Paraquedas canadiano

Esta breve nota — à laia de introdução — pretende falar apenas o absolutamente necessário.

Creio que quem se mete a escrever literaturas possui dentro de si um honesto impulso para comunicar. O desafio, portanto, é construir obra coerente que consiga transmitir de alguma(s) forma(s) o que se passa dentro da maquinaria escritora. 

Projetar o livro, levar por diante o livro, concluir o livro e talvez receber respostas de leitores atenciosos. Eis do que se trata.

Quando li (e reli, e reli…) a resenha do Emanuel Melo a respeito do meu Paraquedas, senti aquela reconfortante certeza de que minhas entranhas não foram expostas à toa. As inquietações que compartilhei chegaram a um destinatário disposto a recebê-las, ou melhor, a absorvê-las, a digeri-las. E este diálogo distante, um bocadinho onírico, tipo message in a bottle, constitui, no meu simples modo de ver, a maior distinção para uma obra literária.

Compartilho na íntegra o texto do Emanuel (in English); e se quiseres apreciar com serenidade os mais singelos apontamentos canadianos de um Torontonian Azorean writer, podes acessar o electro-sítio: thetorzorean.com

— P. R. Cunha   


Paraquedas/Parachute
By Emanuel Melo

Paulo Renato Souza Cunha is a young Brazilian writer, poet, photographer, and musician: a truly modern Renaissance man. He was the winner of the VII Prémio Aldónio Gomes  for his book, Paraquedas – um ensaio filosófico, published in December, 2018, by UA Editora/Universidade de Aveiro. He made the trip from Brazil to Portugal where he joyfully received his literary prize and shared his travelling adventures with the dedicated followers of his blog.

I waited eagerly for a copy of the book, a generous gift from the writer who I have befriended over the last year. When it arrived, on one of the coldest spring days in Toronto, all the way from the warm climate of Brazil, I decided to wait until our own weather improved so that I could sit in my garden to read the book while the warmth of the sun covered my skin. I waited as long as I could but, alas, at the end of April we were still wearing winter coats to keep the chill away. It was impossible to sit in my garden for more than a few minutes before hyperthermia set in! I finally gave up on the weather as a prop to my enjoyment of reading and, holding Paraquedas in my hands, my fingers turned the pages with a caress of admiration for its aesthetically bound softcover, eye-catching typesetting and layout, and simple clear lines, so full of understated elegance. Sitting cozily on my sofa by the warmth of the radiator heat, I entered the world of P. R. Cunha’s writing.

I wish this book was available in English so that those who don’t read in Portuguese could discover and appreciate Parachute – a Philosophical Essay (my translation). “There are no correct tones for an essay beyond those of enthusiasm and sincerity,” wrote John Moss in his Introduction Essay in The Canadian Novel: Here and Now – A critical Anthology, 1978 (p. 12/13). And he could have been writing about P.R. Cunha, whose writing is, indeed, full of enthusiasm and, more importantly, sincerity. His essay is divided into four parts and may be read as part memoir, part philosophical musings, but the reader is never really sure how much of what we are told is about the protagonist writer in the essay, who after ten years of grappling with writing a novel, decides to run away (for a very short time) to England before Brazilian literature drove him to madness (p. 9), or the author himself. Is it pure biography or a reinvented biography-cum-fiction? It’s up to the reader to decide.

But I do know that the author of Parachute, like his first-person narrator, shares the same love and fascination for the writers J. G. Ballard, W. G. Sebald, Montaigne, Thomas Bernhard, Sterne, among others. The love for these authors was instilled in the narrator-protagonist by his tia Laura, and we wonder if this is P.R. Cunha’s aunt, too, or simply that of his alter-ego, the writer-protagonist who discusses literature and life, while revealing unflattering facts about his mother, his father, his brother and his sister. The description of his father’s death and his siblings’ greed at spending their 24% each inheritance, while our protagonist-writer is left with only a mere 2%, reveals a family dysfunction that made me cringe. It is tia Laura who has mentored and financed the writer’s adventures and travels, thereby exposing him to the arts, including music; an assistance which allowed him to pursue his intellectual interests.

The book can be read as a tribute to the aunt who dies towards the end of the narrative; and the protagonist wishes that someday, someone in the future may take his dusty book off a shelf to read it and, by doing so, afford his tia Laura a fleeting reward in eternity (p. 168); but the book can also be seen as the inner journey of someone trying to make sense of his life through literature and his own literary pursuits; questioning in every page what is real and what is fiction.

