Jazz atmosférico para leituras noturnas – uma reflexão

Os arquitetos costumam dizer que edifícios magníficos (juízo deles) precisam de sete anos para ficar prontos.

Escolha do terreno, contratação de pessoal especializado, pendências burocráticas diversas… até às devidas finalizações da obra.

Sete anos, por aí.

Frank Gehry, arquiteto que já recebera um Prêmio Pritzker e responsável pelos projetos de Museu Guggenheim Bilbao, Hotel Marqués de Riscal, Walt Disney Concert Hall (entre outros), garante que esse processo moroso rende-lhe atitudes contemplativas, faz com que ele valorize cada etapa do empreendimento, cada segundo dedicado aos desenhos, à construção em si.

Etc.

Estou há quase dez anos — mais tempo, portanto, do que se levaria para construir um magnífico edifício — a decifrar os enigmas do Tractatus logico-philosophicus. Ambígua conclusão sobre o autor deste livro: a filosofia de Wittgenstein é uma espécie de física quântica à moda Richard Feynman.

Noutros termos:

Quem diz que compreende Wittgenstein, então não compreendeu Wittgenstein.

— P. R. Cunha

Outra viagem à volta do meu escritório

Alguns amigos que costumam me visitar ao escritório já sabem que quando a minha escrivaninha está entulhada de livros, e papéis, e canetas, e lápis, e pequenos cartões repletos de hieróglifos é porque estou metido em alguma coisa, como se diz, de fôlego. A sala está serena, as prateleiras mostram-se impecáveis, as obras devidamente ordenadas, mas a escrivaninha, meu verdadeiro sítio de trabalho, parece ter sido revirada por um furacão categoria 4. Isto costuma deixá-los confusos, um bocadinho irrequietos.

Acontece que a bagunça é ilusória. Ou melhor: para os olhos deles, sim, a mesa está realmente um caos. No entanto, é o método que meu cérebro criou para se organizar. A neurociência tem nos mostrado com detalhes que nossos neurônios não são lineares; lidam com possibilidades, cortam caminhos, prolongam outros. Assemelham-se mais a um tronco de árvore do que a uma longa e reta highway norteamericana. 

A escrivaninha torna-se, portanto, o reflexo do modus operandi de quem a utiliza. Por isso que muitos dirão que uma das tarefas mais importantes do escritor é achar um espaço fixo, adequado às repetições diárias, em que será possível habitá-lo com ideias, possibilidades, recomeçar a empreitada de onde parou.

José Luis Gutierrez é um colega mexicano. Ele diz que não consegue escrever. Ou que antes conseguia, mas hoje não dá conta, aposentou-se. Gutierrez utilizava o próprio computador para criar narrativas. Ao sentar-se, movia rapidamente o cursor do rato para um vídeo no YouTube, depois, numa nova aba do browser, tentava responder aos emails, abria outras abas para monitorar Twitter, Facebook, Instagram, e enquanto se desdobrava para não ter um aneurisma, precisava ainda de lidar com as mensagens que a noiva lhe mandava pelo telemóvel. Não me admira o facto de ele não conseguir escrever nada depois desses constantes bloqueios mentais.

As vias do pensamento humano podem não ser lineares, mas isso está longe de significar que o cérebro esteja adaptado às multitarefas. Cientistas de universidades britânicas demonstraram que dedicar-se a mais de uma função ao mesmo tempo diminui a produtividade em ao menos 60%. É como se o sistema cerebral preferisse trabalhar com temas isolados, para só depois expandi-los, mesclá-los, remodelá-los.

O escritório, ter um sítio para onde ir, um sítio onde se pode montar o próprio ambiente, de acordo com as próprias particularidades torna-se ainda mais essencial quando o escritor precisa de lidar com essas distrações modernas. Comentei com o Gutierrez a respeito desses pormenores e acrescentei ainda que quando começo a escrever quase nunca utilizo o computador. Acho que se uma tempestade geomagnética afetasse as infraestruturas atuais — e nos levasse de volta à Idade Média em termos tecnológicos — eu conseguiria me virar sem grandes conflitos*. Caderninho de anotações e a boa e velha caneta é tudo de que o escritor realmente precisa quando se depara com ideias interessantes. Só depois, com a estrutura do texto devidamente elaborada, sento-me ao computador para transcrever. 

