O relógio búlgaro

Bem longe
uma estrela vermelha
a explodir planetas

Lourenço era completamente obcecado por relógios. Ele tinha uns olhos profundos, olhos da cor do Pacífico em tardes tempestuosas. Durante boa parte da vida pagou as próprias despesas com o dinheiro que recebia ao arrumar os cucos das mansões de gentes muito ricas, cujas casinhas de cachorro pareciam amiúde melhores sítios para se dormir do que o próprio apartamento do Lourenço. O apartamento do Lourenço quase nunca tinha água, o gás funcionava dia-sim-dia-não, as baratas desfilavam desimpedidas pelos azulejos deteriorados da cozinha, aqueles bichos cascudos a mastigar as sobras de um pequeno-almoço do mês anterior. O prédio ficava a menos de cem metros de um bordel clandestino administrado por búlgara rechonchuda e lenta chamada Nadejda. Em tempos de vacas magras, como se costuma dizer, Lourenço também consertava o cuco desse bordel clandestino — não era o tipo de homem que ligava para reputações. Organizava a caixinha de ferramentas, vestia o fato-macaco laranja e seguia para ter com a Nadejda, que estava sempre a comer qualquer coisa. Ela apontava com dedos engordurados e dizia: de novo, cuco estraga, cuco quebra, tu consertas. Jeito engraçado de falar, pensava consigo mesmo o Lourenço. O cuco desse bordel era um velho relógio búlgaro com cordas Herweg, o passarinho de madeira que cantava as horas não tinha mais o bico, a pata esquerda coxeava. Cuco mais trabalhoso com o qual já lidei, confessava o Lourenço na própria intimidade.

— P. R. Cunha

As diminutas partículas de poeira que se podem ver flutuar na claridade (três haikus [aparentemente] desconexos)

1.
céu cinza
jogo de futebol —
o comboio começa a apitar

2.
distante o poeta
esquece relógios
vira a página cinquenta

3.
corações acesos
lareira apagada
aguardamos pelas estrelas

— P. R. Cunha

O livro exige muita dedicação e por vezes as coisas não saem como havíamos imaginado

Série de motivos para justificar o fato de eu não ter trabalhado no manuscrito nesses últimos dias —

29 de outubro: limpeza do apartamento
30 de outubro: doente, dor no olho (esquerdo), muita chuva
31 de outubro: bicicleta para o conserto
1º de novembro: bebendo com os amigos
2 de novembro: mordido por cupim
3 de novembro: dor de cabeça, talvez por conta do veneno do cupim
4 de novembro: atividades com a Jéssica
5 de novembro: jogo de xadrez (até tarde)
6 de novembro: [ilegível]
7 de novembro: cartas/jogatina, bebedeira com os amigos
8 de novembro: cansaço (sem motivo aparente)
9 de novembro: maratona «Game of Thrones» com a Jéssica, bar à noite
10 de novembro: aspirador de pó com fio desencapado, dando choque
11 de novembro: NFL, Patriots @Titans
12 de novembro: saudades do pai
13 de novembro: aula de escrita criativa com o Ron Howard
14 de novembro: festa (cancelada) na casa da Lud
15 de novembro: feriado

— P. R. Cunha

Quarta nota #5 — quarentena galática, ou Calvin a dizer para Hobbes que a maior prova da existência de vida inteligente fora do nosso planeta é o fato de nenhum extraterrestre ter ainda se arriscado a entrar em contato conosco

§ Há muito que este electro-sítio se transformara em espaço indefinido, etéreo, no limite entre fantasia e realidade. Por vezes o próprio autor não sabe ao certo o que é o quê.

§ Franzen diz que a ficção mais puramente autobiográfica exige pura inventividade.

§ Minha resposta predileta ao paradoxo de Enrico Fermi (se o Universo é tão grande, tão velho, possui tantas estrelas e tantos planetas habitáveis… — então cadê os alienígenas?) é a hipótese Zoo. Extraterrestres tecnologicamente avançados já teriam localizado a Terra, mas decidiram não intervir, pois querem manter a nossa sociedade funcionando de maneira autônoma. Desta forma, não seríamos muito diferentes daqueles animais cuja vida acreditamos salvar ao mantê-los em reservas ecológicas específicas. Estão a nos observar e talvez até esbocem um sorriso torto diante das nossas incontáveis parvoíces.

§ «Passeio a minha casa / como leão na jaula», o trechinho é do Ruy Cinatti.

§ Antiga tradição em África: os tambores mensageiros. Percussões cujas batidas não transmitem o simples, o direto — elaboram. Se o caçador sente medo, os tambores não dirão apenas «não sintas medo», pois preferem discurso mais ativo: «Tira o coração da boca, fá-lo descer já daí, deixa de lado a angústia desnecessária, respira com destreza», etc. Os percussionistas africanos, portanto, longevos cronistas da espécie humana, que ao fim jaz de costas sobre montes de terra.

