Cosmologia de uma viagem aos Andes chilenos – quinta parte (montanhismos)

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Elaborei este pequeno pedaço de literatura ficcional durante jornada de teleférico até ao cimo de uma montanha andina. O autor tentava limpar a neve dos esquis com a pontinha do bastão verde marca Tsl (outdoor compact) e encarava o precipício que se abria para o solo. Estava a pensar nas montanhas, numa narrativa que ocorresse ali — mas as montanhas não estavam a pensar nele, as montanhas não dão a mínima.

SANTIAGO, CHILE

Joaquín Rapiman acordou assustado de um pesadelo e gritou para a esposa: mulher, não fiz nada nesta vida, tenho um emprego odioso, sinto que vou morrer. A esposa ajeitou-se na cama com dificuldade e com aquela indisposição de quem desperta antes do previsto fitou o marido — tinha a certeza de que ele endoidara. Quinze, vinte, trinta anos com a mesma pessoa, acreditando que conhece essa pessoa, que a compreende, mas a realidade é outro bicho: não conhece, muito menos compreende. Quero escalar as montanhas dos Andes, disse Joaquín. Quais?!, a esposa perguntou incrédula, na cordilheira há milhares. Qualquer uma, todas, a primeira que me aparecer, ele respondeu. Então Joaquín Rapiman comprou trajes adequados para escaladas e subiu aos Andes. Escalava uma, duas, às vezes três montanhas por tentativa. À medida que atingia o cimo de uma enorme formação rochosa, a fama do homem se espalhava. Todos queriam saber quem era aquele excêntrico sujeito que largara um estável cargo na prefeitura de Santiago para dedicar-se única e exclusivamente ao montanhismo. Muitos trabalhadores também largaram tudo, pediram demissão, almejavam seguir o exemplo de Joaquín Rapiman; a imprensa começara a chamá-lo de «o grande herói das montanhas», o subordinado que decidira se rebelar contra o sistema. No inverno de 2011, depois de ter obtido sucesso em todas as tentativas que empreendera, Joaquín achou que era altura de encarar o Aconcágua — a montanha mais alta dos Andes, 6.961 metros de altitude. Ele atravessara a fronteira com a Argentina, mirou na direção de Mendoza, seguiu uma sinuosa estrada secundária sobre a qual os flocos de neve caíam como se fossem pedaços de marshmallow. Antes de começar a escalada, Joaquín notou que uma multidão acenava e gritava o seu nome com grande entusiasmo. No céu, um helicóptero de TV acompanhava os movimentos do «herói das montanhas» à guisa de capturar imagens para um futuro documentário. A neve, no entanto, virou nevasca. Joaquín escalava e tornava-se cada vez mais um pontinho difuso no fundo branco do Aconcágua. Até que ele simplesmente sumiu. A multidão não conseguia enxergá-lo, o helicóptero perdera-o de vista. Joaquín Rapiman desaparecera sem deixar vestígio. Mesmo hoje, quase uma década depois do ocorrido, há quem acredite que ele esteja vivo, descansando em algum sítio isolado do Aconcágua, preparando-se para voltar — triunfante.

— P. R. Cunha

Cosmologia de uma viagem aos Andes chilenos – terceira parte (breve história da criação do céu, da terra e da angústia)

Não é bem o estímulo de ser lido que me faz querer escrever — pensei enquanto tentava desenhar os contornos da cordilheira, cicatrizes geológicas que se estendiam ao longe. Obviamente que atingir o sistema neurológico de um outro ser humano, causar reflexões ali dentro (ou pelo menos ter essa pretensão) mostra-se uma importante potência motriz que acaba por manter o movimento da caneta até ao ponto final. 

(Os traços por vezes indecisos em busca de um melhor entendimento de si, das coisas, de tudo… do nada [encore].)

Trata-se mais de uma necessidade, uma psicose, um vício. Sim, sem dúvida que há muito de vício nisto de escrever. O efeito alucinógeno da abstinência, o córtex orbitofrontal a processar lentamente os canais emotivos, decisões tomadas de forma intempestiva, a memória é afetada. Que o leitor experimente ficar dias sem beber água, ou sem ingerir alimentos e de certeza compreenderá fisicamente o que estou tentando dizer.

