O poema

Não se sabe ao certo o motivo, mas desconfia-se que Poeta tenha procurado abrigo ao oceano depois de algumas decepções verdadeiramente desestimulantes com as quais tivera de lidar nos últimos tempos. Dir-se-ia que a vista desimpedida, as ondas espumosas, os eventuais navios que cortam de forma breve e sutil a linha do horizonte mostraram-se antídotos mais que eficientes ao outrora agitado temperamento de Poeta. Agora, segundo a população local, o criador de versos é figura notável pelos seus hábitos tranquilos, rumina permanentemente nas praias junto ao mar, como um farol orgânico com a cabeça iluminada. Durante o ocaso, Poeta na areia vibra as cordas do próprio violino, e os vizinhos que porventura deixarem as janelas abertas escutarão a lacrimosa melodia — serão levados a interrogar-se se Poeta estaria a escrever algum outro poema introspectivo àquela altura.

— P. R. Cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #37)

em um dos eventos mais (quiçá o mais) emblemático da poesia romântica, coleridge & keats apertam as mãos em sinal de reverência mútua. meses depois, ainda sob os efeitos inebriantes do encontro, coleridge confessaria: «senti a morte naquela mão».

trecho do poema A BOLA (inédito & [propositadamente] incompleto)

o escritor segura a caneta
tal jogador domina a bola
apenas o instrumento de trabalho
nada quer dizer
se dentro de si o ar se perde
pressão atmosférica
há pelés, ronaldos,
maradonas, zidanes, baggios,
a mesma bola, mas quanta diferença
no tratar, no jogar, no drible, no gol
a pena literária, igual:
paveses, sebalds, machados,
barretos, styrons —
como pode
é a mesma caneta
a mesma bola
mas outras mãos
outros pés
& o abismo interior
a dividir os meios.

— p. r. cunha

Alan Villela Barroso, o Poeta Vitalício

EMERGENTE – ATESTADO DE ÓRBITA: Comunicamos, a quem não interessar prosa, A morte do Poeta Vitalício: o fardo de um bardo; navegante em rio de passagem, avante ao padecimento lírio, em sua vital existência poética. Neste atestado de órbita, o autor narra dor e cor; purifica-se no delíquio da poesia. “Amor ou a Morte? Amar ou à Marte?”
(VITALÍCIO, Poeta)

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Às vezes acontece de andarmos distraídos. Assobiamos, observamos os autocarros, o avião que corta o azul do céu, a sombra oblíqua de uma árvore a esconder o ninho de um rouxinol. E daí nos deparamos com certas pessoas que — talvez ainda não saibamos, mas… — de muitas maneiras irão fazer desta maratona a que chamamos vida uma jornada mais gratificante, menos tinhosa. Seres humanos, ou melhor, artistas, sim, artistas talentosos que utilizam múltiplos canais para compartilhar a própria alma, pois sabem que uma só mídia mostrar-se-ia insuficiente diante da ebulição de tantos verbos, e traços, e sons.

Em dois mil e dezoito tive a sorte de encontrar nesta cyberselva um espécime dessa natureza. Um cordis poeta que com sensibilidade à Velázquez consegue pintar versos permanentes, que ecoam, orbitam a atmosfera do nosso coração muito tempo depois de serem apreciados. 

Estou a escrever aqui a respeito de Alan Villela Barroso, autor das narrativas de um padecimento poético. Numa sentença que, embora antiquada, descreve bem o livro: coletânea revigorante, antídoto para este tempestuoso período pelo qual o pobre Brasil se molha a torto e a direito — em cujas orelhas intrometi estes termos:

OS FANTASMAS SEMPRE VOLTAM

por

p. r. cunha (julho de 2019)

à primeira vista pode não parecer
mas é isto uma resenha de
a morte do poeta vitalício – narrativas
de um padecimento poético livro de
alan villela barroso que talvez
muito provavelmente seja
a melhor coisa que aconteceu à
poesia brasileira desde os irmãos
de campos (HAROLDO & AUGUSTO)

artista
pesquisador
professor
músico
ilustrador
gosta de pedalar a própria
bicicleta algures
mora em leopoldina-mg
interior
mas perto o bastante
do oceano para sentir
ah, mar
e cia.

alan villela barroso é poeta
e não só

a tranquilidade da morada
poética ou algumas breves reflexões
(à guisa de introdução)
henry david thoreau SÉC. XIX
perturbadíssimo com o barulho da
locomotiva a invadir a simplicidade
eloquente do campo
o espécime literário em busca de
um qualquer esconderijo
longe das balbúrdias industriais
e tantas vezes a frustração
certa impossibilidade de se
encontrar sítio adequado às práticas da
como se costuma dizer
alma

mas feliz aquele
(este é w. wordsworth)
feliz
aquele que se encontra
que consegue dialogar com a própria
geografia e tem/cria tempo
para lutar contra os excessos
contra as explicações pormenorizadas
[toda a gente quer tudo explicadinho
interpretado mastigado]

