Rumo às cordilheiras («y la medida de mi amor viajero»*)

Há duas coisas que realmente dão-me cabo da cabeça quando viajo: carregar mala e esperar meios de locomoção (aeronaves, comboios, autocarros, táxis etc.). As esperas até que podem ser preenchidas com literatura passageira, jogo de xadrez para telemóveis (obrigadíssimo, Chess.com), lanche, café, anotações sobre «odiar esperar», aquele sentimento de vazio, de inutilidade, tempo perdido. Mas a mala, não. Da mala ninguém escapa. É preciso carregá-la, arrastá-la, amassá-la, aturá-la, não importa o sítio ao qual se vai. Se posso dizer que aprendi alguma filosofia das minhas jornadas anteriores foi isto: concisão. Levar na bagagem apenas o necessário, o imprescindível — quase como se eu estivesse a ir de férias para as trincheiras de um campo de batalha. Comento orgulhosamente com a Jéssica a respeito do tamanho da minha mala (sem dúvida um belíssimo exemplo de optimização espacial) mas ela faz cara de desconfiada: não quero que fiques repetindo as mesmas roupas, hein, vê lá… Oh!, minha adorável criatura, a título de evitar um estágio desnecessário de carregador de bagagens, digo-te que certas repetições mostrar-se-ão inevitáveis. 

AVISO PRÉVIO: pelos vistos este que vos escreve pretende permitir-se momentos de errância andina durante as próximas semanas. O blogue, portanto, hiberna-se até à volta. 

¡Adiós!

— P. R. Cunha


*Trecho do soneto No te quiero sino porque te quiero, Pablo Neruda.

Um «livro por vir»

O fotógrafo aponta a própria câmera para determinado sítio & captura (prende/encarcera/enquadra) a cena. Uma imagem colorida mostrará as tonalidades dos elementos fotografados: a praça central, Poeta sentado em banco de madeira (pintado de verde por funcionários da prefeitura) a segurar caneta azul, bloquinho de notas com capa vermelha — estão ali!, podemos ver. Certa agressividade no ato de fotografar: gostava que a caneta fosse preta, e que o banco não tivesse sido pintado; mas foi pintado, e a caneta (quer queira quer não [assim nos mostra a cena revelada]) é azul, a capa do bloquinho é vermelha &tc.

Tênue mudança de perspectiva: pode-se analisar o enquadramento de acordo com o ponto de vista de Poeta — que também captura cena, uma cena parecida com a do fotógrafo, mas invertida, noutra direção, como um espelho consciencioso. Acontece que Poeta possui outros filtros além do mero reconhecimento dos fótons de luz (o aspecto técnico/mecânico do aparato fotográfico). O olho de Poeta é também influenciado pelo «coração» (figura medieval/romântica: os sentimentos vêm do coração [quando, em verdade {sabemos}, são consequências químicas monitoradas pelas atividades cerebrais]). A imagem capturada por Poeta (a poética, dir-se-ia) saíra propositadamente distorcida (de acordo com o contexto, com as circunstâncias & não só). Cores mais taciturnas se Poeta em luto; atmosfera calorosa se a paixão arrebata os alicerces emocionais do sujeito.

Portanto, melhor dos mundos: um Fotógrafo-Poeta (ou Poeta-Fotógrafo) que se livrasse das tornozeleiras do senso comum, que trabalhasse com pixels & palavras — metafotografia/metapoesia/metamorfose.

— P. R. Cunha

Este desejo louco de fazer haikus enquanto seguro um martelo

Casa vazia, relativo silêncio, atmosfera aprazível — aproveitar enquanto não vêm ruídos, humanos, livros guardados (por enquanto), uma folha de papel, lápis à moda antiga, o relógio da parede que não deixa esquecer que o tempo é um maratonista de longas distâncias.

1.
menino
à janela ——
chora a chuva

2.
leitura de um romance
o nada finlandês
autocarro atrasado

3.
arvores abatidas
perfume de benzina
(outro) inverno em Brasília

— P. R. Cunha

Forças Armadas

prcunhaoffice

Poeta escondido escrevia sinceros poemas sobre todas as coisas. Sentia-se à vontade para enaltecer o mar, o padrão amarelo e preto de uma abelha ligeiramente zangada, ou perceber o despretensioso movimento das asas da cotovia matinal. Mas um dia comentaram por alto que o comandante das Forças Armadas estava obcecado pela poesia de Poeta — o que, naturalmente, restringiu sobremaneira a sua capacidade de escrever poemas.

