Passeio niteroiense

Para a Eva de Oliveira Cunha, minha avó

Nas ruas de Niterói há todos os tipos de figura: o jornaleiro, o barista, o engraxate, o sorveteiro, amoladores de faca que tocam o hino dos clubes cariocas enquanto afiam lâminas, fugitivos, cartomantes, turistas desorientados, diplomatas, funkeiros, crianças a brincar de pega, banqueiros, senhoras que caminham lentamente, escultores, tecelões, médicos, ourives, juristas, pintores, monges, andarilhos, escribas, cardeais, polícias, lavradores, senhoritas que se exercitam ao som de Tom Jobim, acrobatas, escritores de literatura, cervejeiros, poetas, bajuladores, vendedores de chapéu, preguiçosos, afoitos, mentirosos, ciclistas, jogadores de xadrez, jogadores de dominó; e o Menezes, que parece não se encaixar em nada disso.

— P. R. Cunha

Passeios habituais por entre as montanhas

Os dois já estavam a caminhar há mais de três horas. Um dia bastante soalheiro castigava-os sem piedade. Carregavam pesadas mochilas às costas e utilizavam bastões para se equilibrarem entre as incontáveis pedras multicolores que encontravam pela trilha. Kozinski levara o cantil até à boca. Enquanto enxugava os lábios com a manga da camisa disse ao amigo: tu sabes melhor do que ninguém que sou dado a fazer estas longas caminhadas, David, que é da minha natureza sumir… mas quando vou muito algures as pessoas me chamam de louco. Sem diminuir o passo, Kozinski guardou o cantil dentro da mochila e continuou: vê lá, o que é natural e agradável para alguns sendo para outros algo de imoderado, de loucura mesmo. Prosseguiram em silêncio sob um céu sem nuvens. David então parou subitamente, como se se sentisse ameaçado. Notou que havia alguma coisa estranha no horizonte, perto das montanhas. Pegou o binóculo para perceber melhor e estupefato, suando em bica, passou-o para Kozinski: olha isto! Kozinski ajeitou o binóculo perto do nariz e não conseguia acreditar no que estava a ver, aquilo era simplesmente impossível.

— P. R. Cunha