O livro exige muita dedicação e por vezes as coisas não saem como havíamos imaginado

Série de motivos para justificar o fato de eu não ter trabalhado no manuscrito nesses últimos dias —

29 de outubro: limpeza do apartamento
30 de outubro: doente, dor no olho (esquerdo), muita chuva
31 de outubro: bicicleta para o conserto
1º de novembro: bebendo com os amigos
2 de novembro: mordido por cupim
3 de novembro: dor de cabeça, talvez por conta do veneno do cupim
4 de novembro: atividades com a Jéssica
5 de novembro: jogo de xadrez (até tarde)
6 de novembro: [ilegível]
7 de novembro: cartas/jogatina, bebedeira com os amigos
8 de novembro: cansaço (sem motivo aparente)
9 de novembro: maratona «Game of Thrones» com a Jéssica, bar à noite
10 de novembro: aspirador de pó com fio desencapado, dando choque
11 de novembro: NFL, Patriots @Titans
12 de novembro: saudades do pai
13 de novembro: aula de escrita criativa com o Ron Howard
14 de novembro: festa (cancelada) na casa da Lud
15 de novembro: feriado

— P. R. Cunha

Quarta nota #5 — quarentena galática, ou Calvin a dizer para Hobbes que a maior prova da existência de vida inteligente fora do nosso planeta é o fato de nenhum extraterrestre ter ainda se arriscado a entrar em contato conosco

§ Há muito que este electro-sítio se transformara em espaço indefinido, etéreo, no limite entre fantasia e realidade. Por vezes o próprio autor não sabe ao certo o que é o quê.

§ Franzen diz que a ficção mais puramente autobiográfica exige pura inventividade.

§ Minha resposta predileta ao paradoxo de Enrico Fermi (se o Universo é tão grande, tão velho, possui tantas estrelas e tantos planetas habitáveis… — então cadê os alienígenas?) é a hipótese Zoo. Extraterrestres tecnologicamente avançados já teriam localizado a Terra, mas decidiram não intervir, pois querem manter a nossa sociedade funcionando de maneira autônoma. Desta forma, não seríamos muito diferentes daqueles animais cuja vida acreditamos salvar ao mantê-los em reservas ecológicas específicas. Estão a nos observar e talvez até esbocem um sorriso torto diante das nossas incontáveis parvoíces.

§ «Passeio a minha casa / como leão na jaula», o trechinho é do Ruy Cinatti.

§ Antiga tradição em África: os tambores mensageiros. Percussões cujas batidas não transmitem o simples, o direto — elaboram. Se o caçador sente medo, os tambores não dirão apenas «não sintas medo», pois preferem discurso mais ativo: «Tira o coração da boca, fá-lo descer já daí, deixa de lado a angústia desnecessária, respira com destreza», etc. Os percussionistas africanos, portanto, longevos cronistas da espécie humana, que ao fim jaz de costas sobre montes de terra.

§ Stan Lee: a prova de que os super-heróis também morrem.

§ Sr. Trágico chega ao próprio apartamento para ler aquelas palavras que de tão harmoniosas, ele pensa consigo mesmo, só parecem dignas de olhos flamejantes e entendimentos sublimes. Sr. Trágico percebe que está a escalar a lombada do venerado livrinho uma traça modorrenta, mui gulosa de papel. Dá um peteleco na traça, FFFFUUUPPTTT. Certeiro. Traça voa ao longe, caindo finalmente sobre o jogo de xadrez, em cima da mesa que deveria servir às refeições. A torre branca ameaçada pelo bispo preto. Dois movimentos e xeque-mate. Mas sr. Trágico, agora um bocado distraído pela suavidade das Musas em elogios raros, ainda não percebera a ameaça real. 

§ Terminou a 11 de novembro de 1918 a guerra que supostamente deveria acabar com todas as guerras.

§ Na última segunda-feira, papai teria completado 65 idades.

