Trânsitos

Mulher maia do século doze
contempla a imponente escadaria
da Pirâmide de Kukulkán
«El Castillo»
ela sorri
sente-se orgulhosa do próprio povo
que construção magnífica
não percebe que quase
novecentos anos depois
homem holandês
tira fotografias
do mesmo templo
de Yucatã
& o que antes impunha respeito
poder & adoração
agora se faz ruína
paisagem para o álbum
de lembranças digitais

Cada dia
cada nuvem
cada chuva
cada neve
cada lua
cada noite
— a estranha renovação
a certeza de que
os impérios não perduram

Nem os maias
nem os incas
nem os gigantes
de pedra vulcânica
da Isla de Pascua

Um estado confuso entre
realidade & maravilhamento

Aceitar o facto
como diria um antigo
de que todas as coisas
são passageiras
eles também
ou melhor
nós também
em quedas

Mundo transitório
mudança ininterrupta
&tc.
algo havia
mudado
para sempre

Não respires a poeira lunar

Começas com uma imagem
um plano à cabeça
mas escreves com rapidez
de acordo com os teus impulsos

Causa & efeito
evento (A) no passado
gera evento (B) no presente
que afeta o evento (C) no futuro

A –> B –> C

O tempo segue
numa linha estreita
de (A) para (C)
o futuro incerto
depende das ações
do passado/presente

Como aquele casal
taciturno
sentado no banco do parque
enquanto na superfície da lagoa
vê-se uma mão
a chacoalhar.

— P. R. Cunha

Sonhador

Para a Jéssica Fernandes Cunha

I
A rede branca
com tranças de algodão
oferece o átimo de repouso
linha do horizonte
percebem-se
aléns-fabulosos
onde todos os conflitos
estão resolvidos
mesmo que
momentaneamente

II
Um longe feito
de iras e acalmias
o brilho de uma borboleta
fugidio —
cimos de árvores
retorcidas pelas
estações imperfeitas

III
Acolhimentos futuros
a luz d’outro mundo
outra dimensão
fito o meu reflexo
na superfície ondular
da piscina
rosto estranho
como um cometa que
acabara de cair da lua
não é poeta
é ser humano.

— P. R. Cunha


Baileys Irish Cream

Um gole de Baileys
apazigua os pensamentos
em total sossego
escrevo este poema
com caneta do espírito
negra como as sombras
abre-se diante de mim
a infinitude universal
luas prateadas
o vazio entre as estrelas
que há muito já se foram
e enquanto nesta fuga imaginada
eu fixo o olhar no líquido
percebo que não é à toa
Baileys e espaço sideral
possuírem a mesma média de cor
leite cósmico
cosmic latte.

— P. R. Cunha

À janela

As janelas abafam
contradições ao longo
da autoestrada
o efeito Doppler
da motocicleta —
nuvens passageiras
levam consigo
promessas inibidas
e é o fim de
um devaneio.

— P. R. Cunha

Machine learning

As tendências tecnológicas
estão a dizer
tema inevitável
teletrabalho
teleconsultas
streaming
drones de entrega
fim dos pagamentos em notas
e moedas
o controle estatal
monitorizar pessoas
perseguir pessoas
punir pessoas
vacinar pessoas
certificados de imunidade
geolocalização
estado de vigília
enquanto isso
as ruas muito compostas
de silêncios e vazios
ressentimentos angustiados
é para o vosso bem —
gritam os megafones
é para a vossa vida —
repetem os megafones
caminhar desesperadamente
por essas avenidas sem alma
nem amor
baile de máscaras
nada agradável lembrar
esta parte do acordo
o sufoco existencial
os efeitos de curta duração
a desesperança
o jogar-se do oitavo andar
o tiro na têmpora
as overdoses
as despedidas sem holofotes
os presidiários do novo normal
mas os televisores permanecem ligados
o rosto dos telespectadores
leva um azul neon
talvez a face ingrata
do abandono
troca-se o ser
o estar-se
por segurança
fundem-se
anulam-se
para o benefício
de saúde pública
e a vossa pele agora se desfaz
qual metal derretido
o espírito depressa se degrada
percebeis:
sois um robô de silício
há bastante tempo.

