«Paraquedas – um ensaio filosófico», retornos

A verdade é que não sabemos
não sabemos quando vamos morrer
não sabemos se a entrevista de emprego
sairá como havíamos planejado
se conquistaremos o coração
da pessoa por quem estamos apaixonados
se a nossa carta chegará ao leito
de um amigo enfermo
se vai chover
se vai o sol
não sabemos
não sabemos como reagirão
àquilo que escrevemos
podem gostar, podem odiar
podem dizer que sim
podem dizer que não
podem permanecer
em silêncio…
não sabemos
e talvez seja por isto
que continuamos
que seguimos em frente
— porque queremos saber.

Quatro mui agradáveis damas dão as próprias opiniões a respeito do meu Paraquedas – um ensaio filosófico: 

 

«A forma como os acontecimentos do passado entram em contato com as ações do presente de seu personagem inominável nos dá uma fantástica sensação de viagem no tempo.»

Rejane Leopoldino,editora do blogue Devir

 

«Quando o eu-narrativo se fortalece, ele inventa histórias com todas as alcançáveis possibilidades. E isto atormenta o protagonista — possivelmente alto, magro e careca, mas certamente humano —, que escolhe não agir, mas desabafar conosco. O relato de um momento curto alonga-se no tempo.»

Jéssica Fernandes,pesquisadora do Ipea*

 

«P. R. Cunha é surpreendente em seu ensaio filosófico Paraquedas. Descreve as relações familiares em sua essência mais crua e sem pudores, sem medo de tirar o véu que encobre as chagas da nobreza. Paraquedas é uma obra para ser contemplada aos poucos e, se você tiver sorte — como escreve o nosso querido Escritor —, entenderá o que é a eternidade de um amor grafada nas páginas de um livro. Leitura muito agradável e inteligente.»

Gerlusa Rocha, poetisa responsável pelo blogue Escrita agridoce

 

«Livro merecidamente premiado. Narrativa espontânea, direta, sem rodeios. Não nos apetece parar de ler.»

Maria Cristina Souza, diretora do Hospital Urológico de Brasília

 


*O livro Paraquedas – um ensaio filosófico do P. R. Cunha encontra-se disponível à Lojinha deste electro-sítio. Para mais informações, aperta aqui.

Quarta Nota #8 — Gordon Banks, morte das estrelas (defesa impossível)

O autor deste blogue volta com as notas descompromissadas que deixam a senhora Cassandra (do apartamento 323) com ganas de desbravar o mundo, a despeito dos seus noventa e quatro anos.


Cansado de embriagar-se
verbalmente —
largara o romance
para se entregar
à poesia.

§ Todas as noites o Roberto queixa-se com a esposa: detesto a metalurgia, a metalurgia me causa um verdadeiro asco; e todos os dias o Roberto sai para ir trabalhar com metalurgia. Pode-se dizer o mesmo dos casais que se odeiam, que se desprezam prolongadamente, mas não se separam: talvez porque tenham medo de morrer sozinhos.

§ As bobagens que dizemos para preencher os demorados silêncios.

§ Etc.

§ O que um escritor de ficção diz é bem diferente daquilo que um escritor de ficção escreve. A fórmula é a seguinte:

Vida pessoal do escritor ≠ Vida literária do escritor

§ O Sol — observável ao céu — é uma gigantesca bomba nuclear que, quer-queira-quer-não, irá explodir. Cessa a fusão hidrogênionúmeroatômico1/hélionúmeroatômico2, o interior do Sol perde a batalha contra a gravidade e o núcleo entra em colapso. A jornada é um bocado mais complexa do que isso, mas não precisamos de esmiuçar os pormenores aqui. O importante é saber que as estrelas também possuem ciclos. Elas nascem, vivem e morrem.

§ (Trajetória comum de diversos escritores de ficção: nascer, ler muitos livros, perder-se no mundo dessas narrativas livrescas, eventualmente criar os próprios universos — lidar com a finitude alheia, muitas vezes esquecendo-se da própria finitude. Porém, as páginas dos escritores de ficção também se acabam.)

§ «Os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo», é Wittgenstein.

