uma forma literária de dizer-vos «até breve» porque à fazenda de um livro que consome-me imenso tempo

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quando sentes a fisgada ácida do ansiolítico a tocar-te a ponta da tua língua sabes direitinho que tudo ficará bem precisas do ansiolítico para sobreviver porque possuis as neuroses os pavores estás rodeado de máquinas basicamente máquinas de sumo e de sandes e de bebidas açucaradas e de chocolates tipo m&m’s e skittles e máquinas de café com chávenas assinadas por algum artista hipster que vive para os himalaias as cápsulas de café com tampa de alumínio a agulha da máquina de café nespresso que perfura essa tampa de alumínio e a nespresso começa a atritar a grasnar a rosnar e a cuspir o café tudo muito techno erótico uma nespresso cor de laranja com as superfícies laterais removíveis ao passo que o dono da nespresso pode lá alterar as superfícies laterais de acordo com o próprio humor e a nespresso da sala de espera do psiquiatra tem a cor de laranja talvez para animar um tanto a digamos assim diretamente sem pudores a clientela cor de laranja para animar a clientela e podes perceber que a terapiacromovisual dá resultados pelo menos se levares em conta a dama que se dirige à nespresso com postura de pessoa normal e por isso mesmo sem parecer absolutamente com uma pessoa normal vai até à nespresso beberica o café com muito apreço como se fosse a lady di princesa de gales com aquele dedinho perturbador dedinho voltado para cima dedinho erguido beberica o café nespresso cápsulas com sabores exóticos e sentes vontade dizer ei lady di aqui somos todos doidinhos não precisa de fazer pose tome o café que nem doida quer enganar a quem máquinas de toda a sorte como tu estavas a falar máquinas de guloseimas máquinas de morte mas também máquinas de literatura como as que serão instaladas em canary wharf londres com histórias curtas que podem ser lidas entre as estações do metropolitano e tratar deste assunto causa-te um certo entusiamo é irresistível o passageiro dirige-se às máquinas de literatura produzidas pela francesa short édition escolhe entre uma trinca de opções que são estas histórias que podem ser lidas em um minuto ou histórias que podem ser lidas em três minutos ou histórias que podem ser lidas em cinco minutos a depender do trajeto percorrido pelo supracitado passageiro pressiona uns botões e voilà sai um papel simpático com contos de nomes consagrados das letras britânicas como virginia woolf charles dickens lewis carroll e nomes mais contemporâneos como anthony horowitz que anda de metropolitano todos os dias e vê toda a gente com o olhar colado às apps aos jogos aos tweets às fotografias no instagram de pessoas que se retratam felizes mas por dentro são terrivelmente solitárias e que a ideia das máquinas de literatura é usar o tempo que se passa dentro do metropolitano em algo que seja entretido e que pode sair em formatos miúdos como a própria literatura e agora para seres franco connosco dizes que estás a sentir uma branda melancolia pois não consegues imaginar uma máquina dessas chegando ao brasil talvez nem nos próximos duzentos anos mas quando tu sentes a fisgadinha do ansiolítico nada importa perguntas o que é arte e perguntas isto porque pintaste um quadro rigorosamente despropositado e ninguém gostara da coisa até que compraste uma moldura e colocaras a pintura dentro do compartimento da moldura e de súbito começaram a elogiar o teu trabalho como ocorrera no caso de mark wallinger que selecionara um cavalo que participou em competições e simplesmente nomeou-o desta forma uma verdadeira obra de arte nomear o cavalo dar a conhecer a sua existência sem mais e o cavalo torna-se uma obra de arte da mesma maneira que a tua pintura sobre colagem de jornais velhos tornara-se um bocado mais arte depois de colocada dentro do compartimento da moldura pois muitos estão acostumados a ir a museus e às galerias famosas e é bem desse jeitinho ou seja dentro de molduras que eles apreciam ou melhor que eles consomem arte o lixo que vira arte se dentro do compartimento da moldura ou se uma galeria de arte diz isto é arte então toda a gente acredita porque afinal é papel da galeria de arte indicar o que é arte e o que não é arte do contrário falaríamos todos um incompreensível idioleto que nada mais é do que a variação de uma língua única a um indivíduo e se quiseres ser ousado podes também adotar neologismos tipo arteoleto artolecto