Contrair matrimônios

O primeiro casamento de Rita foi um desastre. O segundo, também.

Rita conhecera Tim Larsson em um isolado vilarejo nepalês depois de ambos terem assistido às palestras do mestre budista Yongey Mingyour Rinpotché. Esbarraram-se enquanto saíam do templo, conversaram e resolveram se encontrar na manhã seguinte num pequeno refeitório com vistas para os Himalaias. Rita confessara que estava à procura de alguém tranquilo, um parceiro para meditações, «levar uma vida serena, sabes?, um equilíbrio». Tim Larsson sorriu e disse: eu trabalho num transatlântico, sou DJ. Duas semanas depois, casaram-se no Tibete.

Após violentas crises de ciúmes de Rita, que não suportava mais a rotina desvairada do DJ sueco, ambos decidiram que já chegava, precisavam de se separar. Larsson voltou para Estocolmo. Rita, à guisa de vingança, resolveu fazer cruzeiro para as Bahamas a bordo de um navio três vezes maior do que o transatlântico em que o ex-marido trabalhava. Durante uma barulhenta festa no convés ao som da música techno 1990, conheceu Gustav de Staël — francês tranquilo, introspectivo, que praticava meditações regularmente, desejoso de uma existência equilibrada, sem conflitos.

Casaram-se, alugaram uma casa com jardim no subúrbio de Paris, tentaram ter um filho, não deu certo. Depois do divórcio, Rita confidenciou para uma amiga de juventude que já não aguentava mais a passividade daquele monge civil, sempre inabalável, de perninhas cruzadas sobre o tapete felpudo da sala de estar.

— P. R. Cunha

O velho e imprevisível Hemingway

Aprendi a gostar de literatura com as coletâneas de contos de Ernst Hemingway. Minhas iniciações ficcionais. Passava as tardes (e noites, e madrugadas) a ler, a descobrir, a redescobrir, a me inquietar com aqueles excêntricos lenhadores perdidos no meio das florestas estadunidenses. Até que o tempo se alastrou, amadureci, encontrei outras vozes, outros bosques, escritoras e escritores que conversavam comigo num idioma mais de acordo com os meus novos interesses. 

Bom… não é mesmo verdade o que dizem: que a primeira obsessão nunca é a última obsessão?

Ainda consigo, entretanto, adequar-me aos ensinamentos do velho Hemingway, às dicas literárias que ele compartilhara com amigos, críticos e com quem mais quisesse ouvir. O Hemingway que escrevia e pensava a respeito do processo de escrever, da fazenda criativa. Por exemplo (e aqui parafraseio): trabalhar e datilografar as histórias em pé, verticalmente, fluxo, escutar o barulho da máquina de escrever, tac-tac-tac-tac, fazer os dedos dançarem ao som dessa melodia estrondosa, parar subitamente no meio de uma frase interessante, continuar no dia seguinte, a partir dessa frase interessante etc. E, antes de tudo, identifico-me com as angústias que Hemingway costumava sentir — como aquele terrível pavor de esgotamento, de não se ter mais nenhum assunto, de chegar à altura em que o poço se mostrará vazio, inutilizado, irrelevante.

Para Hemingway, escrever era ter fé — não uma fé religiosa, mas uma fé laica na própria capacidade cerebral. Acordar de manhãzinha, aguardar até que as ideias voltem, torcer para que não tenham se rebelado, averiguar se a sanidade não o abandonara, daí escrever, escrever, escrever até ao esgotamento físico/mental e, de novo, antes de dormir, a fé: a fé no recomeço, esperar que a próxima manhã também não seja a última.

Hemingway constantemente apontando para si o cano da espingarda, numa espécie de roleta russa literária.

— P. R. Cunha

É o escritor de ficção um personagem; ou melhor: o escritor de ficção precisa de ser/tornar-se (também) um personagem?

Knut Hamsun foi um civil ambíguo, com inclinações sociológicas extremamente duvidosas, chegara mesmo a flertar com o nazismo. Porém, ao mesmo tempo, escreveu literatura com ímpar sensibilidade e desenvoltura. Tais contradições são mais corriqueiras do que se imagina.

Fome, o aclamado livro deste escritor norueguês, mostra-se até hoje um relevante relato sobre a vida daqueles que decidem-se numa altura dedicar-se à escrita a tempo inteiro. Narra as peripécias de um flâneur que perambula fantasmagoricamente pelas ruas de Cristiania (a Oslo contemporânea) em busca de ideias, imagens, cenas, personagens, qualquer coisa que o ajude a escrever crônicas para os jornais. O protagonista — alterego de Hamsun — depende desses textos para permanecer em pé, quitar dívidas, matar a fome, seguir em frente. Carlos Drummond de Andrade não só elogiara imenso a obra como tratou de traduzi-la para o português, agradável releitura poética que pode ser encontrada nas páginas publicadas pela Geração Editorial.

