Um «livro por vir»

O fotógrafo aponta a própria câmera para determinado sítio & captura (prende/encarcera/enquadra) a cena. Uma imagem colorida mostrará as tonalidades dos elementos fotografados: a praça central, Poeta sentado em banco de madeira (pintado de verde por funcionários da prefeitura) a segurar caneta azul, bloquinho de notas com capa vermelha — estão ali!, podemos ver. Certa agressividade no ato de fotografar: gostava que a caneta fosse preta, e que o banco não tivesse sido pintado; mas foi pintado, e a caneta (quer queira quer não [assim nos mostra a cena revelada]) é azul, a capa do bloquinho é vermelha &tc.

Tênue mudança de perspectiva: pode-se analisar o enquadramento de acordo com o ponto de vista de Poeta — que também captura cena, uma cena parecida com a do fotógrafo, mas invertida, noutra direção, como um espelho consciencioso. Acontece que Poeta possui outros filtros além do mero reconhecimento dos fótons de luz (o aspecto técnico/mecânico do aparato fotográfico). O olho de Poeta é também influenciado pelo «coração» (figura medieval/romântica: os sentimentos vêm do coração [quando, em verdade {sabemos}, são consequências químicas monitoradas pelas atividades cerebrais]). A imagem capturada por Poeta (a poética, dir-se-ia) saíra propositadamente distorcida (de acordo com o contexto, com as circunstâncias & não só). Cores mais taciturnas se Poeta em luto; atmosfera calorosa se a paixão arrebata os alicerces emocionais do sujeito.

Portanto, melhor dos mundos: um Fotógrafo-Poeta (ou Poeta-Fotógrafo) que se livrasse das tornozeleiras do senso comum, que trabalhasse com pixels & palavras — metafotografia/metapoesia/metamorfose.

— P. R. Cunha

Forças Armadas

prcunhaoffice

Poeta escondido escrevia sinceros poemas sobre todas as coisas. Sentia-se à vontade para enaltecer o mar, o padrão amarelo e preto de uma abelha ligeiramente zangada, ou perceber o despretensioso movimento das asas da cotovia matinal. Mas um dia comentaram por alto que o comandante das Forças Armadas estava obcecado pela poesia de Poeta — o que, naturalmente, restringiu sobremaneira a sua capacidade de escrever poemas.

— P. R. Cunha

Caderno de viagem: outro prólogo (outra parte escrita num Fabienne Chapot [marketing and sales by New Edition Stationery BV — Netherlands] com folhas pautadas à moda escolar e motivos selvagens para a capa)

Como deve ler-se este caderno de viagem? Qual é a maneira mais apropriada de o ler? O autor do caderno sugere que ele devia ser lido de uma maneira — faz com as mãos como deve ser lido. Depois de apreciá-lo com a devida atenção, comentamos «sim!, sim!, agora compreendo, faz todo o sentido». Agradecemos com uma mesura desajeitada, rimos dos nossos modos teatrais. 

O viajante também conhece a filosofia de Wittgenstein. Importa-se imenso com a filosofia-Wittgenstein.

Podes ler o caderno de viagem uma primeira vez e achar profundamente tedioso, sofrível até; mas daí lê deste novo modo, de um modo que nunca imaginarias e dizes: ora!, que maravilha este caderno de viagem, brutal, agora gosto deste caderno de viagem etc. 

Estás a ler mais intensamente.

Como demonstrar que determinado autor de cadernos de viagem te agrada? Relê o autor várias vezes, consome o autor, ignora o autor quando for preciso, não sintas pena do autor.

O cidadão passa três breves dias em determinado país, volta e conta para os seus: conheci tal país. Vós sempre achastes isto curioso. Já Marco Polo esteve vinte seis anos na China e por vezes confessava: não conheço a China. Numa cidade como Lisboa, é preciso escolher, selecionar, é preciso ir para algum canto, explorá-lo, dar-se por satisfeito. Não podeis ter Lisboa toda para vós. Como dizia um ilustre antigo — é não estar em parte alguma em todo o lado estar.