— P. R. Cunha

Dois poemas sobre a nossa finitude — sem apelar às tristezas corriqueiras — e um relato ciclístico

¶Também o sonhador é prisioneiro

Dizem que o sonho
é simulação de morte
alguns praticam de mais
outros praticam de menos.

¶A sina de Jorge Luis Borges (um homem excelente)

Em vida
isolara-se
para quando
em baixo de terra
receber as devidas
condecorações.

¶Ei!, ele gritou

Ei!
ele gritou
estás montado
na minha bicicleta.

— P. R. Cunha

As preocupações do funcionário serão discutidas no devido tempo (com prólogo à moda «fire walk with me»)

Hoje o bot do WordPress, muito gentil por sinal, deu-me os parabéns porque nos últimos oito dias eu publiquei sete textos, e agora está a me enviar mensagem de encorajamento que diz: ficas on fire se compartilhas qualquer coisa esta quarta-feira. Quem nunca cedeu aos caprichos de um bot aprazível que atire o primeiro processador.


O Haroldo, assim como toda a gente, passa por dias bons & dias ruins. Ontem foi um dia bom — alta atenção sem esforço, boa produtividade na firma, conseguira regular a intensidade das próprias emoções, deixara erros & frustrações de lado. Acontece que hoje talvez o Haroldo não consiga dizer o mesmo; isto é, hoje ele não está a ter um dia bom — correio eletrônico com palavras distorcidas, a garçonete do restaurante da firma que reparara sem pudores, durante um tempo prolongado de mais para ocasiões desta natureza, garçonete que reparara, portanto, na barriga protuberante do Haroldo, a tentativa frustrada de esconder essa protuberância atrás do cinto, a elasticidade do cinto, a culpa enquanto mastigava lentamente os seis donuts com recheio de doce de leite, a grande área desmatada no cocuruto do Haroldo, área que não para de crescer, a queda excessiva de cabelo, ativação de estresse que desencadeia sentimentos & pensamentos negativos, instabilidade, quebra da concentração, impotências (moral & sexual [o «negocinho» do Haroldo tende a não funcionar nessas condições, ele se culpa muitíssimo, geralmente recorre àqueles discursos comuns tais como: ora!, isto nunca me aconteceu antes/deve ter sido um remédio que tomei/estou a investir muitos dinheiros numa multinacional &tc.), certo nervosismo, Haroldo tenta agora direcionar a atenção para assuntos mundanos, respira-inspira-respira-inspira, posição de lótus, tenta eliminar a tensão muscular, inspira-respira, mas a tensão muscular continua ali, não foi para canto algum. O Thomas, que trabalha a poucos metros do Haroldo, no Setor de Vendas & Controle de Qualidade, a quatro metros & vinte centímetros da baia do Haroldo, para ser mais exato — & a exatidão aqui é de extrema importância, sempre foi —, o Thomas levanta os olhos da tela do próprio computador & não consegue (& talvez nem queira) imaginar o que se passa na cabeça do colega, os demônios, como se diz, que o sistema neurológico do Haroldo precisa de combater dia após dia & assim por diante.

