones de entrega
fim dos pagamentos em notas
e moedas
o controle estatal
monitorizar pessoas
perseguir pessoas
punir pessoas
vacinar pessoas
certificados de imunidade
geolocalização
estado de vigília
enquanto isso
as ruas muito compostas
de silêncios e vazios
ressentimentos angustiados
é para o vosso bem —
gritam os megafones
é para a vossa vida —
repetem os megafones
caminhar desesperadamente
por essas avenidas sem alma
nem amor
baile de máscaras
nada agradável lembrar
esta parte do acordo
o sufoco existencial
os efeitos de curta duração
a desesperança
o jogar-se do oitavo andar
o tiro na têmpora
as overdoses
as despedidas sem holofotes
os presidiários do novo normal
mas os televisores permanecem ligados
o rosto dos telespectadores
leva um azul neon
talvez a face ingrata
do abandono
troca-se o ser
o estar-se
por segurança
fundem-se
anulam-se
para o benefício
de saúde pública
e a vossa pele agora se desfaz
qual metal derretido
o espírito depressa se degrada
percebeis:
sois um robô de silício
há bastante tempo.

— P. R. Cunha

Politicamente incorreto

Não é preciso de ir muito longe para perceber que se vive numa modernidade de polícias. O desafio talvez seja reconhecê-los, pois não utilizam necessariamente a indumentária marcial. Civis também fazem parte da gangue.

O vizinho mexeriqueiro, a colega de trabalho, o motorista do autocarro, a jornalista, o professor de direito, a médica. Todos suspeitos. Podem ser (e provavelmente são) polícias.

Eles sabem o que é certo para si, ou melhor, para si e para toda a humanidade. Farão de tudo para serem ouvidos, para serem levados em conta, para, se preciso for, enfiarem os próprios ideais corretivos na goela de toda a gente.

Daí vêm as culpas.

Como, por exemplo, dormir demais. Numa sociedade policialesca dormir demais é um pecado capital. Você poderia estar a fazer algo de útil, mas está a dormir. Um breve cochilo vespertino é motivo de crises profundas: afinal, o que vão achar de mim?

Não se pode nem comer um salgado sem que algum espião olhe de cara feia a pensar: esse aí está perdido, brinca com a obesidade, sente tanto prazer ao ingerir salgado gorduroso, que obsceno.

(As bebidas alcoólicas sofrem de estigmas análogos a respeito dos quais muito já se escreveu.)

«Eu sei o que é bom para a raça humana, eu conheço o segredo do sucesso, eu sei o que é uma vida plena, saudável, equilibrada», o sujeito lhe cospe isso antes de voltar ao próprio apartamento de 20mpara perder-se em pensamentos suicidas.

O maior alvo da geração-polícia provavelmente seja o tabaco. A lei que proíbe fumar em locais públicos é sensata, mas não é o bastante. E por que cargas seria? Se você acende um cigarro no conforto da sua casa, sem incomodar vivalma, só você e o cigarro, é bom, por precaução, trancar as portas e fechar as cortinas, pois se alguém observá-lo a cometer tamanho crime saiba que terá de ouvir infinitos sermões.

Roland Barthes escreveu imenso sobre o direito ao tabaco. Parafraseio: sei que faz mal, sei que causa cancro, mas se gosto de fumar, e posso fumar, irei fumar, sou adulto, não necessito de nenhum grupo de fatalistas para esclarecer o que é bom ou ruim para a minha vida, sumam daqui!

Faz lembrar Robert Burton, que em 1621 declarara: oh!, o tabaco, divino, raro, superexcelente tabaco, um elemento milagroso que causa tanto a elevação quanto a ruína da alma.

Ou mesmo aquele antigo beberrão que costumava repetir: a bebida mata, e é bem por isso que continuo a beber.