artlecto ou coisa assim mas é hora de prestares atenção ao psiquiatra à ida ao psiquiatra que envolve escutar o barulho do ar condicionado aparelho que faz um barulho mais ou menos assim trrrrrrruuuuuuummmmmmmm envolve esperar à sala de espera esperar mais do que imaginastes suponhamos que tu tenhas uma consulta marcada para as quinze horas então é melhor teres paciência porque serás atendido às 16h não necessariamente em ponto e ficarás sentadinho no sofá de espera e quem sabe tens contigo um livro ou um pedacinho de papel e começas a anotar freneticamente uma caralhada de pensamentos avulsos e anota isto logo anota isto para não esqueceres e tu anotas tudo barulho do ar condicionado trummmsmmsmsmsmmss o outro paciente que espera contigo à sala de espera um homem à volta de 45 idades talvez mais digamos cinquenta e tal homem com cinquenta e tal anos que não aceita a idade que tem e veste-se à moda jovem abandonado por mamã com camisa desabotoada calças de ganga estrategicamente rasgadas nos lugares certos por mãos habilidosas made in taiwan adidas branco com cadarços brancos meias brancas cano soquete também conhecidas como meias invisíveis passa uma série netflix na televisão da sala de espera do psiquiatra uma série sobre pescadores ariscos anota tudo isto anota antes que esqueças truuuuummmmmmss faz o ar condicionado e o psiquiatra abre a porta e chama o teu nome e tu entras ao consultório do psiquiatra e ele cordialmente pede para que tu te sentas e tu sentas direitinho com as mãos guardadas sobre os joelhos e tu não consegues evitar tu olhas para o banco ao lado do teu e a almofada do banco tem ainda o formato da bunda do paciente anterior e aquilo constitui para ti um verdadeiro motivo de risota e começas então a duvidar da tua maturidade se tens mesmo a maturidade para ires falar ao psiquiatra falar que sentes isto sentes aquilo mas fazes tudo para ter contigo o teu ansiolítico de forma que não dás as risadas e sentes a boa expectativa ao estilo oba sairei daqui com a minha receita medicamentosa mais um mês sob controle sem causar danos e ou magoar as pessoas que amo tanto controladinho receita medicamentosa ires à farmácia ires à drogaria ao mercado das drogas lícitas das drogas socialmente permitidas das drogas cujos conteúdos não irão colocar-te dentro de cárceres nem nada dessa natureza drogas que até mesmo as autoridades da lei compram sem serem incomodadas ires à drogaria portanto e comprares o ansiolítico 28 pílulas do ansiolítico que te mantêm à superfície por vinte e oito dias e tu sentes a vontade de perguntar ao teu psiquiatra se ele poderia ser bondoso e receitar de repente como quem não quer nada receitar-te umas tantas cartelas com 52 pílulas 544 pílulas mil pílulas edição deluxe do ansiolítico ao passo que tu terias não 28 dias de superfície mas sim mil dias de superfície mil dias sob controle aproximadamente três anos de bons comportamentos fisgada do ansiolítico na língua na ponta da língua para seres sempre mais exato ponta da língua como um ritual o ritual do ansiolítico consiste em deixá-lo na ponta da língua o máximo de tempo que conseguires justamente para prolongares a fisgada depois bebes a água de maneira normal como sempre fizeste quantidade certa de água à guisa de evitares que a pílula fique presa no meio da tua garganta causando-te preocupações desnecessárias pois podes imaginar como seria morrer engasgado com um comprimido de ansiolítico no meio da garganta assim ó e apontas o dedo para a garganta chegas mesmo a colocar o dedo dentro da garganta sentindo um refluxo enjoativo como se fosses vomitar a sério então tu sais do psiquiatra com a receita habitual à caixa da praxe 28 pílulas e sentes uma fome terrível de forma que agora estás numa praça de alimentação de um shopping mall à espera de um alimento levemente nutritivo e notas que uma funcionária sai da loja de vender móveis dirige-se ao corredor das toaletes dos aposentos sanitários das casas de banho enquanto ela olha fixamente para o relógio de pulso e agora ficas a refletir no que estaria a pensar a funcionária da loja de vender móveis num encontro num amante na filha com problemas na escola ou no horário de chegada do voo da avó que vem de longe e sempre que vem de longe a vovó reclama da falta de espaço destes assentos modernosos das aeronaves modernosas e via de regra a vovó entra numa espiral nostálgica a dizer que nos meus tempos ela diz nos meus tempos as companhias aéreas ofereciam