À laia de desfecho, talvez fosse a altura de fazer-vos uma branda confissão: aprendi a escrever ficção utilizando uma velha Olivetti Lettera 22 que pertencera ao meu avô materno e cujo barulho infernal levava-me para outras dimensões (possivelmente a um daqueles vales cósmicos sobre os quais a física quântica tanto comenta). De forma que instalei um software chamado Noisy Typer que simula o som das máquinas de escrever quando digito as teclas do meu computador. É assustadoramente eficaz.

Aprendi também a não sentir vergonha dessas minhas peculiaridades: escrever é o trabalho mais importante da minha vida, ao passo que fiz, faço, e ainda farei de tudo para aperfeiçoá-lo. Antes de sentar-me para criar, tomo o café como se fosse um imperador asteca, mantenho as minhas rotinas, desligo o telemóvel, desconecto o computador da Internet, concentro-me numa única tarefa, cultivo escrivaninha estranha, do meu jeito, com as minhas bagunças metodicamente arrumadas. 

Não é sempre uma travessia elegante, pois não, mas é bem agradável quando funciona.

— P. R. Cunha


*Alas!, este blogue, no entanto, deixaria de existir.

«Guru está estressado» seguido de «Breve nota aos leitores da União Europeia»

Isto foi em 2017. O Harold apareceu da forma que costumava aparecer, ou seja, do nada, sem aviso, tal comboio descarrilhado — o que me fez lembrar das palavras da mamã dele, que não está mais entre nós (foi morar na Turquia com um sujeito que é bem a lata do Orhan Pamuk). A mamã do Harold costumava me dizer que é bem coisa do Harold soar e agir como um comboio descarrilhado. Então Harold apareceu e disse: tu escreves de mais, tu ficas aí sentado e escreves e escreves e escreves, enquanto lá fora há um mundo de possibilidades. Expliquei inutilmente que tinha acabado de voltar das praias de Pipa-RN, que precisava mesmo de escrever, enquanto o Harold insistia: escreves, escreves, tac-tac na máquina de escrever, escreves. E aqui ele me puxa da cadeira e diz que vamos ter com Guru. Entramos no automóvel do Harold, um Lada Niva 4×4, e seguimos para a quinta onde Guru, pelos vistos, gosta de passar as férias. O Harold dirige feito um louco, ou um condenado à prisão perpétua. Não vais ficar enjoadinho justo na altura em que vamos ter com Guru — diz o Harold, num tom incisivo, patriarcal. Pergunto a ele se Guru é aquele sujeito laranja com cara de quem ingeriu doses inapropriadas de Ritalina® e o Harold fica possesso com essa comparação disparatada, talvez a pensar que ter me tirado do meu habitat, ter me tirado da minha escrivaninha não tenha sido mesmo grande ideia. De certeza que agora apetece ao Harold, ou pelo menos passa pela cabeça do Harold, levar-me de volta a casa, mas isto não é mais possível, estamos longe. O rádio do Niva toca uma canção foleira dos 1980 com bateria eletrônica afogada num Gated Reverb que a coisa toda faz os altifalantes do automóvel quererem sair pelas portas. Meu comentário leviano sobre Guru enfurecera o Harold, isto é certinho. Quando chegamos ao reduto de Guru — com aqueles tipos de árvores perfeitas para se esvaziar a bexiga, dar uma generosa mijada depois de beber litros da Sagres Pilsen «como se não houvesse o amanhã» (cito uma canção folclórica) — percebemos que Guru está a tomar o pequeno-almoço na varanda com uma loura esbelta à moda Claudia Schiffer e o Harold logo me cutuca, apertando-me o braço com força para que eu mantivesse o bico calado, pois a loura é bem a esposa de Guru, ele diz, a loura é outra coisa, para que eu não cobiçasse a mulher alheia e etiquetas relacionadas. Guru, vestido mais como um Oberleutnant zur See (oficial de primeira classe) do que um líder espiritual propriamente dito, levanta a embalagem de cornflakes e depois entorna o conteúdo numa tigela com motivos do rato Mickey. A cena é tão absurda e tão hilária que preciso de conter um riso em estado de ebulição. Não comento nada sobre a cena, muito menos sobre a vestimenta tipo Kriegsmarine, por respeito ao Harold. Guru nos convida para comer o pequeno-almoço com ele, apontando com dedos nodosos às cadeiras vazias ao redor da mesa. Percebo que a loura está a ler qualquer coisa vulgar, uma edição vintage da Playboy. A mulher da capa da revista lembra um pouco a própria loura, a senhora esposa de Guru, poder-se-ia dizer até que eram irmãs, ou primas. O Harold começa a falar sobre uns assuntos transcendentais com Guru. A loura altera o olhar da seguinte forma: espia a Playboy vintage e flerta comigo enquanto não espia a Playboy vintage. O Harold meio que percebe tudo, percebe que há qualquer namorico entre mim e a loura. Mas Guru come cornflakes, Guru não percebe nada. A loura então se levante e diz que vai dar um passeio. Eu preciso de ficar sentadinho a ouvir o papo trance de Guru e Harold. Guru começa a falar que recentemente perseguira um homem de uns quarenta anos que invadira a quinta dele para mijar numa das árvores (apenas confirmando as minhas observações iniciais de que me parecem excelentes árvores para descarregar-se), Guru teria então perseguido o homem, Guru segurando uma espécie de machadinha, Guru tresloucado, forçando o homem a deitar-se na relva e, ainda segundo Guru, quase matando o invasor com a machadinha. Harold tem o rosto perplexo, de quem abrira a porta da casa de banho errada, pergunta os porquês de tanta animosidade ao que Guru apenas responde na terceira pessoa do singular: Guru está estressado, acrescentando logo a seguir (ainda na terceira pessoa do singular) que hoje é aniversário de Guru, mas que, infelizmente, o clima não está para festa.

