Inconclusão das reticências

A ideia deste conto surgiu-me depois de revisar os estudos machadianos do amigo e professor Paulo Paniago.


Guillermo Jiménez e Suzana Bonnefoy casaram-se faz pouco. Eles estão agora na sala do novo apartamento: dois quartos, cozinha, varanda tamanho médio, área de lazer no térreo. Os cômodos ainda se mostram parcamente mobiliados. O restante das coisas deve chegar aos poucos, nas próximas semanas. Guillermo e a esposa estão sentados no tapete da sala a folhear álbum de fotografias. Muitos retratos do Guillermo em adolescente, com os familiares, a antiga casa na Ciudad de México, a piscina, os jantares, as férias em Oaxaca. Guillermo começa a se dar conta de que a grande maioria das pessoas que habitam aquele álbum de fotografias já morreu. Sem que a esposa perceba, ele solta um suspiro breve, melancólico — o suspiro, como se diz, de um homem momentaneamente abatido. Suzana, ao passar a página e deparar-se com o sorriso da irmã do Guillermo depois de um banho de mar em Acapulco, reflete, também em absoluto silêncio, se ela conseguiria sorrir daquela maneira, se ela é de fato sincera, se ela é quem deveria ser ou se apenas tornara-se o manequim que a mãe, a senhora Bonnefoy, tanto exigira que ela fosse. Suzana nunca se imaginara a contrair matrimônio, por exemplo. Lembrou-se de quando estava a cuidar do pai, o quase centenário Hubert. Eles passaram a morar juntos depois que a senhora Bonnefoy fugiu para Antuérpia com um russo que se dizia dono da equipe automobilística McLaren F1. Há este vestígio de memória em que Suzana tenta esconder que está a chorar. Não era um choro de tristeza, era aquele outro tipo de lágrima, que vem do desespero seco da culpa, do remorso. Acontece que numa madrugada ao levantar-se para o corriqueiro xixi noturno Suzana injuriou-se e pensara sentada na latrina como lhe seria um alívio ver-se livre do pai de uma vez por todas, que não aguentava mais, que precisava de respirar, e o sr. Hubert não a deixava respirar, etc. De aí, na manhã seguinte, durante o pequeno-almoço, o velho Hubert engasgara-se com o caroço da tangerina, e a cena foi qualquer coisa de filme de terror, Hubert a segurar o pescoço com os dedos de Drácula, Suzana a pressioná-lo de todos os jeitos, tapas nas costas, soco nas costas do velho, o rosto vermelho do velho, os olhos que tentavam sair de órbita, a língua roxa do velho, o caroço da tangerina a escapulir da boca juntamente com a dentadura, o Hubert sentando-se à mesa com as mãos no coração a dizer: ufa!, essa foi por pouco. Guillermo coça a parte inferior da coxa direita, o tecido felpudo do tapete começa a incomodá-lo. Ele conjectura de que forma o casamento vai lhe afetar os processos criativos, a rotina literária, como ele vai encontrar tempo e disposição para escrever o próximo livro, a grande obra, magnum opus, um livro-prefácio, prefácio tão grande que o leitor morreria antes de chegar ao texto propriamente dito, à moda Macedonio Fernández, bajula-se Guillermo, Museu do romance da Eterna, que nunca encontra sítio algum, antologia de prólogos, sim, livro-prefácio que jamais seria alcançado, introdução com quatro mil páginas, enquanto a narrativa per se teria apenas duas laudas, para não cansar as vistas do leitor, fantasia Guillermo, que prometera «colocar a caneta à obra assim que a escrivaninha chegasse». Suzana agora encosta a cabeça nos ombros do Guillermo, comentam miudezas despretensiosas sobre o álbum de fotografias da família Jiménez, ambos tentam agir como se nada estivesse acontecendo, não querem levantar suspeitas, não agora, recém-casados, muito cedo. Em cima do fogão, cujo gás ainda não fôra instalado, permanece imóvel a brochura de O amor acaba, coletânea de crônicas líricas e existenciais do Paulo Mendes Campos, composta em tipologia Electra, impressa em ofsete pela Geográfica sobre papel pólen soft para a editora Companhia das Letras, março de 2013.

— P. R. Cunha

Ser escritor no Brasil, desagradável terreno da realidade — e não sou eu que quero interromper o sr. de Guesclin, é a condessa

(Un breve relato sobre ayer — para mi amiga Cristina, que, como yo, prefiere las ventanas.)

É melhor evitar os afetos
por escritores brasileiros
eles esperneiam muito
e depois é uma tristeza
para o coração.

Dia seguinte, dor de cabeça, ressaca moral. Após lançamento de relativo sucesso, boa vendagem etc. etc., o escritor passa por uma crise. O que sempre pressentira ficou mais do que evidente: ele não sabia por que tinha se tornado escritor. Resultado: as pessoas elogiam o livrinho que ele ajudara a escrever, mas ele nada sente. Está vazio por dentro, o escritor. Ele é talvez um bom romancista, mas agora detesta o que escreve.

Lançar livro de literatura no Brasil é um pouco como voltar para a escola e ter de apresentar trabalho sobre o Pedro Álvares Cabral: a professora presta atenção, a mocinha que está apaixonada por você também presta atenção, alguns cinco ou seis coleguinhas fingem que prestam atenção, mas a grande maioria da turma está ocupada com outras coisas.

A descoberta da solidão do escritor brasileiro, o drama vital do escritor brasileiro, o valor e a intensidade da obra do escritor brasileiro, o perigo da inautenticidade, o refúgio insalubre no geral e no anônimo (estou a citar Unamuno para agradar à Cristina), a deriva para o esteticismo como fuga perante a dificuldade de viver. E assim vai…

Seja claro, escrevinhador.