Quando a figura do autor mescla-se voluntariamente com a do personagem, surgem perguntas: afinal, quem é quem, o que é verdade, o que é ficção, que jogo é este?

Sabe-se que Knut Hamsun, entre outras coisas, foi marinheiro, lenhador, conduziu bondes, trabalhou em quintas criadoras de frango, ficara dias sem comer. Vivera períodos de intensa instabilidade, sem morada fixa, atormentado entre os Estados Unidos e a Europa. É possível decifrar um bocado disso nas páginas de Fome. No entanto, o que torna o livro ainda mais intrigante é o facto de o protagonista (mesmo que acompanhado «de perto») permanecer uma incógnita para o leitor.

Lê-se a respeito de um tipo excêntrico com roupas surradas, a levar consigo um toquinho de lápis para todos os sítios a fim de anotar as próprias impressões errantes. Um péssimo administrador financeiro, sem dúvida, chegando a gastar numa única ocasião todo o salário do mês que recebera como jornalista freelancer. O leitor descobre como ele age, sente, desespera-se, enche-se de esperança para logo cair num vale de lágrimas e infortúnios. Mas, mesmo assim, é como se as verdadeiras entranhas do protagonista permanecessem algures, paradoxalmente algures.

Hamsun reflete-se em Fome da mesma forma que gostava de se revelar na chamada vida real: cheio de segundas intenções, ora sofrível, ora magnífico, corajosamente medroso, uma esfinge difícil de ser decifrada. Não é simples, portanto, notar se foi o homem-escritor que mesclara-se com o personagem livresco ou se foi o protagonista-de-papel que alimentara uma existência ainda mais errática e contraditória lá fora.

A verdade é que autobiografias literárias permitem e até encorajam esse tipo de impasse. Principalmente quando as regras classificatórias (romance, ficção, literatura, história, relato documental…) não são esclarecidas ao público. De certeza que era essa a ideia de Hamsun, como se ele tirasse um sarro: sim, sou também personagem, costumo agir sem pensar, digo disparates, minha vida é um enredo em constante metamorfose. Fome esclarece-se, assim, como um fragmento, uma amostra dessa linha imaginária que se expande e se contrai de acordo com os caprichos da pena do escritor.

Que Hamsun chegasse ao ponto de finalmente não conseguir mais perceber em que verdades estava inserido e consequentemente ter parado numa clínica de loucos não deveria surpreender vivalma.

— P. R. Cunha

Tendência à introspecção

O sr. Jaspers está sentado no banco da Praça Central enquanto miúdos escolares jogam-lhe pedras. Não são pedras grandes e há também o sobretudo surrado do sr. Jaspers — a servir de escudo. As pedras batem no sobretudo, sobretudo amortece o impacto. O sobretudo, portanto, está para o sr. Jaspers assim como a atmosfera está para o planeta Terra. As crianças agem dessa forma porque ainda não têm discernimento, não sabem que jogar pedras no sr. Jaspers é errado. E o sr. Jaspers, que já foi criança numa altura, compreende, não se aborrece — apenas levanta a cabeça, observa o estado do céu. Cai a primeira neve, como se diz, neve fina, sonolenta. O sr. Jaspers não pode mais falar disto com a sra. Jaspers. Desta vez terá de guardar a primeira neve somente para si.

— P. R. Cunha

Se é tarde, me perdoa

Deixou-nos João Gilberto, que há anos estava a ser suicidado pela própria família. Se almas existem, que a do criador da bossa nova possa, enfim, descansar certinho.

A dor é minha
em mim doeu
a culpa é sua
o samba é meu

Papai era um daqueles malucos que não se importavam de meter três filhos + esposa dentro de um automóvel popular e percorrer os intermináveis 1169 km de distância entre Brasília e Rio de Janeiro (BR-040). Para que a eternidade andasse mais depressa, papá e mamã elaboravam pertinentes trilhas sonoras — as antigas mixtapes: Sinatra, Crosby, Jobim, Ray Charles, João Gilbeto. Sim, tinha que ter João Gilberto, do contrário nem sequer partiríamos. 

O amor encontrará
ouvindo esta canção
alguém compreenderá
seu coração

João Gilberto cantou-me a forma mais canalha de procrastinação, isto é: falar sem pudores sobre o processo criativo. Como nesta interpretação da letra «Samba de uma nota só», de Newton Ferreira de Mendonça. Eis aqui este sambinha feito numa nota só, outras notas vão entrar, mas a base é uma só. Metamúsica, metapoesia, metatudo, metanada. Manhã banal, o céu encoberto, as ondas de um mar preguiçoso, faz um bocadinho de frio, o artista em busca de inspirações, momento difícil, o medo de não encontrar a força de dizer aquilo que mais se desejaria dizer, a moça que dorme no quarto, e para não se sentir ainda mais inútil, João Gilberto dedilha as cordas do violão e continua a cantarolar justificativas: quanta gente existe por aí, que fala tanto e não diz nada (ou quase nada), sem dúvida corroborando o estilo minimalista que viria a ser a assinatura deste romântico repleto de saudades. Porque quem toca todas as notas, ré, mi, fá, sol, lá, si, dó, fica sempre sem nenhuma… então, fique numa nota só.

