Homem-máquina

Há um prédio de escritórios onde os robôs começam a substituir os humanos e está a correr bem. Menos para o Martins, um vendedor de seguros acima do peso que come muito e fora orientado a caminhar até o trabalho à guisa de melhor saúde. Mas como se viu demitido por um gerador de algoritmo que consegue prever os riscos de taquicardia com bastante precisão, o Martins engordara mais um bocado e dizem que só sai do pequeno apartamento para comprar a torta de amora que tanto aprecia.

— P. R. Cunha

António furioso

Às vezes acontece de eu acordar no meio da noite sem motivo aparente — abro os olhos, tento mexer os pés, não se movem, tento mexer as mãos, nada, a cabeça pesa trezentos quilos, o corpo imutável afunda nos vales do colchão, lembra um cadáver. Começo a suar, estou morrendo, acabou. Quando enfim me recupero dessa angústia terrível, ligo para o António e ele atende furioso: quem é? Sou eu, eu digo. Vai se foder, ele diz, são três horas da manhã. Tive aquele negócio de novo, eu tento me explicar, mas o António desliga. O Antônio desliga e provavelmente comenta com a esposa que não era nada, daí ele abraça a esposa e os dois voltam a dormir. Fácil. Mas eu não durmo, fico apavorado, vou até o computador que está em cima da escrivaninha e procuro no Google: acordar + não conseguir se mover + doença e a busca gera aproximadamente trezentos mil resultados sobre «paralisia do sono».

— P. R. Cunha

O trompetista

Um trompetista local, que segundo a opinião de diversas autoridades musicais era tido como muito talentoso, compôs no seu próprio trompete uma melodia para a pessoa que tanto amava. Antes de mostrar a ela — tratava-se naturalmente de uma surpresa —, o trompetista tocara a melodia para toda a gente do bairro e toda a gente do bairro foi unânime: sem dúvida, muito bonita a melodia, está de parabéns, etcétera. Quando, no entanto, ele finalmente mostrou a melodia à pessoa amada, ela, por sua vez, não achou bonita, achou feia: é uma melodia feia, foi portanto o que ela disse. Desde então, não se sabe do paradeiro desse talentoso trompetista.

— P. R. Cunha

Lírios alaranjados

O avô do Monte era um cara incrível, foi com ele que aprendi a beber. Certa vez estávamos sentados na varanda da casa do Monte, e o avô dele chegou com quatro garrafas de cerveja, abriu uma para si e nos entregou as outras. Nós tínhamos doze, treze anos. O avô do Monte desabou-se na rede e ficara olhando para nós três. Podem beber, ele disse. Demos um gole curto. O Lídio cuspiu tudo fora, o Monte mostrava-se tranquilo, despreocupado, fez até pose na hora de levantar a garrafa. De certo que o avô já lhe havia iniciado no universo etílico. O grisalho ancião levantou-se, enxugou a boca com as costas das mãos, perdeu um pouco o equilíbrio e ficou parado perto de um jarro de flores laranjas: aprendi isto com o meu pai e gostava de transmiti-lo a vocês também. Ele então ensaiou um sorriso debochado e disse: se for o caso de se embebedar pela manhã, mantenham-se perto dos lírios alaranjados. A verdade é que jamais consegui compreender o significado desse conselho estranho. Mas o avô do Monte era sem dúvida um cara incrível.

— P. R. Cunha

Para-choques

Depois de cinco anos a trabalhar numa empresa detestável, Casimiro conseguiu finalmente comprar o próprio sedan. Não chega a ser um automóvel conservado: dois donos, para-choque dianteiro desigual, uma das lanternas traseiras parou de funcionar e a porta do motorista possui um arranhão visível a uns bons metros de distância. Casimiro está sentado ao volante. O cheiro no interior do veículo é um pouco enjoativo, ele tem de confessar. Como se alguma perfumaria desleixada tivesse jogado ali uma qualquer fragrância à base de petróleo que ainda não passara pelo departamento de qualidade. Segundo o vendedor, o carro pode ir de zero a sessenta quilómetros em dez segundos, velocidade máxima de cento e oitenta, sem direção hidráulica. Está a comprar um automóvel forte, robusto — dissera o vendedor cuja gravata possuía resquícios de bolo de chocolate —, não vai se arrepender. Casimiro liga o sedan e fica a escutar o barulho desengonçado do motor a benzina. Algumas peças desencaixadas trepidam, ele se sente dentro de uma discoteca dos 1970. Desliga o carro. Tira a chave da ignição. O sedan que Casimiro comprou é verde.

— P. R. Cunha

O homem embaixo da terra

Poucos lugares no mundo são mais desoladores e melancólicos do que a garagem do prédio onde moro às três horas da manhã depois de uma noite de bebedeiras voltadas ao esquecimento total. Quando a única companhia é um hidrante vermelho grudado na parede perto dos elevadores e a trilha sonora se faz do zumbido apático das lâmpadas fluorescentes que, pelos vistos, não são trocadas há anos. O que se passa na minha cabeça: que um homem pode levar a vida inteira obedecendo todas as regras, e aí de súbito já não importa mais nada.

— P. R. Cunha