O dia em que tomei haxixe — ou quando Clarence Seedorf (ainda) tentava encantar a desconfiada torcida do Botafogo de Futebol e Regatas

Em abril de 2013 fui com um amigo assistir Botafogo e Sobradinho no estádio Bezerrão, Gama — a aproximadamente 30 km de Brasília. A ideia era ver o Seedorf jogar com a camisa alvinegra, mas numa altura a partida estava tão enfadonha que o meu amigo perguntou de forma descompromissada, como quem pede jujuba na farmácia: já escreveu sob efeito de entorpecentes?

Apesar de ter experimentado muitas coisas, digamos, ilícitas confesso que o ofício criativo me é mais proveitoso quando sóbrio. Vejamos… Uma ou outra canção depois de um cigarrinho de maconha e eis basicamente a minha experiência psicodélica no «fazer artístico». 

Sim, sou aquilo a que costumam chamar de careta.

Tenta escrever alguma coisa com haxixe, sugeriu o amigo enquanto o Seedorf errava um lançamento que, como diria um antigo, até a minha avó acertaria.

Dois dias depois do jogo (zero a zero) consegui o haxixe — cuja fonte, obviamente, não pretendo revelar —, tomei a erva e sentei-me para escrever. O relato, que ficara deitado para a gaveta de meias nesses últimos cinco anos, decidiu, enfim, se levantar.


Brasília, 19 de abril de 2013: haxixe

Tomei haxixe às dez da manhã, depois do pequeno-almoço. Estou agora sentado numa rede perto da piscina. O céu azul machuca os meus olhos, ao que preciso tapá-los com as mãos de tempo em tempo. Vejo aquelas sujeirinhas estranhas à moda minhoca navegarem no meu globo ocular. Nunca tomei haxixe. Tenho ao meu lado um bloquinho de notas para escrever a respeito desta experiência. Tudo o que sei sobre os efeitos desse entorpecente li nos livros dos senhores Walter Benjamin & Charles Baudelaire. Vaga sensação de premonição, angústia — ainda não sinto nada disso. Qualquer coisa de estranho, de inevitável que se aproxima — tampouco. Estou relaxado. Bloquinho de notas sobre a minha barriga. Bloquinho de notas sobe e desce de acordo com a minha respiração. Eu respiro de uma forma engraçada. E se eu tivesse uma parada cardiorrespiratória? Surgem imagens, recordações há muito tempo soterradas, às vezes prazer, às vezes dores. Minha infância foi feliz o bastante. Sensação de poder escrever o que eu quiser, qualquer coisa!, pois se algo sair dos trilhos posso sempre colocar a culpa no haxixe. Somos surpreendidos & assaltados por tudo o que acontece — um passarinho está a cantar ao longe, não gosto do canto desse passarinho, gostava que um outro passarinho maior pudesse dizer a esse passarinho menor, na língua dos passarinhos, obviamente, ei, passarinho, diria o passarinho maior, pode parar de cantar, o seu canto me irrita imenso, e eu apenas observaria o diálogo dos passarinhos, não interviria, de forma alguma, assunto de passarinhos. Surgem sensações atmosféricas: névoa, opacidade, pesadez do ar. Pesadez do ar. Pesadez. Do. Ar. A caneta caiu da rede. Grande preguiça para procurar a caneta. A caneta agora parece pesar uns cem quilos. Não consigo tirar a caneta do chão. A caneta é azul, dessas que podemos comprar no supermercado. Uma vez tentei roubar uma dessas canetas, mas não era uma caneta azul (tipo Bic), era caneta preta tipo outra coisa. Havia muita gente por perto e resolvi não roubar a caneta. Fiquei acanhado, percebes? Foi quando descobri que eu não era um criminoso. Um criminoso não daria a mínima para as gentes, para os seguranças, um criminoso de verdade apenas apanharia a caneta, colocaria a caneta para o bolso, mais natural impossível, como fazem os criminosos de verdade, como se nada tivesse acontecido. Caneta. Bolso. Sair do supermercado. Simples assim. Não fui feito para o mundo do crime. Não fui feito para nada. Estou a ser sincero agora. O haxixe me deixou sincero & sem filtros, penso. O haxixe começou a atuar. Sim, estou sob o efeito do haxixe. Escrevo sob o efeito do haxixe. Se sair baboseira, culpa do haxixe. Estou a me repetir. De tudo isso o tomador de haxixe dá conta numa forma que a maior parte das vezes se afasta muito da norma «comum». Dor de cabeça. A rede começa a me abraçar, planta carnívora. Sou um inseto dentro de uma planta carnívora cujos lábios têm formato de rede praiana. Minha mãe comprou essa rede em Cabo Frio, Rio de Janeiro. Não vou às praias de Cabo Frio há mais de cinco anos. Cabo Frio me faz lembrar de papai. Tudo o que me faz lembrar de papai me causa angústia. Não pensar em papai. Não ir a Cabo Frio. O mais comum é uma mudança ininterrupta entre estados oníricos e de vigília, um vaivém constante. Ondas, portanto. Quase morri afogado numa piscina quando eu tinha cinco, seis anos, a mão grande do meu avô puxa a minha cabeça pequena com cabelos claros. Os olhos e os cabelos dos bebês mudam de cor. Os olhos e os cabelos dos adultos perdem a cor. O cabelo do meu avô era grisalho. A mão dele me salvara de um afogamento precoce. Devo a minha vida ao vovô. O nexo entre as coisas torna-se difícil de estabelecer. Meus pais trabalhavam no hospital; médicos. Vovô ficava em casa com a gente. Vovô dizia que conseguia ver o espírito das pessoas mortas. Ficávamos sentados, vovô, meus irmãos, tenho um irmão e uma irmã, ambos mais velhos, ficávamos sentados, e vovô nos contava alguma história sobre um ou outro espírito, e a luz da sala por vezes começava a piscar, e meu vovô gritava: pare de piscar!, e a luz parava de piscar. Eu olhava para os meus irmãos, e estávamos todos naturalmente assustadíssimos, mas permanecíamos em silêncio, vovô sempre transmitira muita segurança, sabes, era esse tipo de pessoa, muitos espíritos na sala, a luz piscava, eu a me cagar de medo, mas nada de pânico, vovô está ali. O pensamento não ganha forma de palavra. Tudo é irresistivelmente hilariante. Sou um consumidor de haxixe, repito para comigo mesmo. Mundo do crime. «É curioso que a intoxicação com haxixe não tenha até agora sido estudada experimentalmente.» Acho que para quem tomou haxixe, inferno-&-céu — tudo a mesma coisa. Meu avô morreu, meu pai também morreu, eu também vou morrer. Tomo haxixe, escrevo sob efeito do haxixe. Talvez eu morra aqui mesmo, nesta rede carnívora. Estou com sono. Fecho os olhos.

