devaneios da própria máquina de escrever (episódio #42)

robert gould estava em pé a mexer nos papéis sobre a mesa de estudos. a esposa saiu do banho enrolada na toalha: o que estás a fazer, robbie? o marido ajeitou os óculos de leitura enquanto segurava uma espécie de lista: li noventa & oito livros este ano. helen vestia a roupa de dormir: ora, muitos parabéns, robbie. não, não, não, ele disse, não é disso que se trata. helen abraçou o marido como se abraçasse uma criança perdida, deu-lhe um beijo na testa: então, do que é que se trata? ele tirou os óculos, esfregou os olhos, deu um peteleco na lista: noventa & oito livros & me sinto vazio como os diabos, como se não tivesse realizado coisa alguma. oh, robbie, ela sussurrou, oh, robbie, vamos deitar. os dois se ajeitaram na cama. robert gould apagou a luz do abajur: te contei que ontem sonhei com o meu pai? helen virou a cabeça na direção do marido: com o teu pai? sim, com o meu pai. permaneceram em silêncio. helen estava prestes a fechar os olhos quando lembrou-se da última vez em que deixara o marido a falar sozinho & no dia seguinte ele se mostrava absolutamente intratável: como… foi, o sonho? robert gould ligou a luz do abajur, colocou o travesseiro na cabeceira da cama para encostar-se: estou sentado na areia, é bem cedo, sei lá, sete, oito horas, no máximo, meu pai nos acordava muito cedo para irmos à praia, & a praia estava praticamente vazia quando chegávamos, talvez um aposentado a praticar o running, ou uma moça com trajes new wave a fazer yoga, de forma que papai pegava o melhor lugar, a melhor mesa, & logo fazia amizade com o dono da barraquinha diante da qual arrumávamos as nossas trouxas, & o resultado era que todos adoravam as conversas do meu pai, o jeito extrovertido do meu pai, & chamavam-no de chefe, sempre traziam as nossas comidas primeiro, serviam-nos o peixe frito, perguntavam para o meu pai se «tudo certinho por aqui, chefe», & meu pai dizia que sim, tudo certinho, &tc, daí lá estou eu sentado na areia, pequeno, branco, loiro, desengonçado, sunga com motivos ducktales, tio patinhas, emburrado porque eram sete horas da manhã, sonolento, colérico, enquanto papai era tratado como um rei & perguntava-me com uma voz leve, brincalhona, descompromissada, sem entender nada do meu azedume, papai perguntava-me se eu queria milho verde com manteiga, ou um potinho de salada de frutas com leite condensado, enquanto estou a observar as ondas, & não me viro para o meu pai, não viro, quero continuar a mostrar a ele que estou zangado, muito zangado, que não faz sentido acordar tão cedo para ir à praia, & no fundo eu adoraria um milho verde com manteiga, um potinho de salada de frutas com leite condensado, mas não pretendo ceder, & de birra, sem tirar os olhos do mar, apenas digo não!, não quero nada!, & consigo sentir o ar expelindo dos pulmões do meu pai, o desapontamento do meu pai, a melancolia que invade o coração dele por ser tratado com tamanha indiferença pelo próprio filho, o príncipe… helen não aguentara ouvir tudo — decidiu que lidaria com os complexos do marido no dia seguinte, ao pequeno-almoço, depois de uma noite de sono mais ou menos revigorante.

— p. r. cunha

Não abras mão de um ambiente personalizado e bonito em tua casa

Osvaldo estava a lavar louças enquanto Lucy tomava o pequeno-almoço. O nome Lucy é porque a rapariga nascera em Austin, Texas — nome estrangeiro, portanto. Osvaldo lavava as louças de um modo descompromissado, por vezes hostil, furioso. Sim, Osvaldo parecia pouco feliz. Lucy só conseguia ver as costas do Osvaldo. Ela mastigava a torrada com queijo e geleia Queensberry sabor morango e observava as costas do Osvaldo. Amiúde, o Osvaldo resmungava qualquer coisa incompreensível, chutava a porta do armário, mas a Lucy nunca achava que era a sério. Ao deixar os copos sobre o escorredor, Osvaldo refletiu se era possível amar Lucy sem tornar-se prisioneiro do amor por Lucy. Mas Lucy, como já se disse, não percebia nada dos pensamentos do Osvaldo. Ela continuava a mastigar as torradinhas com queijo e geleia Queensberry sabor morango*.