Acontece que essa independência, essa liberdade de escolha, de compreender e lidar com os riscos, essas posturas desafiadoras obviamente incomodam deveras os membros do Estado Babá. Ora!, como ousa ter esse tipo de autonomia, vontade própria, diz o polícia social, não sabe que vivemos em grupos, e que seguimos regras específicas, e que todos precisam de se comportar direitinho?

— P. R. Cunha

Quem é que está a rir agora

SALA DE INTERROGATÓRIO, 21H54

O polícia Ionesco fecha a porta atrás de si. Joga a pasta com os documentos de investigação sobre a mesa. A mesa de metal range e balança como se fosse uma velha locomotiva soviética. A mulher sentada assusta-se imenso com o barulho, recua. Os dedos nodosos dela movem uma madeixa de cabelos que está a cobrir-lhe o olho direito (especificamente o olho direito). A mulher parece embriagada, ou sob efeito de soníferos (calm caps).

IONESCO: dama, vou precisar que repita… [breve pausa, Ionesco fita a câmera de segurança, prossegue], por obséquio, preciso que repita o seu nome.

[Sem olhar para o polícia, a mulher diz: Marta.]

IONESCO: de quê?

MARTA: isto é mesmo necessário?

IONESCO [toma notas, levanta a manga do paletó, olha para o próprio relógio, depois compara-o com as horas do relógio de parede da sala de interrogatório]: sim, dama, completamente necessário.

MARTA: marta, marta de albuquerque, senhor. [um «senhor» que soa teatral, jocoso, como um soldado rebelde que responde sem vontade aos superiores.]

IONESCO: gostava que a senhora Marta de Albuquerque contasse-me o que realmente aconteceu na noite de ontem.

MARTA [olha para as mãos de Ionesco, sem anel]: já foste casado?

IONESCO: como é?

MARTA: não sejas um idiota, a pergunta é simples. Já foste casado?

IONESCO: não compreendo como isso pode nos ajudar aqui, senhora Marta de Albuquerque.

MARTA: briga entre marido e mulher, foi isso, uma simples briga entre marido e mulher. Se tivesses sido casado, compreenderias.

IONESCO [sem esboçar qualquer tipo de reação abre um dos envelopes e tira uma pilha de fotografias. As imagens mostram um homem roxo com inúmeras facadas no peito, o pescoço aberto, os olhos vidrados e sem vida parecem antever um encontro com o próprio diabo. Ionesco organiza metodicamente as fotos sobre a mesa, tal qual psicólogo durante aqueles estranhos testes de sanidade]: simples briga entre marido e mulher.

MARTA [solta um desdenhoso humn]: francamente… [pausa]. estávamos no quarto. a minha irmã tinha acabado de ligar. E ela tem um daqueles casamentos perfeitinhos, sabes?, o marido perfeitinho, os filhos perfeitinhos que tiram notas perfeitinhas, e passam as férias a ler gontcharóv, tchekhov, escutando claude debussy, e escrevem resenhas a explicar os porquês de acharem que o niilismo de sartre faz mais sentido do que o niilismo de nietzsche. eu desligo o telemóvel e digo: francisco, quero o divórcio, do jeito que está não pode. mas o francisco nem me olha, fica a ler o jornal, como se, sei lá, como se eu estivesse a fazer a previsão do tempo, se chuva, se sol, essas coisas. então eu decido insistir, porque, sabes, quero mesmo resolver tudo de uma vez por todas. O francisco continua lá lendo o jornal: francisco, estou a falar a sério, quero o divórcio. devo ter repetido isso umas cinquenta vezes, percebes? e estava a aturar o silêncio do francisco da melhor maneira possível, eu inspirava e expirava e dizia para mim mesma: tem calma, mulher, tem calma. Até que numa altura eu disse: francisco, estamos a nos divorciar, amanhã vem aqui uma advogada, vamos nos divorciar, e o francisco ri-se, um daqueles risos que duram apenas alguns segundos, riso de escárnio, prepotente, riso imbecil, de uma superioridade desprezível. [marta olha para a mesa, dá duas batidinhas com o indicador na superfície lisa de uma das fotografias do homem mutilado]: pois bem, garanhão, quem é que está a rir agora?