Pôr por escrito os pensamentos de viagem, os aforismos de viagem, os trechos vagos que te assombram durante uma chuvosa noite em Aveiro. Escreves sobre a viagem como fosses salvar a sanidade de alguém. Provavelmente a tua própria sanidade.

É improvável imitar ipsis litteris a rota de outro viajante — as diferenças (ruas, estilo, temperatura [meteorologia de forma geral], profundidades, cores, linhas, pessoas etc.) são de imediato percebidas. Como dizia o teu avô: precisas criar os teus caminhos. 

Noutras palavras: o teu comboio vai para o outro lado. Tens uma certa emoção, queres tornar isto o mais claro possível — ao teu modo.

O tempo em Aveiro no período natalício: sol, chuva, ventos, sol, chuva, sol, ventos, chuva, ventos, sol. Uma escola de transitoriedade, as nuvens aveirenses ensinam-te que tudo passa. Nada é permanente. (Falar sobre as dificuldades de se trabalhar como meteorologista em Aveiro.)

Num passeio público junto ao Tejo, perto do Cais do Sodré, a ouvir a lamentosa sirene de um ferry que afasta-se para dentro do nevoeiro, ofereceram-te, em cinco ocasiões, sacolinhas de maconha. (…) A partir de então, decides ser mais cauteloso com a tua vestimenta.

É possível estar em Lisboa sem estar em Lisboa? Se lês os apontamentos lisboetas de Fernando Pessoa estás também a perambular pelas ladeiras, a ver as casas coloridas, estás a navegar o mesmo Tejo, a ouvir o fado — é possível viajar até às quintas portuguesas sem nunca aterrar em Portugal? Em que sítio estamos quando lemos os relatos do viajante, do observador? Cochilas com o Livro do desassossego ao colo e pensas para ti mesmo: onde é que me meti — onde nos metemos quando folheamos o Livro do desassossego? 

Ouves a respiração do poeta, estás numa aldeia distante. Não te apeteces voltar.

De início não pensavas muito em escrever sobre Lisboa, Évora, Sintra, Aveiro. Limitavas a observar e a entender a dicotomia que te ia na cabeça. Demoravas imenso tempo observando as gôndolas aveirenses com a ingênua crença de que poderias usar tudo aquilo que estavas a ver — tal e qual Funes, o memorioso de Borges.

Mas tu te esqueces, tu não te lembras de tudo.

Estás na Praça do Comércio, Lisboa. Atravessas o Arco da Rua Augusta. Estás rodeado de turistas, miúdos a falar o francês, o alemão, o espanhol, o russo, miúdos a correr loucamente atrás dos pombos bravos e modorrentos que comem as migalhas de um pastel de natas. Perguntas: ora, onde foram parar os portugueses? Não os vias por ali, isso era certinho.

— P. R. Cunha

As diminutas partículas de poeira que se podem ver flutuar na claridade (três haikus [aparentemente] desconexos)

