Defeitos de uma era espacial

Não vivi para os anos 1960, mas lá estavam os meus avós e os meus papai & mamãe versão adolescente com os olhos arregalados na frente do ecrã a preto e branco, à espera das imagens que mostrariam o primeiro passeio lunar de sempre. Uns tipos com capacetes arredondados, trajes rechonchudos, astronautas tentando descrever a solidão e o vasto vazio da paisagem de um outro mundo; em suma: Neil Armstrong e a frase que inauguraria a então promissora filosofia da Lua: «Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade».

Par de décadas depois, com a queda do Muro de Berlim, o fim da Guerra Fria, e após o colapso da União Soviética, as ideologias (tanto à direita, quanto à esquerda) decidiram que os investimentos espaciais já não valiam tanto a pena — afinal, o mercado livre e democrático vencera a batalha econômica. Rússia e Estados Unidos cancelaram gradualmente boa parte dos projetos mirabolantes, alguns dos quais, inclusive, ruminavam a possibilidade de se construir base permanente na Lua que permitiria aos humanos uma existência menos indecorosa.

Foram promessas nas quais muitos acreditaram — os meus ancestrais (vovô mais do que todos) também acreditaram. A cultura popular, principalmente livros de ficção científica e filmes hollywoodianos, produziu imensas narrativas que mostravam o êxodo terrestre, a astúcia humana a superar todas as dificuldades lunares, literatura à Asimov em que povos daqui e povos de lá enfrentavam-se em busca de direitos específicos (gentes da Lua a querer a independência, a querer criar as próprias regras, a cortar ligações com o Grande Governador do planeta Terra etc. etc. [vide Os próprios deuses, Isaac Asimov {Editora Aleph, 2010}]).

A verdade indecorosa é que a Lua — prateado objeto celeste que inspira tanta poesia romântica — fracassara. Aos poucos, viu-se que o astro noturno estava longe de ser um algures compatível com os caprichos humanos. Qualquer que fosse o investimento, a empreitada daria tanto trabalho e seria tão arriscada que os cientistas começaram a perder as estribeiras.

Até que entramos para o século XXI, ultrapassamos a marca de sete bilhões de pessoas, a quantidade de lixo aumenta exponencialmente, as calotas polares estão a derreter, os ciclones não param de destruir, os terramotos não param de destruir, as chuvas inundam, o calor mata, as florestas ardem, os animais silvestres estão a desaparecer, a atmosfera cada vez mais poluída, até que um certo Elon Musk olha, para, senta, analisa a atual conjuntura planetária, percebe que a coisa toda é de nos pôr a cabeça à roda, que estamos a aniquilar tudo e que, sim, precisamos urgentemente de uma alternativa. O multimilionário sr. Musk aponta a miniatura do seu SpaceX para o céu e diz: precisamos de ir a Marte.

Já lá no solo marciano andam alguns robots fabricados pelas agências espaciais, como que a preparar o terreno até à chegada dos ilustres convidados, i.e.: o animal humano. E quase se consegue escutar o suspiro de alívio daqueles que estavam preocupadíssimos com o cenário apocalíptico do qual nos aproximamos vertiginosamente à medida que poluímos cada m² deste que é o nosso verdadeiro habitat. Como se dissessem: o mundo não vai bem, e daí?, o sr. Musk tem um plano, o sr. Musk vai nos levar para viver em Marte. Encaram mesmo a situação com bons olhos, tal e qual o homem que cansara de sofrer na metrópole barulhenta e decidira mudar-se ao tranquilo rancho que recebera de um tio moribundo.

Acontece que Marte não é um rancho. Marte está bem, bem longe de ser qualquer coisa aprazível. Marte é o lugar para o qual você mandaria o seu pior inimigo, e mesmo assim pensaria muitas vezes antes de praticar tamanha atrocidade.

Pode-se fazer brevemente este exercício imaginário. Pense nos lugares mais inóspitos do nosso próprio planeta… por exemplo: o Deserto do Saara e a Antárctida. Quantas pessoas moram nessas regiões? Ou melhor: quantas vezes você e a sua família reuniram-se à mesa antes das férias e pensaram: e se passássemos uns meses no meio do Saara?, ou umas semanas felizes numa cabana isolada da Antárctida com temperaturas congelantes? Certo. Agora imagine uma morada cinco, dez, vinte vezes pior do que isso. Imagine um lugar onde você tenha que passar por todas essas variações climáticas em um único dia, um lugar em que você tenha de se proteger dos raios cósmicos, um lugar vermelho, marrom, repleto de tempestades de areia, imagine um sítio desse gênero e você terá só um bocadinho da sensação de como seria mudar-se para Marte.

Não à toa os projetos arquitetônicos marcianos parecem mais desenhos de bunker de guerra do que redutos de veraneio. Mesmo aqueles que pretendem dar visuais terrestres às habitações extraterrestres acabam esbarrando-se em desafios inacreditáveis.

Michael Morris projetou algumas casas marcianas até bem fixes, mas percebe-se logo que os modelos foram criados dentro de um confortável escritório com o termostato a indicar temperaturas amenas. Morris leva em conta os perigos meteorológicos de Marte, contudo, prefere falar de um sítio que, apesar de muito hostil, pode sim oferecer o devido conforto à vida humana.

Uma casa em Marte precisa de coisas básicas como oxigênio e água, diz Morris. Provavelmente — ele continua —, provavelmente terá de se levar tanques de oxigênio, mas também de se extrair água alhures.

