devaneios da própria máquina de escrever (episódio #16)

certa noite, ernesto carrión, o famoso — ou melhor —, o relativamente bem-sucedido documentarista radiofônico estava deitado no sofá assistindo à televisão quando um besouro amarelo entrou pela janela da sala do apartamento atolado de papéis avulsos, cheiro persistente de toalha úmida, o carpete ao centro que, pelos vistos, não recebia as carícias do aspirador de pó há meses. os besouros percebem o brilho azulado da televisão, a luz laranja que vem das luminárias dos apartamentos & confundem essas claridades com a lua ou com o sol ou com qualquer outra coisa que deveria guiá-los para algum sítio seguro. mas lá está o besouro amarelo. voa feito um piloto bêbado pelo teto da sala & aterra no livro cujas páginas ernesto carrión folheava distraidamente. o encontro entre humano & besouro é curto, inusitado. ernesto curva a ponta do dedo indicador até apoiar a unha sobre a cabeça do polegar & levanta o besouro amarelo para os ares. o inseto tenta se estabilizar, mas cai torto, virado, com as asas voltadas para o chão. ernesto fecha o livro. fica observando as patinhas do besouro amarelo que se mexem de forma aleatória, como se tentassem agarrar um móbile musical para crianças. alguém na televisão comenta sobre a alta taxa de obesidade nos países desenvolvidos. ernesto vai até à cozinha. pega uma garrafa de cerveja no frigorífico. volta para a sala. o besouro amarelo continua de cabeça para baixo, parado, balançando as patinhas, sem propósito nenhum. ernesto carrión entorna um longo gole de cerveja & sabe que não demorará muito para começar a fazer comparações filosóficas entre a própria vida e aquele balançar despropositado do besouro amarelo.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #15)

PEQUENO PEDAÇO DE TORTA COM SABOR DO DIA-A-DIA / ESCRITORES NÃO ENLOUQUECEM, JOGADORES DE XADREZ ENLOUQUECEM

ontem levei a minha olivetti lettera para tomar sol ao terraço & a campainha tocou. vejam bem, não gosto de ser incomodado enquanto escrevo, muito menos enquanto escrevo ao terraço com a minha olivetti — ambos a ingerir as chamadas «doses diárias de vitamina d». (sou mesmo um daqueles intratáveis com tendência para lidar com as mais simples tarefas [atender à campainha, por exemplo] de forma tão rancorosa & descomedida que a coisa toda ganha proporções hercúleas, torna-se absurdamente cansativa, irrealizável.) então me arrasto até ao interfone, que possui pequeno ecrã através do qual posso observar quem está lá fora. percebo um sujeito taciturno, por volta dos quarenta, mordiscando palito, boné com a marca da transportadora estampada. retiro o interfone do gancho & digo com voz ressentida: pois não… o rosto do sujeito se aproxima da câmera do interfone: é da transportadora. encomenda para quem?, insisto. para a senhora ([pausa] aqui ele tira um papelzinho do bolso), para a senhora flávia. não há flávia nesta casa, eu digo. ele faz cara de quem comeu pastel estragado: nenhuma flávia?, tem certeza? ora, eu digo, é claro que tenho a certeza, moro aqui há mais de quinze anos &, garanto, nunca vi nenhuma flávia. o funcionário da transportadora olha em redor, coça as têmporas, relê o papelzinho que tirara do bolso: é que está escrito flávia, compreende? compreendo. & ela não mora mesmo aí? não, não mora. certo, diz o funcionário num tom hostil, certo, certo, certo. depois, com desprezo, cospe o palito no meu jardim — toda a cena devidamente enquadrada pelo ecrã do interfone.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #14)

então, ao que parece, somos mesmo criaturas de hábitos. como diria um antigo: tu és aquilo que tu fazes repetidamente. consistência. 

numa altura perguntaram para a iris murdoch como ela lidava com o desafio de escrever livros extensos, ao que ela respondeu: não se chega à página quinhentos & quatro antes de passar pela página dois. susan sontag adotava filosofia parecida. (a imagem do tijolinho-de-cada-vez [sedutora demais para não ser evocada neste contexto].) 

