3×4 de Susan Sontag

O fato de que tantos discordaram de inúmeros pontos apresentados em On photography (Sobre fotografia, Companhia das Letras [tradução de Rubens Figueiredo]) e ainda assim consideraram essa coletânea de ensaios uma das mais importantes obras do pensamento fotográfico apenas reforça a sagacidade de Susan Sontag.

Vale lembrar que os textos reunidos foram todos publicados durante os anos 1970, época de incertezas e ressacas sociais em que a busca de imagens perfeitas (de si e do mundo) consolidava-se a cada edição de Look, Seventeen, Life, Cosmopolitan etc. Longe de se entregar ao entusiasmo fotográfico em voga, Sontag rebela-se, decide tocar nas feridas, expor a artificialidade contemporânea. Mesmo que tivesse de se apresentar como uma juíza rabugenta e estraga-prazeres.

A verdade é que se o leitor procura odes à fotografia, comentários lenientes sobre o ato fotogênico, Sontag de certeza irá desapontá-lo. A cada tímido elogio a este ou àquele fotógrafo, ela faz chover uma tempestade de críticas que, encaradas com olhos deste novo milênio, demonstram como a escritora novaiorquina estava muito à frente daqueles tempos de muros e guerras frias. Nem os grandes como Cartier-Bresson, Robert Frank e Diane Arbus saem incólumes.

Sontag de diversas maneiras previu a chegada das redes sociais, principalmente a onipresença do Instagram, o fetiche da coleção de experiências — cujo excesso transforma a realidade em meras dicotomias (aquilo que merece ou não ser fotografado/compartilhado). On photography, inclusive, parece vítima dessas sombrias previsões. Em uma sociedade sedenta de imediatismos, novidades, inovações, um livro escrito há quase cinquenta anos é pré-história, irrelevante. 

Grande pena, porque nossos globos oculares teriam muito a ganhar se os atuais acumuladores de imagens percebessem Susan Sontag.

— P. R. Cunha


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Jill Krementz fotografa Susan Sontag — novembro de 1974

Outros efeitos colaterais (porque «Tractatus logico-philosophicus» [L.W.])

A história do pensamento moderno mostra que para compreender filosoficamente o mundo em que se vive é preciso antes retirar-se dele, ir alhures.

Wittgenstein isolado num fiorde norueguês a filosofar a respeito dos primórdios do século vinte, aquele que se tornaria o Século da Morte. O próprio Heidegger a sobreviver longe, numa cabana dentro da Floresta Negra (adequada nomenclatura), porque a tarefa de se refletir sobre a vida humana é mesmo qualquer coisa extenuante. Walter Benjamin sem casa, sem pátria, sem quase ninguém, perde a própria sanidade em nome da filosofia.

Esse movimento de ir-se para fora, da busca pela solidão, e assim — espera-se — os pensamentos poderiam ser traduzidos com palavras inteligíveis àqueles que ficaram, que não podem ou não têm coragem de encarar o retiro indecoroso. 

Amiúde, os filósofos-eremitas encontram mesmo respostas significativas, aproximam-se, ou melhor, creem se aproximar das «verdades», e é tudo tão luminoso que a claridade acaba por deixá-los um bocado desassossegados. Quando precisam de voltar à convivência com toda a gente (penso ainda em Wittgenstein, lastimavelmente solitário), carregam na bagagem reflexões tão perturbadoras, tão inquietantes que já não dão conta.

A empreitada, diga-se, precisa de ser feita de livre e espontânea vontade. Ir até ao fundo do poço dos próprios pensamentos, para as camadas mais sombrias, até às águas repletas de lodo, inadequadas ao consumo humano.

Sim, voltam como um soldado que retorna do campo de batalha: alucinados e traumatizados; sem nenhuma paz interior, nenhuma alegria de existir. Não necessariamente arrependidos, porém (repito) com um grave sentimento de inadequação. Enxergam agora o mundo de uma maneira muito singular, abriram as cortinas, têm muito o que dizer. Mas quase ninguém para ouvi-los, compreendê-los.

O exílio transformara-os numa espécie alienígena. E o fardo, pelos vistos, é ter ainda de continuar a viver entre terráqueos.

— P. R. Cunha


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Retrato de Wittgenstein em 1929 — sobre as dificuldades de se retornar de nenhures.