§ Noutras ocasiões, os grandes morrem discretamente, a dormir. Depois de anos a lutar com um cancro no fígado, Gordon Banks, o maior guarda-redes de sempre, faleceu ontem à noite durante o sono. Autor da chamada «defesa impossível» (Carlos Alberto avança desde o próprio campo, dá um primoroso passe à três dedos para Jairzinho, que ganha do defensor inglês, corre até à linha de fundo, cruza para Pelé, Pelé sobe majestosamente para cabecear a bola, um cabeceio enciclopédico, perfeito, para baixo, indefensável — não fosse Banks), o guarda-redes costumava brincar que seria lembrado por estragar um belíssimo tento do Rei do Futebol.

§ Mostraram-me os vencedores dos Grammy e percebi que não conhecia vivalma (Kacey Musgraves?). Lembrei de uma conversa que tive com vovô ao final dos 1990. Ele disse: meu gosto musical morreu de ataque fulminante, e está enterrado no Desert Memorial Park. Vovô estava a falar do Frank Sinatra.

§ A minha hipótese é que numa certa altura (o período pode/deve variar de ser humano para ser humano) perdemos um pouco o interesse, a vontade de adaptarmo-nos às novas tendências. Preferimos continuar com o Frank Sinatra, com o Gordon Banks, com o Thomas Bernhard, com o Johnny Cash, com a Susan Sontag, com o Perec, com a Lispector, com a Cecília Meireles, com a Nina Simone — até ao fim dos nossos dias. 

§ (À guisa de P. S.) Mas a verdade é que ainda estou para conhecer cargo político mais poético do que o da senhora Ana Paula Vitorino: ministra do Mar. E ontem conversei com o músico Flávio Silva sobre os porquês de nunca estarmos satisfeitos — plenamente satisfeitos (e.g. Fulano estipula objetivos [ter casa, família, automóvel para locomover-se], e quando atinge/conquista tais objetivos parece querer pular em novas bacias de inquietações). É que nosso cérebro primata evoluíra para lidar com as intempéries da floresta, ambiente pouco amistoso àqueles que ficam parados (presa fácil), e toda a gente que já comera demais e depois dissera: ufa!, que almoço incrível, estou satisfeito, sabe que a satisfação gera inércia, apetece-nos deitar. Corroborei essas conclusões enquanto voltava para casa escutando The promise, do Sturgill Simpson.

— P. R. Cunha

Alguns trechos sinuosos e (talvez) paradoxais

Tive o privilégio de participar das aulas do dramaturgo David Mamet e jamais esquecerei das dicas que ele dera ao final do curso: todos os dias, faça sempre algo para a sua arte e algo para divulgá-la, a pouco e pouco; escreva sempre, vá até aos lugares que você acha importante para o projeto no qual está a trabalhar, entre em contato com outros artistas, incremente o texto com atividades relacionadas tais como fotografia, pintura, literatura, cinema; e lembre-se sempre de que um escritor que guarda tudo dentro da gavetinha e espera que alguém o descubra não é um escritor, mas um aluado. 

Dizem que ao anotar um poema o poeta mutila-se — deixa sobre a folha de papel um bocadinho de si. E se há qualquer coisa que se mostre inexplicável para os versos, o poeta meio que enlouquece, ou sai para uma longa caminhada; um passeio pelo oceano durante o entardecer, caso more perto das areias. O importante aqui é ficar com a impressão de que o mundo pode ser capturado, ou melhor, adestrado pelos olhos algo indolentes do poeta, mesmo que ele saiba que o mundo não pode ser nem capturado nem adestrado. Esse engano permite-o sobreviver.

[Relutâncias]

Sentado numa cadeira de praia
as próprias pernas brancas confundem-se
com as armações cor de neve
da cadeira de praia

Nebulosidade matinal
cobre o mar com lençóis
acinzentados
— não vê as ondas

Invade-lhe um pequeno entusiasmo
pela apropriação marítima
sente, de forma prazenteira, sem esforço
que é o dono do mundo.

— P. R. Cunha

Caderno de viagem: decides anestesiar (alguns dos) teus pensamentos

Não viajas —
corres atrás
de ti mesmo.

Pode-se dizer que uma cidade desconhecida é como um planeta distante — podemos compreender melhor se observarmos. A primeira vez que viste Marte através das lentes arredondadas do teu telescópio, e Marte de súbito ganhara novos significados para ti. Do mesmo modo, a primeira vez que estiveste em Portugal, e Portugal agora mostra aspectos diferentes, outras paletas cromáticas, outras realidades, outras dimensões.