— P. R. Cunha

Fragmentos de um romance inacabável (parte I)

Damas & cavalheiros,

A partir de hoje começo a publicar trechos de uma narrativa que escrevi especialmente para este electro-sítio — Fragmentos de um romance inacabável. Despeço-me com aquela curiosa sensação de que tudo o que se passou ficará lá para sempre. E isto, como se diz, é confuso demais.

Mil saudações do teu,

P.


Aquele que busca se aproximar do próprio passado enterrado deve comportar-se como um homem que escava. Acima de tudo, não deve ter medo de retornar mais de uma vez à mesma questão, espraiá-la como se espraia a terra, revirá-la como se revira o solo.
Walter Benjamin

O Escritor que se senta à escrivaninha a cada manhã e discorre sobre todos os tipos de temas, de todos os ângulos possíveis, de todas as maneiras etcétera. Diz coisas que precisam ser ditas. Não espera por uma grande inspiração, frases corretas — sabe que isso raramente acontece. Durante um tempo indeterminado, o Escritor acumula pequenas situações, breves cenas, enunciados, um diálogo na livraria, o choro de um bebezinho. Acumula palavras. Até que o baú transborda e é tempo de esvaziá-lo.

Escrivaninha, canetas, papéis, estantes, livros, chávenas de café, desenho de um cão (raça desconhecida), desenho de uma sereia a se afogar nas profundezas de um oceano roxo, coleção de postais soviéticos grudados nas paredes.