— P. R. Cunha

Antídotos literários / confissão

Uma amiga geóloga certa vez me disse que quando não estava a estudar as alterações da crosta terrestre, quando não estava, portanto, a praticar a própria geologia, ela tinha febre, sofria de tristezas, comportamentos irascíveis, neuroses prontas para atacá-la. O mesmo parecia ocorrer quando papai não exercia a medicina: tornava-se taciturno, atormentado, lembrava-se de que era apenas um homem, incontáveis adversidades o afligiam, comia pouco, falava pouco. No meu caso cheguei à conclusão de que só sei escrever — e com isso não estou a colocar juízo de valor na empreitada (isto é: se bom ou mau escritor). Há muitos seres humanos que possuem carteira de motorista mas não dirigem os automóveis com destreza; o mesmo ocorre em toda a parte, com todas as profissões. Se levarmos em consideração os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística sobre a expectativa de vida do homem brasileiro — 75,8 anos —, estou a caminhar para a metade da minha existência e sinto-me satisfeito por já ter chegado à conclusão de que só sei escrever, escrever todos os dias, e praticar também todas as outras atividades que orbitam a escrita: ler, contemplar, ouvir, pesquisar etc. etc. Se passo um dia sem escrever fico meio louco, imprudente, fraco, desgovernado, acato todas as perturbações neurológicas, apetite incorrigível, soterrado em melancolia, pouco saudável, péssima constituição, olheiras, alma (ou isso a que chamam de alma) gélida, intemperanças diversas — as dores e as mazelas e as consequências e o tempo de recuperação aumentam à medida que os dias se passam e não me sento para escrever —, frenesi, letargia, memória fraca, pouca imaginação/razão corrompida, como diria um antigo, insônia, delírios, e a escrita parece ser o único remédio, a escrita como conforto, subterfúgio, escrita-abrigo. Numa palavra: se não escrevo, vivo morto etc.

— P. R. Cunha 

Paul

Sala escassamente mobiliada. Parece um esconderijo. Parede de estantes com toda a sorte de objetos antigos. Uma mesa muito grande, inútil. Há duas pessoas. Ricardo e Francis. Ricardo anda de um lado para o outro, parece irrequieto, confuso. Francis está estendido numa velha poltrona a fumar cachimbo e a ler o jornal.

RICARDO
É de suma
importância
esperar pelo
Paul
Sem Paul
nada feito
Sem Paul
sem plano

FRANCIS
(Baforada no cachimbo, ajeita calmamente o jornal, vira o jornal para a luz do abajur, voz mansa.)
Pra já ainda
é muito cedo
Paul vem
sempre vem

RICARDO
Sempre veio
mas
desta vez

FRANCIS
(Baforada no cachimbo.)

RICARDO
Desta vez…

(Toca a campainha, Ricardo olha para Francis; Francis levanta a sobrancelha com ar de triunfo.)

FRANCIS
Não falei

(Ricardo dirige-se para a porta e abre-a.)

RICARDO
Não é Paul

FRANCIS
Não é Paul

(Maria entra.)

MARIA
Cadê Paul

FRANCIS
Não se demora
ainda é muito cedo

MARIA
Sem Paul
impossível

RICARDO
Foi o que
eu disse

FRANCIS
Não
Não foi o que
você disse

RICARDO
Como assim
foi sim
o que eu disse

FRANCIS
(Levanta-se, dobra o jornal.)
Você disse
(Imita a voz de Ricardo, teatralmente.)
Sem Paul
nada feito

RICARDO
(Coça a cabeça.)
A ideia
ora
a ideia é a mesma

FRANCIS
(Ar professoral.)
Para isto aqui
funcionar
precisamos ser
precisos
A ideia não pode ser
a mesma
A ideia precisa
ser idêntica

MARIA
Sem Paul
nada feito

FRANCIS
Exatamente

RICARDO
Desejo de mudar
sempre
a todo o momento

MARIA
(Ri, alto, à moda louca.)
Começou

RICARDO
Rachel Boyd
Bersarin Quartett
uma certa calmaria
(Ricardo dança a valsa consigo mesmo.)

MARIA
Falsa
calmaria

RICARDO
Três minutos de calmaria
pelo menos
até ao fim da música
(Continua a dançar a valsa.)

FRANCIS
Bersarin Quartett
Welche Welt

(Toca a campainha.)

RICARDO
É Paul

MARIA
Deve ser Paul

FRANCIS
Paul

(Ricardo dirige-se para a porta, abre-a, há um homem com capacete.)

HOMEM COM CAPACETE
Pizza

RICARDO
(Volta-se para a sala, confuso.)
Quem pediu
pizza?