— P. R. Cunha

Se tiver de ser, que seja

O poema de amor
o poema sobre o amor
—— metapoema portanto
excessivamente feliz
excessivamente triste
só se escreve ao início
quando o sentimento
escancara portas & janelas
ou ainda mais só
ao fim
com aquela dor estranha no peito
que refugia a alma para o abismo.
Um amor que por vezes leva
trinta anos
noutras
pode acabar
no dia seguinte.
Enquanto dura
perdura?
Não se faz a ideia.
Não se pensa.
Não se reflete.
Um amor que não é matemática.
Nem gramática.
Mas tem o seu tempo
a sua soma ———
e não precisa de sobreviver
para além disso.

— P. R. Cunha

Tentativas de compreender o funcionamento das rodas da minha bicicleta

Enquanto pedalo
a minha bicicleta
fico a pensar que ela
e eu estamos suspensos
sobre duas rodas
com raios de alumínio
a convergir para
um círculo central.
O círculo central da roda
suporta o peso da bicicleta
e de quem está montado nela
— no caso: eu.
Quando olhamos
a uma distância adequada
percebemos com clareza
que a roda da bicicleta
é feita majoritariamente
de espaços vazios.
Mas qualquer um que procure
sentido nisto, só pode se decepcionar.

— P. R. Cunha

Outras tentativas (um bocadinho frustradas) de esgotamento de uns locais niteroienses

Ir a um café em Niterói ——
entra no café
faz postura de quem vai
escrever trechos edificantes
de um romance inovador
e não escreve nada
escutar [somente] e fazer postura
de quem vai escrever.

Música aleatória;
Café aleatório;
Cidade aleatória;
Isto não é um poema.

Toda a sorte de ruídos: máquinas de café espresso, o choro de uma bebezinha, dois adolescentes que pretendem ir ao McDonald’s na sexta-feira, a pensionista que faz as palavras cruzadas em voz alta (os lábios da pensionista movem as possíveis respostas), os talheres, os copos, as teclas do computador de um executivo apressado.

Algumas vezes tu escreves num café, noutras ——— não.

Aqui (i.e.: nível do oceano) a manteiga é diferente. MOTIVOS/HIPÓTESES: maresia; as coisas que provamos longe de casa sempre têm outros gostos etcétera.

Use o assento para flutuar (seat bottom cushion [for flotation]): reflexões atmosféricas

Havia época —— penso em 1924 —— em que as pessoas viajavam maioritariamente de navio. Hoje, as pessoas preferem as aeronaves [airbus].

Não se agitam mais os braços de despedida. Viajar tornou-se tão banal quanto o dobrar de uma esquina. Alguém diz: vou viajar ———— e pensa-se na imagem de quem vai ali comprar o pão.

Quem poderia dar nomes às naves aéreas sucateadas do século XXI? Os navios tinham/têm nomes, eram/são batizados por reis e rainhas e gentes notáveis. Se algum afundava/afunda, os jornais escreviam/escrevem: Martha afundara, o Santa Catarina naufragou-se no irascível Atlântico. Os aviões têm números —— são números.

Se o avião cai, há poucos sobreviventes [não é bem o medo de morrer, mas o medo de desesperar-se antes de morrer]. Toda a gente perde a dignidade quando despenca das nuvens. Isto é certinho.

P.S.:

Nomes, cores, e outros aspectos relevantes dos autocarros de Niterói; enquanto sentado à mesa da «Atlântica – padaria & confeitaria» [desde 1957]. Transoceânico, Pendotiba, 2.1.014, Miramar, Jurujuba/Cachoeira, verde-limão, outra linha observável: 2.3.032. Viação 1001, azul-claro e branco (os números [1001] pintados de vermelho, borda branca). Expresso Garcia, suspensão a ar, azul (tons marítimos) e branco. Transnit, Araçatuba/Brasília, três tons de vermelho. Brasolisboa first class, cor de laranja. O que se comeu: misto preparado na hora (pão francês), um cafezinho — carioquinha, obviamente. Acompanhamentos: biscoitinho de natas + copo de água com gás. 16h38. Clima ameno. 

(o que há ao lado da atlântica – padaria & confeitaria uma banca de jornais e revistas tipicamente niteroiense [cinza com faixas amarelas nas laterais] em destaque uma revista sobre o poder do pensamento positivo e a edição vespertina do jornal extra uma motorizada barulhenta buzina ao atravessar o cruzamento.)

— P. R. Cunha