Na meninice nada parece acontecer sem causa, nada é inexplicável. O menino sabe que existe um mundo à parte, mundo regido por adultos — e compreende aos poucos que alguns adultos são felizes, outros são tristes. Ali tudo se mostra previsível. O pai garante a segurança e o progresso do menino: vais estudar nas melhores escolas, viver para o estrangeiro, vais aprender o russo, serás um sujeito diferente; este é o pai dizendo. O menino tem a certeza de que o pai é eterno, que o pai é capaz de explicar-lhe o Universo. Até que certo dia paira sobre a cabeça do menino uma nuvem cinza, carregada, e de súbito o otimismo dá lugar a uma lúgubre atmosfera; sombras a dizer-lhe que talvez a realidade não seja tão calma e segura quanto ele desejava acreditar. O menino sente-se vulnerável, enganado. O menino sente medo.

Um Escritor à Van Gogh, ardoroso e irrequieto, mas também cheio de brincadeiras animadas, uma enorme afinidade e uma infinita capacidade de admiração. Guia aventureiro, que transmite inspirações e passa reprimendas, um entusiasta enciclopédico, crítico engraçado, companheiro divertido, um olhar que atravessa tudo. Vítima do próprio coração, um coração de literatura. Tem algo na maneira como ele escreve que leva as pessoas a amá-lo ou odiá-lo. Não poupa nada nem ninguém.

Tudo começa por algum lugar. O Escritor leva consigo uma chávena de café, acomoda-se à frente do próprio computador portátil, cujos avisos de «a memória está para o fim» começam a lhe dar nos nervos. Acomoda-se no gélido apartamento que fica relativamente perto daquilo a que chamam de centro da cidade. Ele então entrelaça os dedos e inicia o processo de manipulação de realidades.

— P. R. Cunha

Excerto provisório

Volto em particular ao leitor deste electro-sítio e compartilho um muito breve trecho de certo romance em que estou trabalhando a tempo inteiro. Agradeço in advance que empregues teus lazeres nestes assuntos de tão mínima importância.


[…] Eis que dias mais tarde vem a morrer o seu pai, ao que não pôde resistir. Geralmente um glaciar introspectivo, sua resolução de súbito o abandona e ele se desfaz em lágrimas e lamentações. Chora, é criança novamente. A medida, na verdade, já estava a derramar deveras, e uma coisa de nonada bastaria para abater-lhe o otimismo, provocar-lhe um transbordamento de tristeza. Mas a dor sofrida quando se perde um pai está além de qualquer expressão, como se nenhum substantivo pudesse ilustrar adequadamente semelhante desespero — sente raiva por isso, os verbos não lhe servem mais de auxílio, sente-se traído, petrificado. De qualquer forma, insiste, batalha, luta, põe-se a golpear a cabeça qual louco a demonstrar extrema aflição, pois pretende transmitir esse embrutecimento sombrio, como tinha lido algures, embrutecimento que corrói a nossa «alma», embrutecimento surdo, mudo, embrutecimento que se apodera de nós quando as ocorrências (estou citando de memória), quando as ocorrências nos esmagam e por vezes ultrapassam o que nos é dado suportar. Esta dor excessiva. Morte do pai.

— P. R. Cunha

Brasília – Rio de Janeiro (e lembrete literário)

16 de abril / 5 e 29 da tarde. A minha mãe foi fazer pé-&-mão e disse, ou melhor, garantiu-me que não iria demorar-se, e que tão logo voltasse iríamos àquele restaurante chino ao qual costumávamos ir quando o meu pai ainda era vivo — ocasião culinária em memória de papá, portanto. Passaram-se bem cinco horas, ou seja, o relógio da sala marcava 22:15 (relógio digital), e a minha mamã ainda não voltara do pé-&-mão.

Tic. Longa espera. Tac.

16 de abril / 11 e 43 da noite. Chegou mamã. Não fomos ao chino. Estava eu debruçado sobre certa revista lisboeta do início do século vinte e deparei-me com a publicité da Luminotécnica Portuguesa: 

A ILUMINAÇÃO ELÉCTRICA
é uma ciência e uma arte,
tal como a arquitectura.
Peçam projectos gratuitos
à
COMISSÃO LUMINOTÉCNICA
PORTUGUESA

Melhor luz, melhor vista. Dizia ainda a publicidade que a Luminotécnica tinha sede na Praça dos Restauradores, 53, 1.º, Lisboa. Entre aquelas páginas que o tempo não tardou de alaranjar havia um pedaço de papel em que meu pai lastimava-se: não sei onde foram parar os outros números deste boletim cultural, perderam-se para sempre; uma pena, porque leitura agradável. Mas, ao contrário do que papá supunha, os n.ºs 2, 4, 5, 18 existem, encontrando-se na biblioteca que pertencera a meu avó e que hoje está sob os meus cuidados.