verdadeiras refeições e os talheres eram de metal e as taças eram de vidro de verdade e as hospedeiras de bordo davam os devidos bons-dias e os hospedeiros de bordo davam as devidas boas-noites e que as velhas d’aquele tempo não morriam de tromboembolia pulmonar porque os assentos eram espaçados mas os assentos atuais ela diz são verdadeiros assassinos tão grudados tão absolutamente colados uns nos outros que a impressão diz a vovó para a neta no caso a funcionária da loja que vende móveis a impressão diz a vovó é que as viagens aéreas tornaram-se tão irritantes quanto as viagens rodoviárias talvez ainda mais irritantes porque a pessoa que compra um bilhete de avião acha que está a pagar pelo conforto mas não está a pagar por conforto nenhum diz a vovó talvez até esteja a pagar pela própria morte tromboembólica e que os aviões não seriam outra coisa senão autocarros alados mas são tantas as possibilidades que tu perdes o interesse pela funcionária da loja de vender móveis deixas que ela possa ir sossegadinha à casa de banho e ficas a esperar o teu alimento acontece que tens uma curiosidade insaciável dentro desta tua cabeça estranha e ficas a olhar agora para a moça da mesa ao lado que não tira os olhos do telemóvel nem quando o garçom lhe traz a sande de guacamole e ela meio que come toda inclinada com uma das mãos segurando a sande de guacamole e a outra mão segurando o telemóvel e reclama consigo mesma quando uns bocadinhos de guacamole caem em cima do ecrã do telemóvel e o garçom se ri todo como se dissesse bem feito de aí chega a tua refeição comes a tua refeição utilizando métodos mindfulness total atenção à refeição tomas o sumo de amora e logo estarás preso num engarrafamento muitos carros que quase não saem do mesmo sítio e brasília doesn’t give a goddamn fuck e colocas umas músicas do tempo em que moraste em são petersburgo aproveitas que o trânsito não anda abres a app do spotify e estás escutando o álbum guns tonight da banda superfamily e sentes saudades da rússia sentes saudades dos teus 24 anos quando a mamã e o papá achavam que tu serias enorme mas agora estás preso num engarrafamento e o motorista à direita tira pêlo do nariz uma meleca do nariz e a motorista da esquerda manuseia o próprio telemóvel chorando e tu aumentas o volume e te apetece fechar os olhos apenas escutar superfamily quando chegas a casa vais direto para o banho um merecido banho e de súbito começas a rir parece um louco rindo sem parar enquanto analisas o frasco do shampoo que a tua namorada comprara e não queres fazer má propaganda do shampoo porque a tua namorada tem uns cabelos maravilhosos e acreditas que o shampoo seja um dos responsáveis pelos cabelos maravilhosos da tua namorada mas não consegues manter a seriedade diante do excesso de adjetivos disparatados que a embalagem do shampoo elseve óleo extraordinário da l’oréal paris oferece a começar pelo micro-óleos de flores preciosas o que seriam 1) micro-óleos e 2) flores preciosas e logo abaixo inovação leveza infinita suavidade infinita brilho excepcional vitalidade deslumbrante ao leres estas piadas começas a imaginar uns cabelos com suavidade e leveza infinitas começas a imaginar o fim do cosmos o fim do universo o fim de tudo e mesmo assim uns cabelos que continuam com suavidade e leveza infinitas e agora tu queres ajudar os publicitários de l’oréal tu queres definir a palavra infinito isto elseve-oleo-extraordinario-loreal-paris-kit-D_NQ_NP_677505-MLB25036260328_092016-Fé que não tem nem pode ter limites ou fronteiras no tempo ou no espaço em extensão ou magnitude ilimitado infindável desmesurável e por mais que os cabelos da tua namorada sejam realmente magníficos por mais que sejam cabelos muito muito muito bonitos eles estão longe de terem essas características infinitas e ainda bem porque do contrário acharias o cabelo dela e de outras gentes que utilizassem o shampoo elseve da l’oréal paris algo muito assustador de qualquer forma decides arriscar e passas o shampoo elseve da l’oréal paris no teu próprio couro cabeludo para veres o que acontece sentes uma suavidade porém nada de suavidade infinita e também uma leveza mas não é uma leveza infinita um brilho talvez mas bem longe de excepcional e tudo o que queres e ficar sentadinho ao computador com as tuas neuroses com as tuas manias de grandeza obsessões queres registrar os acontecimentos do teu dia e depois quem sabe dar continuidade à leitura do yukio mishima antes de dormires.

