devaneios da própria máquina de escrever (episódio #1)

a vida do animal humano reivindicada pelos ciclos: o dia, a noite, as quatro estações, os períodos reprodutivos, o calendário, o relógio — o tempo. em ocidente, todas as promessas feitas durante a transição 31 de dezembro/1º de janeiro. «prometo praticar exercício físico, tratar melhor amigos & familiares, comer menos, falar menos, fazer mais» &tc. &tc.

o meu ciclo -> o meu ano novo: aniversário, 14 de outubro. o que fiz ou deixei de fazer durante a minha volta ao redor do sol. às vésperas da nova idade, sentindo-me como um soldado francês que retornava das trincheiras em 1918, ferido & com frio (metáfora completamente disparatada e insensível — escrever não é uma guerra, ou, pelo menos, não deveria de ser). chego à conclusão, porém, de que estou cansado. não exausto, aborrecido, nem de saco cheio: apenas cansado.

o atleta corredor de fundo que cruza a linha de chegada, verdadeiro deleite pelo grande feito conquistado (i.e. terminar a corrida), & que, no entanto, agora precisa de descansar, não quer saber de correr. se maratona longa, é provável que o período de convalescência também se alastre um bocadinho para além.

escrevi praticamente todos os dias (entre 14 de outubro de 2018 & 11 de outubro de 2019 [hoje]): para algumas revistas, para outros jornais, terminei meu segundo livro, o excesso (por vezes com qualidade duvidosa) que ia parar à lata do blogue. todos os dias, menos domingo. domingo era a altura de estar aluado, longe.

de forma que havia decidido dar-me um merecido sossego. é facto que as ideias por vezes desaparecem. precisamos de nos afastar do epicentro, relaxar os sentidos, ter paciência, desacelerar — coisa & tal.

esta manhã, pequeno-almoço, por volta das 7h04: minha mãe me telefona para dizer que leu qualquer coisa que escrevi a respeito de paulo mendes campos. ela comenta: não sabia que gostavas do paulinho. paulinho? é, paulinho, estudei medicina com a filha dele, gabriela mendes campos, rio de janeiro, tomávamos o chá, todos, inclusive com a joan abercrombie, mãe da gabi, mulher inglesa. vê: nem sou (muito) supersticioso, mas se isso não é um tremendo sinal dos astros, então não faço a ideia do que seja essa coisa de sinal dos astros.

apesar da notícia sobrenatural (minha mãe conhecera meu escritor brasileiro favorito de todos os tempos, tomou chazinho com ele), mostrava-me ainda inclinado a, como se diz vulgarmente, dar-me uma trégua. porque a escassez cria o valor. é altura de eu me dedicar às vagarosas partidas de tabuleiro, assistir aos patriots, pedalar a bicicleta, ir ao parque com a jéssica… numa palavra: férias. pensava nisso tudo enquanto abria a porta do armário & me deparava com a minha velha & surrada máquina de escrever.

evidentemente, as máquinas de escrever não possuem olhos, mas elas conseguem fitar-nos, sim, de um jeito perturbador, incisivo, como se nos chamassem para um serviço inadiável. 

acontece que cá estou agora, depois das menores férias de sempre, a tomar notas neste aparato barulhento & confuso, a começar este novo projeto, novo ciclo: devaneios da própria máquina de escrever.

— p. r. cunha


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Tédio, esta forma incerta

 *Publicado originalmente em iapetus-zine.

Pode-se imaginar Paulo Mendes Campos limpando com a manga da própria camiseta o resto de cerveja da boca depois de dizer, um tanto grogue, que o tédio é bem um dos fenômenos de maior importância na era tecnotrônica; pois se errarmos a mão na dosagem, causa sofrimento, violência, destrutividade — vide pessoa mais sensível a pôr termo à vida durante longa e morosa tarde de domingo: ou porque dissera palavras amargas a um certo familiar, magoando-o (magoando-se) sobremaneira, ou talvez por causa da derrota do time de futebol, ou quem sabe ainda um colega não ligara para dizer-lhe «feliz aniversário» —, este é o tédio que anestesia corpo & consciência, fica-se sem vontades de nada, de ninguém, o tédio que mata, deveras diferente daquele associado ao ócio (substantivo masculino: folga, repouso, preguiça, mandriice, quietação), ócio-criativo, tão necessário àqueles que se sentem mui à vontade com a solitude; há, portanto, tipos distintos de tédio, & há quem não consiga fitar o abismo, não dá conta de transformá-lo, metamorfoseá-lo em algo próprio (Matsuo Bashô observa a passagem do tempo que tudo arrasta e destrói, mas não se abala, escreve haikus &tc.), ser humano que se perde numa rua sem saída para a qual os caminhos da existência por vezes levam, & não sabe o que fazer, apenas fita o desfiladeiro, aterrorizado, procura de todas as formas olvidar-se, precisa de preencher a vacuidade com toda a sorte de artifícios/artificialidades («tudo o que é sólido se desmancha no ar», BERMAN, Marshall), abre as apps do telemóvel, redes sociais, pornografias, séries online, noticiários, porque não consegue aturar uns minutinhos de nada, & mete-se a entulhar o cérebro com as mesquinharias do chamado mundo moderno, até perceber a futilidade desses dispositivos, do ambíguo & passageiro entretenimento oferecido pelas apps, o conteúdo embrutecido das redes sociais, o gozo culpado das pornografias, o excesso de séries com narrativas repetidas, loopings, os jornais repletos de notícias inúteis, ao que não é de se admirar que a despeito da abundância oferecida pela sociedade do século vinte & um, o século do futuro, dos contêineres que atolam os portos com mercadorias diversas, milhares & milhares de opções em shopping mall, rede web, lojas físicas, lojas virtuais, que a despeito de tudo isso, como estava eu a dizer, exista tanta alma penada & vazia vagando a nenhures.

— P. R. Cunha


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