FRANCIS
Não como pizza
em verdade
odeio pizza

MARIA
Acabei de chegar
não pedi pizza

RICARDO
Não pedimos pizza

(Homem com capacete averigua nota, lê a nota com voz abafada pelo capacete.)

HOMEM COM CAPACETE
Pizza para Paul

(Ricardo toma a nota das mãos do homem com capacete, lê a nota.)

RICARDO
Pizza para Paul

(Maria se aproxima, lê a nota.)

MARIA
Pizza para Paul

FRANCIS
Deixem entrar a pizza

HOMEM COM CAPACETE
Vinte e cinco e cinquenta

RICARDO
Como é
vivente?

HOMEM COM CAPACETE
O senhor me deve vinte e cinco e cinquenta

RICARDO
Ah
sim
claro
(Coloca a pizza sobre a mesa muito grande. Tira o dinheiro do bolso.)

HOMEM COM CAPACETE
Faltam cinquenta centavos

(Francis se aproxima, lê a nota.)

FRANCIS
Pizza para Paul

HOMEM COM CAPACETE
Cinquenta
centavos

(Sem tirar os olhos da nota, Francis entrega uma moeda para o homem com capacete.)

HOMEM COM CAPACETE
(Levanta a viseira do capacete.)
Espero que
os senhores
(Pausa, olha para a Maria.)
E a madame
(Inclina-se como faziam os antigos cavalheiros oitocentistas.)
Espero que tenham
um excelente apetite

(Francis, ainda a olhar para a nota, fecha a porta.)

FRANCIS
Pizza para Paul
(Balança a nota como se fosse um bilhete premiado.)
Pizza para Paul

MARIA
Está a enlouquecer

(Ricardo se aproxima, tenta ler a nota novamente.)

FRANCIS
A verdade é que
temos de aguardar
pelo Paul
sem Paul
não podemos

MARIA
Sem Paul
sem sentido

FRANCIS
Tudo é sempre
a mesma coisa
Com Paul
tudo é diferente

MARIA
(Suspira apaixonadamente.)
Se ao menos
Paul estivesse aqui

RICARDO
Ele já vem
antes eu achava que
não viria
mas agora já acho
que vem

FRANCIS
(Balança a cabeça, contrariado, encolhe a língua, a língua toca o céu da boca, depois a língua toca nos dentes da frente e faz um barulho tipo «tsc-tsc».)
Não teria
tanta certeza

RICARDO
Do que está a falar

FRANCIS
Acidentes acontecem

MARIA
(Olha para o Ricardo.)
Odeio admitir
mas Francis
tem um ponto

RICARDO
Uma coisa é certa
sem Paul
nada feito

FRANCIS
Nada feito

MARIA
Acidentes acontecem

RICARDO
Nunca fui muito com
a cara do Paul
sem Paul
sem plano

(Francis se joga novamente na poltrona velha, abre o jornal. Tenta ler. Não consegue.)

FRANCIS
Paul
Paul
Paul
Tudo é Paul

MARIA
Enciumou-se

FRANCIS
(Levanta-se. Joga o jornal para o chão.)
O que estou a dizer é
sei que sem Paul
não conseguiremos
mas tudo é
sempre Paul

RICARDO
Grande dependência
de Paul

MARIA
Deixem lá disso
sabemos bem
que Paul
é imprescindível

(Toca a campainha, os três gritam em uníssono: PAUL! Francis dirige-se para a porta, saltitante feito criança, abre-a.)

FRANCIS
Não é Paul

VIZINHO
Olá

(Ninguém responde.)

VIZINHO
Aqui mora o Paul?

(Ninguém responde, todos desapontados. O vizinho entra sem cerimônia. Abre a caixa de pizza sobre a mesa muito grande, come um pedaço de pizza.)

VIZINHO
(Lambe os dedos.)
Não sei se sabem

(Todos olham desconfiados para o vizinho.)

VIZINHO
Esbarrei com o Paul
ontem

RICARDO
(Incrédulo.)
Paul?

