Alan Villela Barroso, o Poeta Vitalício

EMERGENTE – ATESTADO DE ÓRBITA: Comunicamos, a quem não interessar prosa, A morte do Poeta Vitalício: o fardo de um bardo; navegante em rio de passagem, avante ao padecimento lírio, em sua vital existência poética. Neste atestado de órbita, o autor narra dor e cor; purifica-se no delíquio da poesia. “Amor ou a Morte? Amar ou à Marte?”
(VITALÍCIO, Poeta)

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Às vezes acontece de andarmos distraídos. Assobiamos, observamos os autocarros, o avião que corta o azul do céu, a sombra oblíqua de uma árvore a esconder o ninho de um rouxinol. E daí nos deparamos com certas pessoas que — talvez ainda não saibamos, mas… — de muitas maneiras irão fazer desta maratona a que chamamos vida uma jornada mais gratificante, menos tinhosa. Seres humanos, ou melhor, artistas, sim, artistas talentosos que utilizam múltiplos canais para compartilhar a própria alma, pois sabem que uma só mídia mostrar-se-ia insuficiente diante da ebulição de tantos verbos, e traços, e sons.

Em dois mil e dezoito tive a sorte de encontrar nesta cyberselva um espécime dessa natureza. Um cordis poeta que com sensibilidade à Velázquez consegue pintar versos permanentes, que ecoam, orbitam a atmosfera do nosso coração muito tempo depois de serem apreciados. 

Estou a escrever aqui a respeito de Alan Villela Barroso, autor das narrativas de um padecimento poético. Numa sentença que, embora antiquada, descreve bem o livro: coletânea revigorante, antídoto para este tempestuoso período pelo qual o pobre Brasil se molha a torto e a direito — em cujas orelhas intrometi estes termos:

OS FANTASMAS SEMPRE VOLTAM

por

p. r. cunha (julho de 2019)

à primeira vista pode não parecer
mas é isto uma resenha de
a morte do poeta vitalício – narrativas
de um padecimento poético livro de
alan villela barroso que talvez
muito provavelmente seja
a melhor coisa que aconteceu à
poesia brasileira desde os irmãos
de campos (HAROLDO & AUGUSTO)

artista
pesquisador
professor
músico
ilustrador
gosta de pedalar a própria
bicicleta algures
mora em leopoldina-mg
interior
mas perto o bastante
do oceano para sentir
ah, mar
e cia.

alan villela barroso é poeta
e não só

a tranquilidade da morada
poética ou algumas breves reflexões
(à guisa de introdução)
henry david thoreau SÉC. XIX
perturbadíssimo com o barulho da
locomotiva a invadir a simplicidade
eloquente do campo
o espécime literário em busca de
um qualquer esconderijo
longe das balbúrdias industriais
e tantas vezes a frustração
certa impossibilidade de se
encontrar sítio adequado às práticas da
como se costuma dizer
alma

mas feliz aquele
(este é w. wordsworth)
feliz
aquele que se encontra
que consegue dialogar com a própria
geografia e tem/cria tempo
para lutar contra os excessos
contra as explicações pormenorizadas
[toda a gente quer tudo explicadinho
interpretado mastigado]

é fácil imaginar alan debruçado
sobre poesias enquanto a chuva
tamborila despreocupadamente
ao telhado
de sua casa

o poeta que no silêncio estival
lê e escreve
e ensina e olha para o céu
sim amiúde
para o universo
que se expande em
múltiplos versos

escutemos a voz do poeta:

meu mudo
meu canto
meu pedaço de só
(pág. 29)

arranhou o dia
era Sol que me faltava
(pág. 39)

alan
que nos faz lembrar
e matar saudades de
galáxias e das experimentações
de haroldo de campos
isto não é um livro de viagem
alan que também faz dançar
música & poesia
que trilha
sonoramente
(recordemos j. cage
anton von webern
alban berg os gênios
ultrabreves)
a arte radical do silêncio
mesmo que consigamos
ainda
escutar sons

alan
que também alonga os intervalos
faz respiros com ilustrações
traços que não aborrecem
não procuram acrescentar o óbvio
mas antes dialogam & recriam
«pouco em quantidade
muito em qualidade»

a morte do poeta vitalício – narrativas
de um padecimento poético é um livro
sobre a importância de se olhar
às estrelas
ao campo
aos acordes
musicais
para dentro de si

uma biografia da prática
cotidiana das anotações
(do notar [fora] do notar-se
[dentro])
o contato com as naturezas
ondas que vão-e-vêm
os ciclos cósmicos
por vezes tão terrenos

