Anuncia-se o lançamento do livro «Quando termina», de P. R. Cunha e Paulo Paniago

Brasília, Distrito Federal

» Não é sem infinita alegria que chegamos ao conhecimento de que os autores P. R. Cunha e Paulo Paniago conseguiram, com enorme trabalho e não poucos sacrifícios de toda a espécie, finalizar um ambicioso projeto literário. Trata-se de Quando termina, livro de contos vencedor do Prêmio Cidade de Belo Horizonte 2012. Os escritores convidam para o lançamento dessa simpática obra: esta quinta-feira, a partir das 18h, ao Ernesto Cafés Especiais (115 Sul).

» Ocasião àqueles que sabem dividir com método o seu tempo, deixando algumas horas disponíveis para cuidarem também do espírito, pela leitura de escritores locais.

» Quando termina tem um desenho semelhante ao de um jogo de xadrez, ou mesmo ao mapa de uma cidade com múltiplos meandros, onde situações imprevisíveis se acumulam em toda a parte. Escrito a quatro mãos, um dos autores começa os primeiros parágrafos e passa a vez ao outro — que para, reflete, coça as têmporas, imagina o movimento adequado, toma notas, responde. Por vezes a situação escala, a ponto de se tornar difícil saber quem escreveu o quê. Tanto melhor. As diferenças desapareceram, as suturas se tornam imperceptíveis, ao passo que o leitor pode manter-se sempre atento àquilo que realmente importa numa obra de ficção: o movimento de personagens em tabuleiros que simulam um jogo ainda mais inquietante — o jogo da vida. (Assim o diz a quarta capa.)

» Apesar de avançado em anos, Quando termina ainda conta histórias com grande segurança narrativa e com toda a verve e entusiasmo de outrora. É ainda um livro bastante atual, portanto; de liberdades por vezes arrojadas.

» O livro tem a capa negra como a sombra, revestimento de primeira qualidade, mecanismo de abertura aperfeiçoado. Exterior elegante, boa legibilidade, construção sólida cuidada de forma a resistir a todos os climas. Custa 40 dinheiros.

Instagram – Convite

Sobre «VBA Rules» & Dulce Delgado

vba

Por vezes faço grandes esforços para não dar a perceber a minha condição agorafóbica (s. f. [Psicopatologia] — Estado patológico caracterizado pelo medo de atravessar espaços públicos, como largos ou praças). Donde o marcado exagero dos meus relatos literários e certa timidez na hora de, como se diz, conviver. Não possuo contas em redes sociais, nada de perfil no Facebook, nem autorretratos no Instagram, self-made-tv no Snapchat. A plataforma WordPress (é assim que se chama?, plataforma?) proporciona-me esconderijo agradável: leiam cá o que eu escrevo, desnecessário expor-me, dizer que o Totó irascível comeu minha roupa de cama e depois fez bagunça imensa à casa de banho. Mas divago. Ontem descobri que existe um curioso brinquedo de electro-compartilhamento a que chamam de Versatile Blogger Award — o award remete-me de imediato ao The Oscars Academy Awards, o que não deixa de valorizar um bocado a empreitada. Mamãe, veja só, recebi um award. Mamãe orgulha-se dessas coisas. Acessei o sítio web do Versatile e deparei-me com o acordo tácito da brincadeira. Em tradução livre, explico que os responsáveis pelo projeto sugerem o seguinte:

Se você foi indicado, então você recebeu o prêmio Versatile Blogger.
1) À guisa de cortesia, diga obrigado para a pessoa que lhe deu o prêmio;
2) Inclua o endereço do blogue dessa pessoa, também à guisa de cortesia;
3) Depois, selecione 15 blogues/blogueiros que você descobriu recentemente ou segue com regularidade;
4) Indique esses 15 blogues para o Versatile Blogger Award — talvez seja uma boa incluir o link desses sítios;
5) Finalmente, diga sete fatos sobre si para a pessoa que nomeou-lhe.

Mais do que temer a timidez social, receio de ser lá acusado de fulano antidesportivo. Ao passo que responderei desta forma:

Agradeço à Dulce Delgado (escritora-fotógrafa-ilustradora-poetisa-etc.) pela indicação — pode-se encontrá-la nestes endereços: discretamente.wordpress.com & instagram.com/dulce_em_pausa. A Dulce é-me fonte inesgotável de criatividades. Eis sete fatos a meu respeito: UM) Perante questionários de awards, não sei bem o que fazer; DOIS) Gosto um bocado de suco de tangerina; TRÊS) Tenho trinta e dois anos, abandonei o jornalismo para escrever literatura, muitos — inclusive eu — não compreendem ao certo o que me levou a dar esse passo; QUATRO) Se houvesse um duelo Schopenhauer vs. Wittgenstein eu provavelmente apoiaria o Wittgenstein; CINCO) Gosto de cineastas das antigas — i.e.: Pasolini, Moravia, Citti, Tarkovski, Bergman, Kurosawa; SEIS) Eu tenho dez dedos nos pés — cinco no direito, cinco no esquerdo; SETE) Perdi meu pai quando jovem e até hoje estou a aprender a lidar com essa perda irreparável.