— P. R. Cunha

Paul

Sala escassamente mobiliada. Parece um esconderijo. Parede de estantes com toda a sorte de objetos antigos. Uma mesa muito grande, inútil. Há duas pessoas. Ricardo e Francis. Ricardo anda de um lado para o outro, parece irrequieto, confuso. Francis está estendido numa velha poltrona a fumar cachimbo e a ler o jornal.

RICARDO
É de suma
importância
esperar pelo
Paul
Sem Paul
nada feito
Sem Paul
sem plano

FRANCIS
(Baforada no cachimbo, ajeita calmamente o jornal, vira o jornal para a luz do abajur, voz mansa.)
Pra já ainda
é muito cedo
Paul vem
sempre vem

RICARDO
Sempre veio
mas
desta vez

FRANCIS
(Baforada no cachimbo.)

RICARDO
Desta vez…

(Toca a campainha, Ricardo olha para Francis; Francis levanta a sobrancelha com ar de triunfo.)

FRANCIS
Não falei

(Ricardo dirige-se para a porta e abre-a.)

RICARDO
Não é Paul

FRANCIS
Não é Paul

(Maria entra.)

MARIA
Cadê Paul

FRANCIS
Não se demora
ainda é muito cedo

MARIA
Sem Paul
impossível

RICARDO
Foi o que
eu disse

FRANCIS
Não
Não foi o que
você disse

RICARDO
Como assim
foi sim
o que eu disse

FRANCIS
(Levanta-se, dobra o jornal.)
Você disse
(Imita a voz de Ricardo, teatralmente.)
Sem Paul
nada feito

RICARDO
(Coça a cabeça.)
A ideia
ora
a ideia é a mesma

FRANCIS
(Ar professoral.)
Para isto aqui
funcionar
precisamos ser
precisos
A ideia não pode ser
a mesma
A ideia precisa
ser idêntica

MARIA
Sem Paul
nada feito

FRANCIS
Exatamente

RICARDO
Desejo de mudar
sempre
a todo o momento

MARIA
(Ri, alto, à moda louca.)
Começou

RICARDO
Rachel Boyd
Bersarin Quartett
uma certa calmaria
(Ricardo dança a valsa consigo mesmo.)

MARIA
Falsa
calmaria

RICARDO
Três minutos de calmaria
pelo menos
até ao fim da música
(Continua a dançar a valsa.)

FRANCIS
Bersarin Quartett
Welche Welt

(Toca a campainha.)

RICARDO
É Paul

MARIA
Deve ser Paul

FRANCIS
Paul

(Ricardo dirige-se para a porta, abre-a, há um homem com capacete.)

HOMEM COM CAPACETE
Pizza

RICARDO
(Volta-se para a sala, confuso.)
Quem pediu
pizza?

FRANCIS
Não como pizza
em verdade
odeio pizza

MARIA
Acabei de chegar
não pedi pizza

RICARDO
Não pedimos pizza

(Homem com capacete averigua nota, lê a nota com voz abafada pelo capacete.)

HOMEM COM CAPACETE
Pizza para Paul

(Ricardo toma a nota das mãos do homem com capacete, lê a nota.)

RICARDO
Pizza para Paul

(Maria se aproxima, lê a nota.)

MARIA
Pizza para Paul

FRANCIS
Deixem entrar a pizza

HOMEM COM CAPACETE
Vinte e cinco e cinquenta

RICARDO
Como é
vivente?

HOMEM COM CAPACETE
O senhor me deve vinte e cinco e cinquenta

RICARDO
Ah
sim
claro
(Coloca a pizza sobre a mesa muito grande. Tira o dinheiro do bolso.)

HOMEM COM CAPACETE
Faltam cinquenta centavos

(Francis se aproxima, lê a nota.)

