O universo numa xícara de café

Depois de me ter prometido umas férias e prontamente rasgar o contrato da bonança — ou seja: não descansar coisa nenhuma —, eis que me vejo sentadinho, todas as manhãs (por volta das 8h), com a cara no bloquinho de anotações, como se diz, a escrever sobre o que me desse na telha etc.

Pesquisava artigos no sítio web da Scientific American e deparei-me novamente com os nomes dos astrônomos Karl Glazebrook e Ivan Baldry, que no início deste século determinaram a cor média do universo. Parece que se você misturar a luz das galáxias chegará a uma espécie de bege embranquecido; ao passo que o gosto dos astrofísicos pela cafeína (principalmente de um senhor chamado Peter Drum) levara a dupla Glezebrook-Baldry a designar essa coloração de Cosmic Latte. Sempre quando bebo o café com leite penso que dentro da minha caneca existe um microcosmo do infinito. Esse tipo de fantasia cromática me revigora imenso.

[LIVROS]

Alguns livros
lemos & relemos
são para a vida toda
outros preferimos esquecer
na poltrona de um autocarro.

— P. R. Cunha

Rouxinol — & quando se percebe que a poesia (mundo das coisas que não se expressam, a não ser que sejam bem expressas / mundo dos poetas, mundo dos escritores [é Thomas Mann]), quando se percebe, portanto, que a poesia não é para tratar dos outros, mas sim para curar o próprio coração

Houve tarde
em que Rouxinol
deixara de cantar
naquela noite
morreu-se.

— P. R. Cunha

A certeza de que nada será como antes

(Brasília, fevereiro de 2018)

Em miúdo
lá estão papá
e mamã
o sorriso indiscreto
do vovô
a merenda embalada
da vovó

Adolescência
anos de juventude
o primeiro beijo
a primeira música
o primeiro amor
a primeira poesia
as primeiras angústias

Então vêm universidade
mercado de trabalho
temor da morte
fracassos & sucessos
ganhos & perdas
a certeza de que nada
será como antes

Agora os dias
mais lentos
morosos
como um coração anestesiado
que bate por formalidades.

— P. R. Cunha

Brasília-DF

Nasci em Brasília, um fim do mundo mais jovem do que meus pais cariocas. Hoje, às portas da trigésima terceira volta ao redor do Sol, consigo compreender melhor que faz parte da minha «essência ambivalente» (na falta de outros termos) ser um bocado ríspido quando falo/escrevo sobre esta quinta de concreto e árvores com troncos tortuosos. Esta cidade com um futuro que nunca chega, que sempre foi minha e que nunca será completamente minha. Mas se você estiver atento o bastante, Brasília pode até lhe transformar num poeta de seis andares, a modificar as cores do asfalto — cinza.

Dedico este poema à Thaysminy Marques Coelho, que melhor compreende a capital federal.

ASFALTO VOLTADO PARA O CÉU
(Inverno de 2018)

Penso em Brasília
o automóvel a chegar
sempre antes de toda a gente

Duas asas —
eixo monumental
asfalto voltado para o céu

Penso em Brasília
nas feridas
que já não saram

N’um dia nublado
sem saber se lá estão nuvens
ou lamentos triviais

Pois em Brasília
queria encontrar-me
E com mais ninguém.

— P. R. Cunha

Poucos esforços para não dar a perceber a vaga de sentimentos de saudade (série haiku com título relativamente longo)

1.
Homem-glaciar
ela disse
a porta ainda entreaberta

2.
Sozinho às traseiras
nota aguda de trompete —
desaba a tempestade

3.
Lembranças do meu pai
quente chávena de café
lá fora faz inverno

— P. R. Cunha


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João Maria — Lisboa, Portugal

Estou sentado a uma mesa dentro da biblioteca do centro universitário em que fiz a faculdade de jornalismo. Escuto o ronronar distante do aparelho de ar condicionado, perco-me num labirinto de pensamentos que aos poucos tomam forma e me levam a conclusões sentimentais. Este ano Portugal já me dera um bocado de presentes. O maior desses regalos foi, sem dúvida, ter conhecido pessoas como o João Maria — poeta lisboeta cuja poesia faz-nos recordar d’aquele velho adágio: não se é poeta quando se quer e porque se quer, é-se poeta quando se merece a estranha visita do sonho-criador. Há poucos dias o Johnny dedicara um belíssimo relato autobiográfico a este tropical que vos escreve. Gostava de compartilhá-lo convosco, à laia de vaidade.

— P. R. Cunha


Quem me trata p’lo meu nome saberá que o meu forte não é a prosa. O meu pensamento é poético, versado, quase que se divide sozinho dentro de mim. A meio de ler a obra de Paulo Cunha, alguém que guardo como um fabuloso amigo, deparei-me muitas vezes com memórias de tons existencialistas e decididos. […]

Continua em Queda do dia em texto (para P. R. Cunha) — CALIATH

Aqui só poderá brindar com corações de há muito rachados

Porque escreve
à Primavera,
flores abatidas
pelo verbo
do escritor.

Alheamento: o Brasil numa crise terrível, enquanto eu cá a escrever sobre os pássaros. «A Alemanha declarou guerra à Rússia. Período da tarde, natação» — qual Kafka, o despreocupado.

Às vezes, um pássaro canta tão alto que cala todos os passarinhos à sua volta.

De um discurso proferido num pequeno-almoço entre amigos para comemorar o anúncio do Prémio Literário Aldónio Gomes — o falante: vestido a rigor, casaco preto desportivo, calças jeans, sapatos confortáveis, bebe vodca de um só trago, serve-se outra vez, bebe, pousa o copo, diz: tinha treze anos quando escrevi uma estória pela primeira vez. Muito mais difícil do que eu previra. [Bebe novamente, enxuga a boca com a mão esquerda.] Um sopro gelado provocou-me arrepio na espinha. Senti medo.

— P. R. Cunha