— P. R. Cunha

Macchiato

Agradável tarde soalheira. Roubalivros Editora, que brevemente lançará o meu livreto de poemas incompletos, convidara-me para tomar um café virtual e conversar sobre miudezas variadas.


[Roubalivros Editora] Não gostas de dar entrevistas?

[P. R. Cunha] Não muito. Mas também não me procuram tanto para dá-las. Então acho que estamos, como se diz, quites.


[R. E.] Fruto de alguma experiência traumática?

[P. R.] Tenho certo pavor de quem fala demais. E tenho mais pavor ainda de ser eu a pessoa que fala demais. Isso ocorre com frequência. Eu falo, e falo, e falo. Acontece que quando falamos demais é porque queremos nos explicar. E a pior coisa que pode acontecer com um escritor de ficção é ser completamente compreendido. Ou compreendido além da conta. Prefiro cultivar a imprecisão, a inconveniência, e isso só é possível se conseguimos manter a distância correta.


[R. E.] A escrita sempre esteve presente na tua vida?

[P. R.] A escrita?


[R. E.] A escrita… Quero dizer: sempre tivestes na veneta a ideia de ser escritor?

[P. R.] Eu queria ser baterista de jazz. Mas acabei baterista de uma banda de post-rock. A banda parou de tocar e me deparei com o diploma de jornalista. Meu plano B era ser jornalista. Percebes como as coisas podem ser absurdas? Daí eu disse que jornalismo não dava. Jornalismo nem pensar. Estou roubado.


[R. E.] E a escrita?

[P. R.] Numa determinada altura o meu pai falou: tens que te meter em qualquer coisa na vida, moleque, não podes ficar debaixo das minhas asinhas para sempre. Papai estava certo. Então comecei a escrever para dizer que estava fazendo alguma coisa. Foi isso. E peço imensas desculpas pela falta de glamour. Comecei a escrever para enganar o meu pai.


[R. E.]
Costumas falar muito dele na tua ficção. Ainda é uma figura marcante para ti?

[P. R.] Acho que quando alguém perde o pai essa perda será sempre marcante. A diferença é que alguns perdem o pai cedo, e outros quando já estão numa idade mais avançada. Quem está numa idade mais avançada e o pai morre, a pessoa meio que joga as mãos para o alto, resignada: ora!, é o curso natural do universo. E a pessoa que está numa idade mais avançada sabe que ela também não tem muito tempo pela frente. Mas se tu perdes o pai aos 24 anos, como foi o meu caso, faz as contas…


[R. E.] Passas boa parte da vida sem pai.

[P. R.] É por aí. Tenho cá um projeto engavetado sobre o breve período em que fui ghostwriter dele. Papai tinha criado uma espécie de boletim de notícias para o hospital urológico que ele construiu e eu escrevia artigos com assuntos médicos. Depois ele assinava os textos e me pagava uma mixaria. Lembro que estávamos num café e um paciente reconheceu meu pai. Foi até à mesa só para elogiar a escrita elegante dos artigos, além de médico um ótimo escritor etc. E meu pai, sem pudores, respondeu que eram frutos de anos de prática, que em breve arrumaria período sabático para se dedicar somente à literatura, essas coisa. Era tudo muito engraçado. Meu pai era um piadista nato.


[R. E.] O projeto já tem título?

[P. R.] Sim. Chama-se: O fantasma do meu pai.


[R. E.] Quando começaste a escrever poesia?

