«Un descubrimiento genial, mágico, surrealista. Encuentros que te hacen continuar.»

Quando Conserva de Aspargo e Garrafa de Leite atravessam o Atlântico — y encuentran un corazón gallego

Por el hueco de la escalera

Es un honor, un placer y un privilegio compartir con todxs vosotrxs a un genio de las letras, un colega excepcional: P. R. Cunha

Tuvo la osadía absurda (maravillosa) de dedicarme tamaña pieza teatral que degusté y con la que me reí muchísimo.

Copio y pego:

Esta peça teatral foi escrita à tardinha em 28 de março de 2018, ao Clandestino Café e Música — é dedicada à artista espanholaMarina López Fernández(inconstancias tropicales, locuras del otro lado del mar: «Bienvenida a mi mente»).

Ambiente habitual que precede ao espetáculo de teatro. Murmurinhos na sala. Os funcionários do teatro deverão fechar as portas do teatro pontualmente às 20h32 (vinte horas e trinta e dois minutos [horário de Brasília {UTC–3}]). Depois, uma funcionária do teatro pressionará botão vermelho ao lado da porta do teatro: soará assim a campainha que anuncia o início do espetáculo de teatro. Os espectadores…

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Evento de Teatro seguido de Garrafa de Leite/Conserva de Aspargo

Esta peça teatral foi escrita à tardinha em 28 de março de 2018, ao Clandestino Café e Música — é dedicada à artista espanhola Marina López Fernández (inconstancias tropicales, locuras del otro lado del mar: «Bienvenida a mi mente»).

Ambiente habitual que precede ao espetáculo de teatro. Murmurinhos na sala. Os funcionários do teatro deverão fechar as portas do teatro pontualmente às 20h32 (vinte horas e trinta e dois minutos [horário de Brasília {UTC–3}]). Depois, uma funcionária do teatro pressionará botão vermelho ao lado da porta do teatro: soará assim a campainha que anuncia o início do espetáculo de teatro. Os espectadores que não conseguirem entrar antes dessa campainha e antes de a porta fechar-se serão informados pelos funcionários do teatro, com muita cortesia e benevolência, atitude própria desses funcionários do teatro — escolhidos a dedo, como se diz, por uma empresa húngara especializada em treinar funcionários de teatro para eventos dessa magnitude — os espectadores atrasados, portanto, serão avisados educadamente de que lá dentro do teatro ocorre agora um espetáculo de teatro, a porta do teatro está fechada, a campainha que anuncia o início do espetáculo de teatro já foi tocada, e eles (os funcionários do teatro) sentem muito, mas eles (os espectadores que chegaram depois das 20h32) não poderão entrar. Os espectadores de teatro que chegaram antes das 20h32 e que estão agora sentados confortavelmente em cadeiras reclináveis podem observar com certo deleite a luz da sala diminuir de forma gradual. Surge no palco um senhor de paletó cinza, chapéu, aspecto de desleixo pessoal, um leve arrastar dos pés. Ele diz que antes do grande espetáculo da noite haverá um monólogo introdutório, dois ou três minutinhos, de um artista romeno que nunca falara uma palavra sequer em português mas que lerá o monólogo mesmo assim. O artista romeno entra e lê o monólogo desta maneira:

Uma hora gritamos e temos quem nos escute (pausa), uma hora gritamos, esperneamos, fazemos cena e temos, por assim dizer, uma plateia, alguém com muita paciência para nos ouvir a gritar, a espernear, a fazer cenas (pausa), até que de repente esse alguém perde a paciência e se vai e daí não há mais plateia, não temos mais com quem gritar. Ficamos sozinhos.

Os espectadores de teatro aplaudem esse brevíssimo monólogo introdutório lido por um artista romeno que nunca falara português, e comentam, de certeza muito espantados, sobre o fato de esse artista romeno ter lido tão bem o monólogo em língua portuguesa apesar de não saber falar português — pelo menos se ainda acreditarmos no senhor de paletó cinza, chapéu, que arrasta os pés; porque, quando ao teatro, nunca se sabe. A luz da sala ameniza-se um pouco mais. Entram no palco os dois oradores do chamado grande espetáculo da noite, são estes: Conserva de Aspargo (uma mulher vestida de conserva de aspargo) e Garrafa de Leite (um homem vestido de garrafa de leite).


