devaneios da própria máquina de escrever (episódio #20)

I. era uma vez uma família.
II. essa família morava numa selva, mas não numa selva qualquer.
III. a selva tinha muitos animais, bípedes.
IV. as árvores eram feitas de pedra, de tijolo, de aço, de vidro.
V. a selva em questão, você já deve ter adivinhado, é uma cidade.
VI. na cidade as pessoas tendem a deixar as outras pessoas em paz.
VII. mesmo que essas pessoas se conheçam.
VIII. deixam as outras pessoas em paz & esperam que elas também sejam deixadas em paz.
IX. então, era uma vez esta família.
X. pai, mãe, dois filhos.
XI. os pais quase se separaram no ano passado.
XII. os pais às vezes não se separam porque pensam nos filhos.
XIII. um dos filhos é inteligente.
XIV. o outro filho, bem, o outro filho não é assim tão inteligente.
XV. os pais sabem direitinho que um filho é inteligente e que o outro filho não é assim tão inteligente.
XVI. desde cedo os filhos são preparados para exercerem atividades de acordo com a própria capacidade intelectual.
XVII. por algum motivo, o filho menos inteligente parece mais feliz do que o filho mais inteligente.
XVIII. por dentro ou por fora, é sempre outro jazz.
XIX. apesar dos comentários, nenhum dos dois filhos está a passar por conflitos psicológicos nem nada.
XX. vivem a vida de filhos enquanto os pais vivem a vida de pais.
XXI. nenhum dos dois — nem o filho inteligente, nem o filho menos inteligente — terá neuroses por conta das brigas dos pais.
XXII. a tentativa de suicídio da mãe depois que o pai ameaçou: vou-me embora, quero o divórcio, não deixará marcas no caráter dos filhos.
XXIII. o pai agora costuma voltar do trabalho com odores alcoólicos.
XXIV. a mãe tentou atrair a atenção de um amigo do pai, como forma de vingança.
XXV. o pai jamais suspeitara.
XXVI. um dos filhos, não se sabe qual, já vira o pai com a amiga da mãe, mas pode ser coisa da cabeça dele.
XXVII. esse tipo de situação, sabemos, ocorre em qualquer família moderna.
XXVIII. certo dia pai-&-mãe precisaram de algo muito pesado.
XXIX. & como era feriado, decidiram escolher um dos filhos para sair & buscar a coisa pesada.
XXX. não queriam estragar as mãos do filho inteligente, de forma que escolheram o filho menos inteligente para ir buscar a coisa pesada.
XXXI. disseram: filho, vai buscar a coisa pesada lá fora na selva.
XXXII. o filho menos inteligente saiu para a selva, foi buscar a coisa pesada.
XXXIII. quando estava no bosque, ou seja, nas ruas, o filho menos inteligente pensou com os próprios botões:
XXXIV. que diabos!, como vou saber onde fica a coisa pesada?
XXXV. os pais não deram nenhum endereço.
XXXVI. o filho menos inteligente decidira então caminhar a esmo.
XXXVII. as pessoas da selva fitavam o filho menos inteligente & diziam coisas que as pessoas da selva costumam dizer:
XXXVIII. idiota, olha por onde anda, imbecil, babaca, escroto.
XXXIX. o filho menos inteligente respondia que tinha uma tarefa importante a cumprir, que precisava de buscar algo muito pesado para os pais.
XL. os pais começaram a olhar para o relógio.
XLI. havia muita fumaça lá fora na selva.
XLII. o filho menos inteligente tossia & tossia & ainda não fazia a ideia de onde estava a coisa pesada.
XLIII. as pessoas na selva se metem em toda a sorte de dificuldades.
XLIV. um velho apareceu e disse: eu sei onde está a coisa pesada que você tanto procura.
XLV. o filho menos inteligente ficou esperando a resposta do velho.
XLVI. o velho parecia um pouco atabalhoado, não batia bem da cabeça.
XLVII. vai por ali, o velho apontou aleatoriamente.
XLVIII. o filho menos inteligente agradecera & foi por ali.
XLIX. quando chegou ali percebeu que não havia nada, nenhuma coisa pesada.
L. por vezes chegamos ali & não há nada, nem coisa leve, nem coisa pesada.
LI. o contato com o vazio é perturbador.
LII. o filho menos inteligente por ser menos inteligente não conseguia perceber nada da situação.
LIII. os pais estavam muito aborrecidos com aquela demora toda.
LIV. o filho menos inteligente parecia perdido.
LV. começava a escurecer.
LVI. as árvores de pedra da selva oferecem um aspecto frio, taciturno.
LVII. o filho menos inteligente pensa seriamente em desistir.
LVIII. até que de facto desiste.
LIX. voltou para casa.
LX. abriu a porta, era de madrugada, ninguém o esperava, todos dormiam.
LXI. no dia seguinte, durante o pequeno-almoço, os pais disseram:
LXII. deveríamos ter enviado o filho inteligente para buscar a nossa coisa pesada, enviamos o filho menos inteligente, estamos arrependidos, mas agora não há nada a fazer.
LXIII. o filho menos inteligente segurou a faca com firmeza, apontou-a na direção do pai.
LXIV. & com palavras muito sofisticadas, parecia até um príncipe, pediu para que o pai lhe passasse a geleia de damasco.

