Se tiver de ser, que seja

O poema de amor
o poema sobre o amor
—— metapoema portanto
excessivamente feliz
excessivamente triste
só se escreve ao início
quando o sentimento
escancara portas & janelas
ou ainda mais só
ao fim
com aquela dor estranha no peito
que refugia a alma para o abismo.
Um amor que por vezes leva
trinta anos
noutras
pode acabar
no dia seguinte.
Enquanto dura
perdura?
Não se faz a ideia.
Não se pensa.
Não se reflete.
Um amor que não é matemática.
Nem gramática.
Mas tem o seu tempo
a sua soma ———
e não precisa de sobreviver
para além disso.

— P. R. Cunha

Tentativas de compreender o funcionamento das rodas da minha bicicleta

Enquanto pedalo
a minha bicicleta
fico a pensar que ela
e eu estamos suspensos
sobre duas rodas
com raios de alumínio
a convergir para
um círculo central.
O círculo central da roda
suporta o peso da bicicleta
e de quem está montado nela
— no caso: eu.
Quando olhamos
a uma distância adequada
percebemos com clareza
que a roda da bicicleta
é feita majoritariamente
de espaços vazios.
Mas qualquer um que procure
sentido nisto, só pode se decepcionar.

— P. R. Cunha

Outras tentativas (um bocadinho frustradas) de esgotamento de uns locais niteroienses

Ir a um café em Niterói ——
entra no café
faz postura de quem vai
escrever trechos edificantes
de um romance inovador
e não escreve nada
escutar [somente] e fazer postura
de quem vai escrever.

Música aleatória;
Café aleatório;
Cidade aleatória;
Isto não é um poema.

Toda a sorte de ruídos: máquinas de café espresso, o choro de uma bebezinha, dois adolescentes que pretendem ir ao McDonald’s na sexta-feira, a pensionista que faz as palavras cruzadas em voz alta (os lábios da pensionista movem as possíveis respostas), os talheres, os copos, as teclas do computador de um executivo apressado.

Algumas vezes tu escreves num café, noutras ——— não.

Aqui (i.e.: nível do oceano) a manteiga é diferente. MOTIVOS/HIPÓTESES: maresia; as coisas que provamos longe de casa sempre têm outros gostos etcétera.

Use o assento para flutuar (seat bottom cushion [for flotation]): reflexões atmosféricas

Havia época —— penso em 1924 —— em que as pessoas viajavam maioritariamente de navio. Hoje, as pessoas preferem as aeronaves [airbus].

Não se agitam mais os braços de despedida. Viajar tornou-se tão banal quanto o dobrar de uma esquina. Alguém diz: vou viajar ———— e pensa-se na imagem de quem vai ali comprar o pão.

Quem poderia dar nomes às naves aéreas sucateadas do século XXI? Os navios tinham/têm nomes, eram/são batizados por reis e rainhas e gentes notáveis. Se algum afundava/afunda, os jornais escreviam/escrevem: Martha afundara, o Santa Catarina naufragou-se no irascível Atlântico. Os aviões têm números —— são números.

Se o avião cai, há poucos sobreviventes [não é bem o medo de morrer, mas o medo de desesperar-se antes de morrer]. Toda a gente perde a dignidade quando despenca das nuvens. Isto é certinho.

P.S.:

Nomes, cores, e outros aspectos relevantes dos autocarros de Niterói; enquanto sentado à mesa da «Atlântica – padaria & confeitaria» [desde 1957]. Transoceânico, Pendotiba, 2.1.014, Miramar, Jurujuba/Cachoeira, verde-limão, outra linha observável: 2.3.032. Viação 1001, azul-claro e branco (os números [1001] pintados de vermelho, borda branca). Expresso Garcia, suspensão a ar, azul (tons marítimos) e branco. Transnit, Araçatuba/Brasília, três tons de vermelho. Brasolisboa first class, cor de laranja. O que se comeu: misto preparado na hora (pão francês), um cafezinho — carioquinha, obviamente. Acompanhamentos: biscoitinho de natas + copo de água com gás. 16h38. Clima ameno. 

(o que há ao lado da atlântica – padaria & confeitaria uma banca de jornais e revistas tipicamente niteroiense [cinza com faixas amarelas nas laterais] em destaque uma revista sobre o poder do pensamento positivo e a edição vespertina do jornal extra uma motorizada barulhenta buzina ao atravessar o cruzamento.)

— P. R. Cunha

região oceânica –––––– nictheroy

passar por uma porta automática
galeria comercial / centro de niterói
e rir-se da preguiça contemporânea
(será que não conseguiríamos abrir
a porta sozinhos) o controle remoto
siri-alexa-cortana-bixby-alice
o sofá os telemóveis a cama
a vida deitada a cadeira a televisão
os bots a fazer automóvel
a abrir as portas (como se viu)
———— beber um copo d’água
de um recipiente que fôra
engarrafado por maquinaria
especializada ou perguntar-se
no que se tornara
o ser humano[?]

incluir na paisagem tudo o que sei
(ou aquilo que penso saber) não me
limitar apenas ao que enxergo
galeria comercial / centro de niterói
evitar conceitos prévios
cultivar percepções sensoriais
espontâneas
sem ter sido colonizado &tc.

querer abrir as portas
com as próprias mãos
e não conseguir
como deve ser horrível
sentir-se assim.

