O romance

A paciência nos dá livros, diz um antigo provérbio. Eu ainda não sei realmente o que é um livro. É sobretudo uma coisa com páginas, e palavras, coisa que é como é e que depois já são duas, três quatro coisas. Julga-se um livro pelo tamanho?, pela complexidade?, gênero?, relevância? Quando cada um procura descrever o livro, explica-se, exemplifica-se, defende-se, propaga-se — cada um acredita estar a explicar o que é um livro «de verdade». Só que nunca lá se encontra nenhuma verdade absoluta. Um livro que começamos a ler e não o terminamos, pode/deve ser considerado um livro? Certo dia sento-me à escrivaninha e escrevo um capítulo, noutra semana escrevo mais dois capítulos, depois oito, quinze capítulos. O livro se encorpa, digo a mim mesmo. Até que, numa determinada ocasião, dou-me conta de que: sim, concluí o romance, um romance devastador, algo de muito genioso saíra da minha cabeça. Que prodígio. Bem verdade que o honesto manuscrito necessita de alguns retoques, mas, no geral, está pronto para ser embrulhado e despachado alhures. Ontem à noite, por exemplo, comprei canetas novas. Chegar-me-ão pelos correios.

— P. R. Cunha

O violoncelo

Para a Marcella Cunha, minha irmã

O violoncelo é um instrumento robusto. Se — a título de entretenimento — colocássemos roupa humana no violoncelo, ele ficaria parecido com uma pessoa de estatura mediana. Inclusive, a forma como o violoncelista toca o violoncelo lembra muito a maneira que duas pessoas se abraçam. O violoncelo parece um contrabaixo, mas não é um contrabaixo, é outra coisa. O violoncelista experimenta sons no violoncelo, aperfeiçoa-se com o tempo. Numa altura, violoncelista-e-violoncelo parecem um só organismo. O violoncelista dedilha as cordas do violoncelo e acredita-se um deus acústico. O prazer que sente o violoncelista ninguém lho tira. Podem jogar maçãs no violoncelista, baldes d’água, terra, lama, podem cuspir no violoncelista que ele continuará tocando. E mesmo que o teatro lhe caia sobre a cabeça, e o aglomerado de pedras, cascalhos e areia comece a lhe sufocar, ele continua tocando.

— P. R. Cunha

A árvore

Há mais ou menos trinta e quatro anos, as mãos pouco habilidosas do fazendeiro trouxeram cá sementes. Ele abriu uns buracos na terra e colocou as sementes dentro dos buracos. Muitas não deram conta, outras sobreviveram. Eu faço parte do grupo das sementes que sobreviveram. Sou, portanto, uma árvore. De início, o fazendeiro trazia a filha para me visitar. Ele colocava a filha no colo e dizia: vê lá, Susan, quando tu cresceres esta árvore será a tua sombra. Mas isso foi por pouco tempo. As visitas cessaram depois que Susan sofreu aquele terrível acidente de trator.

— P. R. Cunha

O glaciar

Nootaikok
é um inuíte — esquimó
ele mora no iglu
no meio de um deserto
de gelo

Nootaikok
não sabe o que é coronavírus
nunca leu sobre coronavírus
nunca escutou coronavírus
nunca discutiu coronavírus

Nootaikok
isolado numa habitação de neve
talvez seja o ser humano
mais feliz que existe

Nootaikok
que significa:
deus dos icebergues.

— P. R. Cunha

O marido

O teu marido é um neurótico. Ou melhor: vamos «supor» que ele seja um neurótico. Ele se mantém confinado em casa a verificar se todas as janelas estão devidamente fechadas, se as portas estão trancadas à chave (duas voltas completas de chave), se há alguma teia de aranha a se formar nas quinas do teto. O teu marido pouco faz além dessa rotina que, convenhamos, já começa a te perturbar imenso: não brinca com a criança, não te leva aos espetáculos, não discute contigo os pormenores do teu dia-a-dia. Qualquer plano fora as janelas fechadas, portas trancadas e teias de aranha fica completamente alheio ao comportamento do teu marido. Tu começas a perceber também que ele está a ponto de se tornar psicótico, que ele mal consegue manter-se dentro daquilo a que chamamos — não sem um certo escárnio — de «realidade». Tem comportamentos estranhos, o marido. Um tipo excepcionalmente medroso, inseguro, infeliz, dir-se-ia. Então, a fim de salvaguardar a tua própria sanidade mental, tu começas a refletir com afinco sobre o buraco em que estás atolada. À tarde, antes da tua aula de yoga, o telemóvel vibra, o ecrã ilumina-se — é o Harold, do departamento de finanças da empresa para a qual tu trabalhas; ele está a convidar-te para tomar um café.

— P. R. Cunha

O sorriso

As árvores eram verdes
o céu, azul
uma nuvem branca
preguiçosa
aproximava-se lentamente
tinha o formato de um gigante
urso polar
o urso polar sorria
talvez porque fosse sábado.

— P. R. Cunha