evolutivamente, é provável que o hábito tenha ajudado o animal humano a lidar com certas imprevisibilidades: repetir o mesmo caminho, manter-se — na medida do possível — num mesmo acampamento à guisa de não se perder, preparar os mesmos alimentos para ninguém engasgar ingerindo coisas venenosas &tc. &tc. 

hábito que também se mistura com foco. fulano é pintor. fulano vai ao próprio ateliê todos os dias, segue a rotina, pinta quadros. não perde o foco. & aqui nos deparamos com um dos maiores desafios destes tempos pós-modernos: como manter hábito/foco diante de tantas possibilidades? 

um colega escritor dissera-me que não está dando conta de escrever com regularidade, pois acaba se perdendo nas séries (há milhares delas), nas redes sociais, nos noticiários (toda aquela ladainha de sempre). acontece que o hábito não tem juízo de valor. não possui a capacidade de julgar ética & esteticamente os estímulos que recebe. ele atua quase que de forma automática, funciona no modo «recompensa».

grosso modo, o hábito é justamente isto: conjunto de atos que geram recompensas neurológicas. se a pessoa se esparrama na poltrona para assistir à netflix & isto faz com que o cérebro libere as mesmas substâncias prazenteiras que liberaria se estivesse diante de um longo & custoso romance russo, ela tenderá (insisto: tenderá) a buscar o caminho mais fácil para atingir sensações agradáveis. 

mas não precisa de ser assim.

o artista que se apega à saudável rotina habitual cria uma espécie de antídoto, rede de proteção contra as redundâncias externas. é como o violino que se afina antes da grande sinfonia. toma o pequeno-almoço, prepara chávena de café, senta-se à escrivaninha, entrega-se às leituras para ativar neurônios, pratica exercícios [aparentemente] despretensiosos… qual um bom amante, sabe que o prazer da empreitada pode (& deve) ser prolongado.

«nice and easy», cantaria o saudoso sinatra: «making all the stops along the way».

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #13)

curiosa atividade, a do escritor. paradoxal, dir-se-ia. de longe, é apenas um ser humano sentado, imóvel, escrevendo. porém, se pudéssemos observar o que se passa ali dentro, veríamos tempestades, terramotos, balbúrdias — uma série infindável de cataclismos.

ao fim do dia, escritor diz: céus, estou exausto. & ninguém parece compreendê-lo: mas, ora, passaste o tempo todo sentado!

o problema é quando as ideias não vêm. de aí sim o escritor se torna mesmo «apenas um animal à deriva». nada faz sentido. & por estar parado (i.e.: sentado), a inércia se mostra ainda mais agressiva. de forma que por vezes é razoável dar uma boa chacoalhada nos modos. sair da zona de conforto. se não fizê-lo por conta própria, lá estará a fisiologia a meter-se na valsa. 

surge doença (febre), uma saudade há muito esquecida, pavores, o medo da morte, da finitude. como se alguma alma impiedosa amarrasse bomba-relógio às costas do escritor & dissesse: tempo! tic-tac-tic-tac…

vai, escreve!

repito: se bem-dosado, esse fluxo de endorfina pode fazer verdadeiros milagres literários.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #12)

arrumar a escrivaninha para um novo trabalho, nova empreitada, quantas portas serão abertas, escancaradas, outra vida. 

(& era como se minha cabeça estivesse hibernando, até que, de repente: booooom!)