É bem este o modo como as coisas se passam comigo. E sobre as indicações de blogues alheios, o caro leitor tratará de perceber que nos breves dois meses de existência este torto sítio recebeu engrandecedoras intervenções aos comentários — meu Versatile Blogger Award vai para cada uma/um dessas/desses queridas/queridos leitoras/leitores.

— P. R. Cunha

Na dissolução do espaço e do tempo de uma partida de xadrez, também o enxadrista se desintegra

Ajeitou as peças com esmero,
e viu-se desaparecer no tabuleiro,
no jogo de xadrez,
num combate glaciar.

Há anos que arquiteto uma fuga do mundo para passar o resto dos meus dias a jogar xadrez. Uma escapada, como se costuma dizer, para apaziguar a angústia que me tolhe, etc. Jogar o jogo de xadrez, ter ao meu lado uma chávena de café — como se essas coisas fossem as derradeiras. AMBIENTE DO JOGO DE XADREZ: cabana alpina à Nietzsche, sem qualquer sinal de vida além do ronronar distante dos aquecedores e o som do nevão que cai alhures. ADVERSÁRIO DE XADREZ: semblante indiferente, como que perdido num labirinto de jogadas mentais que aos poucos se materializam ao tabuleiro; ele-ou-ela inclina a cabeça para trás, na atitude de quem concentra-se com afinco imperturbável. Adversário de xadrez (ele-ou-ela) demonstra, portanto, uma frieza assustadora; e quando me vejo perante essa criatura polar reconheço, em todos os sentidos do termo, o meu íntimo opositor (doppelgänger). Que coisa tão estranha! DURAÇÃO DO JOGO DE XADREZ: tempo indeterminado, um jogo de xadrez sem cronometragem. INÍCIO DA PARTIDA DE XADREZ SEM CRONOMETRAGEM: os enxadristas analisam-se como dois condenados que se dirigem ao cadafalso; têm no rosto aquela vã tentativa de coragem. Resignaram-se. Os enxadristas aguardam o movimento do adversário em absoluto silêncio. Escutam o tamborilar da neve no tejadilho. Os enxadristas agora jogam o xadrez — para dar cor a uma vida que já lhes feriu imenso.

— P. R. Cunha

É com agrado que o leitor se deixa levar para uma certa atmosfera de tristeza

A verdade é que poucos viventes problematizam tanto o próprio ofício como os escritores o fazem.

Sabe-se que não é adequado
estar constantemente a declarar
que escrever é terrível.

As pessoas se aborrecem — mas o faço por desporto. Digo que o escritor anda sempre com a morte. A perversa está à espreita, não hesita em ceifar quando julga necessário. Escreva depressa. A lâmina é afiada.

Escritor-personagem que deixa atrás de si rastros de encontros com a Morte (colocar a maiúscula quando Morte). 

Tentativas de enganar a Morte: escolher as palavras é também escolher as realidades — e cada um tem lá a própria. Na minha biblioteca, A república de Platão está ao lado de Os contos completos de Raymond Carver. Mais de dois mil anos separam Platão de Carver: mas ambos deitam-se lado a lado nas minhas prateleiras. Viajo dois mil anos em poucas horas se leio Platão de dia e depois leio Carver à noite. Sinto-me eterno durante essas poucas horas. Engano a morte, por pouco tempo.

Tentar escrever
sobre enganar a Morte
é viver.

Perguntas impertinentes sobre a Morte: há tantas realidades à nossa volta — por que selecionamos umas e não outras?, por que seguimos por este e não por aquele caminho?, por que uns morrem numa cama de hospital, e outro se jogam para o Atlântico? Uma passagem, como se diz, do que era para o que ainda não é.

O beijo de Morte: duas pessoas que se beijam. Permitem o beijo de um outro ser humano. Abrem uma concessão; sim, você pode cá me beijar. Não podemos beijar todos os seres humanos, só alguns. Determinada senhora de Teresópolis diz que só beijou dois homens em toda a vida. Essa senhora de Teresópolis recebera poucas concessões para o beijo, por isso se mostra geralmente triste.

Morte, resignação: precisa-se aceitar a condição de escritor. Ou, pelo menos, acreditar que se aceitou a condição de escritor. Esquecer-se dos golpes do mundo, o tumulto na rua que não lhe deixa dormir, a música alta do vizinho, os gritos de dor do rapaz atropelado — «barulhos do tempo».

Concluir (precipitadamente): escrever é continuar náufrago.

— P. R. Cunha

Convite tautológico // made in Brasília

Realiza-se na próxima sexta-feira, à Cervejaria Criolina, um lançamento de revista literária. Essa festa é promovida pelos editores Mello Mourão, Nascimento Dias e Pina Viana — que já há tempos publicam Madame Eva com imponente sucesso. Sabe-se que o desempenho dos colaboradores desta edição número seis (de cuja equipe orgulhosamente faço parte) agradou imenso aqueles que, como se diz, deram lá uma espiadela para as páginas de papel reciclado 120g/m² impressas pelo maquinário da ArteGráficaPrêmio, sempre sob a supervisão do Carlos.

O evento contará com as participações do ilustrador Kleverson Mariano e da fotógrafa Clara Molina — havendo também uma animada soirée dançante, durante a qual serei, com agrado, o disc-jockey.

MADAME EVA N6 – LANÇAMENTO