O Brasil obriga os pobres escritores a tornarem-se palhaços, sob pena de morrerem de fome. Não se despende uma nota de dinheiro em subsidiar uma obra literária, nem em formar uma biblioteca que mereça deveras esse nome. (Duma época mais optimista.)

Dizem que se o Schopenhauer fosse vivo, adotar-me-ia. Mas sobre isso falaremos depois…

— P. R. Cunha


Quando termina (livro)Márcio Tasso aponta para o livro Quando termina, dos escritores P. R. Cunha e Paulo Paniago
(Fotografia: Marcella Souza)

Brasília – Rio de Janeiro (e lembrete literário)

16 de abril / 5 e 29 da tarde. A minha mãe foi fazer pé-&-mão e disse, ou melhor, garantiu-me que não iria demorar-se, e que tão logo voltasse iríamos àquele restaurante chino ao qual costumávamos ir quando o meu pai ainda era vivo — ocasião culinária em memória de papá, portanto. Passaram-se bem cinco horas, ou seja, o relógio da sala marcava 22:15 (relógio digital), e a minha mamã ainda não voltara do pé-&-mão.

Tic. Longa espera. Tac.

16 de abril / 11 e 43 da noite. Chegou mamã. Não fomos ao chino. Estava eu debruçado sobre certa revista lisboeta do início do século vinte e deparei-me com a publicité da Luminotécnica Portuguesa: 

A ILUMINAÇÃO ELÉCTRICA
é uma ciência e uma arte,
tal como a arquitectura.
Peçam projectos gratuitos
à
COMISSÃO LUMINOTÉCNICA
PORTUGUESA

Melhor luz, melhor vista. Dizia ainda a publicidade que a Luminotécnica tinha sede na Praça dos Restauradores, 53, 1.º, Lisboa. Entre aquelas páginas que o tempo não tardou de alaranjar havia um pedaço de papel em que meu pai lastimava-se: não sei onde foram parar os outros números deste boletim cultural, perderam-se para sempre; uma pena, porque leitura agradável. Mas, ao contrário do que papá supunha, os n.ºs 2, 4, 5, 18 existem, encontrando-se na biblioteca que pertencera a meu avó e que hoje está sob os meus cuidados.

(Com efeito, no número quatro da supracitada revista achei cartas que meu bisavô português [Alíbio] enviara à minha bisavó niteroiense [Thereza], correspondência repleta de trechos de uma branda saudade como: «Escrevo-te do exílio definitivo e irrevogável» / «Quando um português é amado por uma bela brasileira, safa-se sempre de apuros neste mundo».)

escritorimagem

17 de abril / 1 e 9 da tarde. Sem pretenção de ineditismo, antes pedindo vénia e prestando homenagem ao papá, compilei esses meus achados — completando-os ainda com algumas breves observações — e ao pequeno-almoço avisei mamã que dali a alguns dias (depois do lançamento literário) partiria para o Rio de Janeiro a fim de escrever um novo relato sobre o meu falecido progenitor.


» Lembrete

Leitores, quereis praticar uma obra meritória firmada nas sublimes doutrinas da Divina Literatura, agradável a Montaigne, às mulheres, aos homens, e ao vosso coração?… Ide hoje, a partir das 18h, ao Ernesto Cafés Especiais (115 Sul). Aí se oferece ao vosso gosto um rendez-vous dos mais escolhidos, e com o qual podereis esquecer-vos por algumas horas das torturas desta vida de malquerenças. A saber: lançamento do livro Quando termina, dos escritores P. R. Cunha e Paulo Paniago. Obra a custar 40 (quarenta) réis.

— P. R. Cunha

Anuncia-se o lançamento do livro «Quando termina», de P. R. Cunha e Paulo Paniago

Brasília, Distrito Federal

» Não é sem infinita alegria que chegamos ao conhecimento de que os autores P. R. Cunha e Paulo Paniago conseguiram, com enorme trabalho e não poucos sacrifícios de toda a espécie, finalizar um ambicioso projeto literário. Trata-se de Quando termina, livro de contos vencedor do Prêmio Cidade de Belo Horizonte 2012. Os escritores convidam para o lançamento dessa simpática obra: esta quinta-feira, a partir das 18h, ao Ernesto Cafés Especiais (115 Sul).

» Ocasião àqueles que sabem dividir com método o seu tempo, deixando algumas horas disponíveis para cuidarem também do espírito, pela leitura de escritores locais.

» Quando termina tem um desenho semelhante ao de um jogo de xadrez, ou mesmo ao mapa de uma cidade com múltiplos meandros, onde situações imprevisíveis se acumulam em toda a parte. Escrito a quatro mãos, um dos autores começa os primeiros parágrafos e passa a vez ao outro — que para, reflete, coça as têmporas, imagina o movimento adequado, toma notas, responde. Por vezes a situação escala, a ponto de se tornar difícil saber quem escreveu o quê. Tanto melhor. As diferenças desapareceram, as suturas se tornam imperceptíveis, ao passo que o leitor pode manter-se sempre atento àquilo que realmente importa numa obra de ficção: o movimento de personagens em tabuleiros que simulam um jogo ainda mais inquietante — o jogo da vida. (Assim o diz a quarta capa.)

» Apesar de avançado em anos, Quando termina ainda conta histórias com grande segurança narrativa e com toda a verve e entusiasmo de outrora. É ainda um livro bastante atual, portanto; de liberdades por vezes arrojadas.

» O livro tem a capa negra como a sombra, revestimento de primeira qualidade, mecanismo de abertura aperfeiçoado. Exterior elegante, boa legibilidade, construção sólida cuidada de forma a resistir a todos os climas. Custa 40 dinheiros.

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