— p. r. cunha

Em Brasília pode-se ficar morto por muito tempo — parte I

O tema é perigoso, não lhe posso dizer nada com precisão. Aconselho-o somente trancar a coisa num baú, mantê-la ali dentro por um ano e depois reler. Daí verá com mais clareza. 

Anton Tchékhov


Em meados de maio de 2017, depois de uma noite muito agitada, acordei com aquela estranha sensação de vertigem que às vezes me assalta quando acredito ser observado por alguém escondido atrás da porta. Essa impressão fantasmagórica tenho-na desde pequeno. Ao que parece, reminiscência de caçadores ancestrais, sempre atentos aos perigos da floresta e que precisavam de responder às exigências de uma realidade dominada pela fuga. Característica que, em situações de crise, poderia levar à estabilização dos pensamentos dos meus semelhantes primitivos responsáveis pela vigília noturna da tribo, mas herança genética pouco necessária ao indivíduo contemporâneo que apenas almeja algumas horas de sono sem angústia.

Um amigo que largara os estudos de literatura de língua alemã — justamente na época em que comecei a escrever minhas análises sobre as obras de W. G. Sebald e Robert Walser — para cuidar da quinta de animais que pertencera ao avô Dănuț, nome romeno que sempre me intrigou muitíssimo, disse-me certa vez que essas perturbações poderiam ser reflexos de abandonos na minha infância. Acontece que os meus pais escolheram a medicina e, como se sabe, o médico está sempre fora. Pobre criatura que se apercebe desamparada, disse esse amigo, e passa então a criar substitutos espectrais para suprir a ausência daqueles que, supõem-se, deveriam estar por ali cuidando do produto de suas obras, mas vestem o jaleco branco e partem algures para tratar de outras gentes. Esses «doppelgängers» oníricos comportar-se-iam tal e qual o papá e a mamã, meu amigo explicou-me enquanto limpava uma mancha de terra no braço esquerdo, mas nessas aparições estariam em trajes civis, como que idealizados pela cabeça da criança, de acordo com aquilo que ela gostaria que fosse, mas nunca é. Acrescentara ainda, o meu amigo, à guisa de alerta, que sentir-se perseguido por sombras escondidas atrás da porta geralmente é sinal de um mau presságio. 

Foi, portanto, com essa sensação vertiginosa que despertei depois da supracitada noite de maio e dei comigo que nos quase oito anos de morte do meu pai nunca voltei ao cemitério a prestar, como se diz, minhas homenagens. Oito anos e era como se eu ainda o esperasse chegar de longe, de algum plantão na clínica, ele ficaria um pouco, talvez jantasse, e então sairia para outra jornada misteriosa a respeito da qual jamais daria grandes detalhes. Quando meu pai se afastava, telefonava a cada três horas para saber «como estavam as coisas», mas as ligações raramente duravam mais do que um minuto. De aí, quando ele voltava para casa, exausto, parecia uma falésia insuperável. A previsibilidade desse pêndulo fez com que eu me acostumasse com as distâncias (ausências) e aprendesse a lidar com elas. Compreendia que meu pai se esforçava para estar presente, ser família, e compreendia também que ele nunca daria conta dessas tarefas. 