§ Stan Lee: a prova de que os super-heróis também morrem.

§ Sr. Trágico chega ao próprio apartamento para ler aquelas palavras que de tão harmoniosas, ele pensa consigo mesmo, só parecem dignas de olhos flamejantes e entendimentos sublimes. Sr. Trágico percebe que está a escalar a lombada do venerado livrinho uma traça modorrenta, mui gulosa de papel. Dá um peteleco na traça, FFFFUUUPPTTT. Certeiro. Traça voa ao longe, caindo finalmente sobre o jogo de xadrez, em cima da mesa que deveria servir às refeições. A torre branca ameaçada pelo bispo preto. Dois movimentos e xeque-mate. Mas sr. Trágico, agora um bocado distraído pela suavidade das Musas em elogios raros, ainda não percebera a ameaça real. 

§ Terminou a 11 de novembro de 1918 a guerra que supostamente deveria acabar com todas as guerras.

§ Na última segunda-feira, papai teria completado 65 idades.

— P. R. Cunha

Robô

Para o amigo olivarui

O robô não sente dor
não faz greve
não se rebela
não precisa do horário de almoço
não engravida
não sofre acidente de trabalho
não exige indenização
não tem problema cardíaco
não bebe demasiadamente
não escreve poesia
não sangra
não chora
não mente
não sente —
o robô há muito
já nos roubou.

— P. R. Cunha

Como construir um escritor

Primeiramente, o escritor precisa de corpo — uma casa orgânica, poder-se-ia dizer. Vai até à farmácia, explica que estás a construir um escritor («estou a construir um escritor») e pede estes ingredientes: hidrogênio, carbono, oxigênio, nitrogênio, cálcio, enxofre… — nesta altura a farmacêutica já bem saberá do que se trata e conseguirá para ti os outros elementos necessários. Agora, monta o escritor: cabeça, mãos, dedos etc. Depois, arranja-lhe uma grande e diversificada biblioteca, ele vai precisar. Põe o escritor à mesa. Observa-o trabalhando. Pronto! Muitos parabéns. Construíste um escritor. 

— P. R. Cunha

Quarta nota #4 — há um enorme pedaço do universo onde pouca coisa acontece

§ Curta passagem pela Terra (68,76 anos se fores mulher e 64,52 anos se fores homem [em média, naturalmente]) e, depois, durante quanto tempo ainda lembrarão do teu nome? Malabarismos diários para construir o chamado «legado à posteridade», enquanto, ainda em vida, milhares de pessoas são relegadas ao esquecimento.

§ Em 1845, um jovem e irascível Charles Baudelaire — o poeta suicida que não se suicidara — escreveu carta de despedida a explicar que não aguentava mais o cansaço de adormecer e o cansaço de acordar, a rotina das mesmices. Logo depois, esfaqueou-se, mas não morreu. A nota com os pormenores desse plano macabro foi leiloada no domingo último por € 234 mil (≅ R$ 988 mil).

§ Se gostas de Roland Barthes e de, como costumam dizer os críticos, thriller cult com referências filosóficas de pensadores dos 1980, então La septième fonction du langage, do Laurent Binet, é um livro que vai te agradar imenso.

§ Tu és o motorista, não há mão livre para escrever. Passeia de autocarro, ou de metrô, ou de táxi; ali anota ao sabor das trepidações.

§ Os leitores portugueses têm agora um novo sítio de verificação de fatos: Polígrafo, fundado pelo jornalista Fernando Esteves, ex-editor de Política e Internacional da revista Sábado. Os fact-checks são primordialmente voltados para o contexto lusitano, mas Polígrafo também averigua eventuais lorotas brasileiras.

§ Em toda a parte deveria existir um escritor a trabalhar. O escritor dá forma a contos, crônicas, artigos, romances, poemas etc. A palavra é a tua matéria-prima; inspiração nada mais é do que a leitura e a releitura daqueles livros e daquelas ideias que mais te agradam. Utiliza de um clichê bobo e gentil: a inspiração é também transpiração. Os gênios têm os dedos calejados. 

§ Dentro de casa — a melodia das canetas a riscar a folha em branco continua.

§ O mundo é um lugar estranho. Muitas nuvens, cães solitários a vagar nenhures, árvores com folhas verdes, e vermelhas, e amarelas, os telhados, os asfaltos vestidos de sombra, automóveis de aço, aeronaves de aço, convites para escrever no jornal alheio; jornal de celulose. As longas tardes cinzentas em que pegaste no sono ao escutar documentários sobre o Cosmos — Boötes void (o vazio de Boötes), diâmetro de quase 250 milhões de anos-luz, monstruosa região repleta de coisa nenhuma, onde o inverno dura para sempre. Estás a escrever a respeito disso tudo e sentes também um Boötes void no coração. És supervazio. 

— P. R. Cunha