CONSERVA DE ASPARGO

Tu falas as tuas falas
depois eu tenho mais munições
para falar as
minhas falas

GARRAFA DE LEITE
E qualquer coisa
é um começo

CONSERVA DE ASPARGO
Qualquer
coisa

GARRAFA DE LEITE
Um teatro livre
percebes
Teatro que constrói
para si próprio
uma lógica
uma metodologia
uma ambiência

CONSERVA DE ASPARGO
Teatro esquizofrênico
teatro de vidas duplas
simultâneas
vidas que se contradizem

GARRAFA DE LEITE
Teatro impossível de encenar
impossível de se transformar em peça
Teatro surpreendente

CONSERVA DE ASPARGO
Teatro torto
teatro que serve para
afligir
O teatro que não
aflige ninguém
e não contraria ninguém
não é um teatro

GARRAFA DE LEITE
É outra coisa

CONSERVA DE ASPARGO
Sim outra coisa

GARRAFA DE LEITE
Tu falas
eu penso
depois eu falo
tu pensas
percebes

CONSERVA DE ASPARGO
Percebo

GARRAFA DE LEITE
(Sem olhar para a plateia)
Introduzimos aqui
uma pequena observação
que chamamos de «teatro»
(Faz as aspas com os dedos, dificuldade para mover os braços por conta da fantasia de garrafa de leite)
o que quer dizer
simplesmente que
poderíamos passar sem
essa observação
Teatro

CONSERVA DE ASPARGO
Toda a gente sabe que
isto é lá um teatro
um teatro que se leva
no bolso

GARRAFA DE LEITE
No bolso
em vez de telemóvel
de bolso
teatro-de-bolso

CONSERVA DE ASPARGO
Teatro-de-bolso
uma máquina para
encenar o que se vê

GARRAFA DE LEITE
E nem sempre o que
começa é bom

CONSERVA DE ASPARGO
Nem sempre
mas qualquer coisa
é um começo

GARRAFA DE LEITE
Tu falas
eu penso
eu falo
tu pensas

CONSERVA DE ASPARGO
Munições
para continuar
a falar

GARRAFA DE LEITE
E pensar
Naturalmente

CONSERVA DE ASPARGO
Teatro livre

GARRAFA DE LEITE
Livre

CONSERVA DE ASPARGO
Garrafa de Leite

GARRAFA DE LEITE
Conserva de Aspargo

CONSERVA DE ASPARGO
Naturalmente
tu não és
uma garrafa
de leite

GARRAFA DE LEITE
Não
Não sou
trato-me de
um ser humano

CONSERVA DE ASPARGO
Certo
Ser humano
fantasiado de
garrafa de leite

GARRAFA DE LEITE
Correto
Fantasiado de
garrafa de leite
teatro livre

CONSERVA DE ASPARGO
E tampouco
eu cá sou
uma conserva
de aspargo

GARRAFA DE LEITE
Tu tampouco
és uma conserva
de aspargo

CONSERVA DE ASPARGO
Fantasia de conserva
de aspargo
por dentro
ser humaníssima

GARRAFA DE LEITE
Dieta unilateral
uma pessoa que alimenta
o seu pensamento
apenas com um gênero
de exemplos

CONSERVA DE ASPARGO
Vês
(Levanta a fantasia, mostra as pernas)
Humaníssima
de conserva
de aspargo

GARRAFA DE LEITE
(Chega perto, averigua)
Aspargo
com pernas
Sim
Humaníssima

CONSERVA DE ASPARGO
Tu não és uma garrafa
de leite
estou certa

GARRAFA DE LEITE
Mais certa impossível
Sou cá um homem
humano

CONSERVA DE ASPARGO
Mas
Suponhamos

GARRAFA DE LEITE
Sim

CONSERVA DE ASPARGO
Suponhamos
à guisa de recreio
Teatro livre

GARRAFA DE LEITE
Livre
Uma lógica
uma metodologia
Ambiência

CONSERVA DE ASPARGO
Suponhamos que
o universo

GARRAFA DE LEITE
O universo
sim
suponhamos

CONSERVA DE ASPARGO
Supercordas
Cosmos
inflacionário
paralelo
infinito
em todas
as direções

GARRAFA DE LEITE
Cosmos
inflacionário
Sagan
Einstein
Planck
Hawkins
Alan Guth
Suponhamos

