O camelo do papá

De volta à literatura, que, no fim de contas, é a única praia em que me sinto plenamente à vontade. Sobre um camelo que não armazenava ressentimento contra os seres humanos.


O pequeno Misha observa com olhinhos curiosos o papá montado na corcova do camelo. O papá se aproxima e o animal parece querer abraçar o Misha com o focinho. A corcova do camelo tem um formato engraçado, como se algum arquiteto distraído tivesse esquecido ali a maquete inacabada do Pão de Açúcar. Gostava de saber o que o camelo guarda na corcova, disse o Misha. Gordura, respondeu o papá, o camelo guarda gordura na corcova, reserva de energia, esse tipo de coisa. Misha agora está a pensar que não deve ser fácil, a vida do camelo — principalmente no verão.

— P. R. Cunha

Águas do rio

Em maio de dois mil e dezesseis, depois de um período particularmente confuso, parti para Niterói a ver se conseguia recolher alguns documentos sobre a infância do meu pai. Passei toda a viagem com a poltrona inclinada a olhar para o botão de chamar a aeromoça, com vontade de pressioná-lo, mas sem de fato fazê-lo. O plano inicial era ficar quatro dias no apartamento da minha avó e talvez sair com ela para caminharmos pelas ruas em que papai costumava brincar em menino. Mas que vovó já estivesse a me esperar à portaria do edifício com uma vestimenta, de pronto notei, completamente adequada para uma longa caminhada foi algo que me pegou de surpresa — de modo que só tive tempo de sair do táxi amarelo e deixar minha mochila aos cuidados do porteiro. Durante alguns minutos caminhamos em silêncio e de vez em quando vovó permitia-se uma careta quando passávamos por algum dos canais terrivelmente fedorentos que cortam o bairro de Icaraí e que em tempos melhores, dizem, brilhavam com o azul do céu. Hoje está tudo mudado, minha avó disse, tudo mudado. Antigamente, ela continuou, era uma cidade bonita, sabe, de cuja beleza a memória aos poucos se esquece. Paramos em frente a uma casa abandonada e vovó apontou para uma janela de madeira no segundo andar: quarto do seu pai. Sempre senti uma espécie de inquietação quando diante de uma estrutura arruinada, pensei. Como se o declínio arquitetônico me perturbasse da mesma maneira que os acidentes automobilísticos, o desemprego, a perda de tudo, do conforto, da dignidade, porque receio poder vir a ter um final parecido. Seu pai tinha muitos amigos, disse a minha avó, de início queremos lá ter muitos amigos, estar rodeados de amigos, mas isso mudo à medida que envelhecemos, pois começamos a perceber que quanto mais amigos nós temos, mais ao cemitério precisamos ir. E a cada ano, ela continua, a cada ano é um monte de gente que morre. Nós cá ficamos, e para quem fica é sempre pior. Um pouco mais adiante, sentamos num banco de cimento a partir do qual podia-se ver a praia de Icaraí, com o Pão de Açúcar a ilustrar o horizonte acinzentado. A cidade, o mar, as pessoas, todos viram costas à desgraça de uma mãe que perdera o filho, vovó disse. Seguiu-se uma breve pausa até que ela de súbito me perguntou: já leu Adalbert Stifter? Respondi que nunca havia lido nada de Stifter, apenas um ensaio sobre Stifter escrito pelo Sebald. Vovó então fitou um ponto de fuga invisível: curioso destino, este de as pessoas que têm de aprender a conhecer-se e reconhecer-se, a compreender-se e a estimar-se para a seguir e para todo o sempre — se separarem. É Jenny Lind, ela disse.

— P. R. Cunha