Escritores solteiros casam-se com a própria obra

Há poucos meses participei de uma entrevista de emprego em que a pessoa responsável pela seleção dos candidatos me dissera: a nossa empresa é uma amante muito exigente. Essa frase ficou na minha cabeça.

Escrever livro é como estar num relacionamento — há períodos incríveis em que autor e narrativa parecem feitos um para o outro, depois brigam, dormem em camas separadas, sentem muita raiva, saem para jantar, pedem desculpas, dormem juntos novamente etcétera.

Para Franz Kafka, escrever era solidão absoluta, a descida ao frio poço de si mesmo. Não é difícil, portanto, compreender os motivos de o autor de A metamorfose ter confessado várias vezes ao amigo Max Brod que o casamento à moda antiga de certeza lhe tiraria a ociosidade da escrita. Por fim, viu-se diante de um impasse: ficar com a esposa de papel ou contrair matrimônio com a solícita Felice Bauer. E toda a gente sabe o que ele escolhera.

Escritores que precisam do silêncio, do vazio, que não aturariam nenhuma voz atrás dos ombros a lhe dar pitacos sobre esta ou aquela cena, «este personagem não me cativou», diz o cônjuge, «e se você fosse um bocadinho menos pessimista», pergunta a noiva.

Jane Austen nunca se casou, Emily Dickinson tampouco, Henry Thoreau e Walt Whitman também não, Louisa May Alcott dizia preferir remar a própria canoa — sozinha.

Hijos sin hijos, diria o Enrique Vila-Matas. Escritores que decidiram pela solteirice humana, porque a literatura, como se sabe, é uma amante muito exigente.

— P. R. Cunha

O escritor e o fantasma de si mesmo*

Não se pode esquecer disto: a vida do escritor de literatura está amiúde à beira de um colapso. 

Hoje o leitor acomoda-se numa espreguiçadeira de lona com inclinação progressiva, tem consigo uma limonada refrescante, folheia as páginas de Tolstói, ou mesmo intriga-se com as narrativas de Hemingway, ou quem sabe até se apaixona pelas meditações introspectivas da sra. Virginia Woolf. Segura essas figuras literárias numa praia paradisíaca enquanto férias e talvez nem desconfie que tais autores foram seres humanos constantemente assolados pela melancolia, pelos distúrbios de ansiedade, pelo delírio neurótico.

Escritores que sentem o entusiasmo de criar cosmos paralelos, a euforia de desenvolver personagens e cenas que invadirão a consciência de toda a gente como se fossem mundos realmente possíveis. Mas que por vezes esquecem de que a jornada não é feita apenas de caminhos paradisíacos.

Quando apontam a mira do rifle para as profundezas do próprio coração, estão também prestes a flertar com o desconhecido, com a insanidade, com as imprevisibilidades da nossa espécie. À medida que acumulam notas a respeito de si mesmos e das pessoas ao redor, sentem-se cada vez mais poderosos, como se perto de desvendar mistérios que antes se mostravam insondáveis.

Chamo a isso de ponto de virada: ou o escritor decide que é hora de parar, ficar por ali mesmo, pronto, chega, está satisfeito com o que viu; ou continua o desaterro e perde-se completamente na penúria da cave. 

Ainda extasiados com o ópio da sabedoria adquirida, muitos decidem prosseguir com a escavação, e assim preparam a derradeira sepultura. Não sabem se loucos ou o quê; e não raro passam a se questionar como o fizera Edgar Allan Poe pouco antes da morte, num sanatório em Baltimore: quantas histórias, afinal, precisaremos inventar até esclarecermos que estamos sempre fugindo da nossa própria realidade?

— P. R. Cunha


*Como publicado na edição de despedida da revista 8ito.

Sra. Carmen & Grand Hotel Abyss (sobre escrever livros estranhos)

Na época eu estava a passar por dificuldades financeiras, como facilmente se compreende, e a sra. Carmen ficou sabendo e me disse assim: posso te ajudar, criatura, mas com uma condição. A sra. Carmen, para quem não sabe, tem noventa e seis anos, dama grisalha, capciosa, imenso apetite sexual. Precisas apenas de permanecer um tempinho comigo, todos os dias, ela explicou, coisa de duas ou três horas, à sala do meu apartamento, eu te observo, podes ler também se quiseres. Mas, sra. Carmen… — eu disse. E a sra. Carmen fez «Shhhhh!, Shhhhh!!!!, Shhhhh!!!!!», é pegar ou largar. Eu peguei. Durante dois meses fui todos os dias (menos aos domingos) ao apartamento da centenária, carregava meus livros, escrevia enquanto ela ficava a me olhar e a dizer: menino bonito, rapaz agradável, pedaço de mau caminho, pão. Por vezes a sra. Carmen pegava no sono de um jeito engraçado, toda oblíqua na poltrona verde e eu bem achava que ela tinha batido as botas. Aquilo me dava nos nervos, falo a sério. Eu então me aproximava de mansinho e ficava a esperar que a barriga dela fizesse algum movimento. Vai, barriga, move. E se a coisa demorasse a se mover eu balançava os ombros da sra. Carmen: ei, sra. Carmen, está a dormir? Ela se estremecia e os lábios respondiam com um sorriso maroto: ai, meu pãozinho, menino bonito, podes beijar-me se quiseres.