Outra viagem à volta do meu escritório

Alguns amigos que costumam me visitar ao escritório já sabem que quando a minha escrivaninha está entulhada de livros, e papéis, e canetas, e lápis, e pequenos cartões repletos de hieróglifos é porque estou metido em alguma coisa, como se diz, de fôlego. A sala está serena, as prateleiras mostram-se impecáveis, as obras devidamente ordenadas, mas a escrivaninha, meu verdadeiro sítio de trabalho, parece ter sido revirada por um furacão categoria 4. Isto costuma deixá-los confusos, um bocadinho irrequietos.

Acontece que a bagunça é ilusória. Ou melhor: para os olhos deles, sim, a mesa está realmente um caos. No entanto, é o método que meu cérebro criou para se organizar. A neurociência tem nos mostrado com detalhes que nossos neurônios não são lineares; lidam com possibilidades, cortam caminhos, prolongam outros. Assemelham-se mais a um tronco de árvore do que a uma longa e reta highway norteamericana. 

A escrivaninha torna-se, portanto, o reflexo do modus operandi de quem a utiliza. Por isso que muitos dirão que uma das tarefas mais importantes do escritor é achar um espaço fixo, adequado às repetições diárias, em que será possível habitá-lo com ideias, possibilidades, recomeçar a empreitada de onde parou.

José Luis Gutierrez é um colega mexicano. Ele diz que não consegue escrever. Ou que antes conseguia, mas hoje não dá conta, aposentou-se. Gutierrez utilizava o próprio computador para criar narrativas. Ao sentar-se, movia rapidamente o cursor do rato para um vídeo no YouTube, depois, numa nova aba do browser, tentava responder aos emails, abria outras abas para monitorar Twitter, Facebook, Instagram, e enquanto se desdobrava para não ter um aneurisma, precisava ainda de lidar com as mensagens que a noiva lhe mandava pelo telemóvel. Não me admira o facto de ele não conseguir escrever nada depois desses constantes bloqueios mentais.

As vias do pensamento humano podem não ser lineares, mas isso está longe de significar que o cérebro esteja adaptado às multitarefas. Cientistas de universidades britânicas demonstraram que dedicar-se a mais de uma função ao mesmo tempo diminui a produtividade em ao menos 60%. É como se o sistema cerebral preferisse trabalhar com temas isolados, para só depois expandi-los, mesclá-los, remodelá-los.

O escritório, ter um sítio para onde ir, um sítio onde se pode montar o próprio ambiente, de acordo com as próprias particularidades torna-se ainda mais essencial quando o escritor precisa de lidar com essas distrações modernas. Comentei com o Gutierrez a respeito desses pormenores e acrescentei ainda que quando começo a escrever quase nunca utilizo o computador. Acho que se uma tempestade geomagnética afetasse as infraestruturas atuais — e nos levasse de volta à Idade Média em termos tecnológicos — eu conseguiria me virar sem grandes conflitos*. Caderninho de anotações e a boa e velha caneta é tudo de que o escritor realmente precisa quando se depara com ideias interessantes. Só depois, com a estrutura do texto devidamente elaborada, sento-me ao computador para transcrever. 

À laia de desfecho, talvez fosse a altura de fazer-vos uma branda confissão: aprendi a escrever ficção utilizando uma velha Olivetti Lettera 22 que pertencera ao meu avô materno e cujo barulho infernal levava-me para outras dimensões (possivelmente a um daqueles vales cósmicos sobre os quais a física quântica tanto comenta). De forma que instalei um software chamado Noisy Typer que simula o som das máquinas de escrever quando digito as teclas do meu computador. É assustadoramente eficaz.

Aprendi também a não sentir vergonha dessas minhas peculiaridades: escrever é o trabalho mais importante da minha vida, ao passo que fiz, faço, e ainda farei de tudo para aperfeiçoá-lo. Antes de sentar-me para criar, tomo o café como se fosse um imperador asteca, mantenho as minhas rotinas, desligo o telemóvel, desconecto o computador da Internet, concentro-me numa única tarefa, cultivo escrivaninha estranha, do meu jeito, com as minhas bagunças metodicamente arrumadas. 

Não é sempre uma travessia elegante, pois não, mas é bem agradável quando funciona.

— P. R. Cunha


*Alas!, este blogue, no entanto, deixaria de existir.

Ciência de foguete (propulsores)

Quais são/seriam os verdadeiros pensamentos?, ou melhor, há os pensamentos verdadeiros, no sentido de originalidade, ineditismo?; ———— quando se lê/escuta/vê alguma informação e a informação faz sentido (por conta do contexto do receptor [infância, predisposições intelectuais {subjetivas}, experiências diversas {viagens, traumas, amores, amizades etc.}]); depois o sujeito adequa, molda (ou não molda) a própria opinião de acordo com as novas interações. Imagem: pegar emprestado o pensamento de alguém para transformá-lo um bocadinho no próprio pensamento. Colcha de retalhos com fios neurológicos. Admiro muito a literatura de Fulano, leio Fulano, absorvo Fulano — de certa forma, «me transformo» em Fulano. Numa palavra: contradizer-se com contradições alheias para dizer-se.