Agora a bandeira do Chile balança sobre o portal de uma estação de esqui por onde uma torrente mais ou menos contínua de turistas entra e sai. A maioria segura um telemóvel, ou um tablet: jovens e adultos que averiguam no Google Maps se realmente estão onde deveriam estar. É provável que muitos desses turistas não consigam se divertir hoje, pois deixaram problemas demais em casa.

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Acontece muitas vezes de adquirirmos/acumularmos tantas responsabilidades que chegará o momento em que o nosso organismo pedirá clemência, porque não deu conta. Os problemas se multiplicam exponencialmente e a pessoa então se retrai num casulo, move-se pouco, as tarefas mais simples (ir ao mercado, encontrar com os amigos, assistir a um filme) mostram-se inatingíveis. Fica-se como que paralisado, não consegue sair do quarto, é agora uma montanha, uma custosa placa tectônica que só se mexe quando diante de algum cataclismo — ou quando decide se esconder para sempre no mar de magma sob a crosta terrestre.

Eu mesmo sentia-me muito consciente da minha própria solitude, ali sentado a desenhar os Andes. Uma existência à Samuel Beckett: sempre um bocadinho isolado do mundo, a tentar explorar o ardiloso funcionamento da minha cabeça. E toda a vida a girar em torno desta cega obsessão para escrever literatura. 

Beckett percebera que as sombras contra as quais havia lutado para manter longe de si, longe dos amigos, dos familiares, buscando ser agradável, espirituoso, animar o ambiente etc., Beckett percebera que essa escuridão era, de facto, a fonte de suas inspirações criativas. Sempre viverei deprimido, ele contara para um jornalista francês, mas o que conforta é a clareza de que agora posso aceitar esse lado negro como o lado dominante da minha personalidade.

Encarar os demônios que atormentam sobremaneira, fazê-los trabalhar para si, e depois redigir o que se passa consigo num idioma mais acessível e elegante. Numa palavra: transformar depressão em criações.

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É provável que os acumuladores de responsabilidades sociais vejam nesse modus operandi uma rotina melancólica, insuportável, claustrofóbica. Mas para quem se deu conta de que a escrita é a atividade que realmente importa, essa epifania é o último bote salva-vidas a flutuar errante no convés.

— P. R. Cunha

Cosmologia de uma viagem aos Andes chilenos – segunda parte (aurora sangrenta)

Quem se aproxima dos Andes e não compreende que embaixo daqueles paredões rochosos existe uma dinâmica atividade geológica talvez fique com a impressão de que as cordilheiras estacionaram-se numa paisagem imutável, atemporal. Estas montanhas, porém, são o resultado de milhões de anos de movimentos tectônicos — alguns lentos e morosos, outros abruptos e imprevisíveis. Um processo que continua a acontecer e não deve cessar até que o núcleo terrestre esfrie. Estimam-se que a cordilheira dos Andes esteja a crescer, em média, 12 centímetros por ano.

A verdade é que os constantes e violentos choques da Placa de Nazca sob o oceano Pacífico com a continental Placa Sul-Americana fazem do Chile um território deveras hostil aos chamados interesses da sobrevivência humana. Nunca é demais lembrar que o epicentro do terremoto mais violento já registrado cientificamente ocorrera no dia 22 de maio de 1960 perto da província de Malleco, 570 km ao sul da capital Santiago. Conhecido como o Grande Terremoto de Valdivia, o cataclismo de magnitude 9,5 MW matou quase 6 mil pessoas e deixou milhares de desabrigados. 

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A conversar com chilenos a respeito de tragédias como essas, percebi uma perturbadora consciência de alerta constante, como se alguma coisa terrível já estivesse programada — era só uma questão de tempo. A população, de forma geral, compreende que não faz sentido perguntar «se algo pode acontecer», apenas preparam-se para o dia em que terão de fugir de suas casas por conta dos caprichos catastróficos cultivados pela Mãe Terra.

