Tardinha para o Atlântico

E ninguém há-de entender mais nada — nem o Rio, nem Brasília, nem a Tristeza, nem Eu, nem Niterói.

Um eterno colocar-se em buracos, poços, situações humilhantes, menosprezar-se, fracassar, para depois escrever, sim, sempre a escrita, a ver se ela lhe tira desses abismos; sempre foi assim, desde pequeno. Passar a vida inteira sobre os papeis, com uma caneta queixosa, satisfazendo a própria demanda por literaturas. Fluxo inesgotável de ideias. Onde colocar todas elas? Como organizá-las em arquivos cerebrais? 

Sem inclinações para o comércio, disseram-no, muito menos para o trabalho braçal, coloca-se a serviço da única atividade capaz de absorver as ambições de uma consciência brandamente alienada: fábrica de livros, fábrica de estórias.

Ou colisão aleatória de diferentes palavras. Surge um texto. E com mutação gramatical espontânea, produz-se universo de incertezas, mentiras, não-ditos. Há pessoas que chamam a isto Escritor —— ou Deus.

[À deriva para sudeste]
Pois que tenho no
interior um oceano
muito mais agitado

Suave, o som da maré. Então, aos poucos, com a força cumulativa de uma extinção em massa, todo aquele sentimento chegou ao fim. O que parecia mútuo, revelou-se frágil, inconstante. E o que parecia para sempre, foi apenas um por-enquanto. Etc.

Na rua, o choro de um bebezinho que ainda não fala. ————— O que sentirá?

— P. R. Cunha

Dias / três

É do Harold Pinter que eu gosto mais, sabes?, ela disse. Fala de mim um bocadinho — também gosto do jeito que tu escreves.

*

A viagem é um efeito Doppler: alastra-se. Início, difuso; fim, incerto. Quantas vezes não precisei de prolongados distanciamentos à guisa de digerir metrópole alienígena?

*

Fotografia
escrever —
à luz.

*

Niterói é uma cidadela nostálgica, casa das férias, da meninice. Lembranças que ficaram muito para trás no passado. Niterói nunca foi minha, sempre foi dos meus pais, do meu irmão mais velho. Ela não se incomoda, recebe-me com carinho, acolhe-me com esmero. Niterói por vezes é ausência, é saudade, que dói, destrói, corrói. Niterói.

*

E só havia mais uma pessoa no Icaraí Café — ela. De manhãzinha, passeio no Campo de São Bento; fiquei um bocado parado ao sol, a pensar em qualquer coisa, ao que minha pele possui agora aquele curioso tom vermelho-molho-de-tomate-aguado. Ela olhou para a chávena de café, e depois para mim, daí olhei para ela, e ela olhou para a chávena de café, e assim por diante. Não nos movemos. Apenas olhos, chávenas de café, vermelho-molho-de-tomate. Até que os passos afastaram-se, e então silêncio. Como se ela nunca lá tivesse estado.

*

Daqui às vezes ouve-se o Atlântico. Mas é precisa muita atenção, porque ondas preguiçosas:

Ao mar
os rapazes
esperam
as moças
esperarem
as senhoras
e os senhores
à espera
da velhice
passar.


Texto e fotografia: P. R. Cunha (instagram.com/pierre_cunha)

Balões & Saída Norte

Boas! Este electro-sítio, residência de minhas loucuras, completa hoje três meses. Numa palavra: o blogue ainda vive e respira — assim como o próprio autor. E, o que é mais, há-de continuar a respirar, se a fonte da saúde agraciá-lo com regojizo e boa disposição.

«Um maquinista gira a manivela do desvio rotativo em que estais. O menor descuido vos fará partir na direção oposta ao vosso destino», é Blaise Cendrars, citado por Oswald de Andrade — citados por mim.

Assim prossigo, com grande entusiasmo.


» Piloto / Plano / Brasília

Superquadras (SQS ––––––––– SQN)

[112 Sul]
Por trás do bloco
d’uma superquadra
guarda-se a tristeza
das coisas que não foram

[405 Sul]
Por trás do bloco
d’uma superquadra
sozinhas, as pessoas
tomam o pequeno-almoço

– – – – – – – – EIXO

[106 Norte]
Por trás do bloco
d’uma superquadra
esconde-se o Sol
que não quer mais se ver

[309 Norte]
Por trás do bloco
d’uma superquadra
por vezes há apenas
uma outra superquadra.


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— Mesa de trabalho deste autor, um seu criado.

» Amantes

Certa mulher chega a casa e está a beijar o amante na sala de visitas. Ambos caminham lentamente para o quarto dela, entram no cômodo escuro e ainda não notaram que o marido da mulher encontra-se esticado sobre a cama, com os olhos cerrados. A mulher e o amante fazem uma verdadeira algazarra, mas o marido não percebe. É muito estúpido. Ou talvez…

— P. R. Cunha

Dois embarques

Em maio de 2016, eu partira de Brasília com destino a Niterói na esperança de superar ao oceano marítimo um desassossego particularmente perturbador: mistura de ansiedade, com saudade, com aflição por achar que nunca terminaria o meu livrinho (Paraquedas, um estudo filosófico), que já há tempos estava a escrever. Indizível melancolia por flertar com a minha finitude, com o meu, como se diz, «eterno processo de dissolução extremamente lento».