P. R. Cunha is a master weaver of the long, meandering sentence, common in Portuguese writing but not unknown in the English world of literature. It’s a style that appeals to the lyrical writer, regardless of nationality. But not everyone who writes can carry a long sentence without losing their breath along the way. With the long sentence, we can only rely on the helpful use of the comma in order to pause before reading on. Cunha’s narrative starts in one place but by the end he has taken the reader to another world; and yet, managing to brilliantly unite each idea and meandering thought, making it all fit and make sense like a carefully thought-out chess move, a game that both P. R. Cunha and the protagonist of Paraquedas share with passion. I enjoyed this book precisely for this reason; savouring the elegant writing on ideas, philosophically connected to the personal.

The essay questions, in a broader sense, the meaning of the self, and the relationship between literature and everyday life, by referencing philosophy as a guide to the art of living. A parachute is used to allow someone to come down from the sky in a slow, safe way to reach the ground unscathed, and I wonder if P. R. Cunha chose this word for the title of his book as a metaphor for the self’s movement from the internal “sky” world within us, as it floats down from the abstract air, towards the concreteness of the world landed upon.

What Paulo Renato Souza Cunha’s imaginative and complex mind is trying to offer through his meditations, observations, reflections, is perhaps an invitation to his readers to be in touch with their deeper thinking selves.

It is now mid-May and the weather teases the promise of real spring days ahead, when I will finally be able to sit out in my garden again to satisfy my pleasure in reading surrounded by trees, plants and flowers. And I will then take delight in rereading Paraquedas.

Só mais um rostinho bonito (e indefeso) no capcioso universo literário

Dizem que todas as profissões criam para si um conjunto de maneirismos — uma espécie de manual de etiqueta informal que ao fim e ao cabo acaba definindo um bocadinho esta ou aquela área de atuação. Penso nos uniformes de guerra, nas perucas dos juízes, no jaleco branco a mostrar que fulano é médico e confiável, nas patentes aeronáuticas, penso na indumentária alternativa dos que trabalham com publicidade, nos homens e mulheres hightech que praticam o jogging pela manhã e depois levam os próprios animais (cães, gatos, porquinhos da Índia) à sede de empresas com edifícios «amistosamente ecológicos» tais como Google, Facebook, Microsoft. São esteriótipos. E como acontece muitas vezes com as imposições arbitrárias, os esteriótipos têm também qualquer coisa de cafona, de surreal. Nunca compreendi, por exemplo, os porquês de os políticos brasileiros vestirem terno e gravata. O Brasil é um país tropical com temperaturas diabolicamente infernais. Uma terra a arder e mesmo assim os gajos se metem em fatos de algodão, ficam tão ensopados e fedorentos quanto um gambá silvestre depois de fugir do Leopardus spp. — popularmente conhecido como gato-do-mato. No entanto, é provável que no quesito «brega casual» nenhuma cafonice consiga superar a dos chamados (pseudo-)intelectuais. Christopher Hitchens dizia que não conseguia ler o livro de autores que tirassem retratos com a mão no queixo, a fazer poses de: mamã, estou na orelha de um livro, o meu livro, sou mesmo muito importante, passo os weekends a ler Tolstói, analisando os pormenores do formalismo búlgaro. Ou mesmo a postura de pessoa fragilizada pelas mazelas do mundo, a citar Bertrand Russell fora do contexto. O desabafo vem a calhar, porque dia desses um jornalista solicitou-me fotografia à guisa de ilustração — ele escrevera uma nota a respeito de Paraquedas. Acontece que depois ficou deveras aborrecido com a imagem que eu lhe enviara (uma foto descontraída em que estou perto da piscina, com t-shirt branca e tênis de beisebol). Não tem nenhuma mais bonitinha?, ele me perguntou. Pedi que definisse o adjetivo com mais esmero. A resposta: sei lá, uma com a mão no queixo, essas fotos que vocês (sic!) costumam mandar para a imprensa.

