Ilhéus

O apego de certos escritores pelo mar, admiração que por vezes raia o doentio, incontrolável desejo de perder-se na vasta superfície oceânica em busca de um sítio onde consigam acertar as contas com as próprias desilusões, querem se sentir em paz. 

Escritores que numa altura dedicaram esta ou aquela obra a determinados marinheiros de longo curso — tipos maioritariamente insondáveis — cujos corpos jazem algures no fundo do oceano. 

Escritores em busca de uma ilha.*

Virginia Woolf, Jorge Amado, Stevenson, Melville, Kipling, Camões, Conrad, Vinícius de Moraes, Joyce, Walcott…

Novalis, depois de caminhar pelos territórios britânicos em meados do século dezoito, escrevera: não só a Inglaterra, mas também o inglês é uma ilha. E também os poetas, os românticos, os solitários que dão-se bem com a solitude: todos ilhas.

Quando estou a passar por apuros, como se diz, quando percebo-me a lidar com situações irreversíveis, e vejo-me assombrado pela realidade, e simplesmente não dou conta, e a chuva cai em finas gotas que espetam a pele como agulhas, e uma sensação de esmagadora asfixia invade as minhas entranhas, procuro da mesma forma o conforto do exilado náutico.

Como se meus pensamentos fossem amparados pelas ondas, de súbito visualizo-me sentado à escrivaninha — o meu refúgio, ilha de madeira com livros a fazer as vezes de árvores, árvores que possuem literaturas em suas folhas, dezenas, centenas, milhares de folhas retangulares oferecendo sombra para a minha cabeça, a refrescar o incêndio interno que me arde e devora sem moderação.

Fujo para a minha zona de areia cercada de água por todos os lados, talvez o último fragmento de sanidade que consigo avistar antes de perder-me em devaneios paralelos. E espero. Vem a ressaca. A maré recua. O marujo coloca-se novamente a caminho de terra. Volta um outro, momentaneamente curado.

— P. R. Cunha


*Não confundir com a anestésica busca por um porto seguro, não é disso que se trata.

3×4 de Susan Sontag

O fato de que tantos discordaram de inúmeros pontos apresentados em On photography (Sobre fotografia, Companhia das Letras [tradução de Rubens Figueiredo]) e ainda assim consideraram essa coletânea de ensaios uma das mais importantes obras do pensamento fotográfico apenas reforça a sagacidade de Susan Sontag.

Vale lembrar que os textos reunidos foram todos publicados durante os anos 1970, época de incertezas e ressacas sociais em que a busca de imagens perfeitas (de si e do mundo) consolidava-se a cada edição de Look, Seventeen, Life, Cosmopolitan etc. Longe de se entregar ao entusiasmo fotográfico em voga, Sontag rebela-se, decide tocar nas feridas, expor a artificialidade contemporânea. Mesmo que tivesse de se apresentar como uma juíza rabugenta e estraga-prazeres.

A verdade é que se o leitor procura odes à fotografia, comentários lenientes sobre o ato fotogênico, Sontag de certeza irá desapontá-lo. A cada tímido elogio a este ou àquele fotógrafo, ela faz chover uma tempestade de críticas que, encaradas com olhos deste novo milênio, demonstram como a escritora novaiorquina estava muito à frente daqueles tempos de muros e guerras frias. Nem os grandes como Cartier-Bresson, Robert Frank e Diane Arbus saem incólumes.

Sontag de diversas maneiras previu a chegada das redes sociais, principalmente a onipresença do Instagram, o fetiche da coleção de experiências — cujo excesso transforma a realidade em meras dicotomias (aquilo que merece ou não ser fotografado/compartilhado). On photography, inclusive, parece vítima dessas sombrias previsões. Em uma sociedade sedenta de imediatismos, novidades, inovações, um livro escrito há quase cinquenta anos é pré-história, irrelevante. 

Grande pena, porque nossos globos oculares teriam muito a ganhar se os atuais acumuladores de imagens percebessem Susan Sontag.

— P. R. Cunha


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Jill Krementz fotografa Susan Sontag — novembro de 1974

Outros efeitos colaterais (porque «Tractatus logico-philosophicus» [L.W.])

A história do pensamento moderno mostra que para compreender filosoficamente o mundo em que se vive é preciso antes retirar-se dele, ir alhures.

