Rouxinol — & quando se percebe que a poesia (mundo das coisas que não se expressam, a não ser que sejam bem expressas / mundo dos poetas, mundo dos escritores [é Thomas Mann]), quando se percebe, portanto, que a poesia não é para tratar dos outros, mas sim para curar o próprio coração

Houve tarde
em que Rouxinol
deixara de cantar
naquela noite
morreu-se.

— P. R. Cunha

A certeza de que nada será como antes

(Brasília, fevereiro de 2018)

Em miúdo
lá estão papá
e mamã
o sorriso indiscreto
do vovô
a merenda embalada
da vovó

Adolescência
anos de juventude
o primeiro beijo
a primeira música
o primeiro amor
a primeira poesia
as primeiras angústias

Então vêm universidade
mercado de trabalho
temor da morte
fracassos & sucessos
ganhos & perdas
a certeza de que nada
será como antes

Agora os dias
mais lentos
morosos
como um coração anestesiado
que bate por formalidades.

— P. R. Cunha

Brasília-DF

Nasci em Brasília, um fim do mundo mais jovem do que meus pais cariocas. Hoje, às portas da trigésima terceira volta ao redor do Sol, consigo compreender melhor que faz parte da minha «essência ambivalente» (na falta de outros termos) ser um bocado ríspido quando falo/escrevo sobre esta quinta de concreto e árvores com troncos tortuosos. Esta cidade com um futuro que nunca chega, que sempre foi minha e que nunca será completamente minha. Mas se você estiver atento o bastante, Brasília pode até lhe transformar num poeta de seis andares, a modificar as cores do asfalto — cinza.

Dedico este poema à Thaysminy Marques Coelho, que melhor compreende a capital federal.

ASFALTO VOLTADO PARA O CÉU
(Inverno de 2018)

Penso em Brasília
o automóvel a chegar
sempre antes de toda a gente

Duas asas —
eixo monumental
asfalto voltado para o céu

Penso em Brasília
nas feridas
que já não saram

N’um dia nublado
sem saber se lá estão nuvens
ou lamentos triviais

Pois em Brasília
queria encontrar-me
E com mais ninguém.

— P. R. Cunha

Aqui só poderá brindar com corações de há muito rachados

Porque escreve
à Primavera,
flores abatidas
pelo verbo
do escritor.

Alheamento: o Brasil numa crise terrível, enquanto eu cá a escrever sobre os pássaros. «A Alemanha declarou guerra à Rússia. Período da tarde, natação» — qual Kafka, o despreocupado.

Às vezes, um pássaro canta tão alto que cala todos os passarinhos à sua volta.

De um discurso proferido num pequeno-almoço entre amigos para comemorar o anúncio do Prémio Literário Aldónio Gomes — o falante: vestido a rigor, casaco preto desportivo, calças jeans, sapatos confortáveis, bebe vodca de um só trago, serve-se outra vez, bebe, pousa o copo, diz: tinha treze anos quando escrevi uma estória pela primeira vez. Muito mais difícil do que eu previra. [Bebe novamente, enxuga a boca com a mão esquerda.] Um sopro gelado provocou-me arrepio na espinha. Senti medo.

— P. R. Cunha

Tardinha para o Atlântico

E ninguém há-de entender mais nada — nem o Rio, nem Brasília, nem a Tristeza, nem Eu, nem Niterói.

Um eterno colocar-se em buracos, poços, situações humilhantes, menosprezar-se, fracassar, para depois escrever, sim, sempre a escrita, a ver se ela lhe tira desses abismos; sempre foi assim, desde pequeno. Passar a vida inteira sobre os papeis, com uma caneta queixosa, satisfazendo a própria demanda por literaturas. Fluxo inesgotável de ideias. Onde colocar todas elas? Como organizá-las em arquivos cerebrais? 

Sem inclinações para o comércio, disseram-no, muito menos para o trabalho braçal, coloca-se a serviço da única atividade capaz de absorver as ambições de uma consciência brandamente alienada: fábrica de livros, fábrica de estórias.

Ou colisão aleatória de diferentes palavras. Surge um texto. E com mutação gramatical espontânea, produz-se universo de incertezas, mentiras, não-ditos. Há pessoas que chamam a isto Escritor —— ou Deus.

[À deriva para sudeste]
Pois que tenho no
interior um oceano
muito mais agitado

Suave, o som da maré. Então, aos poucos, com a força cumulativa de uma extinção em massa, todo aquele sentimento chegou ao fim. O que parecia mútuo, revelou-se frágil, inconstante. E o que parecia para sempre, foi apenas um por-enquanto. Etc.

Na rua, o choro de um bebezinho que ainda não fala. ————— O que sentirá?

— P. R. Cunha

Balões & Saída Norte

Boas! Este electro-sítio, residência de minhas loucuras, completa hoje três meses. Numa palavra: o blogue ainda vive e respira — assim como o próprio autor. E, o que é mais, há-de continuar a respirar, se a fonte da saúde agraciá-lo com regojizo e boa disposição.

«Um maquinista gira a manivela do desvio rotativo em que estais. O menor descuido vos fará partir na direção oposta ao vosso destino», é Blaise Cendrars, citado por Oswald de Andrade — citados por mim.

Assim prossigo, com grande entusiasmo.


» Piloto / Plano / Brasília

Superquadras (SQS ––––––––– SQN)

[112 Sul]
Por trás do bloco
d’uma superquadra
guarda-se a tristeza
das coisas que não foram

[405 Sul]
Por trás do bloco
d’uma superquadra
sozinhas, as pessoas
tomam o pequeno-almoço

– – – – – – – – EIXO

[106 Norte]
Por trás do bloco
d’uma superquadra
esconde-se o Sol
que não quer mais se ver

[309 Norte]
Por trás do bloco
d’uma superquadra
por vezes há apenas
uma outra superquadra.


IMG_1465Mesa de trabalho deste autor, um seu criado


» Amantes

Certa mulher chega a casa e está a beijar o amante na sala de visitas. Ambos caminham lentamente para o quarto dela, entram no cômodo escuro e ainda não notaram que o marido da mulher encontra-se esticado sobre a cama, com os olhos cerrados. A mulher e o amante fazem uma verdadeira algazarra, mas o marido não percebe. É muito estúpido. Ou talvez…

— P. R. Cunha