— P. R. Cunha


headshot

Crasso exemplo de autor-fragilizado-pelas-intempéries-do-mundo-com-a-mão-no-queixo (a mídia parece adorar esse tipo de pose) ©BWC Photos

Poema para Tomas

Acordo de manhã cedo
e estou a fazer o pequeno-almoço
quando uma figura felina misteriosa
surge nos limites da moldura da porta
de vidro da cozinha onde fico
a beliscar o pão com geleia de frutas vermelhas
bebericando o café sem açúcar.
Quem olha para este gato
enquanto compreende-se ao sabor
da cafeína
não deixa de se maravilhar com o aspecto
do animal que tem as cores de
uma montanha de neve
a derreter sob a luz
do sol brando
geleira com faixas de pedra marrom
a surgir após um longo e melancólico inverno.
O gato visita-me vez sim vez não
vez não vez sim vez não
o bastante para eu —
com aquele distanciamento protocolar
de quem teme envolver-se de mais —
ter-lhe dado nome:
Tomas
O dócil felino fica a miar
até que a porta esteja aberta
e vem fazer carinhos nos meus pés
como forma de profundo agradecimento
pela tigela de leite que coloco lá fora.
Quando Tomas não aparece
por motivos felinos
sempre difíceis de compreender
a tigela de leite fica cheia
e vem até mim um pensamento
pensamento formado
pensamento resolvido
de que o bicho pode não voltar mais.
E é assim que vejo o Tomas
microcosmos das irregularidades
da vida.

— P. R. Cunha

Carta a um filho que ainda não tenho (para o caso de ele se tornar escritor)

Filho, ontem me disseste que queres ser escritor também. Comoveste-me com tal decisão. Agora, se me permites, gostava de compartilhar contigo alguns pormenores sobre esta fazenda que, sim, por vezes pode se mostrar ardilosa, mas é também o sítio mais agradável e encantador para criares morada. Suponhamos que tu tenhas uma ideia. Tens uma ideia, um esboço, um embrião, organismo unicelular. É tudo ainda muito cru, muito simples. Então tu tens uma ideia e não sabes se esta ideia transformar-se-á em conto, novela, romance. Estás um bocado esperançoso, entusiasmado, crês que a coisa pode caminhar direitinho. Alguns dias tu acreditas que és grande, magnífico, um escritor de primeira linha, candidato ao Nobel, quiçá o melhor escritor que já caminhara neste planeta; em tantos e tantos outros dias tu chegas à conclusão de que não vales um vintém, de que o que estás a escrever na verdade não caminha direitinho, chegas à conclusão de que perderas tempo, de que há livros de mais no mundo etc. Estás sufocado. Compreendo-te. Essa gangorra é absolutamente normal. A tempestade passa. E a melhor maneira de enfrentá-la é continuares escrevendo. Um relacionamento acaba, continua a escrever; foste demitido do emprego, continua a escrever; alguém morreu no meio do caminho, depressão/melancolia, o teu time não vai bem na NFL, a casa do teu amigo foi hipotecada, a Coreia do Norte declarou guerra à Coreia do Sul — não importa, continua a escrever. Não desistas. Muitas pessoas talentosas deixam de publicar grandes obras porque não têm perseverança, continuidade, porque não terminam. O talento não vale nada se o escritor não consegue colocá-lo em prática. Sejas, portanto, meticuloso, persistente, corajoso, cria rotinas, sai, vê, viaja e, for god’s sake!, termina. Se depois dessas batalhas sangrentas, desses dias/meses/anos agridoces, de algumas paranóias, de inquietações diversas, se depois disso ainda continuares com vontade de escrever, com vontade de começar tudo de novo, de passar por cada uma dessas etapas novamente… então, filho, podes ter a certeza: escolheste o ofício certo para a tua vida. Do sempre, sempre teu,

— P. R. Cunha

«Paraquedas – um ensaio filosófico», retornos

A verdade é que não sabemos
não sabemos quando vamos morrer
não sabemos se a entrevista de emprego
sairá como havíamos planejado
se conquistaremos o coração
da pessoa por quem estamos apaixonados
se a nossa carta chegará ao leito
de um amigo enfermo
se vai chover
se vai o sol
não sabemos
não sabemos como reagirão
àquilo que escrevemos
podem gostar, podem odiar
podem dizer que sim
podem dizer que não
podem permanecer
em silêncio…
não sabemos
e talvez seja por isto
que continuamos
que seguimos em frente
— porque queremos saber.

Quatro mui agradáveis damas dão as próprias opiniões a respeito do meu Paraquedas – um ensaio filosófico: 

 

«A forma como os acontecimentos do passado entram em contato com as ações do presente de seu personagem inominável nos dá uma fantástica sensação de viagem no tempo.»

Rejane Leopoldino,editora do blogue Devir

 

«Quando o eu-narrativo se fortalece, ele inventa histórias com todas as alcançáveis possibilidades. E isto atormenta o protagonista — possivelmente alto, magro e careca, mas certamente humano —, que escolhe não agir, mas desabafar conosco. O relato de um momento curto alonga-se no tempo.»