1.
céu cinza
jogo de futebol —
o comboio começa a apitar

2.
distante o poeta
esquece relógios
vira a página cinquenta

3.
corações acesos
lareira apagada
aguardamos pelas estrelas

— P. R. Cunha

Pasternak: notas provisórias

Personagem chamado Pasternak — como o poeta/novelista/tradutor russo; motivo: o pai vivera para a União Soviética nos anos 1960. As cinco etapas do luto (luto que por vezes é desencadeado por: morte de parente/amigo, decepção amorosa, inadequações sociais [a definir]): negação, raiva, barganha, período melancólico, aceitação. Pasternak não admite, Pasternak furioso, controla-se, tenta mudar de ideia («e se eu [Pasternak] pudesse consertar as coisas» etc.), tristeza de Pasternak, depois de tantas batalhas, eis a resignação, o cansaço. Frase a martelar a cabeça deste excêntrico personagem: História se repete; a primeira vez como tragédia e depois como farsa. A frase, muito atual diga-se de passagem, é do Karl Marx. Tentativa de fuga, mas as pernas de Pasternak não se movem (figurativo/paralisia/eterno exilado/assim por diante). Pois observai o mundo e vereis que na mor parte os humanos não têm para onde ir. Manter a linguagem rebuscada numa espécie de jaula, aterrada; Pasternak não é 1) pedante; 2) estimado por seus bens; 3) muito menos julga a própria felicidade na medida da riqueza. Período antes do luto/melancolia, características gerais — até àquele momento Pasternak fora senhor de seus demônios, capaz de direcioná-los de acordo com seus caprichos, mas lá no fundo, como já escreveram numa importante obra filosófica, no mais recôndito de seu coração (a figura romântica do coração como casa dos nossos sentimentos), havia um poço infinito (bonita imagem: poço infinito, poço profundo), poço que reagia completamente alheio às vontades de Pasternak, fora de seu controle, e a tampa desse poço acabara de ser aberta. Pasternak não se reconhece.

— P. R. Cunha

Quando a Musa visitar, estejam preparados, com os ouvidos atentos — ouçam

Alberto Manguel abre as portas de sua Library at Night dedicando-a para o Craig e a nos contar que o poeta otomano Abdüllatif Çelebi costumava dizer que os livros da biblioteca «são amigos leais e dedicados que afastam todas as preocupações». Muito bonita imagem.

Por vezes para lê-los (ou mesmo até para escrevê-los) a figura humana que lida com os verbos intransitivos precisa também de encontrar um sítio afastado, uma própria biblioteca à noite. 

Gesto de resistência: de dia, sou bombardeado por imagens alheias; agora, aqui, sentadinho num cômodo aprazível, permito-me criar fantasias sem os mediadores publicitários.

Ler e escrever com uma despreocupação que beira a leviandade, nos diz ainda o Manguel.

Enganam-se aqueles que acreditam que tais fugas são unicamente tentativas de abandonar o mundo, viver para o longe e não lidar com os desgostos da realidade. Vemos Montaigne escapulindo para o cume da torre, vemos Montaigne solitário, pensativo, concentrado nas leituras e na fazenda de ensaios. Mas depois observamos Montaigne a descer as escadas de volta para a família, para os amigos, para os afazeres administrativos. Montaigne à procura de si mesmo, recluso, mas sempre a retornar, sempre atento ao nobre objetivo de sair do silêncio um sujeito melhor, mais justo para os seus.

De aí apagamos a luz da escrivaninha, dormimos um sono revigorante e acordamos um bocadinho menos defeituosos. Recompensas dos esconderijos temporários.

— P. R. Cunha

João Maria — Lisboa, Portugal

Estou sentado a uma mesa dentro da biblioteca do centro universitário em que fiz a faculdade de jornalismo. Escuto o ronronar distante do aparelho de ar condicionado, perco-me num labirinto de pensamentos que aos poucos tomam forma e me levam a conclusões sentimentais. Este ano Portugal já me dera um bocado de presentes. O maior desses regalos foi, sem dúvida, ter conhecido pessoas como o João Maria — poeta lisboeta cuja poesia faz-nos recordar d’aquele velho adágio: não se é poeta quando se quer e porque se quer, é-se poeta quando se merece a estranha visita do sonho-criador. Há poucos dias o Johnny dedicara um belíssimo relato autobiográfico a este tropical que vos escreve. Gostava de compartilhá-lo convosco, à laia de vaidade.

— P. R. Cunha


Quem me trata p’lo meu nome saberá que o meu forte não é a prosa. O meu pensamento é poético, versado, quase que se divide sozinho dentro de mim. A meio de ler a obra de Paulo Cunha, alguém que guardo como um fabuloso amigo, deparei-me muitas vezes com memórias de tons existencialistas e decididos. […]

Continua em Queda do dia em texto (para P. R. Cunha) — CALIATH