Sou, de muitas formas, a consequência inevitável de se escutar João Gilberto. Não foi (tudo) inventado. Foi negócio bem bolado.

— P. R. Cunha


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Em vez de amor, uma saudade vai dizer quem tem razão: o pai da bossa está livre para desafinar (Crédito da imagem: © Tom Copi)

Brasileiro Moderno de Azevedo

Brasileiro Moderno de Azevedo é um daqueles estranhos casos em que não conseguimos definir a idade com a devida precisão que gostaríamos: tanto pode andar na casa dos vinte como na dos quarenta e cinco, cinquenta anos. Veste-se de punk, jamais folheou Karl Marx porque detesta qualquer tipo de viés ideológico — apesar de levar a mão direita ao peito enquanto toca o hino dos United States of America e colar bandeirinhas de Israel na traseira do automóvel Land Rover. Brasileiro Moderno defende os produtos nacionais enquanto toma uma garrafa de Coca-Cola na fila do McDonald’s escutando no próprio iPhone X (made in algures) o novo álbum do Jay-Z. Brasileiro Moderno diz-se democrático, mas trabalha numa empresa em que mulheres ganham 20,5% a menos do que os homens; diz-se também a favor de um governo que defenda os interesses de todos os cidadãos, mas vota em políticos homofóbicos. Tenta mostrar-se engajado e às vezes até sai para as ruas a fim de «protestar pelos direitos dos menos favorecidos», ocasião em que Brasileiro Moderno veste com-muito-orgulho-com-muito-amor a camisa do selecionado de futebol (R$ 500) comandada pela mui honesta CBF, que, como sabemos, quase não se mete em escândalos de corrupção. Depois de ter ficado rouco de tanto gritar frases como «Fora, Rede Globo!», «Globo é Lixo!», «Basta de Novelas!», Brasileiro Moderno chega em casa, ainda vestido apropriadamente com a camisa desportiva amarela, e escolhe sem qualquer pudor o canal da TV Globo para assistir ao nacionalíssimo esquadrão de Tite — com 23 convocados, dos quais apenas três atuam no futebol local. Desnecessário dizer que o patriotismo de Brasileiro Moderno de Azevedo aumentará ou diminuirá de acordo com o resultado obtido pelos guerreiros futebolistas. Que vença, portanto, o Brasil.

— P. R. Cunha

Tintas biográficas

Inverno, Rio de Janeiro, clínica psiquiátrica (sanatório) / Não estou a gostar do meu estado de espírito — escreve García Aspe para a irmã —, sinto um vazio, algo assim. Há dias que não come, apenas trancado, ou melhor, enclausurado dentro de um quarto sombrio, com pequena janela que não dá para sítio algum. Tomar notas todas as manhãs, continua García Aspe, tornou-se de certeza uma obsessão difícil de controlar. Um dos funcionários da clínica percebera a genialidade do paciente e arranjara para o sr. Aspe uma pequena mesa à qual o filósofo dedica os escassos momentos de lucidez para pôr no papel, como se diz, o doloroso processo do próprio pensamento. García Aspe gosta de citar Albert Camus sem, no entanto, cair nas armadilhas da erudição. Pensa que o excesso de leitura, em mãos erradas, só faz alimentar o egotismo do sujeito, que sai por aí afora a contar vantagem só porque leu um ou outro livrinho existencialista. O suicídio, diz García Aspe, um gesto como este prepara-se, tal como acontece com uma grande obra, no silêncio do coração. Ele pede para a irmã que lhe envie mais livros, para, segundo ele mesmo, distrair-se desses pensamentos autodestrutivos. O suicídio à base de metonímias, porque ainda tabu. A irmã responde que alguma coisa está para chegar. O irmão enche-se das melhores expectativas. Camus questionava, anota García Aspe, sobre os motivos que provocariam uma crise incontrolável e que levariam à chamada morte com as próprias mãos. Há imensas causas para o suicídio. Mas era preciso saber se, nesse próprio dia, um amigo do desesperado não lhe falou num tom indiferente — é ele o culpado. Alguém bate à porta e diz que segura uma encomenda importante para o sr. García Aspe. Ele abre o pacote e se depara com a obra do finlandês Arto Paasilinna: Um aprazível suicídio em grupo. O paciente não sairá do quarto nos próximos três meses porque muitíssimo compenetrado, não lhe apetece largar a prosa de Paasilinna. O tom irônico e por vezes bonachão do romance de facto arrefece as tragédias internas de García Aspe, que não encerra a própria vida de maneira precoce; muito pelo contrário.

— P. R. Cunha