Cosmologia de uma viagem aos Andes chilenos – segunda parte (aurora sangrenta)

Quem se aproxima dos Andes e não compreende que embaixo daqueles paredões rochosos existe uma dinâmica atividade geológica talvez fique com a impressão de que as cordilheiras estacionaram-se numa paisagem imutável, atemporal. Estas montanhas, porém, são o resultado de milhões de anos de movimentos tectônicos — alguns lentos e morosos, outros abruptos e imprevisíveis. Um processo que continua a acontecer e não deve cessar até que o núcleo terrestre esfrie. Estimam-se que a cordilheira dos Andes esteja a crescer, em média, 12 centímetros por ano.

A verdade é que os constantes e violentos choques da Placa de Nazca sob o oceano Pacífico com a continental Placa Sul-Americana fazem do Chile um território deveras hostil aos chamados interesses da sobrevivência humana. Nunca é demais lembrar que o epicentro do terremoto mais violento já registrado cientificamente ocorrera no dia 22 de maio de 1960 perto da província de Malleco, 570 km ao sul da capital Santiago. Conhecido como o Grande Terremoto de Valdivia, o cataclismo de magnitude 9,5 MW matou quase 6 mil pessoas e deixou milhares de desabrigados. 

Valdivia_after_earthquake,_1960

A conversar com chilenos a respeito de tragédias como essas, percebi uma perturbadora consciência de alerta constante, como se alguma coisa terrível já estivesse programada — era só uma questão de tempo. A população, de forma geral, compreende que não faz sentido perguntar «se algo pode acontecer», apenas preparam-se para o dia em que terão de fugir de suas casas por conta dos caprichos catastróficos cultivados pela Mãe Terra.

* * *

Adentrei a cadeia de montanhas pela mesma estrada que percorri em julho de 1996, quando cá estive com papai e meus irmãos. Uma estreita via que dança ao redor das silhuetas andinas, beliscando a proteção a meia altura, lembrando constantemente que um simples lapso de concentração traria consequências irremediáveis. O caminho abismal repleto de curvas sinuosas costuma levar os praticantes de esportes de inverno até ao Valle Nevado, um centro de esqui a 2.860 m do nível marítimo. Brinca-se que aquele que consegue vencer a travessia sem sentir enjoos recebe um certificado de excelência assinado pela Nasa.

Para-se à berma da estrada a fim de tirar uma fotografia de recordação, ou recuperar o fôlego enquanto se repara num zorro culpeo (raposa-andina) — el zorro más grande de Chile, solitario en épocas no reproductivas — procurando fontes de alimento. É altura de contemplar os precipícios rochosos, sentir a brisa gelada que penetra as brechas da roupa e corta a pele humana sem sossego. 

Processed with RNI Films. Preset 'Kodachrome 50's'

E novamente a verticalidade chilena, o caminhar para cima e para baixo, espremido entre as cordilheiras. Os teóricos de viagens costumam dizer que bons observadores possuem uma espécie de dom para revelar as mais ínfimas variações, tipos sensíveis aos pormenores, à informação microscópica. Viajantes que não se contentam apenas em expor; pretendem adicionar aos próprios relatos aquele olhar instintivo dos artistas.

O filósofo Michel Onfray, ao propor uma poética expositiva, defende que reparar na geografia permite a quem viaja apreciar melhor as paisagens, compreender melhor o que sucede nos sulcos, na crosta e na superfície da terra. Pensar com contextos geológicos enriquece a experiência não só de quem deseja contar, mas principalmente daqueles que irão receber o que foi contado. É antes de tudo um sinal de respeito à paciência dos leitores.

— P. R. Cunha

Nenhum segredo a ser revelado – palavras de um fotógrafo amador

Recentemente fui convidado para conversar sobre fotografia com escolares. Moças e rapazes entre 12 e 15 anos que cresceram (e ainda estão a crescer) segurando telemóveis, tablets, e-readers, computadores portáteis quase tão finos quanto uma folha de papel. Enviam mensagens para pessoas do mundo inteiro, recebem respostas num átimo de segundo. Enquanto tomam o achocolatado, jogam o Minecraft, assistem séries Netflix, escrevem crítica a respeito da última temporada de Game of Thrones e brigam com os pais — que muitas vezes encontram-se bem ali, sentados à mesma mesa — através do WhatsApp. 