— p. r. cunha

Em Brasília pode-se ficar morto por muito tempo — parte IV

O Paul Auster certa vez escreveu que mais do que ver o caixão ser baixado na terra, foi o ato de jogar fora as gravatas do pai que personificou a ideia do sepultamento. Auster livra-se de utensílios do guarda-roupa paterno e afinal compreende que o dono daquele vestuário não voltará a vesti-lo jamais. De minha parte, acreditei que visitar papai ao cemitério após oito anos de negação pudesse ser esta oportunidade simbólica cujo significado permite o processo de luto na consciência humana. Enquanto seguia pelo largo caminho que me levava de volta para o estacionamento, detive-me algumas vezes para observar as nuvens que desde a minha chegada se acumulavam preguiçosamente no horizonte e que agora pareciam prontas para chover.

Abertura

Esse silêncio que antecede a tempestade, a respeito do qual muito já se escreveu, me fez refletir que não seria má ideia montar um escritório ali no meio do Campo da Esperança, onde eu pudesse finalmente reaver meus estudos das narrativas de W. G. Sebald e Robert Walser, tarefa interrompida várias vezes ao longo dos últimos anos por motivos, reconheço, os mais parvos. Há muito eu havia desistido de escrever romances e tinha decidido me devotar em período integral, como se diz, às análises minuciosas desses escritores que influenciaram diretamente a construção do meu caráter, mas pelas mais diversas razões que se possa conceber boicotei cada etapa desse processo.

O facto é que o cenário ideal para criar e/ou pensar literatura não pode ser completamente adaptado aos critérios da realidade, ponderei olhando para as nuvens que se aproximavam. Há sempre qualquer coisa. Mesmo que se tenha muito dinheiro, uma cabana isolada de toda a gente, uma vasta coleção de «livros canônicos», mesmo assim o sujeito ainda será perturbado por vários temores, pensamentos inquietantes: é um empréstimo que ainda não foi pago ao banco, um sócio que tenta lhe enganar, cresce o mato no jardim, a criminalidade assusta, instabilidades políticas, terrorismos, a economia do país está em ruínas, alguém da família está doente, outro morreu, aquele suicidou-se. Pode-se citar como exemplo figurativo o semblante do escritor que tenta se concentrar na fazenda do próprio livro mas se vê incapaz de escrever uma única frase porque o mundo é injusto consigo: as olheiras; o cabelo ralo; o aspecto de um pugilista nocauteado; a roupa desalinhada, que de início fora escolhida de modo a disfarçar a precária situação deste pobre-diabo. Confiantemente aceitam-se esses clichês pré-fabricados da alma atormentada que decide se dedicar à arte, embora «ninguém valorize nem arte, nem artista».

Começou a chover e procurei abrigo embaixo da cobertura de zinco que cobria a pequena entrada da recepção do cemitério, à qual encontrava-se um homem de idade indefinível a pelejar com o chapéu-de-chuva que insistia em não abrir. Sr. Dionísio, como em breve fiquei sabendo, era funcionário do Campo da Esperança desde 1996 e já fazia planos para a aposentadoria, sublinhando particularmente o transtorno que era lidar não com os mortos, como se imaginaria numa situação dessas, mas com os sobreviventes, aqueles que, segundo ele mesmo, tinham o rosto transtornado pelos esforços das perdas. A certa altura, fitou o portão de saída do cemitério de um modo que a mim me pareceu um bocado teatral, completamente absorto, como se julgasse que aquela estrutura gradeada não fosse inteiramente segura, e confessara que também sentia falta de uma pessoa querida, uma amiga a quem em tempos estivera muito ligado, uma amante, ele acrescentara, e que nunca mais na vida se sentiu tão confortável como na companhia dessa enigmática mulher. Quando Joana morreu, disse o Sr. Dionísio, fui até a casa em que ela trabalhava como cozinheira, aliás, invadi a casa, sim, invadi seria o termo adequado, invadi e consumi todas as garrafas de uísque que o patrão dela mantinha num barzinho de mogno. Esvaziei aqueles recipientes cor de caramelo e transformei esse estúpido delito num ritual fúnebre, dá para acreditar?, ele murmurou para si próprio. Enquanto entornava essa quantidade absurda de bebida, continuou o Sr. Dionísio, enquanto eu me embebedava feito um cão raivoso, pensei na influência paralisadora que determinadas pessoas, mesmo depois de mortas, ainda conseguem exercer naqueles que permaneceram. Espiava dentro do gargalo da garrafa vazia e compreendia a idiotice que é estar vivo, correr atrás de tanta coisa sem cabimento. Bom, ele disse após um breve silêncio, pelo menos foi esse o meu caso, e o chapéu-de-chuba, veja você, resolveu cooperar.