* * *

Adentrei a cadeia de montanhas pela mesma estrada que percorri em julho de 1996, quando cá estive com papai e meus irmãos. Uma estreita via que dança ao redor das silhuetas andinas, beliscando a proteção a meia altura, lembrando constantemente que um simples lapso de concentração traria consequências irremediáveis. O caminho abismal repleto de curvas sinuosas costuma levar os praticantes de esportes de inverno até ao Valle Nevado, um centro de esqui a 2.860 m do nível marítimo. Brinca-se que aquele que consegue vencer a travessia sem sentir enjoos recebe um certificado de excelência assinado pela Nasa.

Para-se à berma da estrada a fim de tirar uma fotografia de recordação, ou recuperar o fôlego enquanto se repara num zorro culpeo (raposa-andina) — el zorro más grande de Chile, solitario en épocas no reproductivas — procurando fontes de alimento. É altura de contemplar os precipícios rochosos, sentir a brisa gelada que penetra as brechas da roupa e corta a pele humana sem sossego. 

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E novamente a verticalidade chilena, o caminhar para cima e para baixo, espremido entre as cordilheiras. Os teóricos de viagens costumam dizer que bons observadores possuem uma espécie de dom para revelar as mais ínfimas variações, tipos sensíveis aos pormenores, à informação microscópica. Viajantes que não se contentam apenas em expor; pretendem adicionar aos próprios relatos aquele olhar instintivo dos artistas.

O filósofo Michel Onfray, ao propor uma poética expositiva, defende que reparar na geografia permite a quem viaja apreciar melhor as paisagens, compreender melhor o que sucede nos sulcos, na crosta e na superfície da terra. Pensar com contextos geológicos enriquece a experiência não só de quem deseja contar, mas principalmente daqueles que irão receber o que foi contado. É antes de tudo um sinal de respeito à paciência dos leitores.

— P. R. Cunha

Cosmologia de uma viagem aos Andes chilenos – primeira parte

Na Grécia Antiga filósofos com inclinações astronômicas dedicavam-se com afinco às miudezas celestes. Não demoraram a notar que enquanto alguns pontos luminosos permaneciam estáticos, outros mostravam-se inquietos e como que passeavam na vasta malha escura estendida sobre as suas cabeças. Deram a esses corpos rebeldes o nome de πλανήτης (planētēs), palavra grega que significa «viajante, andarilho».

* * *

Em outubro de 2013 as lentes do telescópio Pan-STARRS da Universidade do Havaí detectaram excêntrico mundo de massa planetária a perambular uma remota região da Via Láctea. O objeto, que fora batizado de PSO J318.5-22, não orbitava nenhuma estrela, estava completamente isolado. Michael Liu, astrônomo que liderava a equipe responsável pelo telescópio havaiano, constatou que we have never before seen an object free-floating in space that looks like this. A descoberta possuía todas as características dos corpos que fazem parte de um sistema solar, but it is drifting out there all alone.

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PSO J318.5-22 é um planeta órfão, nômada, que numa altura foi ejetado da vizinhança estelar da qual fazia parte por perturbações gravitacionais. É possível que tenha sido expelido do sistema por um enorme objeto que passara demasiado próximo, ou mesmo rejeitado pela estrela que lhe oferecera abrigo nos primeiros milhares de anos. Agora, porém, mostra-se um gigante gasoso livre de obrigações. A figura de um viajante cósmico independente vagando solitário nas profundezas escuras do universo em expansão, dando jus à nomenclatura grega que remonta longe no passado.

* * *

Em meados do inverno de 2019, logo depois de finalizar os devidos arranjos instrumentais para o meu próximo álbum, parti para os Andes a ver se superava um estágio particularmente perturbador da minha doença saturnina, sem saber ao certo o que esperar dessa repentina fuga às montanhas chilenas. Acontece de tentarmos escapar dos nossos fantasmas apenas para lidarmos com eles numa outra geografia. Assim como os anéis constituídos por cristais de gelo e partículas de meteoritos não abandonam facilmente a zona gravitacional do planeta, a sombra obscura também orbita em faixas circulares ao nível dos nossos pensamentos; quer no Brasil, quer no Chile.

