Cosmologia de uma viagem aos Andes chilenos – quarta parte (o som dos guerreiros da Patagônia)

Os mapuches, assim como os maias-quiché, possuem uma tradição predominantemente oral. Não à toa o idioma utilizado por este povo ameríndio que habita determinadas regiões do Chile e da Argentina chama-se mapudungun (o som da terra). Trata-se de um conjunto linguístico com imensa quantidade de palavras relacionadas com a flora, com o céu, com os Andes. O mapuche (nativo) — que por vezes também se autodenomina reche (homem verdadeiro) — adota posturas de veneração e respeito diante da complexidade ecológica. A natureza sempre caracterizou e deu sentido a essa gente do solo, cujos sobrenomes são toponímias dos lugares em que costumavam viver os antepassados.

Outra característica que os mapuches compartilham com os diversos povos que habitavam as Américas antes da absurda colonização europeia é o espírito integrador, de identidade, de pertencimento, com a evocação dos antigos triunfos, da cosmogonia, e das lendas que hoje, depois de incontáveis mutilações encorajadas pela igreja católica, permanecem à custa de relatos dispersos.

Guglielmo Marconi, considerado o pai do rádio, tinha a convicção de que o som nunca morreria. Uma vez que as palavras fossem emitidas por algum aparelho sonoro ou mesmo pelas cordas vocais de um ser humano, a informação estaria disponível para sempre, a vagar algures.

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É pena que Marconi estivesse equivocado. Um aparato que conseguisse resgatar as narrativas dos nativos americanos mostrar-se-ia crucial à sobrevivência de culturas que confiaram sobremaneira na memória, na inconstante oralidade.

— P. R. Cunha