FRANCIS
Pizza para Paul

HOMEM COM CAPACETE
Cinquenta
centavos

(Sem tirar os olhos da nota, Francis entrega uma moeda para o homem com capacete.)

HOMEM COM CAPACETE
(Levanta a viseira do capacete.)
Espero que
os senhores
(Pausa, olha para a Maria.)
E a madame
(Inclina-se como faziam os antigos cavalheiros oitocentistas.)
Espero que tenham
um excelente apetite

(Francis, ainda a olhar para a nota, fecha a porta.)

FRANCIS
Pizza para Paul
(Balança a nota como se fosse um bilhete premiado.)
Pizza para Paul

MARIA
Está a enlouquecer

(Ricardo se aproxima, tenta ler a nota novamente.)

FRANCIS
A verdade é que
temos de aguardar
pelo Paul
sem Paul
não podemos

MARIA
Sem Paul
sem sentido

FRANCIS
Tudo é sempre
a mesma coisa
Com Paul
tudo é diferente

MARIA
(Suspira apaixonadamente.)
Se ao menos
Paul estivesse aqui

RICARDO
Ele já vem
antes eu achava que
não viria
mas agora já acho
que vem

FRANCIS
(Balança a cabeça, contrariado, encolhe a língua, a língua toca o céu da boca, depois a língua toca nos dentes da frente e faz um barulho tipo «tsc-tsc».)
Não teria
tanta certeza

RICARDO
Do que está a falar

FRANCIS
Acidentes acontecem

MARIA
(Olha para o Ricardo.)
Odeio admitir
mas Francis
tem um ponto

RICARDO
Uma coisa é certa
sem Paul
nada feito

FRANCIS
Nada feito

MARIA
Acidentes acontecem

RICARDO
Nunca fui muito com
a cara do Paul
sem Paul
sem plano

(Francis se joga novamente na poltrona velha, abre o jornal. Tenta ler. Não consegue.)

FRANCIS
Paul
Paul
Paul
Tudo é Paul

MARIA
Enciumou-se

FRANCIS
(Levanta-se. Joga o jornal para o chão.)
O que estou a dizer é
sei que sem Paul
não conseguiremos
mas tudo é
sempre Paul

RICARDO
Grande dependência
de Paul

MARIA
Deixem lá disso
sabemos bem
que Paul
é imprescindível

(Toca a campainha, os três gritam em uníssono: PAUL! Francis dirige-se para a porta, saltitante feito criança, abre-a.)

FRANCIS
Não é Paul

VIZINHO
Olá

(Ninguém responde.)

VIZINHO
Aqui mora o Paul?

(Ninguém responde, todos desapontados. O vizinho entra sem cerimônia. Abre a caixa de pizza sobre a mesa muito grande, come um pedaço de pizza.)

VIZINHO
(Lambe os dedos.)
Não sei se sabem

(Todos olham desconfiados para o vizinho.)

VIZINHO
Esbarrei com o Paul
ontem

RICARDO
(Incrédulo.)
Paul?

VIZINHO
Sim
ontem
à noite

MARIA
(Incrédula.)
Tem a certeza?

VIZINHO
Olha como tu falas
claro que tenho
a certeza
era o Paul
carne e osso
Paul

(Ricardo senta na poltrona velha de Francis, resignado.)

RICARDO
Sem Paul
sem plano

VIZINHO
Preciso de açúcar

(Francis vai até ao armário, tira um pacote de açúcar e entrega para o vizinho.)

FRANCIS
Bolinhos?

VIZINHO
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MARIA
Sou diabética

VIZINHO
(Faz que vai chorar e nunca chora.)
É uma grande pena

(Toca a campainha. Maria, sem pressa, dirige-se à porta. Abre a porta. Há um policial.)

POLICIAL
Amigos do Paul?

(Apaga a luz. Cai o pano. Fim.)

— P. R. Cunha