Sim, coisas básicas. Água, oxigênio. Coisas básicas que o próprio planeta Terra oferece aos seus habitantes e que em Marte são commodities raríssimas — aliás, ainda nem se sabe ao certo como seria feita (se é que pode ser feita) a extração de água líquida em solo marciano. Já aqui no nosso Pálido Pontinho Azul, você simplesmente chega do trabalho sem tanques de oxigênio às costas, toma um duche, prepara a própria comida, brinca com os miúdos às traseiras de casa, tudo sem ter de lutar contra raios cósmicos sedentos para lhe oferecer uma infinidade de cancros, sem ter de cavar túneis quilométricos para achar parcas gotículas de água, sem ser engolido por imprevisíveis tempestades de areia vermelha, sem ser atingido por pedras errantes que invadem um céu praticamente sem atmosfera… 

Estão a perceber a ideia?

Morar em Marte significa viver confinado dentro das coisas: dentro de cúpulas, dentro de trajes espaciais, dentro de módulos. Morar em Marte significa carregar aparatos pesados que apenas tentarão simular os benefícios naturais da Terra. Morar em Marte significa respirar por aparelhos. E por mais que tentem ilustrar o planeta vermelho como apenas mais um destino exótico ao qual a humanidade adaptar-se-ia com desenvoltura, é preciso de lembrar, sempre, que Marte é terrivelmente mortífero, claustrofóbico, assustador.

Os anos 1960 trouxeram grandes (e ingênuas) expectativas para as colônias lunares. Porém as ilusões otimistas ainda não conseguiram superar os verdadeiros desafios da empreitada. Agora, muitos apostam todas as fichas numa possibilidade marciana. Mas fazem as apostas da mesma forma que o arquiteto Michael Morris monta os projetos de casas alienígenas: a respirar o gratuito ar terrestre, a tomar um sumo de laranja fresco, a escutar o reconfortante barulho do rio que segue o próprio curso até às águas de um vasto oceano Pacífico.

— P. R. Cunha


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Que tal viver em Marte? — paisagem realista e menos estilizada do planeta vermelho / ©ScienceNewsPhotos

Ser digital — o comportamento humano como mercadoria

Cansado das barbáries terrestres,
o astrônomo vivia para o mundo da Lua.

Somos 7.6 bilhões a habitar esta errante bolota de pedra. De acordo com o portal statista.com 2.6 bilhões têm conta em alguma rede social (o Facebook, por exemplo, possui 2.23 bilhões de usuários ativos). Não é necessário recorrer a nenhuma ciência de foguete para conjecturar as possíveis direções dessa locomotiva desvairada: daqui a algumas décadas, toda a gente terá um telemóvel para chamar de seu, cada vez mais operações serão realizadas via rede web e isso faz pensar que os realizadores de filmes de zumbis não estavam assim tão distantes da realidade quando retrataram humanoides melancólicos a vagar algures com vistas a um horizonte invisível. No caso do Homo digital, fitar-se-á dispositivo de telecomunicação enquanto algoritmos (machine learning) oferecerem as devidas alternativas de: 1) consumo; 2) em quem votar nas próximas eleições; 3) por quem se apaixonar; 4) qual o trabalho mais adequado para si; 5) etc. Atualmente, a economia se mostra deveras preocupada com possíveis catástrofes naturais, com a escassez de benzina, crises hídricas. Porém, em breve, as commodities mais valiosas estarão voltadas para o «digital self». De aí, quando a ficção científica se tornar corriqueira, talvez alguém se lembre de 2018 com certa nostalgia — uma época em que ainda podíamos gozar de qualquer privacidade.

— P. R. Cunha

Como ler livros incandescentes

Uma breve pausa na publicação de Fragmentos de um romance inacabável para falar sobre universos — sideral & literário.


Dizem que todo livro de verdade é ao mesmo tempo organizador e destruidor. E aqui utilizo a palavra «verdade» da forma mais abrangente possível: substantivo feminino cujo efeito pode (e deve) variar de acordo com o contexto dos nobres leitores. Não importa se você está a ler J. K. Rowling ou Tolstói, Asimov ou Gonçalo M. Tavares, Orwell ou Machado de Assis. O livro é seu, a sensação é sua, as personagens atraem a sua simpatia, as páginas brilham e por vezes ofuscam os olhos como um sol incandescente.

Mas quão perto do sol — e dos livros — podemos chegar? 

O Sol, estrela ao redor da qual o nosso planeta viaja a incríveis 110 mil km/h, é fonte primordial de vida aqui na Terra, mas também uma bola gigantesca com capacidades destruidoras inimagináveis. 

Daqui a oito dias (dezesseis horas e quarenta e um minutos), a Nasa lançará a Parker Solar Probe, um veículo espacial com formato de lanterna — daquelas que costumávamos encontrar na dispensa dos nossos avós. Essa curiosa espaçonave foi construída para estudar as brutais atividades solares. Mas, diferentemente de outras missões com objetivos parecidos, a Parker chegará perto, muito perto mesmo da superfície do Sol*.

Os riscos, segundo a Nasa, valem a pena. Por conta da aproximação inédita, a Parker produzirá imagens muito nítidas. Ao passo que os cientistas poderão pesquisar mais detalhadamente as peculiaridades solares, além de analisar outras possíveis ameaças desse Monstro de Fogo irascível.

Parker Solar Probe: nem tão perto a ponto de incinerar-se, nem tão longe a ponto de desfocar as lentes. E com isso ela nos dá, também, uma excelente aula de literatura.

— P. R. Cunha


*6.2 milhões de quilômetros — sete vezes mais perto do que qualquer outro objeto construído por seres humanos. Ou dez vezes mais perto do que Mercúrio, o planeta mais próximo do Sol. Estima-se que a Parker Solar Probe orbitará a estrela a uma velocidade de 192 quilômetros… por segundo. É um bocado rápido.