Estou ainda nos primórdios dos meus anos trinta mas senti-me como se andasse por volta dos oitenta quando tive de explicar para esses miúdos que minha primeira câmera fotográfica foi uma Kodak 35mm descartável com filme para vinte e sete poses. Comecei a tirar fotos em 1997 — época em que Bill Clinton ainda era o presidente dos Estados Unidos, e o Gustavo Kuerten, grande Guga, fazia corações nas quadras de saibro de Roland Garros. Não fugia muito do clichê opa!, vejo que me interesso por essa geringonça, agora vou registrar as conquistas de indivíduos tidos como membros da família. 

Nos dias nublados, fotografava natureza-morta, toda a sorte de objetos inanimados. Achava-me grande, um artista pós-moderno.

Desnecessário bancar o virtuose da fotografia, digo aos escolares. Apesar de minhas primeiras câmeras terem sido analógicas, só comecei a aprender a fotografar de fato quando já utilizava uma Sony Cyber-shot com cartão de memória para aproximadamente quinhentos arquivos JPG. E o processo de aprendizagem nada teve a ver com a mudança tecnológica, mas sim com os pormenores culturais que adquiri em viagens (geográficas, musicais, cinematográficas, literárias)*. 

Sou daqueles que acreditam que «ser-fotógrafo» depende de uma longa série de aptidões extracurriculares. Mas não imaginava que esse simples conceito — cujas bases podem ser encontradas na Poética de Aristóteles, um texto mais antigo do que o nosso próprio calendário —, não imaginava, portanto, que transmitir essa descomplicada ideia para jovens da chamada Gen Z** seria uma tarefa tão ardilosa***.

A verdade é que a internet e as tecnologias cada vez mais aprimoradas são sim excelentes formas de produção/divulgação imagética; mas elas também fomentam imediatismos e outras ansiedades que podem ser fatais para a saudável prática fotográfica.

Por exemplo. A primeira pergunta que recebi durante a conversa foi: 

— Tio, tenho um iPhone X com câmera TrueDepth, A11 Bionic, e mesmo assim as minhas fotos são horríveis, o que devo fazer?

Lembrei-me da primeira vez em que tentei desvendar os segredos do Photoshop. Ali estava um programa infinito, com recursos infinitos, possibilidades infinitas e eu não sabia sequer para onde apontar o cursor do rato. Numa palavra: podemos adquirir as melhores ferramentas de edição e captação disponíveis, mas se não possuímos uma ideia, tudo o que conseguiremos serão porcarias mais nítidas.

Compartilho com os escolares algumas fotos dos meus fotógrafos favoritos: Cartier-Bresson, Capa, Diane Arbus, Doisneau, Atget, Octavius Hill, Alfred Stieglitz, Vivian Maier, Dorothea Lange. São imagens magníficas, os escolares concordam. E nenhum desses artistas utilizava câmera digital, eu digo, e se alguém tentasse explicar-lhes o que era Photoshop talvez esse alguém fosse acusado de bruxaria-voodoo-satanismo. E, convenhamos, com razão

Certo: precisamos agora procurar tema interessante e digno de se fotografar, e depois manter-se fiel ao plano. Essa sugestão não é minha, mas justamente desses fotógrafos que citei acima. 

Hoje em dia toda a gente carrega consigo um telemóvel com surpreendentes captações de imagem. Ótimo. Mas a grande maioria continua a utilizar esse tipo de ferramenta apenas para confirmar experiências****. Fotografias como provas de que determinado evento se realizou, de que a tarefa foi cumprida, isto é: saí de casa, houve diversão, experimentei comidas diferentes, vejam a minha desenvoltura financeira, estou a viver e por aí adiante.