No volumoso ensaio sobre as chamadas mazelas da alma, Robert Burton confessara que escrevia sobre a melancolia por estar ocupado a evitar a melancolia. A ver se tal procedimento também surtiria efeito nos meus ânimos, comprei uma caderneta azul ultramarino da Papertalk e rabisquei quaisquer coisas sobre a nação em que estava prestes a aterrar. Segundo as minhas primeiras anotações, o Chile possui cerca de seis mil quilômetros de faixa litorânea e apenas 174 quilômetros (em média) de largura — medidas que o tornam o país mais vertical do mundo.

Enquanto escutava o hipnotizante ruído das turbinas Rolls-Royce, lembrei-me da epígrafe escolhida por Enrique Vila-Matas ao livro A viagem vertical. É o trecho de um poema de Vicente Huidobro: Caia/ Caia eternamente/ Caia no fundo do infinito/ Caia no fundo de si mesmo/ Caia o mais baixo que possa cair.

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Olhei pela janela arredondada do avião. Sobrevoávamos as cordilheiras e senti um estranho calafrio, pois julgava estarmos no local exato em que o voo 571 de la Fuerza Aérea Uruguaya caíra sobre as montanhas pontiagudas dos Andes. A aeronave Fairchild Hiller que levava a equipe de râguebi Old Christians para Santiago perdera o controle na tarde de 13 de outubro de 1972 e despencara no Glaciar de las Lágrimas. Das quarenta e cinco pessoas que estavam a bordo, apenas 16 conseguiram sobreviver à tragédia, cujos detalhes foram retratados em ¡Viven!, obra de Piers Paul Read adaptada aos ecrãs cinematográficos pelo realizador Frank Marshall.

— P. R. Cunha

Aproximar-se um bocadinho de si mesmo em tempos de guerra e paz

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Certas ocasiões parecem mesmo exigir do escritor uma total mudança de perspectiva. É altura de reler — e finalmente compreender — Schopenhauer, a quem o mundo dos homens se mostrava o reino do acaso, onde o que há de melhor entre aqueles que criam só aparece após grandes esforços. A morte de alguém próximo, ou mesmo o lidar com o luto tardio dessa perda, um acontecimento notável (separação conjugal, velho emprego, novos empregos, outros amores etc.), uma viagem ao estrangeiro. A viagem, especialmente, porque dividida em etapas: 1) preparação; 2) partida; 3) a jornada em si; 4) despedir-se; 5) retornar; 6) descrevê-la. Deslocamento físico, geográfico, a mostrar que poucas coisas são fixas na vida, nem dor infinita, nem alegria eterna, nem moradas permanentes. O escritor viaja, e volta, e chega à conclusão de que o presente é agora outro animal, outra bossa, outro jazz. Pode ser que durante alguns dias o silêncio lhe apeteça. Afinal, esteve alhures e faz agora a digestão de sentidos: o que viu, ouviu, leu, provou, falou, riu, chorou, mudou, permaneceu. Almeja esclarecer que qualquer criatura que surja dessas reflexões será algo diferente dos floreados relatos turísticos da praxe. Noutros termos schopenhauerianos: uma viagem criativa não se apresenta apenas como um mimo, um adocicado cocktail à beira-mar, mas também como uma tarefa introspectiva, por vezes penosa, imprevisível — qual o confuso pássaro em um bosque num dia soalheiro, cujo belíssimo canto não é resultado de espírito alegre, mas antes de um momento tenso e revelador. Os objetivos surgem sem filtros. Fluxos. Longe de serem um leviano exercício de melancolia descartável, pretendem primeiro livrar-se das maquilagens artificias que a incessante busca contemporânea por uma felicidade completa parece exigir.

— P. R. Cunha

A arte de não perder os botões durante uma viagem aeronáutica

Quem já se predispôs a sair do próprio microcosmos regional para uma jornada algures entende que Mark Twain estava certo quando dissera que «a viagem é fatal para o preconceito, a intolerância e a estreiteza do espírito». Mas, à guisa de não se cair em abismos românticos, talvez fosse interessante contextualizar determinadas citações com natureza de deslocamento. Twain, por exemplo, escrevera sobre viajar no século XIX — numa época em que se alguém cogitasse a possibilidade de entrar numa cápsula pressurizada com asas de aço que voa na direção dos céus, esse alguém de certeza seria enjaulado em hospício.