(Tornar visível o que antes era invisível.)

Alguns viajam
para fugir às dores —
que já tinham.

Enrique Vila-Matas numa altura escrevera que viajava antes mesmo de viajar; lia tudo a respeito do país ao qual estava prestes a ir, arriscava-se mesmo a fazer pequenos (e grandes) esboços sobre esses sítios que ainda seriam visitados — roteiro previamente estipulado, viver aquilo que anotara, de certa forma confirmar algumas expectativas, remodelar previsões: eu já cá estive?

Lisboa: em dezembro, quando as nuvens permitem, e o céu se faz presente, e o forte azul do infinito, azul-turquesa, azul-glaciar, e tu queres agarrar-te à cidade, do mesmo modo como agarras aos braços de alguém por quem estás perdidamente apaixonado.

Constataras que a viagem, por mais «real» e experimentada que ela seja, é altamente ficcionável. Qual era mesmo a temperatura daquele dia?, que roupa usavas?, era mesmo dia?, foi num táxi?, comboio? o nome dela era Antonina?, era ela?, era ele?, era Macedo?, Jorge?, era Lisboa? era Óbidos?, era-te a ti mesmo? Tu não sabes muito claramente como distinguir.

As lembranças da viagem — como as lembranças da tua infância — também são ingênuas, vulneráveis, oníricas. Tu batalhas contra a amnésia, queres ainda sugar o último sumo daquelas memórias. São, por vezes, representações, abstrações. Estás a construir um estranho edifício com tijolos verdadeiros, vigas imaginárias, um terraço ao cimo com vidro de fantasia.

Falar sobre uma viagem que não exija qualquer pré-requisito.

Longos dias de tranquilidade em Portugal, e de imperturbadas caminhadas. Para onde voltaste? Para os campos esverdeados do Alentejo com vaquinhas e carneirinhos a pastar, para o trator que corta os corredores de uma vinícola em Bacalhôa Buddha Eden, para o cavalo a descer uma encosta aveirense, para os estudantes flutuando no pátio perto da capela de S. Miguel (Universidade de Coimbra), não muito distante do Penedo da Saudade.

Uma brisa que atravessa os cabos da ponte 25 de Abril, cujo despretensioso balançar reanima as tuas inclinações introspectivas. Não pensas em contas, boletos, em prazos, em compras, não pensas no mundo, não pensas em absolutamente nada.

Brisas que trazem consigo a esperança de tempos melhores. Mostras o teu coração aberto — percebes que és também um bocadinho de Portugal, terra do teu bisavô. Tens, assim como o velho poeta, uma alegre confiança na vida, no porvir, em ti mesmo. Etc.

Efeito libertador da viagem: jornadas que salvam vidas, que dão norte e propósito a existências por vezes desnorteadas e despropositadas.

E, por enquanto, fez-se o silêncio total.

— P. R. Cunha

As diminutas partículas de poeira que se podem ver flutuar na claridade (três haikus [aparentemente] desconexos)

1.
céu cinza
jogo de futebol —
o comboio começa a apitar

2.
distante o poeta
esquece relógios
vira a página cinquenta

3.
corações acesos
lareira apagada
aguardamos pelas estrelas

— P. R. Cunha

Robô

Para o amigo olivarui

O robô não sente dor
não faz greve
não se rebela
não precisa do horário de almoço
não engravida
não sofre acidente de trabalho
não exige indenização
não tem problema cardíaco
não bebe demasiadamente
não escreve poesia
não sangra
não chora
não mente
não sente —
o robô há muito
já nos roubou.

— P. R. Cunha

Urso introspectivo e poema sobre a origem dos anéis de Saturno

Havia uma vez um Urso Polar que levava consigo uma caixa — dentro da qual guardava tudo o que aprendia no decorrer da longa existência. Em juventude, Urso Polar orgulhoso abria e mostrava a caixa para todos os animais. Entretanto, ao perceber que ninguém além d’ele mesmo se entusiasmava com o conteúdo da caixa, Urso Polar passou a escondê-la cuidadosamente. Isso lhe causava uma sensação de angústia, de distanciamento.

[Veritas]
A lua que ousara um dia
se aproximar do gigante melancólico
desintegrou-se
para oferecer-lhe anéis de pedra —
de gelo.

— P. R. Cunha