Existe, contudo, um lado positivo nas banalizações. Podemos tirar fotos sem nos preocuparmos (tanto) com o enquadramento, saturação, contraste, com o número de poses do filme. Afinal, se alguém fechou os olhos, ou não sorriu, ou ficou com cara de psicopata, ou um pássaro decidiu fazer caquinha nos ombros do vovô Fred, bom, podemos resolver isso com um dedinho. 

Assim como acontece na literatura, o papel da seleção se torna preponderante para a fotografia. Num texto literário escrevemos numa tacada só, como se diz, e depois nos vemos diante de um amontoado de palavras desnecessárias. O escritor respira fundo e corta, corta, corta, corta. Até chegar ao menor denominador comum, àquilo que alguns chamam de essencial*****. 

Acontece que esse exercício seletivo também depende da nossa cultura, da nossa formação, das nossas atividades extracurriculares. Esse aperfeiçoamento leva tempo. E, como sabemos, a Gen Z não tem tempo a perder. O círculo começa a se fechar.

Os aparatos tecnológicos prometem muitos «agoras». Tire a foto agora, publique a foto agora, edite a foto agora. E com isso talvez estejamos a modificar alguns aspectos do ato de fotografar em si (escrevo isto sem qualquer tipo de juízo de valor [nem melhor, nem pior: apenas diferente]). Tudo o que posso fazer é compartilhar as minhas experiências. Cada um, no fim de contas, percorre/constrói a própria estrada.

A mim a fotografia sempre foi uma grande compilação de fatores, de percepções, múltiplos canais, referências diversas. Por vezes, inclusive, gosto de sair com a minha câmera enquanto escuto algum artista específico******. A música se transforma na trilha sonora das imagens, é bonito de ver. Noutras tantas vezes leio determinado trecho de um livrinho agradável e aquelas palavras me servem de gatilho. Nem precisaria comentar que os enquadramentos cinematográficos mexem deveras com a minha imaginação — inclusive, ainda considero Dziga Viértov******* um dos melhores professores de fotografia do mundo.

Despeço-me deste apressado ensaio com as mesmas palavrinhas com as quais finalizei a conversa com os escolares: leiam muito, façam muitas viagens, copiem descaradamente outros fotógrafos talentosos, escutem canções inspiradoras, tirem muitas fotos, muitas mesmo, centenas de fotos, milhares de fotos, identifiquem as ruins (98% do total), procurem aperfeiçoar as que ficaram boas — e assim procedam, ad infinitum.

P. R. Cunha


*Tive vontades de acrescentar a famigerada «viagem ilícita» (i.e.: alucinógenos), mas preferi evitar reprimendas dos professores e do próprio diretor da escola — além de uma eventual visita à delegacia mais próxima.

**iGeneration, Homeland Generation, Plurais, Centennials, Post-Millennials, Smartphone Generation (o anglicismo despudorado sugere, naturalmente, a onisciência da língua inglesa no vocabulário da juventude contemporânea [quer queira quer não]).

***Talvez fosse o caso de esclarecer de uma vez por todas que estou a generalizar. E, como se diz, toda regra possui exceções. Clarisse, menina muito tímida, veio conversar comigo depois da apresentação e mostrou-me algumas fotografias que, segundo ela, foram tiradas despretensiosamente durante o velório de uma tia distante. Não creio que eu tenha exagerado quando lhe disse que tinha um potencial enorme para se tornar uma espécie de nova (e melhorada) Julia Margaret Cameron.

****As enxurradas de selfies (que, pelos vistos, parecem ter dado uma [breve?] trégua) confirmariam esses modi operandi.

*****Diz a lenda que certa vez perguntaram ao Michelangelo como ele havia feito a escultura de Davi. Michelangelo teria coçado a têmpora e respondido: fiquei a observar o mármore durante algum tempo; depois, simplesmente peguei o martelo e eliminei tudo o que não era o Davi.

******The Verve é ótimo para fotografias noturnas e/ou p&b.

*******Vide Um homem com uma câmera (1929).