No livro A arte de viajar o filósofo Alain de Botton aborrece-se com determinada agência de viagem que não colocara na brochura publicitária tudo de terrível que também havia num «resort paradisíaco com vistas para o oceano Atlântico». As fotografias são incríveis, os relatos impecáveis; vende-se um produto, ou melhor, uma ilusão de que nada, absolutamente nada, pode dar errado. O público que lê a brochura, cansado imenso da rotina que se repete dia após dia, deixa-se encantar pelos artifícios da imagem de um coqueiro solitário a criar sombra na superfície de uma areia branca como as nuvens. Corre-se para fazer as reservas, o coração enche-se de expectativa. Até chegar a altura de realmente pisar no resort paradisíaco e perceber que a praia outrora vazia está agora abarrotada de turistas com gosmas amarelas de protetor contra raios UVB, o coqueiro da brochura fora cortado para abrir espaço a um loja da United Colors of Benetton, os atendentes da cafeteria nem sequer se preocupam em dar os protocolares bons-dias.

A viagem como forma de se encontrar, sim, mas também de se sentir um produto, uma mercadoria, um objeto descartável. A dicotomia: sonho e consumo. Consumir e ser consumido. Escrevi isso jogado nas cadeiras desconfortáveis do aeroporto internacional de Santiago (Comodoro Arturo Merino Benítez), cujo pátio com uma boa quantidade de aeronaves era a única prova convincente de que aquilo não se tratava de uma rodoviária.

As décadas de 1950-1960 ainda são consideradas os anos dourados da viagem aérea. Cabines luxuosas, cadeiras largas como camas de hotel, espumantes, refeições preparadas por renomados chefes de cozinha, talheres de metal. Mas não se pode esquecer também (novamente a questão do contexto) que esses supérfluos eram a única maneira de atrair passageiros. Além de serem menos seguras do que os modelos atuais, as aeronaves da época tinham pouca autonomia de voo, faziam um barulho ensurdecedor, e as passagens podiam custar o preço de um automóvel.

No entanto, não deixa de ser um bocado desapontador notar que a história da aviação tivera um início tão atraente no quesito conforto apenas para perder-se às demandas de um mercado saturado de passageiros apressados. 

É evidente que não se pode descartar a conveniência de uma aeronave. Mas seria razoável pensar em soluções menos animalescas. Acontece que se o viajante não tiver os recursos necessários para um bilhete de «classe», terá de se espremer na caixa de sardinha com outros trezentos passageiros irascíveis.

O tratamento desumano, aliás, começa bem antes de a aeromoça com voz robótica pedir fasten your seat belts. O discurso contemporâneo de globalização só parece valer mesmo quando as trocas envolvem commodities relevantes. Ir a um país que não tenha acordos diplomáticos com a nossa própria nação é uma epopeia burocrática que deixaria Homero sem palavras. Em verdade, mesmo que sejam governos com boas relações, o processo de deslocamento mostra-se tão penoso que a viagem perde muito daquela promissora inocência inicial.

A longa espera para o check-in, as máquinas que nem sempre funcionam adequadamente, despachar bagagem, pagar um preço adicional pela bagagem, verificar se a mala de mão está dentro dos padrões exigidos pelo papa, passar pelo aparelho de raio-X, ser revistado como se o passageiro fosse o chefe da máfia russa, ou um dos capangas aposentados de Saddam Hussein — senhor, não é permitido levar água (?!) dentro da aeronave —, tirar os sapatos a ver se não há dinamite nuclear escondida, os banheiros dos aeroportos são sujos, há restaurantes perto de mais das áreas de embarque, as filas, filas para todos os lados, e toda a gente irritada, atrasada, pessoas à beira de um colapso nervoso etc.