Wittgenstein isolado num fiorde norueguês a filosofar a respeito dos primórdios do século vinte, aquele que se tornaria o Século da Morte. O próprio Heidegger a sobreviver longe, numa cabana dentro da Floresta Negra (adequada nomenclatura), porque a tarefa de se refletir sobre a vida humana é mesmo qualquer coisa extenuante. Walter Benjamin sem casa, sem pátria, sem quase ninguém, perde a própria sanidade em nome da filosofia.

Esse movimento de ir-se para fora, da busca pela solidão, e assim — espera-se — os pensamentos poderiam ser traduzidos com palavras inteligíveis àqueles que ficaram, que não podem ou não têm coragem de encarar o retiro indecoroso. 

Amiúde, os filósofos-eremitas encontram mesmo respostas significativas, aproximam-se, ou melhor, creem se aproximar das «verdades», e é tudo tão luminoso que a claridade acaba por deixá-los um bocado desassossegados. Quando precisam de voltar à convivência com toda a gente (penso ainda em Wittgenstein, lastimavelmente solitário), carregam na bagagem reflexões tão perturbadoras, tão inquietantes que já não dão conta.

A empreitada, diga-se, precisa de ser feita de livre e espontânea vontade. Ir até ao fundo do poço dos próprios pensamentos, para as camadas mais sombrias, até às águas repletas de lodo, inadequadas ao consumo humano.

Sim, voltam como um soldado que retorna do campo de batalha: alucinados e traumatizados; sem nenhuma paz interior, nenhuma alegria de existir. Não necessariamente arrependidos, porém (repito) com um grave sentimento de inadequação. Enxergam agora o mundo de uma maneira muito singular, abriram as cortinas, têm muito o que dizer. Mas quase ninguém para ouvi-los, compreendê-los.

O exílio transformara-os numa espécie alienígena. E o fardo, pelos vistos, é ter ainda de continuar a viver entre terráqueos.

— P. R. Cunha


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Retrato de Wittgenstein em 1929 — sobre as dificuldades de se retornar de nenhures.

Outra viagem à volta do meu escritório

Alguns amigos que costumam me visitar ao escritório já sabem que quando a minha escrivaninha está entulhada de livros, e papéis, e canetas, e lápis, e pequenos cartões repletos de hieróglifos é porque estou metido em alguma coisa, como se diz, de fôlego. A sala está serena, as prateleiras mostram-se impecáveis, as obras devidamente ordenadas, mas a escrivaninha, meu verdadeiro sítio de trabalho, parece ter sido revirada por um furacão categoria 4. Isto costuma deixá-los confusos, um bocadinho irrequietos.

Acontece que a bagunça é ilusória. Ou melhor: para os olhos deles, sim, a mesa está realmente um caos. No entanto, é o método que meu cérebro criou para se organizar. A neurociência tem nos mostrado com detalhes que nossos neurônios não são lineares; lidam com possibilidades, cortam caminhos, prolongam outros. Assemelham-se mais a um tronco de árvore do que a uma longa e reta highway norteamericana. 

A escrivaninha torna-se, portanto, o reflexo do modus operandi de quem a utiliza. Por isso que muitos dirão que uma das tarefas mais importantes do escritor é achar um espaço fixo, adequado às repetições diárias, em que será possível habitá-lo com ideias, possibilidades, recomeçar a empreitada de onde parou.

José Luis Gutierrez é um colega mexicano. Ele diz que não consegue escrever. Ou que antes conseguia, mas hoje não dá conta, aposentou-se. Gutierrez utilizava o próprio computador para criar narrativas. Ao sentar-se, movia rapidamente o cursor do rato para um vídeo no YouTube, depois, numa nova aba do browser, tentava responder aos emails, abria outras abas para monitorar Twitter, Facebook, Instagram, e enquanto se desdobrava para não ter um aneurisma, precisava ainda de lidar com as mensagens que a noiva lhe mandava pelo telemóvel. Não me admira o facto de ele não conseguir escrever nada depois desses constantes bloqueios mentais.

As vias do pensamento humano podem não ser lineares, mas isso está longe de significar que o cérebro esteja adaptado às multitarefas. Cientistas de universidades britânicas demonstraram que dedicar-se a mais de uma função ao mesmo tempo diminui a produtividade em ao menos 60%. É como se o sistema cerebral preferisse trabalhar com temas isolados, para só depois expandi-los, mesclá-los, remodelá-los.

