Aqui só poderá brindar com corações de há muito rachados

Porque escreve
à Primavera,
flores abatidas
pelo verbo
do escritor.

Alheamento: o Brasil numa crise terrível, enquanto eu cá a escrever sobre os pássaros. «A Alemanha declarou guerra à Rússia. Período da tarde, natação» — qual Kafka, o despreocupado.

Às vezes, um pássaro canta tão alto que cala todos os passarinhos à sua volta.

De um discurso proferido num pequeno-almoço entre amigos para comemorar o anúncio do Prémio Literário Aldónio Gomes — o falante: vestido a rigor, casaco preto desportivo, calças jeans, sapatos confortáveis, bebe vodca de um só trago, serve-se outra vez, bebe, pousa o copo, diz: tinha treze anos quando escrevi uma estória pela primeira vez. Muito mais difícil do que eu previra. [Bebe novamente, enxuga a boca com a mão esquerda.] Um sopro gelado provocou-me arrepio na espinha. Senti medo.

— P. R. Cunha

Caderno de esboços / múltiplas anotações fragmentadas

Os poetas e os pássaros

Os poetas e os pássaros
não rastejam na terra,
precisam das nuvens,
das alturas,
onde encontram
plenitude.

Os pássaros e os poetas
são, portanto,
aeroplanos com vida.

[…\ 

Raiar da aurora às 5 horas e 49 minutos. Nascimento do sol às 7 horas e 58 minutos. Ocaso do sol às 6 horas e 57 minutos. Primeira maré: preamar aos 9 minutos da manhã; baixamar às 9 horas e 27 minutos da manhã. Segunda maré: preamar aos 41 minutos da tarde; baixamar às 5 horas e 51 minutos da tarde.

/…]

Um escritor de 32 anos deu à luz, em 14 do corrente, um livro de monstruosa configuração. — Este livro era composto de nove narrativas sem caminhos estabelecidos mas unidas pelo mesmo protagonista (Marquês de Rio Menor [alter ego do escritor, ao que parece]), tendo quase três mil páginas que nunca nos levam a sítio algum. No lugar da capa, tinha um ex-libris desenhado por Saavedra Machado; as laudas eram numeradas de forma aleatória (4, depois 105, depois 61, depois 22 e assim por diante). Sabe-se que o parto desse bizarro livro foi muitíssimo laborioso. A obra foi recusada por todas as casas editoras e, como se diz, morreu antes de ser dada ao mundo. É de supor, no entanto, que o manuscrito seja cuidadosamente guardado para ser submetido ao exame dos especialistas em língua portuguesa, tamanha a excentricidade da empreitada.

––––– COMPLEXO HOSPITALAR DE NITERÓI:

Era o doente um escritor de 32 anos, triste figura, vindo de Brasília a Niterói de propósito para tratar-se. Este infeliz começou a entregar-se desde muito jovem com descomunal excesso aos prazeres literários, e atribui-se a isso a origem do seu mal. Os principais sintomas deste são: — Quando precisa de contar a verdade, vacila; custa-lhe conservar-se inteligível; olhos de gelo; postura irascível. Se na rua onde passeia estão donzelas, ainda lhe custa mais a manter-se íntegro, não coordena os movimentos voluntários, diz palavras absurdas. Com um tratamento rigoroso, a medicina não desespera de o salvar.

CARNAVAL ————— &tC.

Segue atrás de uma procissão ao som de marchinhas carnavalescas desconhecidas que por breves momentos se tornam familiares. O escritor de 32 anos está já convalescente e começa a experimentar progressivas melhoras. Fazemos votos pelo seu completo estabelecimento.

— P. R. Cunha