CONSERVA DE ASPARGO
O universo
em colapso
o palco
este teatro

GARRAFA DE LEITE
Este teatro

CONSERVA DE ASPARGO
Este universo
Suponhamos

GARRAFA DE LEITE
Eu de leite
você de aspargo

CONSERVA DE ASPARGO
Exatamente
Como sabias

GARRAFA DE LEITE
Li o texto
está lá no roteiro

CONSERVA DE ASPARGO
Certo
tudo é semente

GARRAFA DE LEITE
Qualquer coisa é um
começo

CONSERVA DE ASPARGO
Então suponhamos
que se nós dois
só nós dois
universo

GARRAFA DE LEITE
Multiversos

CONSERVA DE ASPARGO
Teatro de
vias duplas

GARRAFA DE LEITE
Vidas duplas

CONSERVA DE ASPARGO
Simultâneas

GARRAFA DE LEITE
Vias
barra
Vidas
que se contradizem

CONSERVA DE ASPARGO
Suponhamos que
se estivermos de acordo
eu
Conserva de Aspargo
tu
Garrafa de Leite

GARRAFA DE LEITE
Estou de
acordo

CONSERVA DE ASPARGO
Certo
Estamos de
acordo

GARRAFA DE LEITE
Estamos

CONSERVA DE ASPARGO
Então
O que achas
não passa a ser verdade
que eu
sou Conserva de Aspargos
e que tu
és Garrafa de Leite?

GARRAFA DE LEITE
Eu
Garrafa de Leite
tu
Conserva de Aspargo

CONSERVA DE ASPARGO
Passa a ser verdade
não passa

GARRAFA DE LEITE
Sim
Passa
Se estivermos de acordo
passa

CONSERVA DE ASPARGO
E até onde sei
estamos de
acordo

GARRAFA DE LEITE
Estamos

CONSERVA DE ASPARGO
Um teatro
impossível
percebes

GARRAFA DE LEITE
Mas se estamos
de acordo
torna-se
possível

CONSERVA DE ASPARGO
Sem atores
humanos
percebes

GARRAFA DE LEITE
Estou a perceber

CONSERVA DE ASPARGO
Teatro feito por
Conserva de
Aspargo

GARRAFA DE LEITE
E Garrafa de Leite
passa a ser verdade
Estamos de acordo

CONSERVA DE ASPARGO
O teatro que não
incomoda que não
inquieta
que não contraria
não é um teatro

GARRAFA DE LEITE
Não é um teatro
Absolutamente
É lá outra coisa

CONSERVA DE ASPARGO
Outra coisa
Teatro feito por
Garrafa de Leite
e Conserva de Aspargo

GARRAFA DE LEITE
Bonito de se ver

CONSERVA DE ASPARGO
(Olha para o relógio)
Pois manda as minhas
lembranças à
senhora Garrafa
de Leite

GARRAFA DE LEITE
Mandá-las-ei
E manda as minhas
ao senhor Conserva
de Aspargo

CONSERVA DE ASPARGO
Não posso

GARRAFA DE LEITE
Como assim
não posso
por essa eu
não esperava

CONSERVA DE ASPARGO
Não
não esperava
não está no roteiro

GARRAFA DE LEITE
(Tira o roteiro de dentro da fantasia de garrafa de leite, lê o roteiro)
Não
Não está no roteiro
Teatro estranho
correr em redor
de uma circunferência
(Faz uma circunferência invisível no chão, corre em redor da circunferência invisível)

CONSERVA DE ASPARGO
Teatro doido
Conserva de Aspargo
Caixa de Leite
Não está no roteiro
mas passa a ser verdade

GARRAFA DE LEITE
Por que não podes
mandar lembranças
o que se passou
com o senhor
Conserva
de Aspargo

CONSERVA DE ASPARGO
Morreu-se

GARRAFA DE LEITE
Morreu-se

CONSERVA DE ASPARGO
Sim
Suicídio

GARRAFA DE LEITE
Meus pêsames

CONSERVA DE ASPARGO
Não precisas

GARRAFA DE LEITE
De quê

CONSERVA DE ASPARGO
De pêsames
foi há muito

GARRAFA DE LEITE
O suicídio

CONSERVA DE ASPARGO
Sim
O suicídio

GARRAFA DE LEITE
Pena isso

CONSERVA DE ASPARGO
Superei

GARRAFA DE LEITE
Superaste
Conserva de
Aspargo
viúva

CONSERVA DE ASPARGO
Viuvinha
Superei

GARRAFA DE LEITE
Então
Não mandes lá
as minhas lembranças
ao senhor Conserva
de Aspargo