— P. R. Cunha


*Aquilo que importa para os propósitos desta narrativa é: Queensberry sabor morango.

Só mais um bocadinho a respeito dos escritores que não escrevem

Este é o Ambrósio. Ele é um escritor que não escreve. O Ambrósio gosta de levantar cedo, tomar banho, preparar o pequeno-almoço, levar o café até à escrivaninha, coloca o jazz para tocar, olha pela janela, observa os transeuntes que caminham aleatoriamente, os autocarros que param ao semáforo, os motociclistas que serpenteiam os outros automóveis, sente o cheiro de pão com manteiga que vem do apartamento do quinto andar, escuta o murmúrio da estação de comboios, sente saudades de alguém que foi morrer algures. O Ambrósio conta para toda a gente, com ares de segredo, que está trabalhando num romance muito complexo, algo que de certeza vai mudar a história da literatura, ele diz, romance épico, grandioso, ele diz. Mas a verdade é que o Ambrósio não escreveu uma linha sequer desse romance. Mesmo assim, vai esperar ser tratado como se tivesse já escrito um sem-número de páginas com frases & parágrafos que deixariam o David Foster Wallace incrédulo diante de tanta genialidade. O Ambrósio lê bastante, faz muitos planos, gráficos, projetos, estipula prazos — mas não escreve. Talvez porque o cérebro do Ambrósio esteja lotado, cheio de ideias dos outros… Na semana passada, por exemplo, ele comprou um Moleskine edição limitada, capa luxuosa (impermeável), folhas cor de creme pautadas com tinta especial desenvolvida por cientistas alemães. O Moleskine custou 300 dinheiros e o Ambrósio nem cogita a possibilidade de danificar esta preciosidade com rabiscos e rascunhos. Afinal, o Ambrósio não é louco. Ambrósio não escreve.

— P. R. Cunha

Bento fica

Bento acorda com o barulho da televisão na sala e agora está esparramado na cama a escutar a esposa conversando com algum manager importante de alguma multinacional com sede alhures. Ele não consegue vê-la, mas pelo cheiro imagina que ela esteja impecável a tomar o pequeno-almoço, segurando a chávena de café com uma mão e o telemóvel com a outra. A cacofonia televisão-alta-voz-estridente-da-esposa faz o Bento levar o travesseiro aos ouvidos — monta uma concha amorfa que abafa com eficiência mediana os sons que vêm de fora. Ele finalmente decide se levantar e vestido apenas com a calça do pijama arrasta-se até à sala. A esposa o observa com os mesmos olhos reprovadores de sempre: você precisa dar um jeito na merda da sua vida, ela diz, não pode ficar por aqui vagabundeando a tempo inteiro. Bento coça as pálpebras, pega uma torrada esquecida sobre a mesa, mastiga a torrada, coloca leite numa caneca com o rosto do Stanley Kubrick, mexe o achocolatado, mastiga novamente a torrada, toma um melancólico gole do leite. A esposa sai. Bento fica.

— P. R. Cunha

Pequeno-almoço

Eu estava sentada num café, disse a Kátia, a comer o meu pequeno-almoço com o Vicente, e o Vicente tinha meio que acabado de voltar de Moscou, e comentei com ele: puxa!, Vicente, você está tão laranja, tão bronzeado, nem parece que voltou da Rússia, e quando ele ia me perguntar: parece que voltei de onde?, ele até tirara do bolso o maço de cigarro, sabe, estava para acender um, mas o meu telemóvel tocou, pedi licença, disse: preciso atender, é do trabalho, e o Vicente sorriu, me mandou embora com as mãos, vai-vai, como se expulsasse um cão sarnento, daí fui para perto dos banheiros, cerca de quinze metros, quando escutei um estrondo ensurdecedor, parecia uma bomba, mas foi um ônibus desgovernado que batera no nosso café, vidros e mesas para todos os lados, algumas pessoas ainda gritavam por ajuda.

— P. R. Cunha