O escritório, ter um sítio para onde ir, um sítio onde se pode montar o próprio ambiente, de acordo com as próprias particularidades torna-se ainda mais essencial quando o escritor precisa de lidar com essas distrações modernas. Comentei com o Gutierrez a respeito desses pormenores e acrescentei ainda que quando começo a escrever quase nunca utilizo o computador. Acho que se uma tempestade geomagnética afetasse as infraestruturas atuais — e nos levasse de volta à Idade Média em termos tecnológicos — eu conseguiria me virar sem grandes conflitos*. Caderninho de anotações e a boa e velha caneta é tudo de que o escritor realmente precisa quando se depara com ideias interessantes. Só depois, com a estrutura do texto devidamente elaborada, sento-me ao computador para transcrever. 

À laia de desfecho, talvez fosse a altura de fazer-vos uma branda confissão: aprendi a escrever ficção utilizando uma velha Olivetti Lettera 22 que pertencera ao meu avô materno e cujo barulho infernal levava-me para outras dimensões (possivelmente a um daqueles vales cósmicos sobre os quais a física quântica tanto comenta). De forma que instalei um software chamado Noisy Typer que simula o som das máquinas de escrever quando digito as teclas do meu computador. É assustadoramente eficaz.

Aprendi também a não sentir vergonha dessas minhas peculiaridades: escrever é o trabalho mais importante da minha vida, ao passo que fiz, faço, e ainda farei de tudo para aperfeiçoá-lo. Antes de sentar-me para criar, tomo o café como se fosse um imperador asteca, mantenho as minhas rotinas, desligo o telemóvel, desconecto o computador da Internet, concentro-me numa única tarefa, cultivo escrivaninha estranha, do meu jeito, com as minhas bagunças metodicamente arrumadas. 

Não é sempre uma travessia elegante, pois não, mas é bem agradável quando funciona.

— P. R. Cunha


*Alas!, este blogue, no entanto, deixaria de existir.

Ciência de foguete (propulsores)

Quais são/seriam os verdadeiros pensamentos?, ou melhor, há os pensamentos verdadeiros, no sentido de originalidade, ineditismo?; ———— quando se lê/escuta/vê alguma informação e a informação faz sentido (por conta do contexto do receptor [infância, predisposições intelectuais {subjetivas}, experiências diversas {viagens, traumas, amores, amizades etc.}]); depois o sujeito adequa, molda (ou não molda) a própria opinião de acordo com as novas interações. Imagem: pegar emprestado o pensamento de alguém para transformá-lo um bocadinho no próprio pensamento. Colcha de retalhos com fios neurológicos. Admiro muito a literatura de Fulano, leio Fulano, absorvo Fulano — de certa forma, «me transformo» em Fulano. Numa palavra: contradizer-se com contradições alheias para dizer-se.

Sonhar com trechos interessantes; inclusive, dizer durante o sonho: trechos muito interessantes. Acordar, e esquecer. Pois demorou-se muito para tomar as notas.

Lançamento de foguete, queima de combustíveis (RP-1, oxigênio líquido, querosene, 365 toneladas de carbono [entre outros]), o incêndio controlado a expandir gases e a levantar a estrutura do foguete para cima, as nuvens de fumaça, 95% da massa do foguete é combustível, emissões de dióxido de carbono (1352 toneladas de CO2 [aproximadamente]), gases que afetam a camada de ozônio (exposição, raios UV). Ir ao espaço é também deixar um rastro de sujeira para trás; vide os amontoados de satélites desativados que orbitam a Terra e ameaçam criar um anel de lixo impossível de ser descartado.

Agosto de 2003. A tentativa brasileira de lançar foguete (VLS-1 V03), dois pequenos satélites meteorológicos que faziam parte da Operação São Luís. Ou a tragédia de Alcântara, porque o VLS-1 explodiu três dias antes do lançamento, às 13h26, matando 21 técnicos civis que passaram anos a adquirir conhecimentos aeroespaciais, uma perda intelectual cujas consequências são sentidas até hoje, mais de uma década depois do desastre.

Quando um cientista aerospacial morre, perdemos também os universos que eram criados dentro do cérebro dele.

Da mesma forma, quando morre uma escritora como a Agustina Bessa-Luís, morre também a biblioteca dentro dela. O mundo terreno, que até segunda ordem é o nosso único mundo, perde experiências, perde possibilidades. Mas o relógio precisa de continuar: entropia.