— P. R. Cunha


Os leitores de Europa que porventura queiram adquirir Paraquedas – um ensaio filosófico já podem fazê-lo através do sítio web da UA Editora. Ou, se estiverem a visitar os canais aveirenses, podem também ler a minha criatura nas confortáveis cadeiras da Biblioteca da Universidade de Aveiro. À guisa de celebração, compus este tema musical com inclinações marítimas. Portanto, adeus!

O blogue «Ludo e Vico» está a falar do meu paraquedas

Quando fui receber o Prémio Aldónio Gomes à Universidade de Aveiro e depois entregaram-me um par de caixas pesadas com exemplares de Paraquedas – um ensaio filosófico comentei com mamã que aqueles livrinhos não me seriam fonte de renda, mas um meio para alcançar novos leitores. Não me importo de vender três ou trezentas unidades, disse eu à mamã, trata-se de uma empreitada qualitativa. E, felizmente, posso dizer-vos que aos poucos o meu objetivo tem se concretizado. Hoje de manhã, o blogue Ludo e Vico – livros, passeios, e brincadeiras de bolso também publicou a respeito da minha criatura. É deveras gratificante saber que este paraquedas abre-se em casa de gentes tão admiráveis.

— P. R. Cunha


Paraquedas em si mesmo
Mãe do Ludo e do Vico

Cair em si é uma expressão idiomática que significa tomar consciência.

Existem membros respeitados da sociedade que não têm consciência da sua ignorância; parentes que se julgam bons ao criticar em vez de amar; pessoas que vivem para impressionar e não se impressionam com os outros…

Há dois dias encontrei na caixa do correio o livro que encomendei: Paraquedas – um ensaio filosófico do escritor P. R.Cunha, com delicada dedicatória e uma história surpreendente.

Comprei o livro porque adoro os posts do autor, mas não sabia o que esperar até começar a leitura.

Em alguns momentos pensei no personagem esquizofrênico da série Maniac, desagregado de uma família artificial e cruel.

O personagem de Paraquedas – um ensaio filosófico não é esquizofrênico, mas a família o trata como se fosse o louco inconveniente.

Ele foge dessa dolorosa realidade para a realidade de outros livros, de outros personagens, de outros escritores, de outras formas de arte, enquanto constrói a própria história, com coragem para seguir seus instintos e amor pela fazenda literária.

Em outros momentos, eu parei a leitura para compartilhar com meu marido, que se viu em certas agruras do personagem, assim como compartilho a indicação do livro do P. R. Cunha a quem ainda não conhece esse talentoso e premiado escritor.

Boa Semana e Boas Leituras!

Período de gestação (é hora de diminuir a temperatura do forno, o bolo literário [pelos vistos] formou-se)

Ambíguas sensações invadem-me nesta altura em que posso, finalmente, pronunciar a frase que costuma inquietar 200 em cada dez escritores: terminei de escrever o livro.

