devaneios da própria máquina de escrever (episódio #37)

em um dos eventos mais (quiçá o mais) emblemático da poesia romântica, coleridge & keats apertam as mãos em sinal de reverência mútua. meses depois, ainda sob os efeitos inebriantes do encontro, coleridge confessaria: «senti a morte naquela mão».

trecho do poema A BOLA (inédito & [propositadamente] incompleto)

o escritor segura a caneta
tal jogador domina a bola
apenas o instrumento de trabalho
nada quer dizer
se dentro de si o ar se perde
pressão atmosférica
há pelés, ronaldos,
maradonas, zidanes, baggios,
a mesma bola, mas quanta diferença
no tratar, no jogar, no drible, no gol
a pena literária, igual:
paveses, sebalds, machados,
barretos, styrons —
como pode
é a mesma caneta
a mesma bola
mas outras mãos
outros pés
& o abismo interior
a dividir os meios.

— p. r. cunha

Alan Villela Barroso, o Poeta Vitalício

EMERGENTE – ATESTADO DE ÓRBITA: Comunicamos, a quem não interessar prosa, A morte do Poeta Vitalício: o fardo de um bardo; navegante em rio de passagem, avante ao padecimento lírio, em sua vital existência poética. Neste atestado de órbita, o autor narra dor e cor; purifica-se no delíquio da poesia. “Amor ou a Morte? Amar ou à Marte?”
(VITALÍCIO, Poeta)

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Às vezes acontece de andarmos distraídos. Assobiamos, observamos os autocarros, o avião que corta o azul do céu, a sombra oblíqua de uma árvore a esconder o ninho de um rouxinol. E daí nos deparamos com certas pessoas que — talvez ainda não saibamos, mas… — de muitas maneiras irão fazer desta maratona a que chamamos vida uma jornada mais gratificante, menos tinhosa. Seres humanos, ou melhor, artistas, sim, artistas talentosos que utilizam múltiplos canais para compartilhar a própria alma, pois sabem que uma só mídia mostrar-se-ia insuficiente diante da ebulição de tantos verbos, e traços, e sons.

Em dois mil e dezoito tive a sorte de encontrar nesta cyberselva um espécime dessa natureza. Um cordis poeta que com sensibilidade à Velázquez consegue pintar versos permanentes, que ecoam, orbitam a atmosfera do nosso coração muito tempo depois de serem apreciados. 

Estou a escrever aqui a respeito de Alan Villela Barroso, autor das narrativas de um padecimento poético. Numa sentença que, embora antiquada, descreve bem o livro: coletânea revigorante, antídoto para este tempestuoso período pelo qual o pobre Brasil se molha a torto e a direito — em cujas orelhas intrometi estes termos:

OS FANTASMAS SEMPRE VOLTAM

por

p. r. cunha (julho de 2019)

à primeira vista pode não parecer
mas é isto uma resenha de
a morte do poeta vitalício – narrativas
de um padecimento poético livro de
alan villela barroso que talvez
muito provavelmente seja
a melhor coisa que aconteceu à
poesia brasileira desde os irmãos
de campos (HAROLDO & AUGUSTO)

artista
pesquisador
professor
músico
ilustrador
gosta de pedalar a própria
bicicleta algures
mora em leopoldina-mg
interior
mas perto o bastante
do oceano para sentir
ah, mar
e cia.

alan villela barroso é poeta
e não só

a tranquilidade da morada
poética ou algumas breves reflexões
(à guisa de introdução)
henry david thoreau SÉC. XIX
perturbadíssimo com o barulho da
locomotiva a invadir a simplicidade
eloquente do campo
o espécime literário em busca de
um qualquer esconderijo
longe das balbúrdias industriais
e tantas vezes a frustração
certa impossibilidade de se
encontrar sítio adequado às práticas da
como se costuma dizer
alma

mas feliz aquele
(este é w. wordsworth)
feliz
aquele que se encontra
que consegue dialogar com a própria
geografia e tem/cria tempo
para lutar contra os excessos
contra as explicações pormenorizadas
[toda a gente quer tudo explicadinho
interpretado mastigado]

é fácil imaginar alan debruçado
sobre poesias enquanto a chuva
tamborila despreocupadamente
ao telhado
de sua casa

o poeta que no silêncio estival
lê e escreve
e ensina e olha para o céu
sim amiúde
para o universo
que se expande em
múltiplos versos

escutemos a voz do poeta:

meu mudo
meu canto
meu pedaço de só
(pág. 29)

arranhou o dia
era Sol que me faltava
(pág. 39)

alan
que nos faz lembrar
e matar saudades de
galáxias e das experimentações
de haroldo de campos
isto não é um livro de viagem
alan que também faz dançar
música & poesia
que trilha
sonoramente
(recordemos j. cage
anton von webern
alban berg os gênios
ultrabreves)
a arte radical do silêncio
mesmo que consigamos
ainda
escutar sons

alan
que também alonga os intervalos
faz respiros com ilustrações
traços que não aborrecem
não procuram acrescentar o óbvio
mas antes dialogam & recriam
«pouco em quantidade
muito em qualidade»

a morte do poeta vitalício – narrativas
de um padecimento poético é um livro
sobre a importância de se olhar
às estrelas
ao campo
aos acordes
musicais
para dentro de si

uma biografia da prática
cotidiana das anotações
(do notar [fora] do notar-se
[dentro])
o contato com as naturezas
ondas que vão-e-vêm
os ciclos cósmicos
por vezes tão terrenos

é ir-se sem sair do lugar
a singularidade que se faz sentir
quando o leitor afasta-se
momentaneamente do
padecimento poético
agradável inquietação
questionamentos aos sussurros
como se alan cantasse aos ouvidos
«sugiro-te uma caminhada
aqui fora»

& não seria esta a importância
da poesia
principalmente em tempos
conturbados como estes:
lembrar-nos daqueles
& daquilo que amamos
orientar-nos na tempestade
nos mares
ou nas entranhas do próprio coração?

alan villela barroso
bússola vitalícia
disponível aos náufragos
basta abrir
— ler e ouvir.