(…)

O Stuart Jeffries contou-me que havia um desentendimento entre os filósofos György Lukács e Theodor Adorno. Lukács dizia que a Escola de Frankfurt — da qual Adorno fazia parte — não dava conta de mudar na prática aquilo que criticava em teorias. Os membros desse movimento, escreve Lukács, fixaram residência no Grande Hotel Abismo: bela morada equipada com todo o conforto, à beira de um precipício, o da vacuidade, da absurdidade.

Quando começo a escrever um livro estranho, acho que também me escondo num desses hotéis, para refletir sobre os sofrimentos do mundo a uma distância segura. E isso deve fazer o esqueleto do sr. Lukács se remoer todo, a sete palmos abaixo de terra.

— P. R. Cunha

Excerto provisório

Volto em particular ao leitor deste electro-sítio e compartilho um muito breve trecho de certo romance em que estou trabalhando a tempo inteiro. Agradeço in advance que empregues teus lazeres nestes assuntos de tão mínima importância.


[…] Eis que dias mais tarde vem a morrer o seu pai, ao que não pôde resistir. Geralmente um glaciar introspectivo, sua resolução de súbito o abandona e ele se desfaz em lágrimas e lamentações. Chora, é criança novamente. A medida, na verdade, já estava a derramar deveras, e uma coisa de nonada bastaria para abater-lhe o otimismo, provocar-lhe um transbordamento de tristeza. Mas a dor sofrida quando se perde um pai está além de qualquer expressão, como se nenhum substantivo pudesse ilustrar adequadamente semelhante desespero — sente raiva por isso, os verbos não lhe servem mais de auxílio, sente-se traído, petrificado. De qualquer forma, insiste, batalha, luta, põe-se a golpear a cabeça qual louco a demonstrar extrema aflição, pois pretende transmitir esse embrutecimento sombrio, como tinha lido algures, embrutecimento que corrói a nossa «alma», embrutecimento surdo, mudo, embrutecimento que se apodera de nós quando as ocorrências (estou citando de memória), quando as ocorrências nos esmagam e por vezes ultrapassam o que nos é dado suportar. Esta dor excessiva. Morte do pai.

— P. R. Cunha

Síndrome das pernas inquietas (restless legs)

Escrever é estar escrevendo, não é uma coisa — é gerúndio, processo. Eu hesito e ando atento enquanto descrevo, porque não sei o que vai acontecer. Há várias esquinas, precipícios, inúmeras possibilidades; preciso de decidir a cada momento. Sempre uma surpresa.

Quem diz: eu entendo o que é escrever, entendo perfeitamente do que se trata; quem diz isso, na verdade não entende patavinas. Por outro lado, aquele que não diz que compreende o ato de escrever, que não pensa que o entende, que não finge entendê-lo e nem mesmo quer entendê-lo — voilà, este sim sabe do que se trata.

Perguntamos a outro escritor como devemos escrever e logo percebemos que a pergunta não faz sentido, é perda de tempo, pergunta absurda, pois o escritor só pode falar sobre a sua própria escrita. E nunca, nunca dois escritores são iguais.

O que os outros dizem sobre literatura não tem importância.*

Alguém pode muito bem escrever livros sobre literatura, crítica do romance, e nunca ter passado pelo estágio de angústia — aquela angústia inquietante antes de criar narrativas aparentemente do nada, angústia de brincar de deus. Alguém pode tornar-se muito eficiente, muito esperto em argumentações intelectuais de toda a natureza, perito em apontar os escandalosos defeitos da obra alheia, e esquecer-se completamente de que é incapaz de construir um parágrafo decente, um personagem sequer, esquecer-se de que esse tempo em que esteve absorto em atividades pedantes e autodestrutivas, de que esse tempo foi um tremendo desperdício de energia, papel, dinheiro, matou árvores à toa.**

Podia estar lá fora, esse alguém, de repente pedalar uma bicicleta, alimentar patos num lago qualquer. Podia. Mas tranca-se num gabinete escuro e poeirento, mete-se a falar sobre o romance de Fulano, pensa que conhece todas as teorias literárias, todas as escolas da literatura mundial, embora esse alguém saiba que jamais conseguirá escrever um romance, um continho, um aforismo. É isso o que está acontecendo.