(Com efeito, no número quatro da supracitada revista achei cartas que meu bisavô português [Alíbio] enviara à minha bisavó niteroiense [Thereza], correspondência repleta de trechos de uma branda saudade como: «Escrevo-te do exílio definitivo e irrevogável» / «Quando um português é amado por uma bela brasileira, safa-se sempre de apuros neste mundo».)

escritorimagem

17 de abril / 1 e 9 da tarde. Sem pretenção de ineditismo, antes pedindo vénia e prestando homenagem ao papá, compilei esses meus achados — completando-os ainda com algumas breves observações — e ao pequeno-almoço avisei mamã que dali a alguns dias (depois do lançamento literário) partiria para o Rio de Janeiro a fim de escrever um novo relato sobre o meu falecido progenitor.


» Lembrete

Leitores, quereis praticar uma obra meritória firmada nas sublimes doutrinas da Divina Literatura, agradável a Montaigne, às mulheres, aos homens, e ao vosso coração?… Ide hoje, a partir das 18h, ao Ernesto Cafés Especiais (115 Sul). Aí se oferece ao vosso gosto um rendez-vous dos mais escolhidos, e com o qual podereis esquecer-vos por algumas horas das torturas desta vida de malquerenças. A saber: lançamento do livro Quando termina, dos escritores P. R. Cunha e Paulo Paniago. Obra a custar 40 (quarenta) réis.

— P. R. Cunha

Buraco negro (ou: toda a humanidade vive já há imenso tempo no exílio)

Palco — uma porta à esquerda, fechada. Ao centro, tapete com motivos florais. Pouco mais à direita, sofá, poltrona, luminária de piso, estante abarrotada de livros. Personagens: Pai Psiquiatra está sentado no sofá a ler o vespertino, Mãe Psiquiatra está a bater na porta fechada e ninguém responde.

MÃE PSIQUIATRA
Não abre
estou a bater
e ela não abre

PAI PSIQUIATRA
Deixa a menina
se não quer abrir
que não abra

MÃE PSIQUIATRA
(Afasta-se da porta, fita o marido e cita Schubert)
«Ich bin zu
Ende mit allen
Träumen»

PAI PSIQUIATRA
(Sem baixar o vespertino)
Para os diabos
com o seu alemão
mulher
não me venha
com essa

MÃE PSIQUIATRA
Schubert
Cheguei ao fim
de todos os sonhos
É Schubert

PAI PSIQUIATRA
Gavetas

MÃE PSIQUIATRA
O que têm

PAI PSIQUIATRA
Deitamos tudo
para as gavetas
daí quando abrimos
as gavetas
tudo bagunçado

MÃE PSIQUIATRA
Estou a ver

PAI PSIQUIATRA
Como não queremos
lidar com a nossa bagunça
deitamos tudo às gavetas
sempre foi assim
esconder-se
do mundo inteiro

MÃE PSIQUIATRA
E os mortos
(Aponta para o chão)
como não queremos
lidar com os mortos
deitamo-los
embaixo da terra
ou viram pó

PAI PSIQUIATRA
Estou a ver

MÃE PSIQUIATRA
(Aproxima-se da porta, bate, ninguém responde)
Não abre
a menina não
abre

PAI PSIQUIATRA
(Levanta-se, fica parado, esquece-se por que levantara-se, cai esgotado no sofá)
Às vezes eu também
jogo tudo para as gavetas
gavetas enormes
sim
não sou mais do que isso
enchedor de gavetas
e também não peço
mais nada

MÃE PSIQUIATRA
(Indignada, bate na porta novamente, ninguém responde)
Absurdo

PAI PSIQUIATRA
(Coloca o vespertino no braço do sofá, tira os óculos, limpa-os com uma flanela que estava no bolso da calça)
A verdade é que
quando se quer sobreviver
quando tudo o que se
consegue pensar é
única e exclusivamente
sobreviver
(Alto)
a verdade é que nessas ocasiões
os livros não nos servem
bulhufas
para absolutamente
nada
(Mais baixo)
De fato toda a gente
que lê
que ama os livros
tenta lá dizer que eles servem
mas eles não servem
o instinto de sobrevivência
não leva em conta
a estupidez
da intelectualidade