Sonhar com trechos interessantes; inclusive, dizer durante o sonho: trechos muito interessantes. Acordar, e esquecer. Pois demorou-se muito para tomar as notas.

Lançamento de foguete, queima de combustíveis (RP-1, oxigênio líquido, querosene, 365 toneladas de carbono [entre outros]), o incêndio controlado a expandir gases e a levantar a estrutura do foguete para cima, as nuvens de fumaça, 95% da massa do foguete é combustível, emissões de dióxido de carbono (1352 toneladas de CO2 [aproximadamente]), gases que afetam a camada de ozônio (exposição, raios UV). Ir ao espaço é também deixar um rastro de sujeira para trás; vide os amontoados de satélites desativados que orbitam a Terra e ameaçam criar um anel de lixo impossível de ser descartado.

Agosto de 2003. A tentativa brasileira de lançar foguete (VLS-1 V03), dois pequenos satélites meteorológicos que faziam parte da Operação São Luís. Ou a tragédia de Alcântara, porque o VLS-1 explodiu três dias antes do lançamento, às 13h26, matando 21 técnicos civis que passaram anos a adquirir conhecimentos aeroespaciais, uma perda intelectual cujas consequências são sentidas até hoje, mais de uma década depois do desastre.

Quando um cientista aerospacial morre, perdemos também os universos que eram criados dentro do cérebro dele.

Da mesma forma, quando morre uma escritora como a Agustina Bessa-Luís, morre também a biblioteca dentro dela. O mundo terreno, que até segunda ordem é o nosso único mundo, perde experiências, perde possibilidades. Mas o relógio precisa de continuar: entropia.

— P. R. Cunha

Dois blocos com pensamentos concretos — Brasília

Quando Niemeyer foi convidado por Juscelino Kubitschek para desenhar os edifícios de Brasília, o arquiteto já tinha mais de meio século de planeta Terra. Deram-lhe oportunidade para construir uma nova morada para si e para milhares de brasileiros; um refúgio livre, cheio de curvas, onde o modernista poderia aproveitar os, como se diz, anos de glória. Porém, depois do exílio durante os 1960, Niemeyer jamais olharia para as traseiras brasilienses com a mesma ternura incondicional. Preferiu a França, as praias do Rio de Janeiro, o calor das belas raparigas cariocas. Vivera até aos 104 anos, a dizer adeus aos amigos, a sentir aquele vazio amargo de quem foi traído pelo filho transtornado.

Pistas e pontes a cair, patrimônio cultural da humanidade, estádio e aeroporto que custaram bilhões aos cofres públicos, rodovias esburacadas à moda superfície lunar, prédios sucateados, jardins artificiais, bibliotecas inacabadas, estantes sem livros, torre de televisão a rachar, funcionários públicos que se jogam do Congresso Nacional, cidade-automóvel que não suporta automóveis, novos (e velhos) militares a dar tiros para o alto, os ciclistas atropelados, as quadras fantasmagóricas, a W3, a L4, a L2, o calor, o barro, a terra vermelha — Brasília.

— P. R. Cunha

Caderno de viagem: decides anestesiar (alguns dos) teus pensamentos

Não viajas —
corres atrás
de ti mesmo.

Pode-se dizer que uma cidade desconhecida é como um planeta distante — podemos compreender melhor se observarmos. A primeira vez que viste Marte através das lentes arredondadas do teu telescópio, e Marte de súbito ganhara novos significados para ti. Do mesmo modo, a primeira vez que estiveste em Portugal, e Portugal agora mostra aspectos diferentes, outras paletas cromáticas, outras realidades, outras dimensões.

(Tornar visível o que antes era invisível.)

Alguns viajam
para fugir às dores —
que já tinham.

Enrique Vila-Matas numa altura escrevera que viajava antes mesmo de viajar; lia tudo a respeito do país ao qual estava prestes a ir, arriscava-se mesmo a fazer pequenos (e grandes) esboços sobre esses sítios que ainda seriam visitados — roteiro previamente estipulado, viver aquilo que anotara, de certa forma confirmar algumas expectativas, remodelar previsões: eu já cá estive?