CONSERVA DE ASPARGO
Não mandarei
impossível
suicidou-se

GARRAFA DE LEITE
Que barra

CONSERVA DE ASPARGO
Superei

GARRAFA DE LEITE
(Pensativo)
Mas e à senhora
Garrafa de Leite
Continuo a mandar
as tuas lembranças
certo

CONSERVA DE ASPARGO
Pois não vejo motivo
para não mandares

GARRAFA DE LEITE
Teatro livre

CONSERVA DE ASPARGO
Justamente

GARRAFA DE LEITE
Mas temo cá pela simetria
do espetáculo

CONSERVA DE ASPARGO
Explica-te
Leite

GARRAFA DE LEITE
(Tenta colocar o indicador para os lábios, à moda filósofo, mas não consegue, a fantasia de garrafa de leite atrapalha)
Eu a mandar as
lembranças da
Conserva de Aspargo
à senhora Garrafa de Leite
mas Conserva de Aspargo
não manda lembranças
para ninguém
Percebes

CONSERVA DE ASPARGO
Percebo
Assimétrico

GARRAFA DE LEITE
Sim
O conceito é bem esse
Assimétrico

CONSERVA DE ASPARGO
Não mandes
então
as lembranças

GARRAFA DE LEITE
Sim
melhor assim
sem lembranças
De ambas as partes

CONSERVA DE ASPARGO
Inúmeras confusões
surgiriam dessa
terrível assimetria

GARRAFA DE LEITE
Inúmeras

CONSERVA DE ASPARGO
Senhora Garrafa
de Leite recebe as lembranças
da Conserva de Aspargo
Senhor Conserva
de Aspargo
não recebe lembranças de
Garrafa de Leite
Porque suicídio
Assimétrico

GARRAFA DE LEITE
Melhor não

CONSERVA DE ASPARGO
Teatro-de-bolso
Lembremos
Teatro-de-Bolso

GARRAFA DE LEITE
Simetrias

CONSERVA DE ASPARGO
Sem lembranças
portanto

GARRAFA DE LEITE
Pois não

(Cai o pano)

— P. R. Cunha

Buraco negro (ou: toda a humanidade vive já há imenso tempo no exílio)

Palco — uma porta à esquerda, fechada. Ao centro, tapete com motivos florais. Pouco mais à direita, sofá, poltrona, luminária de piso, estante abarrotada de livros. Personagens: Pai Psiquiatra está sentado no sofá a ler o vespertino, Mãe Psiquiatra está a bater na porta fechada e ninguém responde.

MÃE PSIQUIATRA
Não abre
estou a bater
e ela não abre

PAI PSIQUIATRA
Deixa a menina
se não quer abrir
que não abra

MÃE PSIQUIATRA
(Afasta-se da porta, fita o marido e cita Schubert)
«Ich bin zu
Ende mit allen
Träumen»

PAI PSIQUIATRA
(Sem baixar o vespertino)
Para os diabos
com o seu alemão
mulher
não me venha
com essa

MÃE PSIQUIATRA
Schubert
Cheguei ao fim
de todos os sonhos
É Schubert

PAI PSIQUIATRA
Gavetas

MÃE PSIQUIATRA
O que têm

PAI PSIQUIATRA
Deitamos tudo
para as gavetas
daí quando abrimos
as gavetas
tudo bagunçado

MÃE PSIQUIATRA
Estou a ver

PAI PSIQUIATRA
Como não queremos
lidar com a nossa bagunça
deitamos tudo às gavetas
sempre foi assim
esconder-se
do mundo inteiro

MÃE PSIQUIATRA
E os mortos
(Aponta para o chão)
como não queremos
lidar com os mortos
deitamo-los
embaixo da terra
ou viram pó

PAI PSIQUIATRA
Estou a ver

MÃE PSIQUIATRA
(Aproxima-se da porta, bate, ninguém responde)
Não abre
a menina não
abre

PAI PSIQUIATRA
(Levanta-se, fica parado, esquece-se por que levantara-se, cai esgotado no sofá)
Às vezes eu também
jogo tudo para as gavetas
gavetas enormes
sim
não sou mais do que isso
enchedor de gavetas
e também não peço
mais nada

MÃE PSIQUIATRA
(Indignada, bate na porta novamente, ninguém responde)
Absurdo

PAI PSIQUIATRA
(Coloca o vespertino no braço do sofá, tira os óculos, limpa-os com uma flanela que estava no bolso da calça)
A verdade é que
quando se quer sobreviver
quando tudo o que se
consegue pensar é
única e exclusivamente
sobreviver
(Alto)
a verdade é que nessas ocasiões
os livros não nos servem
bulhufas
para absolutamente
nada
(Mais baixo)
De fato toda a gente
que lê
que ama os livros
tenta lá dizer que eles servem
mas eles não servem
o instinto de sobrevivência
não leva em conta
a estupidez
da intelectualidade