[P. R.] O paradoxo com o qual tenho de lidar constantemente é este: não consigo existir se não escrevo, mas há épocas em que simplesmente não quero escrever. Quero estar algures. Não é falta de ideias, é estar-se saturado. Sou um escritor de ficção, de prosa. Mas se escrever se torna um aborrecimento, o jeito é lidar com as incompletudes, as migalhas, os cacos. De forma que tomo notas mesmo assim, mesmo sem querer, mesmo saturado. As notas precisam de ser curtas, dispersas, desconjuntadas. Quando passo essas notas para o computador, começo a apertar a tecla «ENTER». Organizo os fragmentos em versos. Não saberia te dizer quando foi a primeira vez que fiz algo dessa natureza. Mas são linhas motivadas pelo tédio, pela total ausência de vontades, são pequenos gemidos de socorro, vai lá.


[R. E.] O desafio seria transformar esses gemidos de socorro em algo orgânico?

[P. R.] Mesmo a ideia de transformar sugere uma qualquer edição, ou pelo menos um processo seletivo. De certeza que isto vai parecer um descaso danado, mas não me importo com nada depois que organizo os fragmentos. As escolhas só acontecem no sentido de que fico com os gemidos que gosto mais e jogo fora os gemidos que gosto menos — sem nunca modificá-los. 


[R. E.] Falando nisso, tens conseguido produzir durante a quarentena?

[P. R.] Há cerca de duas semanas recebi ligação de um amigo que também escreve. Ele contou que estava complicadíssimo trabalhar com esta pandemia toda, blá-blá-blá. Eu disse: não me venhas com essa ladainha, deixa de tolices!, Gore Vidal, Capote, Sartre, Simone de Beauvoir, Hemingway e tantos outros continuaram a escrever durante a Segunda Guerra Mundial, com Hitler, com tanques, com a Wehrmacht, com metralhadoras, com bombas sobre as cabeças. Tudo bem se não quer escrever porque está metido em outras atividades menos indecorosas, mas jogar a culpa no vírus parece-me de uma covardia brutal. Já és grandinho o suficiente para lidares com os próprios fracassos, não achas? E agora leio sobre artistas deprimidos que não dão conta de produzir porque o mundo está acabando. Tretas. Sinto informar-lhes, mas o mundo está sempre acabando.

[R. E.] E a literatura sempre a sobreviver ao fim dos tempos.

[P. R.] Taí uma bela frase de encerramento.

O glaciar

Nootaikok
é um inuíte — esquimó
ele mora no iglu
no meio de um deserto
de gelo

Nootaikok
não sabe o que é coronavírus
nunca leu sobre coronavírus
nunca escutou coronavírus
nunca discutiu coronavírus

Nootaikok
isolado numa habitação de neve
talvez seja o ser humano
mais feliz que existe

Nootaikok
que significa:
deus dos icebergues.

— P. R. Cunha

O sorriso

As árvores eram verdes
o céu, azul
uma nuvem branca
preguiçosa
aproximava-se lentamente
tinha o formato de um gigante
urso polar
o urso polar sorria
talvez porque fosse sábado.

— P. R. Cunha

O poema

Não se sabe ao certo o motivo, mas desconfia-se que Poeta tenha procurado abrigo ao oceano depois de algumas decepções verdadeiramente desestimulantes com as quais tivera de lidar nos últimos tempos. Dir-se-ia que a vista desimpedida, as ondas espumosas, os eventuais navios que cortam de forma breve e sutil a linha do horizonte mostraram-se antídotos mais que eficientes ao outrora agitado temperamento de Poeta. Agora, segundo a população local, o criador de versos é figura notável pelos seus hábitos tranquilos, rumina permanentemente nas praias junto ao mar, como um farol orgânico com a cabeça iluminada. Durante o ocaso, Poeta na areia vibra as cordas do próprio violino, e os vizinhos que porventura deixarem as janelas abertas escutarão a lacrimosa melodia — serão levados a interrogar-se se Poeta estaria a escrever algum outro poema introspectivo àquela altura.

— P. R. Cunha