Lisboa: em dezembro, quando as nuvens permitem, e o céu se faz presente, e o forte azul do infinito, azul-turquesa, azul-glaciar, e tu queres agarrar-te à cidade, do mesmo modo como agarras aos braços de alguém por quem estás perdidamente apaixonado.

Constataras que a viagem, por mais «real» e experimentada que ela seja, é altamente ficcionável. Qual era mesmo a temperatura daquele dia?, que roupa usavas?, era mesmo dia?, foi num táxi?, comboio? o nome dela era Antonina?, era ela?, era ele?, era Macedo?, Jorge?, era Lisboa? era Óbidos?, era-te a ti mesmo? Tu não sabes muito claramente como distinguir.

As lembranças da viagem — como as lembranças da tua infância — também são ingênuas, vulneráveis, oníricas. Tu batalhas contra a amnésia, queres ainda sugar o último sumo daquelas memórias. São, por vezes, representações, abstrações. Estás a construir um estranho edifício com tijolos verdadeiros, vigas imaginárias, um terraço ao cimo com vidro de fantasia.

Falar sobre uma viagem que não exija qualquer pré-requisito.

Longos dias de tranquilidade em Portugal, e de imperturbadas caminhadas. Para onde voltaste? Para os campos esverdeados do Alentejo com vaquinhas e carneirinhos a pastar, para o trator que corta os corredores de uma vinícola em Bacalhôa Buddha Eden, para o cavalo a descer uma encosta aveirense, para os estudantes flutuando no pátio perto da capela de S. Miguel (Universidade de Coimbra), não muito distante do Penedo da Saudade.

Uma brisa que atravessa os cabos da ponte 25 de Abril, cujo despretensioso balançar reanima as tuas inclinações introspectivas. Não pensas em contas, boletos, em prazos, em compras, não pensas no mundo, não pensas em absolutamente nada.

Brisas que trazem consigo a esperança de tempos melhores. Mostras o teu coração aberto — percebes que és também um bocadinho de Portugal, terra do teu bisavô. Tens, assim como o velho poeta, uma alegre confiança na vida, no porvir, em ti mesmo. Etc.

Efeito libertador da viagem: jornadas que salvam vidas, que dão norte e propósito a existências por vezes desnorteadas e despropositadas.

E, por enquanto, fez-se o silêncio total.

— P. R. Cunha

O dia em que tomei haxixe — ou quando Clarence Seedorf (ainda) tentava encantar a desconfiada torcida do Botafogo de Futebol e Regatas

Em abril de 2013 fui com um amigo assistir Botafogo e Sobradinho no estádio Bezerrão, Gama — a aproximadamente 30 km de Brasília. A ideia era ver o Seedorf jogar com a camisa alvinegra, mas numa altura a partida estava tão enfadonha que o meu amigo perguntou de forma descompromissada, como quem pede jujuba na farmácia: já escreveu sob efeito de entorpecentes?

Apesar de ter experimentado muitas coisas, digamos, ilícitas confesso que o ofício criativo me é mais proveitoso quando sóbrio. Vejamos… Uma ou outra canção depois de um cigarrinho de maconha e eis basicamente a minha experiência psicodélica no «fazer artístico». 

Sim, sou aquilo a que costumam chamar de careta.

Tenta escrever alguma coisa com haxixe, sugeriu o amigo enquanto o Seedorf errava um lançamento que, como diria um antigo, até a minha avó acertaria.

Dois dias depois do jogo (zero a zero) consegui o haxixe — cuja fonte, obviamente, não pretendo revelar —, tomei a erva e sentei-me para escrever. O relato, que ficara deitado para a gaveta de meias nesses últimos cinco anos, decidiu, enfim, se levantar.