A morte do Poeta Vitalício – narrativas de um poético de Alan Villela Barroso está disponível à loja do sítio web do autor (clica aqui).

 

Rumo às cordilheiras («y la medida de mi amor viajero»*)

Há duas coisas que realmente dão-me cabo da cabeça quando viajo: carregar mala e esperar meios de locomoção (aeronaves, comboios, autocarros, táxis etc.). As esperas até que podem ser preenchidas com literatura passageira, jogo de xadrez para telemóveis (obrigadíssimo, Chess.com), lanche, café, anotações sobre «odiar esperar», aquele sentimento de vazio, de inutilidade, tempo perdido. Mas a mala, não. Da mala ninguém escapa. É preciso carregá-la, arrastá-la, amassá-la, aturá-la, não importa o sítio ao qual se vai. Se posso dizer que aprendi alguma filosofia das minhas jornadas anteriores foi isto: concisão. Levar na bagagem apenas o necessário, o imprescindível — quase como se eu estivesse a ir de férias para as trincheiras de um campo de batalha. Comento orgulhosamente com a Jéssica a respeito do tamanho da minha mala (sem dúvida um belíssimo exemplo de optimização espacial) mas ela faz cara de desconfiada: não quero que fiques repetindo as mesmas roupas, hein, vê lá… Oh!, minha adorável criatura, a título de evitar um estágio desnecessário de carregador de bagagens, digo-te que certas repetições mostrar-se-ão inevitáveis. 

AVISO PRÉVIO: pelos vistos este que vos escreve pretende permitir-se momentos de errância andina durante as próximas semanas. O blogue, portanto, hiberna-se até à volta. 

¡Adiós!

— P. R. Cunha


*Trecho do soneto No te quiero sino porque te quiero, Pablo Neruda.

Um «livro por vir»

O fotógrafo aponta a própria câmera para determinado sítio & captura (prende/encarcera/enquadra) a cena. Uma imagem colorida mostrará as tonalidades dos elementos fotografados: a praça central, Poeta sentado em banco de madeira (pintado de verde por funcionários da prefeitura) a segurar caneta azul, bloquinho de notas com capa vermelha — estão ali!, podemos ver. Certa agressividade no ato de fotografar: gostava que a caneta fosse preta, e que o banco não tivesse sido pintado; mas foi pintado, e a caneta (quer queira quer não [assim nos mostra a cena revelada]) é azul, a capa do bloquinho é vermelha &tc.

Tênue mudança de perspectiva: pode-se analisar o enquadramento de acordo com o ponto de vista de Poeta — que também captura cena, uma cena parecida com a do fotógrafo, mas invertida, noutra direção, como um espelho consciencioso. Acontece que Poeta possui outros filtros além do mero reconhecimento dos fótons de luz (o aspecto técnico/mecânico do aparato fotográfico). O olho de Poeta é também influenciado pelo «coração» (figura medieval/romântica: os sentimentos vêm do coração [quando, em verdade {sabemos}, são consequências químicas monitoradas pelas atividades cerebrais]). A imagem capturada por Poeta (a poética, dir-se-ia) saíra propositadamente distorcida (de acordo com o contexto, com as circunstâncias & não só). Cores mais taciturnas se Poeta em luto; atmosfera calorosa se a paixão arrebata os alicerces emocionais do sujeito.

Portanto, melhor dos mundos: um Fotógrafo-Poeta (ou Poeta-Fotógrafo) que se livrasse das tornozeleiras do senso comum, que trabalhasse com pixels & palavras — metafotografia/metapoesia/metamorfose.

— P. R. Cunha

Este desejo louco de fazer haikus enquanto seguro um martelo

Casa vazia, relativo silêncio, atmosfera aprazível — aproveitar enquanto não vêm ruídos, humanos, livros guardados (por enquanto), uma folha de papel, lápis à moda antiga, o relógio da parede que não deixa esquecer que o tempo é um maratonista de longas distâncias.

1.
menino
à janela ——
chora a chuva

2.
leitura de um romance
o nada finlandês
autocarro atrasado

3.
arvores abatidas
perfume de benzina
(outro) inverno em Brasília

— P. R. Cunha

Forças Armadas

prcunhaoffice

Poeta escondido escrevia sinceros poemas sobre todas as coisas. Sentia-se à vontade para enaltecer o mar, o padrão amarelo e preto de uma abelha ligeiramente zangada, ou perceber o despretensioso movimento das asas da cotovia matinal. Mas um dia comentaram por alto que o comandante das Forças Armadas estava obcecado pela poesia de Poeta — o que, naturalmente, restringiu sobremaneira a sua capacidade de escrever poemas.

— P. R. Cunha

Se tiver de ser, que seja

O poema de amor
o poema sobre o amor
—— metapoema portanto
excessivamente feliz
excessivamente triste
só se escreve ao início
quando o sentimento
escancara portas & janelas
ou ainda mais só
ao fim
com aquela dor estranha no peito
que refugia a alma para o abismo.
Um amor que por vezes leva
trinta anos
noutras
pode acabar
no dia seguinte.
Enquanto dura
perdura?
Não se faz a ideia.
Não se pensa.
Não se reflete.
Um amor que não é matemática.
Nem gramática.
Mas tem o seu tempo
a sua soma ———
e não precisa de sobreviver
para além disso.

— P. R. Cunha