Sem cair nas supracitadas armadilhas românticas, trocaria tudo isso por uma boa e velha viagem de comboio, mesmo que essa escolha signifique lentidão. Porque a velocidade da viagem aérea esconde-se atrás de um itinerário que leva muito mais tempo do que «as horinhas de voo» podem sugerir: verificar os itens da mala, chegar com bastante antecedência ao aeroporto, esperar a chamada para o embarque, as filas (mais filas), lidar com atrasos, overbookings, conexões, alfândegas e não só.

Aterra-se ao destino como se tivesse saído das trincheiras de uma batalha invencível, com a frase de Ralph Waldo Emerson à cabeça: que viajar é mesmo um paraíso de loucos.

— P. R. Cunha

Peregrinação chilena ao templo vulcânico

Para chegar à cidade de Puerto Varas — da qual eu nada sabia a não ser que era o sítio em que se podia avistar o vulcão Osorno — o viajante precisa de percorrer uma bucólica estradinha a cortar quintas e choupanas dignas do álbum Atom heart mother, dos Pink Floyd. São imensas pradarias verdes com vacas, lhamas, cavalos, ovelhas e outras espécies a se alimentar despreocupadamente, uma disposição quase teatral comprovando diante dos olhos de todos que é ainda correto o axioma a enaltecer a vida no campo como qualquer coisa menos vertiginosa. A despeito de toda a calmaria meditativa, inclinei-me com ansiedade no assento do automóvel a ver se encontrava o verdadeiro protagonista da Região de Los Lagos: o próprio Osorno. Mas não é assim tão fácil desvendá-lo. Quando o motorista da carrinha apontou para o local onde a montanha supostamente estava, o que pude enxergar foi uma linha branca, anuviada, algo mais parecido com os cenários apocalípticos nos filmes de Fritz Lang.

O Osorno encontra-se ao nordeste do Llanquihue — que em mapudungun, língua dos mapuches (ameríndios que habitam as bermas do vulcão há milhares de anos), significa «lugar para se mergulhar na água». O lago possui 860 km² e os nativos costumam explicar, não sem um certo orgulho nos termos, que toda a capital Santiago caberia ali dentro e ainda sobraria espaço.

Foi apenas no passeio no dia seguinte à chegada a Puerto Varas, dentro de uma furgoneta Ford que leva passageiros curiosos para perto do Osorno, que pouco a pouco a fisionomia glaciar do vulcão começou a adquirir nitidez. Durante a viagem penetramos territórios que em tempos foram habitados pelo povo mapuche, mas que hoje encontram-se tão desfigurados que é difícil imaginar como teria sido de facto a diversidade daquela paisagem.

Pelo conhecimento que se tem das tradições mapuches, cabe duvidar de qualquer tentativa de minimizar a avassaladora intervenção estrangeira desde a chegada dos chamados conquistadores espanhóis a partir do século XVI. Os mapuches foram expulsos, humilhados, escravizados e hoje sobrevivem como podem em zonas urbanas completamente diferentes daquelas vastas e férteis florestas onde os próprios antecessores criaram raízes.

O colonialismo interessado na lã dos animais da localidade logo precisou de ser expandido para atender às demandas em larga escala da Revolução Industrial. Os abundantes recursos naturais encontrados em territórios dos mapuches fizeram com que os exércitos chileno e argentino se mobilizassem para expulsar os nativos das florestas e abrissem espaço para as iniciativas multinacionais. No caso de Puerto Varas a mão de obra foi suplantada pelo metódico trabalho de emigrantes alemães — motivo pelo qual a cultura germânica mostra-se tão presente em Los Lagos.

É de se imaginar que os bosques que hoje recuam até à remota Reserva Nacional Llanquihue eram também a morada de incontáveis chucao tapaculo (la voz del bosque del sur), carpintero negro, loro choroy e outros pássaros com cantos melodiosos e persistentes. Hoje, no entanto, o que se vê é a cicatriz de uma floresta que, tal como os mapuches, parece demonstrar sinais de desistência. Os animais que porventura são encontrados a tentar cruzar as estradas escondem-se onde podem, com os olhos esbugalhados e sempre na expectativa da morte. Parecem esperar pelo som metálico do machado alemão, que numa altura passeou-se por lá e levou consigo boa parte da biodiversidade.