— Brasília, para escapar daqui só indo para Saturno; ou para Niterói.

De manhãzinha, antes de sair para as caminhadas aparentemente sem destino, sentava-me à máquina de escrever que pertencera ao meu papá e datilografava:

Regresso a Niterói, que me é agora tão estranha como antes me fora familiar. O apartamento da minha avó fica no 24º piso. Daqui se vê até muito longe a toda a volta. Inclusive o desengonçado morro com formato de cavalo, atrás do qual dissipam-se as lacrimosas ondas do Atlântico. Ali está um oceano onde começa a viagem para Portugal — ou para a morada dos náufragos. 

Poder deixar a vista espraiar-se até tão longínquas paragens, sem dúvida, liberta o coração.

Há dias
em que
não percebo
nada de mim.

Maio de 2018 — muito cansado, ralado e estropiado, voltarei novamente a Niterói a ver se encontro uma tranquila noite de sono, com a certeza de que a minha juventude, ou melhor, de que aquele tempo maravilhoso em que tudo ainda era possível, já começa a se despedir definitivamente deste desventuroso narrador.

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Arthur S., seguido de: aniversário da capital federal

(Sumária crônica sobre a influência de Schopenhauer na minha fazenda literária. Para o Vittorazze — este teu amigo cordial te saúda.)

Em dois mil & sete, o Schopenhauer adotou-me para ser o seu discípulo brasileiro. Ele estava a comer um Apfelstrudel e eu lhe disse: cuida bem do meu cérebro que não deixo faltar-te o Apfelstrudel. Apertamos as mãos com confiança, como dois cavalheiros satisfeitos com as possibilidades do acordo.

Uma das imagens mais reproduzidas do Schopenhauer é aquela pintada por Jules Lunteschütz. O velho filósofo ameaça um sorriso indecoroso, os cabelos estão desgrenhados, parece querer matar alguém. É o retrato de um homem ambíguo, pessimista, infeliz, resignado.

O Schopenhauer é um remédio insalubre:

TÔNICO
ESTOMACAL
FORTIFICANTE
ANTI-ESPASMÓDICO
ANTI-DISPÉTICO
ANTI-NERVOSO

Pode-se tomá-lo com bebidas alcoólicas.

Aconselha-se ler o Schopenhauer com luvas de boxe. O leitor é, portanto, um pugilista. O Schopenhauer descarrega-lhe duas cacetadas. Felizmente o precavido leitor usava também um elmo, porque, do contrário, ter-se-ia de lamentar alguma desgraça.

O lado positivo da ira de Schopenhauer — efeitos colaterais. Para o escritor, o pessimismo de Schopenhauer pode bem levá-lo a querer criar vários outros mundos: bom para a imaginação. Um escritor assim seria um tipo muito feliz, porque jamais se entediaria. Constrói um castelo para si, coloca ali reis, rainhas, condes, príncipes, vassalos. Observa as intrigas dos habitantes do castelo. Depois derruba o castelo para construir um hotel em Budapeste, ou uma penitenciária em Frankfurt, ou uma quinta no Brasil.

Experimenta o Schopenhauer.


» 58ª volta ao redor do sol

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Ser escritor no Brasil, desagradável terreno da realidade — e não sou eu que quero interromper o sr. de Guesclin, é a condessa

(Un breve relato sobre ayer — para mi amiga Cristina, que, como yo, prefiere las ventanas.)

É melhor evitar os afetos
por escritores brasileiros
eles esperneiam muito
e depois é uma tristeza
para o coração.

Dia seguinte, dor de cabeça, ressaca moral. Após lançamento de relativo sucesso, boa vendagem etc. etc., o escritor passa por uma crise. O que sempre pressentira ficou mais do que evidente: ele não sabia por que tinha se tornado escritor. Resultado: as pessoas elogiam o livrinho que ele ajudara a escrever, mas ele nada sente. Está vazio por dentro, o escritor. Ele é talvez um bom romancista, mas agora detesta o que escreve.

Lançar livro de literatura no Brasil é um pouco como voltar para a escola e ter de apresentar trabalho sobre o Pedro Álvares Cabral: a professora presta atenção, a mocinha que está apaixonada por você também presta atenção, alguns cinco ou seis coleguinhas fingem que prestam atenção, mas a grande maioria da turma está ocupada com outras coisas.

A descoberta da solidão do escritor brasileiro, o drama vital do escritor brasileiro, o valor e a intensidade da obra do escritor brasileiro, o perigo da inautenticidade, o refúgio insalubre no geral e no anônimo (estou a citar Unamuno para agradar à Cristina), a deriva para o esteticismo como fuga perante a dificuldade de viver. E assim vai…

Seja claro, escrevinhador.

O Brasil obriga os pobres escritores a tornarem-se palhaços, sob pena de morrerem de fome. Não se despende uma nota de dinheiro em subsidiar uma obra literária, nem em formar uma biblioteca que mereça deveras esse nome. (Duma época mais optimista.)

Dizem que se o Schopenhauer fosse vivo, adotar-me-ia. Mas sobre isso falaremos depois…

— P. R. Cunha


Quando termina (livro)
Márcio Tasso aponta para o livro Quando termina, dos escritores P. R. Cunha e Paulo Paniago (Fotografia: Marcella Souza)