MÃE PSIQUIATRA
(Vai até à estante de livros, tira um)
Mais tarde ou mais cedo
todos passam por algo
desse gênero

PAI PSIQUIATRA
Ainda encontramos gentes que
gostam de ler
que compram livros
e assim acham que estão
preparando-se para a vida
quando em boa verdade
as palavras nunca
nos salvaram
de morte nenhuma
(Pega o vespertino, levanta-se, vai bater na porta, ninguém responde)
Absurdo
não abre

MÃE PSIQUIATRA
Pois
eu lhe disse
não abre

PAI PSIQUIATRA
(Aponta o vespertino para a esposa)
Bem sabemos
de quem é a culpa

MÃE PSIQUIATRA
A floresta é grande
a escuridão também

PAI PSIQUIATRA
(Aproxima-se da esposa)
Estou-me nas tintas
para as suas florestas

MÃE PSIQUIATRA
(Bate na porta, ninguém abre)
Não vamos nos
separar querido
além disso
a papelada me aborrece
está a ouvir

PAI PSIQUIATRA
(Leva a mão em formato de pistola à têmpora direita, finge-se que deu um tiro)
Nitidamente

MÃE PSIQUIATRA
(Joga-se no sofá)
Só muito raramente
permitir-me o luxo
de reconhecer o grande
fracasso de tudo isto

PAI PSIQUIATRA
(Bate outra vez na porta, ninguém responde)
Não abre

MÃE PSIQUIATRA
Uma mulher que vive a
personificar o papel
de boa profissional
de boa esposa
e boa mãe
exposta a
evidentes riscos
psicológicos

PAI PSIQUIATRA
(Afasta-se da porta, pega um livro na estante)
Dizem que Balzac
antes de morrer
só conseguia perguntar
sobre as suas personagens
Indagava tal louco
Como está Vautrin
e Eugène de Rastignac
Barbet
os Baudoyer
Pensou naqueles que tinha criado
percebe
não pensou nos vivos
em esposa
filha
nada
largou da realidade
o Balzac
sim
recusara a realidade
Mesmo antes de morrer
(Aproxima-se da porta, bate duas vezes, ninguém responde)
Mesmo antes de morrer
mantera-se fiel
às personagens que
criara
Balzac
O escritor não é dono
do livro
o livro é que é dono
do escritor
Sim
Balzac

(Mãe Psiquiatra leva as mãos à cabeça, dir-se-ia que estava a ficar louca)

MÃE PSIQUIATRA
Estou a ficar louca
muitas vezes pergunto-me
se estou a enlouquecer

PAI PSIQUIATRA
Acalme-se lá
mulher
não me tenha um piripaque
pois não

MÃE PSIQUIATRA
A papelada me aborrece

PAI PSIQUIATRA
Volte a si
que carnaval
desnecessário

MÃE PSIQUIATRA
(Levanta-se, vai até à porta, bate, ninguém abre)
Não abre

PAI PSIQUIATRA
(Joga-se novamente no sofá)
Já estou a crer
que a criança não
abre a porta

MÃE PSIQUIATRA
(Joga-se na poltrona)
O que me acontecerá
a mim

PAI PSIQUIATRA
Escute
eu podia mentir-lhe
não é verdade?
dizer que tudo ajeita-se
no próprio tempo
não é verdade?
mas digo-lhe
que não sei
o que acontecerá a si
não sei

MÃE PSIQUIATRA
(Levanta-se, como se de súbito tivesse lhe ocorrido uma ideia)
E se tentássemos abrir
a porta

PAI PSIQUIATRA
Como assim

MÃE PSIQUIATRA
A maçaneta
abrir a maçaneta
simplesmente girá-la

PAI PSIQUIATRA
Girar a maçaneta
interessante

(Ambos se aproximam da porta; Pai Psiquiatra encosta a orelha na porta para tentar escutar alguma coisa)

MÃE PSIQUIATRA
(Envergonhada)
Não não não
isso não seria justo
é a privacidade da
menina
Não podemos

(Ambos se jogam no sofá, exaustos)

PAI PSIQUIATRA
Vidas amorosas
mexericos
filosofias
a menina só tem
catorze anos
meu deus