VIZINHO
Sim
ontem
à noite

MARIA
(Incrédula.)
Tem a certeza?

VIZINHO
Olha como tu falas
claro que tenho
a certeza
era o Paul
carne e osso
Paul

(Ricardo senta na poltrona velha de Francis, resignado.)

RICARDO
Sem Paul
sem plano

VIZINHO
Preciso de açúcar

(Francis vai até ao armário, tira um pacote de açúcar e entrega para o vizinho.)

FRANCIS
Bolinhos?

VIZINHO
Cookies

MARIA
Sou diabética

VIZINHO
(Faz que vai chorar e nunca chora.)
É uma grande pena

(Toca a campainha. Maria, sem pressa, dirige-se à porta. Abre a porta. Há um policial.)

POLICIAL
Amigos do Paul?

(Apaga a luz. Cai o pano. Fim.)

— P. R. Cunha

O dia em que tomei haxixe — ou quando Clarence Seedorf (ainda) tentava encantar a desconfiada torcida do Botafogo de Futebol e Regatas

Em abril de 2013 fui com um amigo assistir Botafogo e Sobradinho no estádio Bezerrão, Gama — a aproximadamente 30 km de Brasília. A ideia era ver o Seedorf jogar com a camisa alvinegra, mas numa altura a partida estava tão enfadonha que o meu amigo perguntou de forma descompromissada, como quem pede jujuba na farmácia: já escreveu sob efeito de entorpecentes?

Apesar de ter experimentado muitas coisas, digamos, ilícitas confesso que o ofício criativo me é mais proveitoso quando sóbrio. Vejamos… Uma ou outra canção depois de um cigarrinho de maconha e eis basicamente a minha experiência psicodélica no «fazer artístico». 

Sim, sou aquilo a que costumam chamar de careta.

Tenta escrever alguma coisa com haxixe, sugeriu o amigo enquanto o Seedorf errava um lançamento que, como diria um antigo, até a minha avó acertaria.

Dois dias depois do jogo (zero a zero) consegui o haxixe — cuja fonte, obviamente, não pretendo revelar —, tomei a erva e sentei-me para escrever. O relato, que ficara deitado para a gaveta de meias nesses últimos cinco anos, decidiu, enfim, se levantar.