Sr. Dionísio despediu-se com uma discreta cortesia, atravessou o portão do cemitério e aos poucos se transformara numa imagem difusa no meio da forte tempestade, estranho prelúdio ao próprio desaparecimento e ao daqueles que ele momentaneamente deixava para trás.

— P. R. Cunha

Mãos à celulose: parte II

Repertório

Sejamos sinceros: bloqueio criativo é apenas um eufemismo utilizado por escritores que não querem reconhecer o fracasso temporário, isto é: admitir que não têm nada a dizer. Aquela terrível situação de olhar para a folha em branco, ou para a tela do computador com a barrinha vertical torturante que pisca a cada segundo. Sem nenhum assunto, nenhuma ideia. Acontece que ninguém prepara um bolo sem os produtos necessários. A imagem é bem esta: colocar uma fôrma vazia dentro do forno e esperar que dali saia um bolo saboroso, com cobertura de chocolate e granulados. O mesmo ocorre com a narrativa; ela precisa de ingredientes para se desenvolver e adquiri-los é tarefa do escritor. Infelizmente ainda somos bombardeados por mitos que descrevem grandes figuras literárias a construir romances num par de semanas, sem esforço, como que iluminadas por forças sobrenaturais. Mas a verdade é que os escritores prolíficos demoram para armazenar os próprios arsenais de ideias antes de, como se diz, colocar o bumbum na cadeira e escrever. Essas ideias estão em toda a parte: na infância, na família, nos amigos, nas verdades, nas mentiras, nos livros, nos filmes, na fila do banco, no metropolitano, no autocarro… Os personagens e as cenas do seu romance serão diretamente influenciados por essas ideias. Trocando em miúdos, os personagens também precisam de frequentar a escola, de estudar, de viver, de sair, de sentir, de formar-se. Suponhamos, por exemplo, que você queira escrever um conto sobre a imensidão do Cosmos, porque a astronomia sempre lhe causou enorme fascínio. Você ainda está confuso, não sabe ao certo como irá desenvolver o conto. Chega à conclusão de que, em criança, o protagonista queria ser astronauta, mas crescera numa família difícil, algumas tragédias, a vida o levara para outros sítios, e ser astronauta fora apenas isto: um sonho que não poderia ser concretizado, como tantos sonhos que sonhamos e não dão em nada. Esta é a base do conto, o esboço de um personagem que pode (e deve) desvendar um bocado sobre si, sobre as pessoas que você ama, sobre as pessoas que você despreza, sobre as decepções, sobre resignar-se etc. etc. É o momento de adquirir repertório, conhecimentos, dar verossimilhança, pesquisar com afinco sobre a vida de um astronauta, ler Endurance – um ano no espaço, de Scott Kelly, ler Neil deGrasse Tyson, Michio Kaku, divertir-se com as aulas do professor Brian Cox, com a voz robótica dos documentários sobre Stephen Hawking, ler Carl Sagan. Tais pesquisas vão lhe dar as devidas ideias/ferramentas/conteúdos para construir os personagens do conto, as cenas, as situações desafiadores — o enredo. E como o tema lhe agrada muitíssimo, pode ter a certeza de que serão tarefas prazerosas, engrandecedoras. Certo… agora que você possui folhas e folhas de anotações sobre os mais diversos detalhes cosmológicos, agora que você sabe como é a experiência de um astronauta dentro de uma espaçonave, agora que você sabe a respeito do processo de se tornar um astronauta, das dificuldades, dos dissabores, das glórias, das derrotas, dos riscos, agora que você sabe o que é matéria escura, o que é a radiação cósmica de fundo em micro-ondas, como funcionam os buracos negros, em suma: agora que você possui os ingredientes do bolo, experimente sentar-se à escrivaninha para começar o conto. Garanto-lhe que a página não permanecerá em branco por muito tempo.

— P. R. Cunha

Mãos à celulose: parte I

Passo a publicar neste blogue dicas, ou melhor, sugestões literárias que preparei inicialmente para um único e exclusivo escritor — no caso, eu mesmo. Agora, fazem parte de um curso que ofereço a três alunos de escrita criativa: foram eles (Sílvia, Guilherme e Jean) que me encorajaram a compartilhar estas ideias sem grandes rigores acadêmicos.