— p. r. cunha

À guisa de mudança (outras ondas)

No mês passado a câmera de segurança de determinado estabelecimento comercial capturara a luta de um jovem estudante contra 2 (dois) bandidos perigosamente armados. A luta portanto desse estudante contra os dois (2) sujeitos peçonhentos que tentavam roubar-lhe a mochila, mas o jovem estudante não queria de forma alguma ceder, isto é: desfazer-se da supracitada mochila, pois dentro dela estava um raro tratado escrito por Giacomo Casanova — coisa que os bandidos não tinham como saber, nem ao menos faziam a ideia de quem seria o tal Casanova. Apenas insistiram (os bandidos) em puxar a mochila do estudante precisando recorrer finalmente à força e à faca que um deles enfiara no dorso do gajo sem demonstrar qualquer sinal de remorso. Os jornais comentam que o sacrifício do escolar que poder-se-ia dizer arriscara a própria vida para defender Casanova inflamara/reanimara o mercado editorial (i.e. livresco) durante um par de semanas, até tudo voltar às chamadas normalidades — jovem estudante, Giacomo Casanova & obsessão pelos livros esquecidos novamente.

intrigazinha

Que o Chico Buarque tenha lá recebido o Prémio Camões antes de Gonçalo M. Tavares / walter hugo mãe / Dulce Maria Cardoso & outros parece-me um imperdoável disparate — à moda Bob Dylan Nobel da Literatura.

(…)

fechas a cortina
do teu quarto de hotel
e sentes
num repente
que poderias estar em
qualquer outro sítio.

(Anotado em dezembro de 2018 num quarto de hotel / Lisboa [ou teria sido Aveiro{?}] )

P. R. Cunha abandona momentaneamente a literatura arquitecto-construtivista da capital federal para entregar-se outras vezes às influências marítimas da sempre inspiradora cidade de Niterói, Rio de Janeiro, na América do Sul. Ocasiões em que o autor compreende que como o Caldo Primordial de compostos orgânicos, os crustáceos e os moluscos (Cephalopoda) também a sua percepção de mundo + próprio tacto com os verbos nasceram das profundezas oceânicas. Uns minutinhos de tréguas do betão/concreto armado. A aeronave nestas alturas voa já para os portos cariocas, enquanto a alma sente aos poucos o gosto salgado das imensas possibilidades náuticas — como diz P. R. Cunha pro domo sua.

— P. R. Cunha

Coração obsoleto

Estou no apartamento
que me servira de refúgio
nos últimos tempos e que
em breve será a morada
da minha avó paterna.
A sala mostra-se repleta
de caixas e livros
e toda a sorte
de miudezas de papelaria.
Vovó gosta de ler, então
talvez eu deixe cá algumas obras
mais amenas que não assustem
a sensível integridade
de uma simpática nonagenária.
Perto da minha edição comemorativa
do Palmeirim de Inglaterra
encontro um retrato de papai.
Papai tem rosto sério e
compenetrado ao esboçar
um discreto sorriso,
veste t-shirt branca e
olha com olhos atentos
para a câmera que está
a lhe fotografar.
Atrás do 3 por 4
tal dedicatória que
arranca-me não só as lágrimas
como também pedaços
deste meu já obsoleto coração:

«Ao meu filho Paulo Renato
em qualquer circunstância
eu sempre estarei do seu lado.
Pai te ama muito.»

— P. R. Cunha


papai

Poema para Tomas

Acordo de manhã cedo
e estou a fazer o pequeno-almoço
quando uma figura felina misteriosa
surge nos limites da moldura da porta
de vidro da cozinha onde fico
a beliscar o pão com geleia de frutas vermelhas
bebericando o café sem açúcar.
Quem olha para este gato
enquanto compreende-se ao sabor
da cafeína
não deixa de se maravilhar com o aspecto
do animal que tem as cores de
uma montanha de neve
a derreter sob a luz
do sol brando
geleira com faixas de pedra marrom
a surgir após um longo e melancólico inverno.
O gato visita-me vez sim vez não
vez não vez sim vez não
o bastante para eu —
com aquele distanciamento protocolar
de quem teme envolver-se de mais —
ter-lhe dado nome:
Tomas
O dócil felino fica a miar
até que a porta esteja aberta
e vem fazer carinhos nos meus pés
como forma de profundo agradecimento
pela tigela de leite que coloco lá fora.
Quando Tomas não aparece
por motivos felinos
sempre difíceis de compreender
a tigela de leite fica cheia
e vem até mim um pensamento
pensamento formado
pensamento resolvido
de que o bicho pode não voltar mais.
E é assim que vejo o Tomas
microcosmos das irregularidades
da vida.

— P. R. Cunha