— P. R. Cunha

Dois blocos com pensamentos concretos — Brasília

Quando Niemeyer foi convidado por Juscelino Kubitschek para desenhar os edifícios de Brasília, o arquiteto já tinha mais de meio século de planeta Terra. Deram-lhe oportunidade para construir uma nova morada para si e para milhares de brasileiros; um refúgio livre, cheio de curvas, onde o modernista poderia aproveitar os, como se diz, anos de glória. Porém, depois do exílio durante os 1960, Niemeyer jamais olharia para as traseiras brasilienses com a mesma ternura incondicional. Preferiu a França, as praias do Rio de Janeiro, o calor das belas raparigas cariocas. Vivera até aos 104 anos, a dizer adeus aos amigos, a sentir aquele vazio amargo de quem foi traído pelo filho transtornado.

Pistas e pontes a cair, patrimônio cultural da humanidade, estádio e aeroporto que custaram bilhões aos cofres públicos, rodovias esburacadas à moda superfície lunar, prédios sucateados, jardins artificiais, bibliotecas inacabadas, estantes sem livros, torre de televisão a rachar, funcionários públicos que se jogam do Congresso Nacional, cidade-automóvel que não suporta automóveis, novos (e velhos) militares a dar tiros para o alto, os ciclistas atropelados, as quadras fantasmagóricas, a W3, a L4, a L2, o calor, o barro, a terra vermelha — Brasília.

— P. R. Cunha

Caderno de viagem: decides anestesiar (alguns dos) teus pensamentos

Não viajas —
corres atrás
de ti mesmo.

Pode-se dizer que uma cidade desconhecida é como um planeta distante — podemos compreender melhor se observarmos. A primeira vez que viste Marte através das lentes arredondadas do teu telescópio, e Marte de súbito ganhara novos significados para ti. Do mesmo modo, a primeira vez que estiveste em Portugal, e Portugal agora mostra aspectos diferentes, outras paletas cromáticas, outras realidades, outras dimensões.

(Tornar visível o que antes era invisível.)

Alguns viajam
para fugir às dores —
que já tinham.

Enrique Vila-Matas numa altura escrevera que viajava antes mesmo de viajar; lia tudo a respeito do país ao qual estava prestes a ir, arriscava-se mesmo a fazer pequenos (e grandes) esboços sobre esses sítios que ainda seriam visitados — roteiro previamente estipulado, viver aquilo que anotara, de certa forma confirmar algumas expectativas, remodelar previsões: eu já cá estive?

Lisboa: em dezembro, quando as nuvens permitem, e o céu se faz presente, e o forte azul do infinito, azul-turquesa, azul-glaciar, e tu queres agarrar-te à cidade, do mesmo modo como agarras aos braços de alguém por quem estás perdidamente apaixonado.

Constataras que a viagem, por mais «real» e experimentada que ela seja, é altamente ficcionável. Qual era mesmo a temperatura daquele dia?, que roupa usavas?, era mesmo dia?, foi num táxi?, comboio? o nome dela era Antonina?, era ela?, era ele?, era Macedo?, Jorge?, era Lisboa? era Óbidos?, era-te a ti mesmo? Tu não sabes muito claramente como distinguir.

As lembranças da viagem — como as lembranças da tua infância — também são ingênuas, vulneráveis, oníricas. Tu batalhas contra a amnésia, queres ainda sugar o último sumo daquelas memórias. São, por vezes, representações, abstrações. Estás a construir um estranho edifício com tijolos verdadeiros, vigas imaginárias, um terraço ao cimo com vidro de fantasia.

Falar sobre uma viagem que não exija qualquer pré-requisito.

Longos dias de tranquilidade em Portugal, e de imperturbadas caminhadas. Para onde voltaste? Para os campos esverdeados do Alentejo com vaquinhas e carneirinhos a pastar, para o trator que corta os corredores de uma vinícola em Bacalhôa Buddha Eden, para o cavalo a descer uma encosta aveirense, para os estudantes flutuando no pátio perto da capela de S. Miguel (Universidade de Coimbra), não muito distante do Penedo da Saudade.

Uma brisa que atravessa os cabos da ponte 25 de Abril, cujo despretensioso balançar reanima as tuas inclinações introspectivas. Não pensas em contas, boletos, em prazos, em compras, não pensas no mundo, não pensas em absolutamente nada.

Brisas que trazem consigo a esperança de tempos melhores. Mostras o teu coração aberto — percebes que és também um bocadinho de Portugal, terra do teu bisavô. Tens, assim como o velho poeta, uma alegre confiança na vida, no porvir, em ti mesmo. Etc.

Efeito libertador da viagem: jornadas que salvam vidas, que dão norte e propósito a existências por vezes desnorteadas e despropositadas.

E, por enquanto, fez-se o silêncio total.

— P. R. Cunha