Miniperfil da persistência

Paul só queria ser artista.

Mas os professores da escola diziam que ele não tinha talento; e os pais costumam acreditar nos professores da escola. Os de Paul proibiram-no de mexer nos pincéis. Artista? Artista coisa nenhuma, trabalharia no banco, com transações monetárias, tal e qual o papá.

A título de sinceridade, os primeiros desenhos de Paul eram mesmo bastante ruins. Pouca emoção, estabanados, toscos, nem faziam sentido. Isso, contudo, não o desanimava. Às escondidas, Paul pintava. Quadros-atrás-de-quadros, dia-após-dia.

Numa altura, algumas telas pareciam se formar, as paisagens não eram apenas borrões desalinhados. Começava a surgir qualquer coisa. Porém, aos olhos dos críticos, Paul continuava a ser insuficiente. Quadros terríveis, disseram, Paul medíocre — falta-lhe talento, falta-lhe tudo.

A morte, como se sabe, sempre chega. Então veio a foice e jogou o papá de Paul à cova. O filho herdara muito dinheiro.

De repente, não precisava dar satisfações, nem lidar com o autoritarismo paterno. Aliviado, livre, Paul pintava cada vez mais, todos os dias, sem parar, a pintura tornara-se definitivamente a sua vida.

Até que aconteceu.

Após centenas, ou melhor, milhares de obras inconstantes, de quadros rejeitados, Paul enfim encontrara a própria voz, o próprio estilo — aprendera a pintar. E como se isso não bastasse, ele decidira ir além, superar-se, ultrapassar toda uma época, transformar-se em história, referência, construir novas formas de expressão. Paul nunca mais seria o tipo tímido e irascível que rabiscava às sombras.

Dali em diante, todos o conheceriam como Paul Cézanne, o pai da Arte Moderna.

— P. R. Cunha

Assim era o Herbert

O Herbert tinha dentro de si, ela disse, aquela certeza ingênua de que podia ganhar a vida de maneira decente, com as próprias mãos — e aqui ela sacode as mãos —, sem precisar lamber as botinhas a ninguém. Um homem amiúde calado, ela disse, mas quando começava a falar, não parava, falava pelos cotovelos, e citava uma série de termos da geografia portuguesa: Pedrógão Grande, Aveiro, Zêzere, Trás-os-Montes, Beira Baixa, Leiria, Entre-os-Rios, Bragança, Mirandela, Freixo de Espada-à-Cinta, Mesão Frio, Murça, Torre de Moncorvo, Valpaços e não só.

A gramática, dizia o Herbert, ela disse, a gramática para ele era apenas instrumento, ferramenta. O Herbert lembrava então de uma cena em que o pai dele tentou pregar um quadro do Cézanne, acho que o Femme au chapeau vert, utilizando o cabo de uma antiga chave de fenda 3/16 x 12”. Talvez o martelo se mostrasse mais adequado para aquele empreendimento, dizia o Herbert, mas o objetivo (i.e.: deixar o quadro grudadinho na parede) fôra devidamente alcançado, acrescentando ainda, o Herbert, que a moldura permanecia exatamente no mesmo lugar, sem qualquer sinal de instabilidade. 

Chave de fenda, martelo, Cézanne, gramática — Herbert.

Uma vez me falaram que ele tinha uma doença chamada alexitimia, condição terrível em que o indivíduo se vê incapaz de exprimir a própria vida emocional. Mas isso era uma grande bobagem, ela disse, o Herbert não tinha alexitimia coisa nenhuma.

O Herbert estudava cérebros, queria aprender como eles funcionavam. Um homem tem de tratar das necessidades básicas antes de se pôr com luxos, ela disse com ares conspiratórios. E quando ele falava sobre os cérebros, miudezas relacionadas aos cérebros, que temos neurônios que disparam e fazem novas conexões a todo o momento, e que esses disparos, o Herbert explicava gesticulando à beça, ela disse, esses disparos determinariam o caráter de todas as nossas experiências, ela disse, quando o Herbert falava sobre esses assuntos cerebrais sentia sempre que dava um bocadinho nas vistas dentro dos inúmeros cafés que costumava frequentar.

Torneio de futebol em criança, primeiro beijo, a primeira ereção, os tombos, as primeiras reprovações, quebrar a perna nas férias, algum sucesso acadêmico, outros fracassos amorosos, universidade, prêmio de literatura, paternidade, doenças, viagens alhures, quase morrer afogado num desastre náutico; nunca somos os mesmos, o Herbert costumava dizer. E depois de uma significativa perda, ela disse, o Herbert me contou uma das coisas mais fascinantes que já ouvi: que não é o tempo que cura o luto, somos nós que nos modificamos, transformamo-nos num outro, a carcaça pode até ser a mesma, mas lá dentro é outra coisa, criamos novas sinapses, seguimos em frente, esquecer-se é tão importante quanto lembrar-se.

Ele tinha por hábito levantar a chávena de café, como se estivesse a brindar com os deuses, era gozado de assistir. Minha satisfação com o café, dizia o Herbert, minha satisfação com o café é sagrada, de maneira que detesto ser incomodado enquanto tomo o meu café, dizia o Herbert, o sujeito tenta relaxar e beber um café, e de repente alguém está a lhe chamar sobre os ombros, e você vira, e percebe que esse alguém se aproxima, um alguém que de certeza lhe conhece, mas você não faz ideia de quem seja, você só quer tomar o seu café sem ser incomodado, e o tal sujeito faz que quer um abraço, aquela posição absurda de abraços em público, e diz: «porra, Herbert!, onde você se meteu?!», mas você ainda não faz a menor ideia de quem seja essa pessoa, você não lembra, existe um vazio na sua consciência, um vazio do tipo: «quem diabos é esse ser humano que quer meu abraço?», você tenta, mas não consegue recordar, você pousa a chávena sobre a mesa, levanta, dá-lhe um caloroso abraço e grita: «pois quanto tempo, meu amigo!», e você começa a se odiar, muito, dali em diante. Assim era o Herbert, ela disse.*

— P. R. Cunha


*Há algo de reconfortante nesta de se esconder num quarto fechado, à escrivaninha, rabiscando narrativas etc. A luz da luminária que aquece o meu cocuruto enquanto a caneta desliza, ou melhor, dança sobre as linhas de um palco de papel creme. Durante vários meses acordei com este nome, Herbert, na cabeça e o personagem começou a me perseguir como um palhaço de Stephen King. Até que recebi um WhatsApp do editor de certa revista literária chamada BIGCRUNCH (desse jeito: anglicismo, caixa alta, tudo junto) a encomendar contos e achei que poderia ser um momento interessante para exorcizar o Herbert. A estória acima, portanto, seria publicada no primeiro número da BIGCRUNCH — junho de 2018 —, mas por questões financeiras a revista nunca chegou a existir.