Brasília, 19 de abril de 2013: haxixe

Tomei haxixe às dez da manhã, depois do pequeno-almoço. Estou agora sentado numa rede perto da piscina. O céu azul machuca os meus olhos, ao que preciso tapá-los com as mãos de tempo em tempo. Vejo aquelas sujeirinhas estranhas à moda minhoca navegarem no meu globo ocular. Nunca tomei haxixe. Tenho ao meu lado um bloquinho de notas para escrever a respeito desta experiência. Tudo o que sei sobre os efeitos desse entorpecente li nos livros dos senhores Walter Benjamin & Charles Baudelaire. Vaga sensação de premonição, angústia — ainda não sinto nada disso. Qualquer coisa de estranho, de inevitável que se aproxima — tampouco. Estou relaxado. Bloquinho de notas sobre a minha barriga. Bloquinho de notas sobe e desce de acordo com a minha respiração. Eu respiro de uma forma engraçada. E se eu tivesse uma parada cardiorrespiratória? Surgem imagens, recordações há muito tempo soterradas, às vezes prazer, às vezes dores. Minha infância foi feliz o bastante. Sensação de poder escrever o que eu quiser, qualquer coisa!, pois se algo sair dos trilhos posso sempre colocar a culpa no haxixe. Somos surpreendidos & assaltados por tudo o que acontece — um passarinho está a cantar ao longe, não gosto do canto desse passarinho, gostava que um outro passarinho maior pudesse dizer a esse passarinho menor, na língua dos passarinhos, obviamente, ei, passarinho, diria o passarinho maior, pode parar de cantar, o seu canto me irrita imenso, e eu apenas observaria o diálogo dos passarinhos, não interviria, de forma alguma, assunto de passarinhos. Surgem sensações atmosféricas: névoa, opacidade, pesadez do ar. Pesadez do ar. Pesadez. Do. Ar. A caneta caiu da rede. Grande preguiça para procurar a caneta. A caneta agora parece pesar uns cem quilos. Não consigo tirar a caneta do chão. A caneta é azul, dessas que podemos comprar no supermercado. Uma vez tentei roubar uma dessas canetas, mas não era uma caneta azul (tipo Bic), era caneta preta tipo outra coisa. Havia muita gente por perto e resolvi não roubar a caneta. Fiquei acanhado, percebes? Foi quando descobri que eu não era um criminoso. Um criminoso não daria a mínima para as gentes, para os seguranças, um criminoso de verdade apenas apanharia a caneta, colocaria a caneta para o bolso, mais natural impossível, como fazem os criminosos de verdade, como se nada tivesse acontecido. Caneta. Bolso. Sair do supermercado. Simples assim. Não fui feito para o mundo do crime. Não fui feito para nada. Estou a ser sincero agora. O haxixe me deixou sincero & sem filtros, penso. O haxixe começou a atuar. Sim, estou sob o efeito do haxixe. Escrevo sob o efeito do haxixe. Se sair baboseira, culpa do haxixe. Estou a me repetir. De tudo isso o tomador de haxixe dá conta numa forma que a maior parte das vezes se afasta muito da norma «comum». Dor de cabeça. A rede começa a me abraçar, planta carnívora. Sou um inseto dentro de uma planta carnívora cujos lábios têm formato de rede praiana. Minha mãe comprou essa rede em Cabo Frio, Rio de Janeiro. Não vou às praias de Cabo Frio há mais de cinco anos. Cabo Frio me faz lembrar de papai. Tudo o que me faz lembrar de papai me causa angústia. Não pensar em papai. Não ir a Cabo Frio. O mais comum é uma mudança ininterrupta entre estados oníricos e de vigília, um vaivém constante. Ondas, portanto. Quase morri afogado numa piscina quando eu tinha cinco, seis anos, a mão grande do meu avô puxa a minha cabeça pequena com cabelos claros. Os olhos e os cabelos dos bebês mudam de cor. Os olhos e os cabelos dos adultos perdem a cor. O cabelo do meu avô era grisalho. A mão dele me salvara de um afogamento precoce. Devo a minha vida ao vovô. O nexo entre as coisas torna-se difícil de estabelecer. Meus pais trabalhavam no hospital; médicos. Vovô ficava em casa com a gente. Vovô dizia que conseguia ver o espírito das pessoas mortas. Ficávamos sentados, vovô, meus irmãos, tenho um irmão e uma irmã, ambos mais velhos, ficávamos sentados, e vovô nos contava alguma história sobre um ou outro espírito, e a luz da sala por vezes começava a piscar, e meu vovô gritava: pare de piscar!, e a luz parava de piscar. Eu olhava para os meus irmãos, e estávamos todos naturalmente assustadíssimos, mas permanecíamos em silêncio, vovô sempre transmitira muita segurança, sabes, era esse tipo de pessoa, muitos espíritos na sala, a luz piscava, eu a me cagar de medo, mas nada de pânico, vovô está ali. O pensamento não ganha forma de palavra. Tudo é irresistivelmente hilariante. Sou um consumidor de haxixe, repito para comigo mesmo. Mundo do crime. «É curioso que a intoxicação com haxixe não tenha até agora sido estudada experimentalmente.» Acho que para quem tomou haxixe, inferno-&-céu — tudo a mesma coisa. Meu avô morreu, meu pai também morreu, eu também vou morrer. Tomo haxixe, escrevo sob efeito do haxixe. Talvez eu morra aqui mesmo, nesta rede carnívora. Estou com sono. Fecho os olhos.

— P. R. Cunha