Jéssica Fernandes,pesquisadora do Ipea*

 

«P. R. Cunha é surpreendente em seu ensaio filosófico Paraquedas. Descreve as relações familiares em sua essência mais crua e sem pudores, sem medo de tirar o véu que encobre as chagas da nobreza. Paraquedas é uma obra para ser contemplada aos poucos e, se você tiver sorte — como escreve o nosso querido Escritor —, entenderá o que é a eternidade de um amor grafada nas páginas de um livro. Leitura muito agradável e inteligente.»

Gerlusa Rocha, poetisa responsável pelo blogue Escrita agridoce

 

«Livro merecidamente premiado. Narrativa espontânea, direta, sem rodeios. Não nos apetece parar de ler.»

Maria Cristina Souza, diretora do Hospital Urológico de Brasília

 


*O livro Paraquedas – um ensaio filosófico do P. R. Cunha encontra-se disponível à Lojinha deste electro-sítio. Para mais informações, aperta aqui.

António Guimarães (editor de livros) em conversa com P. R. Cunha / edição especial «Paraquedas – um ensaio filosófico»

António Guimarães cruzara o Atlântico para fazer coisas que editores costumam fazer enquanto longe de casa e dissera-me que «mais uma entrevista com perguntas-e-respostas-à-pingue-pongue poderia ajudar na divulgação do teu Paraquedas – um ensaio filosófico*». Sentamo-nos à mesa do restaurante Boneco, estrategicamente localizado a poucos metros do local onde pratico atividades físicas, e esmiuçamos temas diversos. António tomava o suco de acerola.


[António Guimarães] Podemos começar com as obviedades, não há problemas. Um livro preferido.

[P. R. Cunha] A morte do pai (Minha luta 1), do Knausgård. Mas há também O náufrago, do Bernhard, um livro muito bom, muito bom mesmo. Os calhamaços de A anatomia da melancolia, do Burton, céus!, são uma beleza.


[A. G.] Escritor favorito.

[P. R.] Há quatro estações, sabemos. Na primavera, o Sebald; no verão, o Handke; no outono, o Carver; no inverno… o Bernhard. É uma vida de leituras, percebes? Difícil de escolher um único biscoito.


[A. G.] Time de futebol, o famigerado soccer.

[P. R.] Botafogo de Futebol e Regatas, apesar de ultimamente não ter tempo (i.e. perseverança) para acompanhar as partidas. Assisto aos gols, acho legal assistir aos gols quando o Botafogo vence — o que não ocorre com muita frequência.


[A. G.] Time de futebol americano.

[P. R.] Dizem que aderi à modinha, mas gostava que ficasse claro: torço para o New England Patriots desde as temporadas mais ardilosas em que o Bledsoe era o quarterback e os patriotas jogavam no terrível Sullivan Stadium.


[A. G.] A literatura serviu-te para quê?

[P. R.] O Bolaño odiava aquelas respostas pré-fabricadas, falsamente poéticas: ah, a literatura serviu-me para não morrer, etc. Não é verdade. Ele teria sobrevivido sem a literatura, com melhor saúde inclusive. Eu também teria. Eu me interesso muito por trabalhos manuais. Jardinagem, mexer com madeiras, gosto imenso dessas coisas. Meu sonho era construir uma mesa grande, de aí uma família compraria essa mesa, e depois os membros desta família (tios, avós, primos, netos…) jantariam à mesa que construí com tanto afinco, e seria fixe se me mandassem um telegrama: olá, adoramos a mesa, preparamos um banquete e jantamos à mesa que tu construíste, é uma mesa incrível, obrigado. Eu teria sobrevivido. De forma que a literatura serviu-me, e ainda serve-me, para adiar o momento em que, finalmente, poderei me dedicar às hortas, ou à carpintaria.


[A. G.] O que ela te dá?

[P. R.] A ilusão de que posso viver várias vidas. De que posso errar, e errar, e errar, e sempre poderei recomeçar. Com outros personagens, se preciso, novos cenários. E me dá muito prazer também. Ler é terrivelmente agradável. Apetece fugir, sabes? Apetece fugir para um canto isoladinho e ler.


[A. G.] E o que a literatura te tira?