Entra numa livraria e vê a quantidade absurda de livros que tratam de outros livros. O apanhador no campo de centeio segundo Sicrano; Grandes esperanças de acordo com Beltrano etc. Muita argumentação, muita disputa, muito debate — conflitos desnecessários.***

— P. R. Escritor


*Que a literatura esteja difamada como um produto bastardo; que sua forma esteja desgastada e careça de inovações (i.e., revoluções); que seu passado tem sido negligenciado, tudo isso já foi dito e repreendido o bastante — vide Adorno (apropriar [ensaio = e ≠ notas de literatura]).

**Romancista de gêneses é um guerreiro muito corajoso. Os críticos (com raras exceções [James Wood, Susan Sontag {as páginas sobrevivem}, Roland Barthes {as páginas sobrevivem²}]) — criaturas à Leviatã.

***O leitor inicia determinado texto no ponto X; ao final, precisa de estar algures, longe. Do contrário, o escriba não exercera a própria função com dignidade.

Bonatti, astrofísico

Hipótese: à maré
Interferência —
propriedade
das ondas.

Bonatti, nascido a 14 de outubro de 1965, frequentara a Universidade de São Petersburgo e tornara-se um astrofísico de renome. Parece que era uma pessoa verdadeiramente encantadora até, como se diz, perder os botões. Bonatti está agora ao terraço do laboratório doméstico, encosta-se na balaustrada e fica a olhar para o próprio telescópio — está com medo de apontá-lo para a Lua e, com esse simples gesto, iniciar uma irrefreável reação em cadeia. «Se eu apontar o telescópio para a Lua», pensa Bonatti consigo mesmo, «minha esposa fica irritada, com a irritação da minha esposa o vizinho também se aborrece, com o aborrecimento do vizinho as luzes são acesas, por causa da claridade o ladrão se assusta, por causa do susto do ladrão os cachorros latem, os latidos acordam a velha senhora do bairro, a velha senhora tem sede e escorrega da escada, com a morte da velha o neto marceneiro entra num período de luto, por causa do luto do marceneiro a escrivaninha que eu havia encomendado não fica pronta», e assim por diante, até ao infinito. Bonatti ajeita os óculos sobre o nariz pontudo, faz um aceno de cabeça, como que a enfatizar a veracidade de suas observações, e pergunta-se novamente: «Devo mesmo apontar o telescópio para a Lua?».

— P. R. Cunha

Há alturas em que temos tudo à nossa disposição

Uma teoria é feita de repetições. Estudamos determinados fenômenos, dizemos: não estou a compreendê-los; tornamos a estudá-los até, quem sabe, chegarmos a um nível aceitável de incerteza(s). E pode ser que no meio do caminho o investigador descubra sítios onde nunca ninguém esteve — descobertas acidentais, portanto.

O Sol brilha porque fusões nucleares estão a acontecer dentro de si. Quanto mais luminosa uma estrela, mais reações ocorrem no próprio núcleo. Estrelas supermassivas têm vida mais curta do que as estrelas comuns pois a sua taxa de consumo de energia é muito maior. Imagem terrestre à guisa de ilustração: enorme camioneta que gasta grande quantidade de benzina, enquanto um pequenino Prius é econômico e silencioso. Vida de uma estrela = quantidade de combustível / taxa de consumo*. Massa do Sol (em massa estrelar): 1. Tempo (em anos): 10 bilhões. Tipo espectral: G2.

Casa de mamã, fechado em mim mesmo como um microcosmos que quer ser mundo por conta própria. Neste quarto de mocidade sob cujo teto li pela primeira vez o Bernhard — Árvores abatidas. Quando nos mudamos para cá, meu pai fizera questão de que a minha janela estivesse voltada para o poente. Meu menino é contemplativo, dissera. E eu tinha acabado de completar cinco anos.

O narrador deste electro-sítio pode agora permitir-se dizer, com Sebald e Jean Paul, que está contente com a sua pessoa por ter passado a juventude a lidar com o pôr-do-sol todos os dias, com o desaparecimento da luz, por ter passado a juventude num lar com muitas janelas, casa cuja recordação sempre lhe deu uma ajuda.

*Vida útil de uma estrela com massa 5 (Nick Strobel’s calculation) = 1/(5/1) elevado a (4-1) x 10 elevado a 10 anos = (1/125) x 10 elevado a 10 anos = 8 x 10 elevado a 7 anos.

— P. R. Cunha