Ainda de pijamas, sento-me à mesa da cozinha e fecho os olhos enquanto tomo o pequeno-almoço. Negrume. Lá está meu pai deitado no caixão, usa um fato muito parecido com o que vestiu no próprio casamento, não se move, e a mim isso não importa, porque papai volta, depois de alguns meses, mas volta. Pergunto se afinal ele não terá escutado tudo o que se falou no velório, as mentiras, as condolências vazias, os votos daqueles que o abandonaram. Pergunto se papai só parece, mas não está morto. Nós nos habituamos a determinadas rotinas, determinadas condições, certezas que nunca são certezas, e quando tudo isso se rompe demoramos a nos adaptar aos novos termos, às perdas — sentimos ainda incômodos no membro-fantasma, como um soldado mutilado no campo de batalha.

Saí, então, do meu apartamento em meados de maio do ano passado por volta das 9h da manhã carregado de uma branda melancolia e com vontade de conversar com o túmulo do meu pai. Soprava um vento forte, o céu coberto de nuvens espessas, mas quando cheguei ao cemitério o tempo estava formidável.

No extremo sul do segmentado projeto arquitetônico de Brasília, como se escondido de propósito, está o cemitério Campo da Esperança. Meu pai foi enterrado ali. Estacionei meu automóvel enquanto alimentava ingênua expectativa de que teria uns momentos completamente solitários com a memória paterna, esquecendo-me de que as pessoas morrem todos os dias, ao passo que Campo da Esperança não está vazio, mas repleto de transeuntes com vestuários escuros, familiares e amigos que choram a morte de alguém que «se foi cedo demais», outros senhores errantes que perambulam em busca da, e aqui conjecturo, sepultura da mulher amada. 

Caminho até à recepção do cemitério e pergunto pelo endereço do jazigo do meu pai. A moça ao computador, que com toda a certeza notara minha inexperiência com esse tipo de arranjo, pediu-me data de falecimento e nome completo do falecido. Ela então pegou um pedaço de papel com o mapa do cemitério e circulou com caneta esferográfica o local exato em que papai fora enterrado. Depois, por curiosidade, eu quis saber também do lote do meu avô materno, e disse logo dia/mês/ano, nome completo dele, antecipando-me, portanto, aos questionamentos ensaiados da recepcionista, que já entreabria a boca para repetir as mesmas perguntas da praxe. Acreditei que com essa atitude, nada ousada, hoje compreendo com clareza, acreditei que pudesse fazer melhor figura, que assim eu me passasse por sujeito que entende de cemitérios, que sabe do que fala quando se trata de visitar os mortos, e a recepcionista me enxergaria com outros olhos, de repente até se repreenderia por ter me julgado um novato, um desconhecedor mórbido. A recepcionista diria para consigo: finalmente alguém que entende de cemitérios. Mas, posso falar isto sem culpa, as coisas não ocorrem como imaginamos. Ela manteve a mesma fisionomia desinteressada de antes e, como se fosse uma vendedora de supermercado que explica ao cliente a falta de determinado produto, disse que: seu pai morreu em 2010, então temos os dados dele no nosso sistema, mas seu avô morreu em 2002, já dele não temos nada, e teria, ela continuou, teria que dar uma olhadinha nos arquivos de papel que estão guardados naquela sala, ela então apontou para a sala. Como fiquei parado a esperar que ela se levantasse e fizesse o próprio trabalho — ou seja, abrir a sala, procurar o endereço do túmulo do meu avô, entregar-me o endereço — ela acrescentara ainda que a sala estava trancada há muito e ninguém sabia ao certo onde estava a chave.