Motivação

Tenho a certeza de que não existe uma ordem específica para se começar um livro. Cada escritor cria as próprias rotinas, os próprios mandamentos, as próprias manias, tudo de acordo com as complexidades com as quais precisa de lidar em vida. À guisa de exemplo: um escritor solteiro, 25 anos, terá muito provavelmente uma agenda bem distinta da agenda de um escritor com quatro filhos, 35 anos. Há quem prefira trabalhar de dia, outros preferem a tranquilidade noturna. Uns acordam bem cedinho, outros não tão cedinho assim. Mas é preciso desenvolver e colocar em prática certas disciplinas. E aqui quebro o primeiro mito sobre os escritores: à primeira vista, podem parecer desleixados, preguiçosos, alguém pode querer se aproximar deles e sugerir «ei, vamos lá, procurem um emprego», ou de repente querer levá-los a um hospital, a um psiquiatra — porque, segundo a análise mundana (i.e.: trabalho significa suor, estresse, mãos e uniformes sujos, calvice, divórcios, tormentas, vontades de meter uma bala na têmpora [especificamente na têmpora direita] etc.), segundo a análise mundana, como estava eu a dizer, os escritores não fazem nada, vagabundeiam, a putear com o tempo. No entanto, a verdade é que escrever um livro, mesmo uma novela de aproximadamente 40 mil palavras, é tarefa que exigirá imenso de quem pretende colocá-la em prática. Pesquisas, cenas inúteis, personagens inúteis, o começo não está muito bom, o miolo está horrível, o protagonista parece um zumbi de tão vazio, as primeiras 50 páginas mostram-se péssimas, e centenas de outras decepções. Para enfrentá-las, o escritor precisará de motivação. Novamente, entro aqui num banco de areia movediça bem pessoal, pois as motivações também dependem de inúmeros fatores. De repente você escreve para conquistar o coração de alguém, ou para mostrar a um professor incrédulo que você consegue sim escrever o melhor romance de sempre, escreve porque sente raiva, escreve porque busca serenidades, escreve porque a escrita tornou-se um refúgio para si, escreve porque as palavras fazem-lhe esquecer-se, escreve porque quer ganhar dinheiro, porque quer deixar uma obra literária para os filhos lerem, escreve porque quer contar na próxima entrevista de emprego «faço isto, e aquilo, e isto, e ainda escrevi um livro»… Não importa. A ideia é cultivar motivações que possam ajudá-lo a seguir em frente quando a corda apertar-lhe no pescoço, motivações que impeçam-no de desistir.

— P. R. Cunha

Criatura de hábitos — uma (quase) sátira

Acordar (de preferência antes das seis / um bocadinho antes do próprio Sol), tomar um duche, pegar o matutino à porta, ler o matutino, fazer o pequeno-almoço — tostex, ou bauru, ou misto-quente, café (leite [opcional]), Pharmaton, suco de laranja, Benzedrina (muita moderação) —, caminhada, regar as plantas, sentar-se à escrivaninha e escrever, dedicar-se à pesquisa, fazer compras, ler o noticiário estrangeiro, aproveitar que o computador está aberto e: 1) responder aos e-correios; 2) publicar no blogue; 3) assistir a documentários diversos; 4) lembrar-se da lista de documentários diversos; ir aos Correios para enviar os livros àqueles que compraram os livros, ir ao crossfit, depois, à guisa de divertimento, uma qualquer leitura despretensiosa (sugere-se Mark Twain, Bill Bryson, O meu pipi [sermões], Ricardo Araújo Pereira, Mencken, etc.), comer uva, maçã, manga, abacaxi, jantar, preparar a bebida noturna (gosto pessoal), conversar com o cônjuge, fumar o tabaco (charuto e que tais), ouvir Beethoven, tomar os sedativos (Valdoxan, Seconal), ir para a cama, eventualmente dormir. No dia seguinte, a mesma rotina — com uma ou outra (pequena) variação.

— P. R. Cunha

Temporários

A obsessão dos maias pelo tempo levou-os a construir sofisticados observatórios para determinar estruturas de continuidade — padrões que hoje em dia, não sem um automatismo distraído, podem ser artificialmente especificados pelas entranhas de um qualquer relógio de pulso. Esses nativos americanos observavam com destreza o ambiente que os rodeava e assim procuravam estabelecer marcos que permitiriam análises importantes do tempo, ao qual sentiam-se submetidos. O império que olha para o céu e pergunta-se o que há para além, o que está a preencher os espaços vazios entre as estrelas, qual o propósito da vida.