Se por um lado o alívio e as inúmeras possibilidades deixam-me extasiado (e [para ser sincero] muito orgulhoso/vaidoso)… fica também um vazio difícil de preencher — como quando temos que dizer adeus a quem amamos imenso, ou, mais especificamente, aquilo que os pais devem sentir ao olhar nos olhos dos filhos que irão estudar algures por tempo indeterminado (talvez para sempre).

A senhora Madison reclamava com toda a gente sobre o facto de não suportar mais os caprichos do senhor Madison, que o velho e rabugento Madison causava-lhe uma ojeriza incontornável. Porém, quando o senhor Madison morreu, a senhora Madison caíra numa profunda depressão, chorava de saudades todas as noites antes de dormir, ao virar-se para o lado da cama em que o senhor Madison deveria estar.

De uma forma grotesca, insensível, metaforicamente preguiçosa: o escritor é bem a senhora Madison, e o livro que ele escreve é o senhor Madison.

Tarefa absurda, que numa altura parece nos consumir (ah!, o doce ardil da terceira pessoa do plural), que nos coloca diante de neuroses, tira o nosso sono, mas insistimos, e lá estamos novamente debruçados sobre o caderninho, ou sobre o teclado do computador, a escrever o nosso maldito/bendito livrinho.

Num rito de passagem que já se tornou hábito, compartilho convosco o que esta segunda batalha literária ensinou-me, ou simplesmente os desafios que ela veio a reforçar ainda mais. Eis:

• Seu livro nunca será escrito se você fugir dele;

• Não seja cobarde, assuma as responsabilidades da empreitada livresca (dedicação, disciplina, comprometimentos, sacrifícios etc.) de boa-vontade. Cada dia é uma incógnita, uma luta contra as mazelas da preguiça e da insegurança (a obra é boa?, estou a perder o meu tempo com este troço?, alguém além de mamã vai ler isto aqui?, e assim por diante…);

• Trabalhar sem amaldiçoar excessivamente a literatura é vital para a continuidade do livro;

• Os livros que mais valem a pena (penso por alto: Moby Dick [Melville]; Ulysses [James Joyce]; Extinção [Bernhard]; Os anéis de Saturno [Sebald]; A piada infinita [DFW]; Os ensaios [Montaigne]; A vida e opiniões de Tristram Shandy [Sterne]) são também os livros mais difíceis de escrever, obras trabalhosas que precisam de tempo. Portanto, tenha paciência;

• Lembre-se de que as diversas espécies de pessoas escritoras que habitam este planeta também estão à procura de editoras, também querem ganhar os prêmios literários, também querem ser lidas. A melhor arma contra o desânimo editorial é ser um bocado persistente;

• Comece a escrever o livro hoje. Agora. Se calhar, pare de ler imediatamente este texto disparatado e vá (ou melhor, corra!) até à escrivaninha; escreva!;

• Pare de viver em um mundo de sonhos, romantizações, fantasias, deslumbramentos. Não sei se ficou claro: mas o seu livro não se escreverá sozinho. Enquanto você fica por aí gabando-se, a dizer que é um escritor talentoso e promissor, enquanto você ilude a si mesmo, o livro encontra-se hibernado e inutilizado. Fale menos (de preferência, não fale nada), escreva mais;

• Estabeleça para si um cronograma saudável e realista. Trabalho, leituras, pesquisas apropriadas, atividade física, alimente as necessidades do seu coração (isto é: não negligencie cônjuges, familiares, amigos);

• Em excesso, você se torna «bêbado» pela literatura — acúmulo de substâncias fatigantes. Com um adequado descanso as toxinas são eliminadas, tornando-o (kudos!) sóbrio outra vez;

• A procrastinação já derrotou muitos escritores magníficos, escritores que acreditaram ingenuamente que a Providência (chame-a como preferir) estaria à disposição a tempo inteiro, bastaria uma tarde soalheira, quando desse na telha do escritor, para simplesmente escrever o maior romance de todos os tempos. É chato dizê-lo, mas, a despeito dos mitos que enaltecem escritores iluminados, isto nunca acontece. Não seja um dependente de astros, cartomantes, alienígenas, horóscopo chinês, ferraduras da sorte, figas, amuletos egípcios ou coisas desta natureza mística. Não deixe para depois o que você pode escrever imediatamente;

• Um certo sentimento de urgência, quando bem dosado, pode fazer maravilhas;

• Afinal, a vida é curta — curtíssima.

— P. R. Cunha

Lentes de contato: Niterói ontem e amanhã

1.

