As diminutas partículas de poeira que se podem ver flutuar na claridade (três haikus [aparentemente] desconexos)

1.
céu cinza
jogo de futebol —
o comboio começa a apitar

2.
distante o poeta
esquece relógios
vira a página cinquenta

3.
corações acesos
lareira apagada
aguardamos pelas estrelas

— P. R. Cunha

Robô

Para o amigo olivarui

O robô não sente dor
não faz greve
não se rebela
não precisa do horário de almoço
não engravida
não sofre acidente de trabalho
não exige indenização
não tem problema cardíaco
não bebe demasiadamente
não escreve poesia
não sangra
não chora
não mente
não sente —
o robô há muito
já nos roubou.

— P. R. Cunha

Urso introspectivo e poema sobre a origem dos anéis de Saturno

Havia uma vez um Urso Polar que levava consigo uma caixa — dentro da qual guardava tudo o que aprendia no decorrer da longa existência. Em juventude, Urso Polar orgulhoso abria e mostrava a caixa para todos os animais. Entretanto, ao perceber que ninguém além d’ele mesmo se entusiasmava com o conteúdo da caixa, Urso Polar passou a escondê-la cuidadosamente. Isso lhe causava uma sensação de angústia, de distanciamento.

[Veritas]
A lua que ousara um dia
se aproximar do gigante melancólico
desintegrou-se
para oferecer-lhe anéis de pedra —
de gelo.

— P. R. Cunha

Dois poemas sobre a nossa finitude — sem apelar às tristezas corriqueiras — e um relato ciclístico

¶Também o sonhador é prisioneiro

Dizem que o sonho
é simulação de morte
alguns praticam de mais
outros praticam de menos.

¶A sina de Jorge Luis Borges (um homem excelente)

Em vida
isolara-se
para quando
em baixo de terra
receber as devidas
condecorações.

¶Ei!, ele gritou

Ei!
ele gritou
estás montado
na minha bicicleta.

— P. R. Cunha

O universo numa xícara de café

Depois de me ter prometido umas férias e prontamente rasgar o contrato da bonança — ou seja: não descansar coisa nenhuma —, eis que me vejo sentadinho, todas as manhãs (por volta das 8h), com a cara no bloquinho de anotações, como se diz, a escrever sobre o que me desse na telha etc.

Pesquisava artigos no sítio web da Scientific American e deparei-me novamente com os nomes dos astrônomos Karl Glazebrook e Ivan Baldry, que no início deste século determinaram a cor média do universo. Parece que se você misturar a luz das galáxias chegará a uma espécie de bege embranquecido; ao passo que o gosto dos astrofísicos pela cafeína (principalmente de um senhor chamado Peter Drum) levara a dupla Glezebrook-Baldry a designar essa coloração de Cosmic Latte. Sempre quando bebo o café com leite penso que dentro da minha caneca existe um microcosmo do infinito. Esse tipo de fantasia cromática me revigora imenso.

[LIVROS]

Alguns livros
lemos & relemos
são para a vida toda
outros preferimos esquecer
na poltrona de um autocarro.

— P. R. Cunha

Rouxinol — & quando se percebe que a poesia (mundo das coisas que não se expressam, a não ser que sejam bem expressas / mundo dos poetas, mundo dos escritores [é Thomas Mann]), quando se percebe, portanto, que a poesia não é para tratar dos outros, mas sim para curar o próprio coração

Houve tarde
em que Rouxinol
deixara de cantar
naquela noite
morreu-se.

— P. R. Cunha