Eles não apenas registravam com minuciosidade os intricados ciclos de corpos celestes, como também acreditavam que tinham por obrigação auxiliar o Sol, criador do mundo, a manter a fábrica do tempo funcionando. De facto, as origens dos sacrifícios humanos realizados por essa antiga civilização, sobre os quais a historiografia muito já discutiu, vêm justamente da vital necessidade de alimentar com sangue o insaciável apetite dessa entidade cronológica, que, como sabemos, antes de desaparecer ao abismo do horizonte veste-se de vermelho. Dia e noite, luz e trevas, um presente que a qualquer momento poderia deixar de ser. Os maias encaravam constantemente a possível morte de tudo e um dos maiores símbolos dessa reverência é a Pirâmide de Kukulkán (El Castillo), construída em alguma altura entre os séculos VIII e XII na antiga cidade de Chichén Itzá. Tudo ali remete aos caprichos do tempo: 91 degraus, quatro lados (4 x 91 = 364), mais um último degrau que leva ao cimo — 365. Eficiente calendário arquitetônico a representar as passagens, as jornadas tirânicas que ao fim e ao cabo arrastam tudo pelo caminho.

Incertezas sobre a continuidade ou não do mundo modificaram-se à medida que a humanidade desenvolveu para si equipamentos mais precisos que auxiliaram astrônomos na tarefa de desvendar alguns dos mais estranhos mistérios do cosmos. No entanto, a era do controle absoluto, do total entendimento desse rio que corre adiante e é feito de acontecimentos, como dissera Marco Aurélio, parece longe de se concretizar. A ciência moderna orgulha-se de possuir relógios que funcionam baseados nas propriedades do átomo, e mesmo esses quase infalíveis mecanismos não são capazes de explicar o que está a acontecer quando dizemos o tempo passa. 

O tempo, coisa estranha que não se deixa apanhar facilmente nas malhas do nosso intelecto — o foi e não é mais, o será e ainda não é — continua a intrigar deveras. Essa abstração que atravessa os séculos, que desafia o bom senso daqueles que tentam elaborar discurso coerentes a respeito dos chamados deslocamentos para o futuro desconhecido.

De acordo com a mitologia grega, Cronos seria o deus primordial do tempo, que rege todos os destinos e a tudo devora. Nascido de Gaia (Terra) e de Urano (Céu) — a quem, ainda segundo a lenda, Cronos destronaria com um certeiro golpe de foice. O caráter destrutivo dessa perturbadora divindade que casara-se com a irmã Reia é intensificado depois de os progenitores terem-lhe garantido que o seu destino era mesmo ser superado por um dos filhos.

O poeta Hesíodo conta em La Théogonie que o poderoso Cronos devorava sem piedade as próprias crianças mal elas saíam do ventre da mãe, com o único propósito de impedir que qualquer outro brilhante descendente do Céu obtivesse o privilégio de reinar sobre os Imortais. Conta-se que conseguira engolir todos, exceto Zeus, «substituído por uma pedra enrolada num pano, amparado pela enorme Terra e mantido em segurança na vasta Creta», bem longe da voraz ira paterna. Hesíodo explica ainda que, mais tarde, Zeus, seguindo os conselhos de Prudência, levara a Cronos uma certa substância laxante que o fizera primeiro vomitar a pedra que tinha engolido e, depois, uma a uma, todos os filhos que jaziam dentro daquela gulosa barriga. Com a ajuda dos irmãos libertados, Zeus — figura invencível e a quem as preocupações jamais o atormentavam — supera Cronos e despoja o furioso pai de todos os privilégios divinos.

Parece significativo que nas antigas narrativas gregas pais e filhos se relacionem amiúde de forma tão tempestuosa, vingativa, cada um a querer destronar o outro, sem nem ao menos importar-se com a possibilidade de jogar o adversário familiar às profundezas do mundo subterrâneo, cujo símbolo mitológico é representado por Érebo, descendente direto do Caos. A crer no mito, Caos — personificação do vazio, do abismo insondável — gerara sozinho as trevas: Érebo e Nix (Noite), que juntos se opõem à luz. O primeiro, especificamente, designa as trevas infernais, o crepúsculo. A descendência desse deus das obscuridades é imprecisa, mas especula-se que da união entre Érebo e Nix tenham surgido os elementos que, não por acaso, a literatura da psicologia moderna costuma associar às condições melancólicas: Phobos (medo), Mors (morte), Invidentia (inveja), Keres (miséria), Deimos (terror), e por aí adiante.

