devaneios da própria máquina de escrever (episódio #24)

[ontem, meu pai completaria sessenta & seis anos anos. dedico estas palavras rabugentas a ele, que sempre me incentivou a buscar refúgio nos livros.]

não é tanto uma questão de inteligência, mas sim de experiência. quero dizer: continuidade. antes de mais nada, mostra-se necessário livrar-se das distrações, dos supérfluos. dedicar-se àquilo que realmente importa. (i.e.): o marceneiro reclama que não tem tempo para terminar as mesas que foram encomendadas; o marceneiro passa cerca de oito horas por dia assistindo à televisão; a televisão, percebe-se, é o supérfluo do marceneiro. oito horas desperdiçadas numa atividade passiva, morosa, unidirecional. não à toa as pessoas que passam muito tempo assistindo à televisão costumam reclamar de «um certo vazio». o cérebro distrai-se com aquelas imagens sedutoras, cria-se um falso vestígio de troca, de convivência (barra) conveniência (barra) pertencimento. até que se aperta o botão «off», surge o silêncio, a ressaca — o que estou a fazer da minha vida?, &tc. o certo vazio nada mais é do que isto, o atestado de óbito do tempo, a constatação de tudo o que poderia ter sido feito durante aquelas oito horas em que a pessoa passara esparramada diante da tv como se, sei lá, meio-morta-meio-viva. de forma que a frase «fui/estou a ser enganado» é quase inevitável.

— p. r. cunha