Procura da mulher amada

A verdade é que entregamos a memória de toda a gente aos computadores; agora também os mortos devem desaparecer se não se adaptarem aos sistemas binários. No caso de pane geral na rede algorítmica, quem se recordará de quem?, tais abordagens são de tremer. Os túmulos que ocupam, ou melhor, que abarrotam a superfície dos cemitérios de certa forma estão ali para um derradeiro lembrete aos ouvidos dos vivos antes da computadorização de tudo, parecem dizer que a última morte é aquela que acompanha o esquecimento do nome de quem já morreu, independentemente da natureza desse esquecimento, se analógico ou digital. Talvez seja por isso que muitos se mostrem tão inquietos quando se deparam com lápides abandonadas, a erva daninha passa a decretar que essas nomenclaturas de pedra já não servem mais, não têm propósito, e a pessoa sente o gosto amargo da completa finitude, quando nem mesmo o agrupamento de letras que outrora lhe chamava num som tão familiar é capaz de resgatá-la do anonimato irreversível. 

Quero dizer que a despeito das esperanças em contrário e das tentativas de digitalizar a morte todos caem na vala desse esquecimento, uns despencam depressa, outros se demoram um pouquinho mais porque deixaram marcas significativas na topografia da vida. O vazio chega, cedo ou tarde; nossa sepultura se deteriora, os dados não foram devidamente colocados nos computadores, já não trazem flores, já não choram mais em cima das nossas rochas. E por mera questão de conforto evita-se pensar nessas perversidades. Até que numa manhã de outono o sujeito tenta se lembrar do nome de um amigo que morrera há anos e não consegue, o amigo se tornara uma pequena mancha na memória, mancha que aos poucos se dilui, vira um borrão lacônico e finalmente se extingue — os sítios web nada podem contra isso. O sujeito tem assim certeza de que também ele, depois de morrer, será apenas uma mancha desfigurada na lembrança de outra pessoa, esvanecerá ao ponto de não ser mais reconhecível, como ocorre com as películas de filme antigo que apodrecem no porão de algum estúdio abandonado.

Campo da Esperança

Procuramos, assim, adiar o extermínio inevitável dos que já se foram, criamos tumbas na internet, nos iludimos, não queremos admitir que este projeto também fracassará, apenas seguimos em frente, sem rumo definido, registramos, guardamos, apresentamos, representamos, documentamos, até que nós também morremos e é como se nada tivesse acontecido: este é o ponto que estou tentando demonstrar.

— P. R. Cunha

New York, New York

Em 1996, papá nos levou para conhecer Nova Iorque. Era o mês do meu aniversário de onze anos e mamã comprou-me uma miniatura da Estátua da Liberdade enquanto visitávamos Long Island. A moça que nos vendera o suvenir dissera que a Estátua da Liberdade original tem noventa e três metros de altura, e pesa 225 toneladas; agora a miniatura que acabávamos de adquirir tem apenas vinte centímetros e pesa não mais que trinta gramas. Essa diferença de escalas fascinou-me imenso e passei a levar sempre comigo a Estátua da Liberdade. Numa altura da viagem papá contratou um guia chamado John, cujo objetivo era nos mostrar os principais sítios da metrópole que nunca dorme e acabei esquecendo o meu presente no autocarro da empresa de turismo. Assim que chegamos ao hotel telefonamos para o John a ver se alguém havia encontrado uma Estátua da Liberdade, com estas e aquelas características. John lamentara muitíssimo, dissera que não, mas que entraria em contato se achassem qualquer coisa. Duas semanas depois, quando estávamos a voltar para o Brasil, vi uma criança loira e serelepe no aeroporto John F. Kennedy a segurar uma Estátua da Liberdade miúda, cerca de vinte centímetros, relativamente leve. Era a minha Estátua da Liberdade, tenho quase a certeza disso.

— P. R. Cunha

Siri, o que é ser humano?

Em recente campanha publicitária da Amazon Echo — cujo sugestivo título é «Dad’s day» (dia do pai) — uma mãe caucasiana com cerca de trinta anos chamada Laura está a se despedir do próprio bebê, um gorduchinho pendurado no colo do papai a fazer coisas que os miúdos de comerciais costumam fazer. 

