O glaciar

Nootaikok
é um inuíte — esquimó
ele mora no iglu
no meio de um deserto
de gelo

Nootaikok
não sabe o que é coronavírus
nunca leu sobre coronavírus
nunca escutou coronavírus
nunca discutiu coronavírus

Nootaikok
isolado numa habitação de neve
talvez seja o ser humano
mais feliz que existe

Nootaikok
que significa:
deus dos icebergues.

— P. R. Cunha

O marido

O teu marido é um neurótico. Ou melhor: vamos «supor» que ele seja um neurótico. Ele se mantém confinado em casa a verificar se todas as janelas estão devidamente fechadas, se as portas estão trancadas à chave (duas voltas completas de chave), se há alguma teia de aranha a se formar nas quinas do teto. O teu marido pouco faz além dessa rotina que, convenhamos, já começa a te perturbar imenso: não brinca com a criança, não te leva aos espetáculos, não discute contigo os pormenores do teu dia-a-dia. Qualquer plano fora as janelas fechadas, portas trancadas e teias de aranha fica completamente alheio ao comportamento do teu marido. Tu começas a perceber também que ele está a ponto de se tornar psicótico, que ele mal consegue manter-se dentro daquilo a que chamamos — não sem um certo escárnio — de «realidade». Tem comportamentos estranhos, o marido. Um tipo excepcionalmente medroso, inseguro, infeliz, dir-se-ia. Então, a fim de salvaguardar a tua própria sanidade mental, tu começas a refletir com afinco sobre o buraco em que estás atolada. À tarde, antes da tua aula de yoga, o telemóvel vibra, o ecrã ilumina-se — é o Harold, do departamento de finanças da empresa para a qual tu trabalhas; ele está a convidar-te para tomar um café.

— P. R. Cunha

O sorriso

As árvores eram verdes
o céu, azul
uma nuvem branca
preguiçosa
aproximava-se lentamente
tinha o formato de um gigante
urso polar
o urso polar sorria
talvez porque fosse sábado.

— P. R. Cunha

A demonstração

O pacato Gerson entra numa loja de armas e munições chamada MIRAGEM. Trata-se de um desses estabelecimentos com sininho na porta. Abre-se a porta, o sininho toca, Gerson entra e Eduardo — dono da MIRAGEM — observa o potencial cliente se aproximando de um fuzil 762 semi-automático. Eduardo vai até lá fazer-se à disposição: vejo que o senhor está em busca de potência, o dono diz enquanto retira o fuzil do mostruário. Gerson dá de ombros, como se tentasse não se impressionar, como se já tivesse visto armas muito mais mortíferas do que aquela, o que não é necessariamente verdade. A título de demonstração, Eduardo aponta o fuzil 762 na direção da cabeça de Gerson e sem saber que a arma havia sido carregada pelo funcionário do turno da manhã aperta o gatilho.

— P. R. Cunha

A cama

Monteiro acorda muito cedo e sente o peso das pálpebras sobre os olhos castanhos. Ele pensa se não seria melhor simplesmente ficar deitado, na cama, letárgico, em coma. Mas de alguma forma difícil de explicar o subconsciente do Monteiro consegue, como diria um antigo, tomar as rédeas da situação. Afinal, é preciso ter dinheiros para sobreviver etc. Dali a pouco Monteiro meio que desperta com as sacudidas da minivan, bate a cabeça levemente no vidro engordurado da minivan, a caminho de mais um dia de tristezas na firma.

— P. R. Cunha

O perfil

P. R. Cunha é um escritor brasileiro. A comida preferida do P. R. Cunha é paella. O filme predileto dele chama-se The legend of 1900 — com Tim Roth, Bill Nunn, dirigido por Giuseppe Tornatore. P. R. Cunha ainda está vivo. Ele tem dois irmãos mais velhos: Felipe e Marcella. P. R. Cunha é formado em jornalismo. Ele nasceu em 14 de outubro de 1985. P. R. Cunha torce para o Botafogo e costuma lembrar que o Botafogo lhe ensinou imenso sobre as decepções da vida. P. R. Cunha mora em Brasília, Distrito Federal. Ao contrário do que muitos acham, P. R. Cunha nunca foi ao Tibete. Ele não possui televisão e gosta de jogar xadrez sozinho.

— P. R. Cunha