MÃE PSIQUIATRA
Nós adorávamos fazer
perguntas
querido
Possuíamos
aquela persistente
curiosidade
lembra-se

PAI PSIQUIATRA
Não faço ideia
do que está a falar
mulher

MÃE PSIQUIATRA
Ler até as pestanas
tinirem de cansaço
Umas poucas frases ditas
em devido tempo

PAI PSIQUIATRA
O mundo é uma
redução gradual da
luz

MÃE PSIQUIATRA
É disso que estou a falar

PAI PSIQUIATRA
(Aponta com o livro para a porta)
Perene sensação de espera
a menina não abre
e tensão por algo
maravilhoso ou terrível
que deve acontecer

MÃE PSIQUIATRA
Podemos sempre tentar
a maçaneta

PAI PSIQUIATRA
Não seria justo com a criança
privacidade
percebe
privacidade
A criança precisa
de privacidade

MÃE PSIQUIATRA
(Aponta para a porta)
Caladinha

PAI PSIQUIATRA
(Acende um Marlboro)
Tinham lá grandes
expectativas
e muitos investiram em mim
e veja bem no que me tornei
nada daquilo que imaginaram

MÃE PSIQUIATRA
(Levanta-se, fica parada à porta, indecisa)
Um papai tirano
Sol enorme que consome-se
mais rapidamente
É lá um buraco negro

(Encosta na maçaneta, tenta girá-la, a porta não abre)

«FINIS»

— P. R. Cunha

Águas do rio

Em maio de dois mil e dezesseis, depois de um período particularmente confuso, parti para Niterói a ver se conseguia recolher alguns documentos sobre a infância do meu pai. Passei toda a viagem com a poltrona inclinada a olhar para o botão de chamar a aeromoça, com vontade de pressioná-lo, mas sem de fato fazê-lo. O plano inicial era ficar quatro dias no apartamento da minha avó e talvez sair com ela para caminharmos pelas ruas em que papai costumava brincar em menino. Mas que vovó já estivesse a me esperar à portaria do edifício com uma vestimenta, de pronto notei, completamente adequada para uma longa caminhada foi algo que me pegou de surpresa — de modo que só tive tempo de sair do táxi amarelo e deixar minha mochila aos cuidados do porteiro. Durante alguns minutos caminhamos em silêncio e de vez em quando vovó permitia-se uma careta quando passávamos por algum dos canais terrivelmente fedorentos que cortam o bairro de Icaraí e que em tempos melhores, dizem, brilhavam com o azul do céu. Hoje está tudo mudado, minha avó disse, tudo mudado. Antigamente, ela continuou, era uma cidade bonita, sabe, de cuja beleza a memória aos poucos se esquece. Paramos em frente a uma casa abandonada e vovó apontou para uma janela de madeira no segundo andar: quarto do seu pai. Sempre senti uma espécie de inquietação quando diante de uma estrutura arruinada, pensei. Como se o declínio arquitetônico me perturbasse da mesma maneira que os acidentes automobilísticos, o desemprego, a perda de tudo, do conforto, da dignidade, porque receio poder vir a ter um final parecido. Seu pai tinha muitos amigos, disse a minha avó, de início queremos lá ter muitos amigos, estar rodeados de amigos, mas isso mudo à medida que envelhecemos, pois começamos a perceber que quanto mais amigos nós temos, mais ao cemitério precisamos ir. E a cada ano, ela continua, a cada ano é um monte de gente que morre. Nós cá ficamos, e para quem fica é sempre pior. Um pouco mais adiante, sentamos num banco de cimento a partir do qual podia-se ver a praia de Icaraí, com o Pão de Açúcar a ilustrar o horizonte acinzentado. A cidade, o mar, as pessoas, todos viram costas à desgraça de uma mãe que perdera o filho, vovó disse. Seguiu-se uma breve pausa até que ela de súbito me perguntou: já leu Adalbert Stifter? Respondi que nunca havia lido nada de Stifter, apenas um ensaio sobre Stifter escrito pelo Sebald. Vovó então fitou um ponto de fuga invisível: curioso destino, este de as pessoas que têm de aprender a conhecer-se e reconhecer-se, a compreender-se e a estimar-se para a seguir e para todo o sempre — se separarem. É Jenny Lind, ela disse.

— P. R. Cunha