New York, New York

Em 1996, papá nos levou para conhecer Nova Iorque. Era o mês do meu aniversário de onze anos e mamã comprou-me uma miniatura da Estátua da Liberdade enquanto visitávamos Long Island. A moça que nos vendera o suvenir dissera que a Estátua da Liberdade original tem noventa e três metros de altura, e pesa 225 toneladas; agora a miniatura que acabávamos de adquirir tem apenas vinte centímetros e pesa não mais que trinta gramas. Essa diferença de escalas fascinou-me imenso e passei a levar sempre comigo a Estátua da Liberdade. Numa altura da viagem papá contratou um guia chamado John, cujo objetivo era nos mostrar os principais sítios da metrópole que nunca dorme e acabei esquecendo o meu presente no autocarro da empresa de turismo. Assim que chegamos ao hotel telefonamos para o John a ver se alguém havia encontrado uma Estátua da Liberdade, com estas e aquelas características. John lamentara muitíssimo, dissera que não, mas que entraria em contato se achassem qualquer coisa. Duas semanas depois, quando estávamos a voltar para o Brasil, vi uma criança loira e serelepe no aeroporto John F. Kennedy a segurar uma Estátua da Liberdade miúda, cerca de vinte centímetros, relativamente leve. Era a minha Estátua da Liberdade, tenho quase a certeza disso.

— P. R. Cunha

Siri, o que é ser humano?

Em recente campanha publicitária da Amazon Echo — cujo sugestivo título é «Dad’s day» (dia do pai) — uma mãe caucasiana com cerca de trinta anos chamada Laura está a se despedir do próprio bebê, um gorduchinho pendurado no colo do papai a fazer coisas que os miúdos de comerciais costumam fazer. 

Laura tem uma pele excelente, os cabelos arrumados, mostra-se confiante, com pressa para algum compromisso a respeito do qual nunca saberemos. Ela dá um despretensioso bye-bye para o bebezinho. O papá, no entanto, tem os cabelos desgrenhados, claro início de calvície nas laterais da testa, está em mangas de camisa, sonolento, veste calça moletom surrada. A mamã pergunta para o papá se ele ficará bem, o papá responde com convicção duvidosa que sim. 

A câmera se afasta e temos uma breve porém reveladora amostra do apartamento da família: mesa ainda com as sobras do pequeno-almoço, os móveis coloridos, as almofadas com estampas discretas, as paredes de tijolo, o piso de madeira rústica, a luz da manhã com aquela modorrenta névoa das cidades do leste estadunidense — Nova York, Boston? Ao lado do sofá amarelo, sobre uma mesinha de canto, a verdadeira estrela da campanha: a assistente virtual Alexa, versão Echo. 

Echo tem aproximadamente vinte e quatro centímetros de altura, voz feminina, parece com aquelas caixinhas de som que os banhistas gostam de colocar perto da piscina a curtir os últimos sucessos com batidas (e letras) incompreensíveis. O papai, num temporário lapso de firmeza, pede para a Alexa aumentar a música When I wake, do Justin Hurwitz*. Alexa obedece prontamente. 

Pai e filho estão agora brincando na poltrona, tudo parece correr bem, dentro dos conformes. Mas aos poucos começamos a entender por que a mamã saiu alhures sem aparentar grandes preocupações. Alexa interrompe a música e alerta: aqui vai um lembrete, Laura diz que o anel dos dentinhos está guardado na geladeira. O pai faz cara de aluado. Ele se dirige então à geladeira, o bebê começa a chorar, papai entrega o anel dos dentinhos, o bebê morde o anel dos dentinhos, o bebê se acalma. 

De aí vemos o papai a tirar as roupas da máquina, a lavar a louça, limpar a mamadeira e outras miudezas afins, tudo porque Alexa está a lembrá-lo. O papai age de forma muito estranha, como se nunca tivesse estado sozinho com o próprio filho antes. O bebê, por sua vez, continua a fazer coisas de bebês em comerciais. Alexa lembra também que Laura havia agendado um encontro de jogos infantis às 15h.

Depois há uma série de cenas tragicómicas: está a chover a potes, pai desesperado a empurrar o carrinho do gorduchinho na calçada voltando para a casa, pai encharcado abre a porta do apartamento, senta-se com o bebê na poltrona, pai em choque com olhos vidrados que fitam um horizonte invisível, bebê dorme no colo do pai. Alexa apita e diz: aqui vai um lembrete, Laura te ama muito e tu estás a fazer um excelente trabalho. Pai abre um sorriso estúpido, de regojizo, de alívio, como se tivesse se safado de um crime imperfeito, como se dissesse para si: oh, Alexa, o que seria de mim sem o teu auxílio…

O comercial dura meros trinta segundos e é basicamente uma compilação de clichês e esteriótipos a respeito dos casais contemporâneos. Mas há algo ali muito mais complexo e perturbador: a dependência cada vez maior de serviços tipo Alexa, Siri e Google Assistant. 

Na campanha da Amazon Echo pelo menos ainda se pode observar a presença de um ser humano, o papá bobão que quase tem uma taquicardia depois de algumas horinhas sem o auxílio da Super-Mamã. Chegará o dia em que os pais deixarão os filhos sozinhos com essas babás robotizadas e quase ninguém achará isso um absurdo, ou mesmo um aglomerado de lugares-comuns sobre o matrimônio moderno.

Talvez seja um futuro de preguiças, de limitado pensamento intelectual, de inércias. Lá estão as máquinas a fazer tudo pela gente, a responder tudo pela gente, o pai e a mãe no sofá diante do próprio bebê, o bebê que escuta as instruções da Alexa. O pai e a mãe não se sentem explorados, nem culpados; sentem-se irrelevantes.

— P. R. Cunha


*Vide trilha sonora do filme Whiplash.