António furioso

Às vezes acontece de eu acordar no meio da noite sem motivo aparente — abro os olhos, tento mexer os pés, não se movem, tento mexer as mãos, nada, a cabeça pesa trezentos quilos, o corpo imutável afunda nos vales do colchão, lembra um cadáver. Começo a suar, estou morrendo, acabou. Quando enfim me recupero dessa angústia terrível, ligo para o António e ele atende furioso: quem é? Sou eu, eu digo. Vai se foder, ele diz, são três horas da manhã. Tive aquele negócio de novo, eu tento me explicar, mas o António desliga. O Antônio desliga e provavelmente comenta com a esposa que não era nada, daí ele abraça a esposa e os dois voltam a dormir. Fácil. Mas eu não durmo, fico apavorado, vou até o computador que está em cima da escrivaninha e procuro no Google: acordar + não conseguir se mover + doença e a busca gera aproximadamente trezentos mil resultados sobre «paralisia do sono».

— P. R. Cunha