* * *

Os paleontólogos conseguem reconstruir a estrutura de um dinossauro a partir de pequenos, quase insignificantes, fragmentos fósseis. Assim também me parece que são aqueles que escrevem sobre a própria viagem. Recortes de visões, de memórias. No mais íntimo do coração, o sujeito que se predispõe a relatar o que ocorrera algures tem a curiosa certeza de entrar numa máquina do tempo. Sentado à escrivaninha, leva a caneta até à boca, escolhe entre as paisagens nas quais esteve. Compõe a maqueta do passeio, a maqueta de si mesmo. 

Inseguro e com aquela relutância que as pessoas costumam sentir quando se aproximam muito de um vulcão ativo, o condutor da furgoneta avançava vagarosamente. A estrada era uma jiboia sinuosa a fazer curvas abruptas e traiçoeiras enquanto o Osorno mostrava a conhecida silhueta à monte Fuji da ilha Honshu.

Com cada vez mais força as dimensões do Osorno inquietavam-me. O artista húngaro László Moholy-Nagy certa vez escrevera que podemos estar em toda a parte, rodeados por pessoas, e ainda assim estarmos sós. Era como eu estava a me sentir. Havia qualquer coisa nas fornalhas do Osorno que me colocava no meu devido lugar, como se diz. Um silêncio devastador, um presságio de que algo estava para acontecer.

Olhei para o céu e pude observar uns quantos condores-dos-andes desenhando figuras circulares por cima do cume do Osorno. Comentei com o condutor da furgoneta a respeito dessas aves que se alimentam de carne em putrefação mas o velho homem garantira-me que naquela parte da subida era muitíssimo raro avistar condores, ao que julguei estar delirando ou coisa ainda pior.

Recordei-me também que quando nos encontramos longe de casa só podemos ver aquilo que estamos aptos para ver — aquilo que espelha a nossa mente num momento específico. Nesse ardiloso processo, pistas falsas misturam-se com as verdadeiras.

De modo súbito notei que os condores de porte avantajado circulavam não o cume do Osorno, mas a nossa própria furgoneta. Um simbolismo de morte que pode ter passado despercebido para o condutor e também para os outros passageiros, porém criara em mim um desconforto indelével. Os condores-dos-andes seguravam a segadeira, como se dissessem que também eu, brevemente, me dissolverei em cinzas, transformar-me-ei numa massa informe, irreconhecível. Esses bichos necrófagos, pensei comigo, estavam à espera do meu cadáver.

Aqui uma passageira arruma o cabelo; ali, um passageiro espia a relva, leva as mãos ao rosto para proteger os olhos ofuscados pelo sol; num momento alguém limpa os braços no tecido da calça, no outro assobia uma canção andina.

Estava completamente perdido naquela fantasia de que quando visitamos um vulcão ativo estamos numa espécie de busca, numa jornada que transcende a nossa ínfima e temporária passagem por este planeta. Queria que aquela minha viagem se enchesse de significados, que eu pudesse escrever um relato tão interessante a respeito do Osorno que as autoridades de Puerto Varas dar-me-iam um título de cidadão honorário. 

Não sabia muito bem o que pensar dessas pretensões egotistas enquanto mirava a manta de neve do imponente vulcão. De bloco-notas, caneta Bic (quatro cores) entre os dedos ainda observava condores-fantasmas no céu e não estava a tremer-me.

* * * 

Há cerca de trinta quilômetros do vulcão Osorno encontra-se um primo temperamental que nos últimos tempos ameaça catástrofes. No dia 22 de abril de 2015, às 17h50, o vulcão Calbuco começou a soltar para a atmosfera uma parede vertical de cinzas que causaria graves danos à agricultura, suspensão do tráfego aéreo e acionamento de alerta vermelho. 

As últimas erupções do Calbuco foram um lembrete geológico. São nove vulcões em Los Lagos, todos ativos. À distância, parecem simples rochas a cortar o horizonte do Llanquihue, mas por dentro é outra coisa. Montanhas entaladas prontas para cuspir pedras de fogo para qualquer sítio.