Laura tem uma pele excelente, os cabelos arrumados, mostra-se confiante, com pressa para algum compromisso a respeito do qual nunca saberemos. Ela dá um despretensioso bye-bye para o bebezinho. O papá, no entanto, tem os cabelos desgrenhados, claro início de calvície nas laterais da testa, está em mangas de camisa, sonolento, veste calça moletom surrada. A mamã pergunta para o papá se ele ficará bem, o papá responde com convicção duvidosa que sim. 

A câmera se afasta e temos uma breve porém reveladora amostra do apartamento da família: mesa ainda com as sobras do pequeno-almoço, os móveis coloridos, as almofadas com estampas discretas, as paredes de tijolo, o piso de madeira rústica, a luz da manhã com aquela modorrenta névoa das cidades do leste estadunidense — Nova York, Boston? Ao lado do sofá amarelo, sobre uma mesinha de canto, a verdadeira estrela da campanha: a assistente virtual Alexa, versão Echo. 

Echo tem aproximadamente vinte e quatro centímetros de altura, voz feminina, parece com aquelas caixinhas de som que os banhistas gostam de colocar perto da piscina a curtir os últimos sucessos com batidas (e letras) incompreensíveis. O papai, num temporário lapso de firmeza, pede para a Alexa aumentar a música When I wake, do Justin Hurwitz*. Alexa obedece prontamente. 

Pai e filho estão agora brincando na poltrona, tudo parece correr bem, dentro dos conformes. Mas aos poucos começamos a entender por que a mamã saiu alhures sem aparentar grandes preocupações. Alexa interrompe a música e alerta: aqui vai um lembrete, Laura diz que o anel dos dentinhos está guardado na geladeira. O pai faz cara de aluado. Ele se dirige então à geladeira, o bebê começa a chorar, papai entrega o anel dos dentinhos, o bebê morde o anel dos dentinhos, o bebê se acalma. 

De aí vemos o papai a tirar as roupas da máquina, a lavar a louça, limpar a mamadeira e outras miudezas afins, tudo porque Alexa está a lembrá-lo. O papai age de forma muito estranha, como se nunca tivesse estado sozinho com o próprio filho antes. O bebê, por sua vez, continua a fazer coisas de bebês em comerciais. Alexa lembra também que Laura havia agendado um encontro de jogos infantis às 15h.

Depois há uma série de cenas tragicómicas: está a chover a potes, pai desesperado a empurrar o carrinho do gorduchinho na calçada voltando para a casa, pai encharcado abre a porta do apartamento, senta-se com o bebê na poltrona, pai em choque com olhos vidrados que fitam um horizonte invisível, bebê dorme no colo do pai. Alexa apita e diz: aqui vai um lembrete, Laura te ama muito e tu estás a fazer um excelente trabalho. Pai abre um sorriso estúpido, de regojizo, de alívio, como se tivesse se safado de um crime imperfeito, como se dissesse para si: oh, Alexa, o que seria de mim sem o teu auxílio…

O comercial dura meros trinta segundos e é basicamente uma compilação de clichês e esteriótipos a respeito dos casais contemporâneos. Mas há algo ali muito mais complexo e perturbador: a dependência cada vez maior de serviços tipo Alexa, Siri e Google Assistant. 

Na campanha da Amazon Echo pelo menos ainda se pode observar a presença de um ser humano, o papá bobão que quase tem uma taquicardia depois de algumas horinhas sem o auxílio da Super-Mamã. Chegará o dia em que os pais deixarão os filhos sozinhos com essas babás robotizadas e quase ninguém achará isso um absurdo, ou mesmo um aglomerado de lugares-comuns sobre o matrimônio moderno.

Talvez seja um futuro de preguiças, de limitado pensamento intelectual, de inércias. Lá estão as máquinas a fazer tudo pela gente, a responder tudo pela gente, o pai e a mãe no sofá diante do próprio bebê, o bebê que escuta as instruções da Alexa. O pai e a mãe não se sentem explorados, nem culpados; sentem-se irrelevantes.

— P. R. Cunha


*Vide trilha sonora do filme Whiplash.