Há um ano anotei neste blogue que Niterói nunca seria a minha cidade. Niterói é-e-sempre-será o sítio dos meus pais. Trata-se, no entanto, da localização geográfica em que mais permaneci depois de Brasília — o meu berço de cimento. Niterói é aquela prima com quem passamos tempo de mais ao ponto de quase podermos chamá-la de irmã. 

Nos últimos outonos, venho até aqui para ajudar/cuidar/resolver miudezas diversas da minha avó Eva, mãe de papai. Mas nunca saio de Niterói com as mãos abanando, como se diz. Meu primeiro livro a solo, Paraquedas – um ensaio filosófico, nasceu durante minhas incontáveis perambulagens niteroienses*, encorpou-se na Rua Mariz e Barros, a primeira parte fôra praticamente toda escrita no «Icaraí Café», que é onde estou sentado agora, a escrever estas linhas descompromissadas.

Trata-se de um café absurdo, café dentro de shopping mall, mas — por algum motivo que foge das minhas capacidades interpretativas — este lugarejo traz-me as inspirações mais interessantes de sempre. Alguns dirão que é o excesso de cafeína, o açúcar. Não é (só) isso. É outra coisa. Talvez um sentimento nostálgico, e bobo, e romantizado, uma ilusão, expectativa de que aqueles bons tempos da meninice possam de alguma forma retornar. Ou aquela impressão de desconectividade que por vezes sentimos quando assistimos aos filmes do David Lynch. Uma experiência metafísica (não à Kardec, mas à Borges & Bioy), como se aqui eu conseguisse finalmente escutar os sussurros fantasmagóricos dos meus antepassados.

É por isto que volto constantemente a este café: porque se não me sento aqui para ler, rabiscar as minhas anotações e ter os delírios da praxe, é como se minha visita a Niterói nunca tivesse acontecido.

2.

Caminhar de facto em Niterói: o andarilho se depara com uma cidade acolhedora, simpática, moradores sorridentes e prestativos, pessoas que se cumprimentam enquanto passeiam nenhures sobre a calçada com pedrinhas portuguesas.

Ler/ouvir/ver notícias a respeito de Niterói: um pode se perguntar se não errara de endereço — é aqui a Terceira Guerra Mundial? Não lhe apetece sair de casa e levar um tiro de bazuca no coração.

O retrato de Niterói a variar de acordo com a lente que o sujeito escolher.

As notícias podem por vezes deixar mudo o receptor, paralisá-lo — mas há tempos que os noticiários não retratam realidade alguma (vide interesses políticos e comerciais, publicidade grotesca, egotismos diversos, sensacionalismos etc. etc. etc.).

Sair e ver com os próprios olhos — um adágio atual, necessário. Noutros termos: não enxergar o mundo através das lentes dos outros.

— P. R. Cunha


*Sempre com o Lippolis (Viagem aos confins da cidade) dentro da sacola com a silhueta do MAC de Niterói estampada.

Paraquedas canadiano

Esta breve nota — à laia de introdução — pretende falar apenas o absolutamente necessário.

Creio que quem se mete a escrever literaturas possui dentro de si um honesto impulso para comunicar. O desafio, portanto, é construir obra coerente que consiga transmitir de alguma(s) forma(s) o que se passa dentro da maquinaria escritora. 

Projetar o livro, levar por diante o livro, concluir o livro e talvez receber respostas de leitores atenciosos. Eis do que se trata.

Quando li (e reli, e reli…) a resenha do Emanuel Melo a respeito do meu Paraquedas, senti aquela reconfortante certeza de que minhas entranhas não foram expostas à toa. As inquietações que compartilhei chegaram a um destinatário disposto a recebê-las, ou melhor, a absorvê-las, a digeri-las. E este diálogo distante, um bocadinho onírico, tipo message in a bottle, constitui, no meu simples modo de ver, a maior distinção para uma obra literária.

Compartilho na íntegra o texto do Emanuel (in English); e se quiseres apreciar com serenidade os mais singelos apontamentos canadianos de um Torontonian Azorean writer, podes acessar o electro-sítio: thetorzorean.com

— P. R. Cunha   


Paraquedas/Parachute
By Emanuel Melo

Paulo Renato Souza Cunha is a young Brazilian writer, poet, photographer, and musician: a truly modern Renaissance man. He was the winner of the VII Prémio Aldónio Gomes  for his book, Paraquedas – um ensaio filosófico, published in December, 2018, by UA Editora/Universidade de Aveiro. He made the trip from Brazil to Portugal where he joyfully received his literary prize and shared his travelling adventures with the dedicated followers of his blog.