é ir-se sem sair do lugar
a singularidade que se faz sentir
quando o leitor afasta-se
momentaneamente do
padecimento poético
agradável inquietação
questionamentos aos sussurros
como se alan cantasse aos ouvidos
«sugiro-te uma caminhada
aqui fora»

& não seria esta a importância
da poesia
principalmente em tempos
conturbados como estes:
lembrar-nos daqueles
& daquilo que amamos
orientar-nos na tempestade
nos mares
ou nas entranhas do próprio coração?

alan villela barroso
bússola vitalícia
disponível aos náufragos
basta abrir
— ler e ouvir.


A morte do Poeta Vitalício – narrativas de um poético de Alan Villela Barroso está disponível à loja do sítio web do autor (clica aqui).

 

Tentativas de compreender o funcionamento das rodas da minha bicicleta

Enquanto pedalo
a minha bicicleta
fico a pensar que ela
e eu estamos suspensos
sobre duas rodas
com raios de alumínio
a convergir para
um círculo central.
O círculo central da roda
suporta o peso da bicicleta
e de quem está montado nela
— no caso: eu.
Quando olhamos
a uma distância adequada
percebemos com clareza
que a roda da bicicleta
é feita majoritariamente
de espaços vazios.
Mas qualquer um que procure
sentido nisto, só pode se decepcionar.

— P. R. Cunha

Porque é óbvio que nem toda a gente vive da mesma maneira

Ele andava de um jeito engraçado, como se estivesse prestes a levitar, ela segurava o braço direito dele com suavidade, ternura. Eles tinham acabado de tomar sorvete & depois de ela tanto insistir ele finalmente aceitou levá-la para conhecer o apartamento em que ele morava há quase um ano. Eles pararam à portaria, ele a abraçou & disse: passo importante, este. Ela sorrira. Ele ajeitou os cabelos dela. Entraram no elevador, ele tirou as chaves do bolso da calça. Antes de destravar a fechadura do apartamento ele olhou para ela: tens a certeza de que queres mesmo fazer isto? Ela consentira com a cabeça, os olhinhos a brilhar. Ele então abriu a porta & como se fosse um guia turístico explicando as peças de um museu estranho começou a mostrar todos aqueles livros jogados, centenas, milhares de livros, no chão, nas prateleiras de madeira clara, sobre o sofá de três lugares perto da escrivaninha — também amarrotada de livros —, livros em cima do fogão, livros em cima da pia, livros na cama, centenas e milhares de livros, é importante repetir, Francisco de Moraes, Le Carré, Virginia Woolf, Pinker, Ballard, Starobinski, Horgan, Panek, Austen, Kafka, Mendes Campos, Cheever, Plath, Camus, Baudelaire, Beauvoir, Harari, Eco, Melville, Begley, Haroldo de Campos, &tc. &tc. &tc., livros em cima do rádio, livros dentro do banheiro, livros, em suma, para tudo quanto é lado, & parecia que ele tinha sempre uma anedota a fazer sobre esses livros, ou uma história edificante sobre esses livros, ou uma lembrança que determinada coleção oitocentista lhe trazia, & quando ele finalmente parou para respirar, como se diz, quando ele percebeu que desde que começou a falar sobre esses livros todos não dera a mínima atenção para ela, quando ele decidiu olhar para ela, portanto, ela que ficara em absoluto silêncio durante as explicações dele sobre todos esses livros, quando ele finalmente se voltou para observá-la, ele definitivamente não estava nem um pouco preparado para o que viu.

— P. R. Cunha