[P. R.] Já tirou-me algumas amizades. É importante ter-se muito cuidado quando alguém diz: compreendo o teu trabalho literário, não vou fazer birras. Porque quando os escritores estão, digamos, em férias podem ser companhias agradabilíssimas. Conversam. Estão disponíveis. Não se isolam. Bebem. Divertem-se. Mas é lá um período passageiro. Logo precisam de começar um novo trabalho e de aí transformam-se num outro animal. «É estranho, antes divertias-te tanto e agora és pior do que um cavalo dopado.» É esta a imagem.


[A. G.] Achas difícil conciliar o trabalho literário com a sociabilidade?

[P. R.] Pensam que é fácil. A fórmula ingênua é: sentar, usar os miolos, escrever parágrafos durante uns meses e, pronto!, o livro está finalizado. Os escritores — e posso dizê-lo por experiência própria — são os tipos mais dedicados que conheço. Alguns chegam a trabalhar dezoito horas por dia. Precisam de linearidade, rotinas. Cada dia um bocadinho mais. E se estão já num ritmo adequado, não têm tempo para putear algures, percebes? Eles irão fazê-lo depois, com a obra devidamente revisada, à guisa de recompensa. É isto muito curioso: quando um médico, ou um advogado, ou um engenheiro precisam de trabalhar até tarde, ou fazem plantão aos fins-de-semana, ninguém acha estranho. Chegam a dizer: que exemplo de funcionário, trabalha muito, aplicado que só. Mas quando o mesmo acontece com os escritores, a abordagem é completamente distinta. Ficas aí feito um vadio até às tantas, dizem, a ler, a pesquisar, precisa de sair, viver, não me dás atenção.


[A. G.] Achas que não levam mais a literatura a sério?

[P. R.] Pois não. Antes era chique mexer com essas coisas. Toda a gente queria ter um literato na família. Os gajos e as raparigas podiam dizer na escola: meu tio escreve ficção; e logo os professores e as professoras iriam adotá-los. É a tal morte dos intelectuais também. A sociologia a perder as referências, a filosofia a sofrer das mesmas mazelas. E com tantas opções de entretenimento oferecidas por Netflix e irmãs correlatas, quem quer desacelerar um bocadinho e ler folhas de papel? Bom, pelos vistos, há ainda uns doidos que se propõem a isso.


[A. G.] O que os teus trinta e três anos de planeta te ensinaram?

[P. R.] Que muitos fazem promessas e muitos não irão cumprir tais promessas. Hoje alguém diz: te prometo isto e aquilo. Amanhã, não cumpre, nem depois de amanhã, nem no próximo mês, nem nunca mais. São raros os que mantêm a palavra. Se por um acaso possuis um ser humano assim por perto, ser humano com iniciativa, ser humano que faz, que coloca as coisas em prática, ora, meus muitos parabéns — tiraste a sorte grande.


[A. G.] O que dizes quando alguém te acusa de pessimista?

[P. R.] Digo: tens lá razão, sou mesmo pessimista.


[A. G.] Não te incomoda?

[P. R.] De forma alguma. Vê, por exemplo, estes dados. Citá-los-ei de cabeça, certo? Sem nenhum rigor científico. Fiquei a saber que em 2018 o atacante Fred do Cruzeiro ganhava cerca de R$ 600 mil por mês. Isto para chutar umas bolas à meta adversária. Fiquei curioso e pesquisei a média salarial de um médico brasileiro: 12 mil dinheiros. Não precisaria de lembrar que médicos salvam vidas. E o salário dos professores no Brasil? Menos de dois mil reais. Recapitulo: o Fred ganha R$ 600 mil por mês para ser futebolista. Um professor brasileiro ganha menos de dois mil mangos para guiar o futuro educacional de um país.


*O livro Paraquedas – um ensaio filosófico do P. R. Cunha encontra-se disponível à Lojinha deste electro-sítio. Para mais informações, aperta aqui.

Caderno de viagem: Évora entre ossos e feridos

Grosso-modo, estás a viver uma vida boazinha, és feliz, e as coisas amiúde correm-te apropriadamente. Até que chega a morte, a perda, um desastre e não te mostras de forma alguma preparado para o que vem a seguir.

A velha dicotomia de sempre: vida & morte, deusas imprevisíveis que lutam entre si, mas também, ao fim e ao cabo, dependem uma da outra.

Estás em conflito contigo mesmo porque passaras a tua existência em casulos hermeticamente fechados, protegido do mundo, sem lidar com a possibilidade, como se costuma dizer algures, da finitude. Nessa tua morada, ninguém morria, ninguém morreria. Era tudo calmo, era tudo certo.