MÃE PSIQUIATRA
(Vai até à estante de livros, tira um)
Mais tarde ou mais cedo
todos passam por algo
desse gênero

PAI PSIQUIATRA
Ainda encontramos gentes que
gostam de ler
que compram livros
e assim acham que estão
preparando-se para a vida
quando em boa verdade
as palavras nunca
nos salvaram
de morte nenhuma
(Pega o vespertino, levanta-se, vai bater na porta, ninguém responde)
Absurdo
não abre

MÃE PSIQUIATRA
Pois
eu lhe disse
não abre

PAI PSIQUIATRA
(Aponta o vespertino para a esposa)
Bem sabemos
de quem é a culpa

MÃE PSIQUIATRA
A floresta é grande
a escuridão também

PAI PSIQUIATRA
(Aproxima-se da esposa)
Estou-me nas tintas
para as suas florestas

MÃE PSIQUIATRA
(Bate na porta, ninguém abre)
Não vamos nos
separar querido
além disso
a papelada me aborrece
está a ouvir

PAI PSIQUIATRA
(Leva a mão em formato de pistola à têmpora direita, finge-se que deu um tiro)
Nitidamente

MÃE PSIQUIATRA
(Joga-se no sofá)
Só muito raramente
permitir-me o luxo
de reconhecer o grande
fracasso de tudo isto

PAI PSIQUIATRA
(Bate outra vez na porta, ninguém responde)
Não abre

MÃE PSIQUIATRA
Uma mulher que vive a
personificar o papel
de boa profissional
de boa esposa
e boa mãe
exposta a
evidentes riscos
psicológicos

PAI PSIQUIATRA
(Afasta-se da porta, pega um livro na estante)
Dizem que Balzac
antes de morrer
só conseguia perguntar
sobre as suas personagens
Indagava tal louco
Como está Vautrin
e Eugène de Rastignac
Barbet
os Baudoyer
Pensou naqueles que tinha criado
percebe
não pensou nos vivos
em esposa
filha
nada
largou da realidade
o Balzac
sim
recusara a realidade
Mesmo antes de morrer
(Aproxima-se da porta, bate duas vezes, ninguém responde)
Mesmo antes de morrer
mantera-se fiel
às personagens que
criara
Balzac
O escritor não é dono
do livro
o livro é que é dono
do escritor
Sim
Balzac

(Mãe Psiquiatra leva as mãos à cabeça, dir-se-ia que estava a ficar louca)

MÃE PSIQUIATRA
Estou a ficar louca
muitas vezes pergunto-me
se estou a enlouquecer

PAI PSIQUIATRA
Acalme-se lá
mulher
não me tenha um piripaque
pois não

MÃE PSIQUIATRA
A papelada me aborrece

PAI PSIQUIATRA
Volte a si
que carnaval
desnecessário

MÃE PSIQUIATRA
(Levanta-se, vai até à porta, bate, ninguém abre)
Não abre

PAI PSIQUIATRA
(Joga-se novamente no sofá)
Já estou a crer
que a criança não
abre a porta

MÃE PSIQUIATRA
(Joga-se na poltrona)
O que me acontecerá
a mim

PAI PSIQUIATRA
Escute
eu podia mentir-lhe
não é verdade?
dizer que tudo ajeita-se
no próprio tempo
não é verdade?
mas digo-lhe
que não sei
o que acontecerá a si
não sei

MÃE PSIQUIATRA
(Levanta-se, como se de súbito tivesse lhe ocorrido uma ideia)
E se tentássemos abrir
a porta

PAI PSIQUIATRA
Como assim

MÃE PSIQUIATRA
A maçaneta
abrir a maçaneta
simplesmente girá-la

PAI PSIQUIATRA
Girar a maçaneta
interessante

(Ambos se aproximam da porta; Pai Psiquiatra encosta a orelha na porta para tentar escutar alguma coisa)

MÃE PSIQUIATRA
(Envergonhada)
Não não não
isso não seria justo
é a privacidade da
menina
Não podemos

(Ambos se jogam no sofá, exaustos)

PAI PSIQUIATRA
Vidas amorosas
mexericos
filosofias
a menina só tem
catorze anos
meu deus