Pergunto ao condutor como deve ser dormir com essa mortífera possibilidade. O velho me explica que o Calbuco é como um cachorro que ladra e ninguém teme os cachorros que ladram. De todos os vulcões que fazem parte do complexo regional, o Osorno — o mais discreto e calado — é o que realmente mete medo. Ele tira do porta-luvas umas pedrinhas minúsculas e explica que são vestígios do Calbuco. Depois, pega uma rocha de considerável tamanho e diz: esta, grandona — aqui o condutor aponta para o cume nevado da montanha, a quase três mil metros de altura —, esta saiu da barriga do Osorno.

* * *

Enquanto subíamos o último trecho pavimentado do vulcão fiquei a pensar que estava a desenvolver uma estranha obsessão pelo Osorno; transcendental, místico, algo que os devotos de certeza sentem quando se aproximam da figura que adoram. A furgoneta Ford estacionou perto de um estabelecimento com motivos da Patagônia e o condutor esclarecera que a partir dali o caminho teria de ser feito a pé. 

O clima que há poucos minutos se mostrava ameno, agora encobria com uma fumaça fantasmagórica praticamente todo o cimo da montanha. Rajadas de vento acertavam as encurvadas fisionomias humanas, o frio invadia a medula óssea sem trégua. Era como se o Osorno não quisesse receber visitas.

Mas lá estava eu, inconveniente, a caminhar sobre o meu novo deus de pedra, um vulcão ativo que já tirava um longo cochilo geológico. Se alguém me visse daquele jeito, praticamente ajoelhado, com aquela postura subordinada, bem capaz de acreditar que aquele sujeito encapuzado rezasse. E talvez eu estivesse mesmo a rezar. Não uma prece eclesiástica, mas um canto pagão que refletisse o atual estado da minha existência.

A ingênua (e até um bocadinho tola) sensação de que eu era o primeiro a sentir aquilo ao cimo do Osorno, sim, só eu tinha o direito de adorá-lo, de conversar com ele. Fiquei a observar dois andarilhos invasores que também subiam o vulcão, duas figuras com trajes negro caminhando lentamente para nenhures. Numa altura os dois também pararam, e vi naquele repentino gesto a negação de toda a vontade de se locomover, símbolo da imobilidade humana diante do absurdo das subidas.

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A neblina tornava-se cada vez mais densa e cogitei que aquela tristeza de gelo, a invisibilidade branca da montanha, explicava muito do meu caráter — quanto mais não seja o facto de sempre (mesmo nos momentos mais soalheiros e felizes) ter perto de mim o anjo taciturno de Albrecht Dürer. 

Sabe-se que quando o espírito do viajante une-se perfeitamente à paisagem todo o momento se transforma numa revelação em que um simples detalhe mostra-se capaz de explicar a errática trajetória do sujeito a refletir. Balzac diria que o conjunto de uma vida pode estar resumido nisto, em uma aparência absurdamente momentânea.

Fechei o casaco de neve, virei-me para o precipício e lembrei do meu pai, da minha mãe, dos meus irmãos, do filho que não tenho — e que muito provavelmente nunca conseguirei ter. No escritor medíocre que me tornei. Nesta figura cabisbaixa, indolente, preguiçosa, que guarda, acumula, sempre à beira de um colapso, de uma explosão catastrófica.

Não à toa encontrei no Osorno uma metáfora perfeita para a minha mutante personalidade. Estou ficando velho, cansado, intransigente, com pouca paciência, abalado pela vida, ditatorial nos modos, posso entrar em erupção a qualquer altura e devastar tudo e todos que se arrisquem a ficar perto de mim.

Analisei com afinco o desfiladeiro inclinado do vulcão, as marcas deixadas pela lava, as transformações geográficas causadas pela atividade do Osorno. Talvez os mapuches que se aventuram até ali também fiquem a admirar aqueles violentos rastros, talvez os vulcões dos Andes sejam os últimos vingadores de um povo que há séculos precisa de aturar a barbárie contínua da colonização artificial, a ganância de um consumo que não tem fim. Bastaria uma série de erupções para que tudo voltasse a ser como sempre foi.

— P. R. Cunha