vamos supor que francisco & samir sejam amigos, conheceram-se em criança, na escola. vamos supor também que eles não se encontram há décadas, vinte anos talvez. sabemos que vivem na mesma cidade; francisco é advogado, mora perto da praia; samir é arquiteto, mora ao cimo da serra. ambos estão naquela fase a que chamamos — não sem um comedimento desconfortável — de meia idade. aconteceu de franciso ser contratado para defender o caso de um empresário que, assim como samir, possui residência ao cimo da serra. francisco raramente sobe a serra, não lhe apetece o clima frio das montanhas, de forma que decidira aproveitar-se da ocasião & convidar o longevo amigo para, como se diz, colocar a conversa em dia. samir mostrara-se de facto muito surpreso com a ligação de francisco: eu realmente não esperava, ele disse, & antes de se despedirem ao telefone, combinaram hora (às 15h) & local do encontro (cafeteria da serra). vamos supor que francisco tenha aparecido, vamos supor ainda uma última vez que francisco tenha esperado cerca de duas horas pelo amigo arquiteto — mas samir nunca apareceu.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #11)

algumas pessoas descobrem que eu escrevo, & pensam que eu devo ler imenso, & de aí me pedem sugestões de leitura. acanhado, mas de boa vontade, dou-lhes sugestões de leitura. passa um tempo & não escuto mais nada dessas pessoas. até que a gente meio que se esbarra ocasionalmente num restaurante, num bar, ou na festa da prima-de-algum-conhecido-em-comum, & então eu pergunto: fulano/fulana, o que achara das minhas sugestões?, leu?, & fulano/fulana diz que leu, & que não achou grande coisa. é de partir o coração.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #10)

entre lá & seja você mesmo, disseram-lhe. mais dois tapinhas nas costas, «tap-taps», não tão leves ao ponto de serem considerados protocolares nem tão pesados ao ponto de darem a impressão de arrogância/indiferença. tapinhas nas costas na medida certa, ele pensou antes de ultrapassar as cortinas do auditório da universidade, «tap-taps» realmente encorajadores, eficientes. o auditório era formado por plateia dispersa: alunos, professores, alguns coordenadores, visitantes temporários. como da praxe, todos faziam cara de que gostariam de estar algures. mas estão ali sentados. plateia. ele se aproxima do púlpito. o púlpito/tribuna possui o brasão da universidade. um brasão ostentador, ele pensa, agora que está próximo o suficiente do brasão para ter a certeza de que se trata mesmo de um brasão ostentador. há poucos meses ele também estava sentado numa daquelas cadeiras apenas aparentemente confortáveis do auditório da universidade. também com uma fisionomia distante, aluada (dir-se-ia). agora, porém, estava ao púlpito. atrás do brasão ostentador. e não queria fazer feio. de forma alguma. fazer feio estava fora de cogitação. um fracasso seria terrível, irreparável, justo agora que as coisas pareciam ter se ajeitado. tira pigarro invisível da garganta, dá algumas cutucadas no microfone, percebe que está funcionando perfeitamente. é um ótimo microfone, ele pensa. uma garota com cabelo colorido acaba de bocejar. ela está sentada sozinha na primeira fileira. seria impossível não perceber o bocejo. a garota emite sons ao bocejar, sons prolongados: ahhhhhhm/uhhhhhhmmm/arrrrrrrgmmm, sons do tipo que o tio bob fazia quando a tia mércia dava-lhe um sermão. mas não é altura para distrações. ele está sobre o palco, ao púlpito, atrás do brasão ostentador com as iniciais da universidade gravadas em, ao que parece, ouro. o mais provável, no entanto, é que não seja ouro, seja algum material cor-de-ouro, mas que não seja ouro propriamente dito: uma imitação, portanto. ele posiciona o fino & flexível mastro do microfone para que a sua voz saia límpida, inteligível. depois ajeita os óculos ao nariz. óculos arredondados à moda professor universitário anos 1960, ou daqueles que os vocalistas das bandas indie costumavam usar (weezer, ric ocasek, telekinesis, death cab for cutie &tc. &tc.). sente vergonha do próprio aspecto. livresco demais, (pseudo)intelectual demais, ele pensa. a camisa de flanela com motivos quadriculados-preto-&-vermelho parece querer estrangulá-lo. olha para trás, para a brecha da cortina pela qual entrara ao palco. pensa se ainda daria tempo de desistir. de voltar ao conforto daquela brecha. de ir-se embora. mas não pode. tem de continuar. chegara a vez dele.

— p. r. cunha