é fácil imaginar alan debruçado
sobre poesias enquanto a chuva
tamborila despreocupadamente
ao telhado
de sua casa

o poeta que no silêncio estival
lê e escreve
e ensina e olha para o céu
sim amiúde
para o universo
que se expande em
múltiplos versos

escutemos a voz do poeta:

meu mudo
meu canto
meu pedaço de só
(pág. 29)

arranhou o dia
era Sol que me faltava
(pág. 39)

alan
que nos faz lembrar
e matar saudades de
galáxias e das experimentações
de haroldo de campos
isto não é um livro de viagem
alan que também faz dançar
música & poesia
que trilha
sonoramente
(recordemos j. cage
anton von webern
alban berg os gênios
ultrabreves)
a arte radical do silêncio
mesmo que consigamos
ainda
escutar sons

alan
que também alonga os intervalos
faz respiros com ilustrações
traços que não aborrecem
não procuram acrescentar o óbvio
mas antes dialogam & recriam
«pouco em quantidade
muito em qualidade»

a morte do poeta vitalício – narrativas
de um padecimento poético é um livro
sobre a importância de se olhar
às estrelas
ao campo
aos acordes
musicais
para dentro de si

uma biografia da prática
cotidiana das anotações
(do notar [fora] do notar-se
[dentro])
o contato com as naturezas
ondas que vão-e-vêm
os ciclos cósmicos
por vezes tão terrenos

é ir-se sem sair do lugar
a singularidade que se faz sentir
quando o leitor afasta-se
momentaneamente do
padecimento poético
agradável inquietação
questionamentos aos sussurros
como se alan cantasse aos ouvidos
«sugiro-te uma caminhada
aqui fora»

& não seria esta a importância
da poesia
principalmente em tempos
conturbados como estes:
lembrar-nos daqueles
& daquilo que amamos
orientar-nos na tempestade
nos mares
ou nas entranhas do próprio coração?

alan villela barroso
bússola vitalícia
disponível aos náufragos
basta abrir
— ler e ouvir.


A morte do Poeta Vitalício – narrativas de um poético de Alan Villela Barroso está disponível à loja do sítio web do autor (clica aqui).

 

Um «livro por vir»

O fotógrafo aponta a própria câmera para determinado sítio & captura (prende/encarcera/enquadra) a cena. Uma imagem colorida mostrará as tonalidades dos elementos fotografados: a praça central, Poeta sentado em banco de madeira (pintado de verde por funcionários da prefeitura) a segurar caneta azul, bloquinho de notas com capa vermelha — estão ali!, podemos ver. Certa agressividade no ato de fotografar: gostava que a caneta fosse preta, e que o banco não tivesse sido pintado; mas foi pintado, e a caneta (quer queira quer não [assim nos mostra a cena revelada]) é azul, a capa do bloquinho é vermelha &tc.

Tênue mudança de perspectiva: pode-se analisar o enquadramento de acordo com o ponto de vista de Poeta — que também captura cena, uma cena parecida com a do fotógrafo, mas invertida, noutra direção, como um espelho consciencioso. Acontece que Poeta possui outros filtros além do mero reconhecimento dos fótons de luz (o aspecto técnico/mecânico do aparato fotográfico). O olho de Poeta é também influenciado pelo «coração» (figura medieval/romântica: os sentimentos vêm do coração [quando, em verdade {sabemos}, são consequências químicas monitoradas pelas atividades cerebrais]). A imagem capturada por Poeta (a poética, dir-se-ia) saíra propositadamente distorcida (de acordo com o contexto, com as circunstâncias & não só). Cores mais taciturnas se Poeta em luto; atmosfera calorosa se a paixão arrebata os alicerces emocionais do sujeito.

Portanto, melhor dos mundos: um Fotógrafo-Poeta (ou Poeta-Fotógrafo) que se livrasse das tornozeleiras do senso comum, que trabalhasse com pixels & palavras — metafotografia/metapoesia/metamorfose.

— P. R. Cunha

Este desejo louco de fazer haikus enquanto seguro um martelo

Casa vazia, relativo silêncio, atmosfera aprazível — aproveitar enquanto não vêm ruídos, humanos, livros guardados (por enquanto), uma folha de papel, lápis à moda antiga, o relógio da parede que não deixa esquecer que o tempo é um maratonista de longas distâncias.

1.
menino
à janela ——
chora a chuva

2.
leitura de um romance
o nada finlandês
autocarro atrasado

3.
arvores abatidas
perfume de benzina
(outro) inverno em Brasília

— P. R. Cunha

Forças Armadas

prcunhaoffice

Poeta escondido escrevia sinceros poemas sobre todas as coisas. Sentia-se à vontade para enaltecer o mar, o padrão amarelo e preto de uma abelha ligeiramente zangada, ou perceber o despretensioso movimento das asas da cotovia matinal. Mas um dia comentaram por alto que o comandante das Forças Armadas estava obcecado pela poesia de Poeta — o que, naturalmente, restringiu sobremaneira a sua capacidade de escrever poemas.

— P. R. Cunha