I waited eagerly for a copy of the book, a generous gift from the writer who I have befriended over the last year. When it arrived, on one of the coldest spring days in Toronto, all the way from the warm climate of Brazil, I decided to wait until our own weather improved so that I could sit in my garden to read the book while the warmth of the sun covered my skin. I waited as long as I could but, alas, at the end of April we were still wearing winter coats to keep the chill away. It was impossible to sit in my garden for more than a few minutes before hyperthermia set in! I finally gave up on the weather as a prop to my enjoyment of reading and, holding Paraquedas in my hands, my fingers turned the pages with a caress of admiration for its aesthetically bound softcover, eye-catching typesetting and layout, and simple clear lines, so full of understated elegance. Sitting cozily on my sofa by the warmth of the radiator heat, I entered the world of P. R. Cunha’s writing.

I wish this book was available in English so that those who don’t read in Portuguese could discover and appreciate Parachute – a Philosophical Essay (my translation). “There are no correct tones for an essay beyond those of enthusiasm and sincerity,” wrote John Moss in his Introduction Essay in The Canadian Novel: Here and Now – A critical Anthology, 1978 (p. 12/13). And he could have been writing about P.R. Cunha, whose writing is, indeed, full of enthusiasm and, more importantly, sincerity. His essay is divided into four parts and may be read as part memoir, part philosophical musings, but the reader is never really sure how much of what we are told is about the protagonist writer in the essay, who after ten years of grappling with writing a novel, decides to run away (for a very short time) to England before Brazilian literature drove him to madness (p. 9), or the author himself. Is it pure biography or a reinvented biography-cum-fiction? It’s up to the reader to decide.

But I do know that the author of Parachute, like his first-person narrator, shares the same love and fascination for the writers J. G. Ballard, W. G. Sebald, Montaigne, Thomas Bernhard, Sterne, among others. The love for these authors was instilled in the narrator-protagonist by his tia Laura, and we wonder if this is P.R. Cunha’s aunt, too, or simply that of his alter-ego, the writer-protagonist who discusses literature and life, while revealing unflattering facts about his mother, his father, his brother and his sister. The description of his father’s death and his siblings’ greed at spending their 24% each inheritance, while our protagonist-writer is left with only a mere 2%, reveals a family dysfunction that made me cringe. It is tia Laura who has mentored and financed the writer’s adventures and travels, thereby exposing him to the arts, including music; an assistance which allowed him to pursue his intellectual interests.

The book can be read as a tribute to the aunt who dies towards the end of the narrative; and the protagonist wishes that someday, someone in the future may take his dusty book off a shelf to read it and, by doing so, afford his tia Laura a fleeting reward in eternity (p. 168); but the book can also be seen as the inner journey of someone trying to make sense of his life through literature and his own literary pursuits; questioning in every page what is real and what is fiction.

P. R. Cunha is a master weaver of the long, meandering sentence, common in Portuguese writing but not unknown in the English world of literature. It’s a style that appeals to the lyrical writer, regardless of nationality. But not everyone who writes can carry a long sentence without losing their breath along the way. With the long sentence, we can only rely on the helpful use of the comma in order to pause before reading on. Cunha’s narrative starts in one place but by the end he has taken the reader to another world; and yet, managing to brilliantly unite each idea and meandering thought, making it all fit and make sense like a carefully thought-out chess move, a game that both P. R. Cunha and the protagonist of Paraquedas share with passion. I enjoyed this book precisely for this reason; savouring the elegant writing on ideas, philosophically connected to the personal.

The essay questions, in a broader sense, the meaning of the self, and the relationship between literature and everyday life, by referencing philosophy as a guide to the art of living. A parachute is used to allow someone to come down from the sky in a slow, safe way to reach the ground unscathed, and I wonder if P. R. Cunha chose this word for the title of his book as a metaphor for the self’s movement from the internal “sky” world within us, as it floats down from the abstract air, towards the concreteness of the world landed upon.

What Paulo Renato Souza Cunha’s imaginative and complex mind is trying to offer through his meditations, observations, reflections, is perhaps an invitation to his readers to be in touch with their deeper thinking selves.

It is now mid-May and the weather teases the promise of real spring days ahead, when I will finally be able to sit out in my garden again to satisfy my pleasure in reading surrounded by trees, plants and flowers. And I will then take delight in rereading Paraquedas.