MÃE PSIQUIATRA
Nós adorávamos fazer
perguntas
querido
Possuíamos
aquela persistente
curiosidade
lembra-se

PAI PSIQUIATRA
Não faço ideia
do que está a falar
mulher

MÃE PSIQUIATRA
Ler até as pestanas
tinirem de cansaço
Umas poucas frases ditas
em devido tempo

PAI PSIQUIATRA
O mundo é uma
redução gradual da
luz

MÃE PSIQUIATRA
É disso que estou a falar

PAI PSIQUIATRA
(Aponta com o livro para a porta)
Perene sensação de espera
a menina não abre
e tensão por algo
maravilhoso ou terrível
que deve acontecer

MÃE PSIQUIATRA
Podemos sempre tentar
a maçaneta

PAI PSIQUIATRA
Não seria justo com a criança
privacidade
percebe
privacidade
A criança precisa
de privacidade

MÃE PSIQUIATRA
(Aponta para a porta)
Caladinha

PAI PSIQUIATRA
(Acende um Marlboro)
Tinham lá grandes
expectativas
e muitos investiram em mim
e veja bem no que me tornei
nada daquilo que imaginaram

MÃE PSIQUIATRA
(Levanta-se, fica parada à porta, indecisa)
Um papai tirano
Sol enorme que consome-se
mais rapidamente
É lá um buraco negro

(Encosta na maçaneta, tenta girá-la, a porta não abre)

«FINIS»

— P. R. Cunha

Bonifácio — esquete

À esquerda, uma estante com pratos e outros utensílios de cozinha. Ao centro, mesa com um abajur retrô em cima. Quadros estranhos grudados na parede. O rádio toca uma qualquer sinfonia de Mozart. Bonifácio, a filha e o filho tomam o café da manhã.

BONIFÁCIO
Pois que durante toda a
minha infância e
durante toda a minha
adolescência
Durante
portanto
toda a minha juventude
eu cá só comi Froot Loops
com leite
(a filha e o filho mastigam Froot Loops)
Ou melhor
tomei o Froot Loops
com leite
que como toda a gente
sabe muito bem
é a única forma correta
e saudável de se ingerir o
Froot Loops
Com leite
Enquanto vocês comem o
Froot Loops mastigam
Froot Loops sem leite
(o filho mastiga Froot Loops, a filha leva o suco de laranja aos lábios)
Sim
Dois monstrinhos comendo
Froot Loops
Quando sabem muito bem
que só se aproveita o Froot Loops
se Froot Loops acompanhado
de leite
Froot Loops seco
assim como vocês comem
(filho mastiga Froot Loops)
não pode
é terrível
Isso vai matá-los
escutem o que lhes digo
Froot Loops sem leite
e é por isso que eu cá
sou um dramaturgo genial
incrível
que já recebera vários prêmios
(filha mastiga Froot Loops)
Froot Loops com leite
Hoje mesmo se ainda sinto
vontade de comer Froot Loops
sempre com leite
Vocês
sem leite
Então eu sou um dramaturgo
realmente excepcional
E vocês naturalmente
não são nada a não ser
filhos de um dramaturgo
excepcional
Basta ler nos noticiários
(filha mastiga Froot Loops)
Dramaturgo excepcional
que peças maravilhosas escreve
este dramaturgo excepcional
Pai de vocês
Froot Loops com leite
compreendem
(filho e filha mastigam Froot Loops)
É o leite o segredo
mas vocês desdenham do leite
acham que podem sem o leite
por isso fracassam
em tudo
(filha mastiga Froot Loops, filho parece satisfeito de modo que não mastiga mais Froot Loops)
São estúpidos
O que de fato os salva
por vezes me pergunto
o quê
ser filho de um dramaturgo
premiado, admirado
(filho e filha tomam suco de laranja)
Tivessem ao menos feito
como fez o irmão
de vocês
Aquele sim
tomava o Froot Loops
com leite
Aquele sim
inteligentíssimo
sabia o russo
a matemática
as artes
a música de Mahler
(filha volta a encher o pote com Froot Loops)
Aquele sim
filho exemplar
Mas a morte não escolhe
Aleatoriamente levou
o meu melhor menino
E cá deixou-me vocês
(filho pega Froot Loops do pote da irmã e mastiga Froot Loops)
A morte leva tudo
consigo
e deixa-nos cá o pior
Froot Loops sem leite
onde já se viu.

— P. R. Cunha