Brasília, 19 de abril de 2013: haxixe

Tomei haxixe às dez da manhã, depois do pequeno-almoço. Estou agora sentado numa rede perto da piscina. O céu azul machuca os meus olhos, ao que preciso tapá-los com as mãos de tempo em tempo. Vejo aquelas sujeirinhas estranhas à moda minhoca navegarem no meu globo ocular. Nunca tomei haxixe. Tenho ao meu lado um bloquinho de notas para escrever a respeito desta experiência. Tudo o que sei sobre os efeitos desse entorpecente li nos livros dos senhores Walter Benjamin & Charles Baudelaire. Vaga sensação de premonição, angústia — ainda não sinto nada disso. Qualquer coisa de estranho, de inevitável que se aproxima — tampouco. Estou relaxado. Bloquinho de notas sobre a minha barriga. Bloquinho de notas sobe e desce de acordo com a minha respiração. Eu respiro de uma forma engraçada. E se eu tivesse uma parada cardiorrespiratória? Surgem imagens, recordações há muito tempo soterradas, às vezes prazer, às vezes dores. Minha infância foi feliz o bastante. Sensação de poder escrever o que eu quiser, qualquer coisa!, pois se algo sair dos trilhos posso sempre colocar a culpa no haxixe. Somos surpreendidos & assaltados por tudo o que acontece — um passarinho está a cantar ao longe, não gosto do canto desse passarinho, gostava que um outro passarinho maior pudesse dizer a esse passarinho menor, na língua dos passarinhos, obviamente, ei, passarinho, diria o passarinho maior, pode parar de cantar, o seu canto me irrita imenso, e eu apenas observaria o diálogo dos passarinhos, não interviria, de forma alguma, assunto de passarinhos. Surgem sensações atmosféricas: névoa, opacidade, pesadez do ar. Pesadez do ar. Pesadez. Do. Ar. A caneta caiu da rede. Grande preguiça para procurar a caneta. A caneta agora parece pesar uns cem quilos. Não consigo tirar a caneta do chão. A caneta é azul, dessas que podemos comprar no supermercado. Uma vez tentei roubar uma dessas canetas, mas não era uma caneta azul (tipo Bic), era caneta preta tipo outra coisa. Havia muita gente por perto e resolvi não roubar a caneta. Fiquei acanhado, percebes? Foi quando descobri que eu não era um criminoso. Um criminoso não daria a mínima para as gentes, para os seguranças, um criminoso de verdade apenas apanharia a caneta, colocaria a caneta para o bolso, mais natural impossível, como fazem os criminosos de verdade, como se nada tivesse acontecido. Caneta. Bolso. Sair do supermercado. Simples assim. Não fui feito para o mundo do crime. Não fui feito para nada. Estou a ser sincero agora. O haxixe me deixou sincero & sem filtros, penso. O haxixe começou a atuar. Sim, estou sob o efeito do haxixe. Escrevo sob o efeito do haxixe. Se sair baboseira, culpa do haxixe. Estou a me repetir. De tudo isso o tomador de haxixe dá conta numa forma que a maior parte das vezes se afasta muito da norma «comum». Dor de cabeça. A rede começa a me abraçar, planta carnívora. Sou um inseto dentro de uma planta carnívora cujos lábios têm formato de rede praiana. Minha mãe comprou essa rede em Cabo Frio, Rio de Janeiro. Não vou às praias de Cabo Frio há mais de cinco anos. Cabo Frio me faz lembrar de papai. Tudo o que me faz lembrar de papai me causa angústia. Não pensar em papai. Não ir a Cabo Frio. O mais comum é uma mudança ininterrupta entre estados oníricos e de vigília, um vaivém constante. Ondas, portanto. Quase morri afogado numa piscina quando eu tinha cinco, seis anos, a mão grande do meu avô puxa a minha cabeça pequena com cabelos claros. Os olhos e os cabelos dos bebês mudam de cor. Os olhos e os cabelos dos adultos perdem a cor. O cabelo do meu avô era grisalho. A mão dele me salvara de um afogamento precoce. Devo a minha vida ao vovô. O nexo entre as coisas torna-se difícil de estabelecer. Meus pais trabalhavam no hospital; médicos. Vovô ficava em casa com a gente. Vovô dizia que conseguia ver o espírito das pessoas mortas. Ficávamos sentados, vovô, meus irmãos, tenho um irmão e uma irmã, ambos mais velhos, ficávamos sentados, e vovô nos contava alguma história sobre um ou outro espírito, e a luz da sala por vezes começava a piscar, e meu vovô gritava: pare de piscar!, e a luz parava de piscar. Eu olhava para os meus irmãos, e estávamos todos naturalmente assustadíssimos, mas permanecíamos em silêncio, vovô sempre transmitira muita segurança, sabes, era esse tipo de pessoa, muitos espíritos na sala, a luz piscava, eu a me cagar de medo, mas nada de pânico, vovô está ali. O pensamento não ganha forma de palavra. Tudo é irresistivelmente hilariante. Sou um consumidor de haxixe, repito para comigo mesmo. Mundo do crime. «É curioso que a intoxicação com haxixe não tenha até agora sido estudada experimentalmente.» Acho que para quem tomou haxixe, inferno-&-céu — tudo a mesma coisa. Meu avô morreu, meu pai também morreu, eu também vou morrer. Tomo haxixe, escrevo sob efeito do haxixe. Talvez eu morra aqui mesmo, nesta rede carnívora. Estou com sono. Fecho os olhos.

— P. R. Cunha