(O viajante que acaba invariavelmente por utilizar elementos da própria biografia em seus relatos de viagem.)

A bandeira de Évora.

A bandeira de Évora é qualquer coisa curiosa. De longe, a trepidar ao sabor do vento alentejano, parece uma bandeira como tantas outras, com formas triangulares amarelas e vermelhas a preencher a superfície do pano. Mas se chegares perto, perceberás um brasão assustador adornado com motivos medievais. Dentro do escudo dourado, certo cavaleiro com armadura metálica ergue espada ensanguentada — é Geraldo Geraldes, o Geraldo sem Pavor, galopando um saudável cavalo negro.

Triunfante, o animal salta a cabeça de duas vítimas decapitadas, e daí compreendes a origem do sangue que escorre pela espada do supracitado cavaleiro: vem dum homem e duma mulher; mouros. A faixa branca a contornar o escudo que diz MUI NOBRE E SEMPRE LEAL CIDADE DE ÉVORA parece querer justificar o assassínio cometido por Geraldo Geraldes.

Esta bandeira causa-te um inverno na espinha.

Dada a tua tendência natural para o inconcebível, decides agora visitar a Igreja de São Francisco, cujos limites, contaram-te, abrigam convento, museu, coleções diversas (presépios Canha da Silva), órgão setecentista, sala régia, sala dos castros, etc., além da Capela dos Ossos — construída no século XVII com o «propósito de provocar pela imagem a reflexão sobre a transitoriedade da vida humana».

O céu matutino, azul e completamente sem nuvens de Évora contrastava com o vento glaciar que cortava-te a alma. Sentes aquela estranha sensação de estares a ser observado por algo ou alguém.

À entrada da Capela dos Ossos, com duas colunas ao estilo romano, podes ler a famosa inscrição:

NÓS OSSOS QUE AQUI ESTAMOS PELOS VOSSOS ESPERAMOS 

De início, ficas perturbado com a visão das paredes interiores — repletas de crânios, de toda a sorte de ossos humanos. Ossos que não estavam ali para brincar, isso era certinho. Mas, tal e qual ocorre com o noticiário moderno (quanto mais atrocidades alguém lê, menos escandalizado fica), a capela macabra aos poucos torna-se um bocadinho mais aprazível até que finalmente chega a altura de poder colocar o visitante no seu devido posto.

Aqueles restos de pessoas que um dia foram não te deixam esquecer de que tu também irás, cedo ou tarde, ter aquele mesmíssimo fim: transformar-te-á num mero amontoado de osteócitos, osteoblastos e osteoclastos. Serás também caveira, esqueleto.

Poema sobre a existência
(Este soneto do Padre António da Ascensão Teles pode ser lido no interior da capela.)

Aonde vais, caminhante, acelerado? 
Pára…não prossigas mais avante; 
Negócio, não tens mais importante, 
Do que este, à tua vista apresentado. 
Recorda quantos desta vida tem passado, 
Reflecte em que terás fim semelhante, 
Que para meditar causa é bastante 
Terem todos mais nisto parado. 
Pondera, que influído d’essa sorte, 
Entre negociações do mundo tantas, 
Tão pouco consideras na morte; 
Porém, se os olhos aqui levantas, 
Pára…porque em negócio deste porte, 
Quanto mais tu parares, mais adiantas.

(…)

Ouviste dizer que algumas pessoas não se aguentam nem cinco minutinhos dentro da Capela dos Ossos; não dão conta de olhar para aquele espelho cadavérico. Fogem. Mas aquela decoração esquelética causara-te outra coisa. Tens, mais do que jamais tiveras, a certeza de que o derradeiro suspiro chegará, e queres aproveitar o interlúdio da melhor maneira possível.

Refletes também a respeito dos donos daqueles ossos, se um dia teriam imaginado que um escritor brasileiro nos seus trintas, a levar uma vida algo dissipada, escreveria sobre aquela estranha morada, quatro século mais tarde.

Ficas ali dentro, em absoluto silêncio, a observar os rostos sem pele até serem horas de ir para outros sítios da Igreja de São Francisco, porque nesta vida não se pode atrasar. Poderás dormir imenso quando morreres.

Segues para a frente.

Estás em Évora, afinal.

— P. R. Cunha


O livro Paraquedas – um ensaio filosófico do P. R. Cunha já se encontra disponível à lojinha do sítio web. Para mais informações, aperta aqui.