Olhar para o céu e questionar-se, portanto, sobre esse fluir dentro da eternidade, o surgir e o desvanecer das estrelas, do Sol, o amanhecer e o anoitecer — movimentos que trazem vida, levam à morte. Quando a espécie humana compreende que, em matéria de tempo, temos apenas um bilhete de ida, e que esse tempo raramente passa como gostaríamos, volta então as atenções para o longe, foge para o infinito repleto de matéria escura. 

Em agosto de 1877, o astrônomo Asaph Hall apontou para Marte o telescópio de vinte e seis polegadas do Observatório Naval dos Estados Unidos e ao cabo de grande esforço encontrara os objetos que há muito procurava. Os satélites naturais do Planeta Vermelho não eram luas grandes como a da Terra; na verdade, nem ao menos chegavam a ser arredondados — tinham um formato exótico, achatado, pareciam batatas descascadas por algum cozinheiro distraído.

É possível, no entanto, imaginar a euforia desse obstinado explorador cósmico ao descrever os últimos detalhes da própria descoberta, ruminando a respeito de como deveria batizar as luas marcianas. No topo de um diagrama caprichosamente elaborado numa folha amarelada está a palavra «Marte» seguida por esta lacônica descrição com letras cursivas: deus romano da guerra, da carnificina, da impulsividade. Embaixo, dois objetos amorfos representam as luas recém-descobertas, e, em destaque, pode-se finalmente ler os nomes escolhidos pelo astrônomo norte-americano: FOBOS e DEIMOS  irmãos gêmeos, anota Hall, que instigavam em campos de batalha a covardia e o pavor no coração dos inimigos.

O planeta da guerra com os seus pequenos guardiões da perturbação — e o inevitável destino desta excêntrica família de astros. Estudos posteriores constatariam que Deimos, a lua menor, está a se afastar do campo gravitacional de Marte, enquanto Fobos se aproxima cada vez mais da superfície. Deimos fugirá para uma longa e solitária jornada pelo cosmos; Fobos em rota de colisão com o planeta que lhe deu abrigo durante milhares de anos. Terror do abandono. Medo de se desintegrar. 

Marte agora é o patriarca autoritário que observa, espera, indiferente, o fardo agonizante dos seus súditos condenados há tempos.

— P. R. Cunha


Moons – from Mars

Digressões sabáticas sobre: encontros de turma

Ir a encontros de turma é uma experiência aterradora. Ali estão os seres humanos com quem você estudou na juventude, e que na época eram apenas crianças bonitinhas com ambições engrandecedoras — i.e. salvar o mundo do aquecimento global —, mas hoje têm barba, varizes, cabelos brancos, falam de um jeito estranho, halitose, fumam à beça, e tomam café a cada cinco minutos. Logo você percebe quem se deu bem (o estilo da roupa, geralmente com relógio de ouro no pulso [Rolex etc.], o perfume, o jeito de segurar a taça de vinho, o rosto de desdém [asco, desprezo, por aí fora] quando o garçom oferece cerveja num copo de plástico), e quem, digamos, não se deu nada bem (o desalinho, a camisa estampada, o desodorante, muitas bijuterias, o batom vermelho de mais à ocasião, a barriga de chopp, a alegria no rosto quando o garçom oferece cerveja num copo de plástico). A verdade é que lidar com o sucesso alheio não é fácil. Alguém escolhera a profissão que você tanto queria e esse alguém hoje exerce um cargo incrível, tem dois filhos, uma esposa maravilhosa, mora em Londres, enquanto você ainda vive com a mamã e brinca de ser artista incompreendido. Você então bebe demasiado para esquecer que é — aos olhos dos seus colegas de turma — um fracassado. Você pensa em ligar para o terapeuta que a sua irmã lhe aconselhara no início do ano. Você diz consigo mesmo: assim que sair deste encontro perturbador, vou ligar para o terapeuta da minha irmã. Ser mais «pé-no-chão», procurar um emprego de verdade, largar das asas da mamã. Daí você lembra que tem trinta e oito anos, ou quarenta e dois anos. Começa a sentir a exaustão da empreitada. E é justamente aí, no momento em que você está a se sentir mais vulnerável, mais fragilizado, que o gajo com a profissão que você tanto queria, que o gajo que tem a mulher boazuda, os filhos prodígios, a casa londrina, é justamente aí que esse belíssimo espécime da raça Executivus prosperandus oferece-lhe uma vaga de estagiário para o almoxarifado.

— P. R. Cunha