Quarta Nota #8 — Gordon Banks, morte das estrelas (defesa impossível)

O autor deste blogue volta com as notas descompromissadas que deixam a senhora Cassandra (do apartamento 323) com ganas de desbravar o mundo, a despeito dos seus noventa e quatro anos.


Cansado de embriagar-se
verbalmente —
largara o romance
para se entregar
à poesia.

§ Todas as noites o Roberto queixa-se com a esposa: detesto a metalurgia, a metalurgia me causa um verdadeiro asco; e todos os dias o Roberto sai para ir trabalhar com metalurgia. Pode-se dizer o mesmo dos casais que se odeiam, que se desprezam prolongadamente, mas não se separam: talvez porque tenham medo de morrer sozinhos.

§ As bobagens que dizemos para preencher os demorados silêncios.

§ Etc.

§ O que um escritor de ficção diz é bem diferente daquilo que um escritor de ficção escreve. A fórmula é a seguinte:

Vida pessoal do escritor ≠ Vida literária do escritor

§ O Sol — observável ao céu — é uma gigantesca bomba nuclear que, quer-queira-quer-não, irá explodir. Cessa a fusão hidrogênionúmeroatômico1/hélionúmeroatômico2, o interior do Sol perde a batalha contra a gravidade e o núcleo entra em colapso. A jornada é um bocado mais complexa do que isso, mas não precisamos de esmiuçar os pormenores aqui. O importante é saber que as estrelas também possuem ciclos. Elas nascem, vivem e morrem.

§ (Trajetória comum de diversos escritores de ficção: nascer, ler muitos livros, perder-se no mundo dessas narrativas livrescas, eventualmente criar os próprios universos — lidar com a finitude alheia, muitas vezes esquecendo-se da própria finitude. Porém, as páginas dos escritores de ficção também se acabam.)

§ «Os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo», é Wittgenstein.

§ Noutras ocasiões, os grandes morrem discretamente, a dormir. Depois de anos a lutar com um cancro no fígado, Gordon Banks, o maior guarda-redes de sempre, faleceu ontem à noite durante o sono. Autor da chamada «defesa impossível» (Carlos Alberto avança desde o próprio campo, dá um primoroso passe à três dedos para Jairzinho, que ganha do defensor inglês, corre até à linha de fundo, cruza para Pelé, Pelé sobe majestosamente para cabecear a bola, um cabeceio enciclopédico, perfeito, para baixo, indefensável — não fosse Banks), o guarda-redes costumava brincar que seria lembrado por estragar um belíssimo tento do Rei do Futebol.

§ Mostraram-me os vencedores dos Grammy e percebi que não conhecia vivalma (Kacey Musgraves?). Lembrei de uma conversa que tive com vovô ao final dos 1990. Ele disse: meu gosto musical morreu de ataque fulminante, e está enterrado no Desert Memorial Park. Vovô estava a falar do Frank Sinatra.

§ A minha hipótese é que numa certa altura (o período pode/deve variar de ser humano para ser humano) perdemos um pouco o interesse, a vontade de adaptarmo-nos às novas tendências. Preferimos continuar com o Frank Sinatra, com o Gordon Banks, com o Thomas Bernhard, com o Johnny Cash, com a Susan Sontag, com o Perec, com a Lispector, com a Cecília Meireles, com a Nina Simone — até ao fim dos nossos dias. 

§ (À guisa de P. S.) Mas a verdade é que ainda estou para conhecer cargo político mais poético do que o da senhora Ana Paula Vitorino: ministra do Mar. E ontem conversei com o músico Flávio Silva sobre os porquês de nunca estarmos satisfeitos — plenamente satisfeitos (e.g. Fulano estipula objetivos [ter casa, família, automóvel para locomover-se], e quando atinge/conquista tais objetivos parece querer pular em novas bacias de inquietações). É que nosso cérebro primata evoluíra para lidar com as intempéries da floresta, ambiente pouco amistoso àqueles que ficam parados (presa fácil), e toda a gente que já comera demais e depois dissera: ufa!, que almoço incrível, estou satisfeito, sabe que a satisfação gera inércia, apetece-nos deitar. Corroborei essas conclusões enquanto voltava para casa escutando The promise, do Sturgill Simpson.

— P. R. Cunha

O tipo que escreve e o tipo que trabalha com aceleradores de partículas: afinidades

Para o Rodrigo dMart

Acho curioso que alguns familiares ainda se surpreendam quando descobrem que escrevo ficção — mesmo depois de oito anos dedicando-me (quase a tempo inteiro) às fazendas literárias. Arregalam os olhos como se de súbito eu me transformasse num alienígena inescrupuloso com ambições apocalípticas. Via de regra, preciso de adotar posturas complacentes (i.e. discreto balançar de cabeça, utilizar termos vagos tais como: sim, sim, compreendo; pois não; percebo; sei bem como é; posso imaginar etcétera) enquanto comentam que toda a gente que conheceram e que porventura mexia com esse troço literário morrera cedo demais — ou suicídio, ou abuso de drogas (alcoolismo, primordialmente), ou solidão —, e que não conseguem imaginar por que cargas de água alguém com bons discernimentos haveria de se dedicar a tarefas (e aqui transcrevo ipsis verbis) «tão absurdas, destrutivas, que não levam a nada», por quê?

À primeira vista, o CERN (anacrônimo de Conseil Européenne pour la Recherche Nucléaire) aparenta ser apenas um gigantesco e entediante túnel circular onde partículas estranhas colidem umas com as outras, sem propósito. Pelo menos é essa a imagem que muitos críticos utilizam quando questionam os apoios financeiros ao maior laboratório de física de partículas do mundo. Um bando de nerds a brincar de videojogo nas profundezas da fronteira Franco-Suíça, gastando dinheiro público com experiências cujo teor nem os próprios humanos que ali trabalham conseguem decifrar. 

Acontece que a ciência de partículas não é uma trilha com caminhos pré-determinados, estáticos. Um experimento leva a outros experimentos por vezes imprevisíveis, uma descoberta leva a novas descobertas. De forma que, ao tentar compreender a intricada origem do universo, os cientistas do CERN estão a desenvolver também incontáveis tecnologias que serão utilizadas em áreas como a computação e a medicina. A World Wide Web, à guisa de exemplo, foi lá inventada; além de diversos dispositivos utilizados para diagnosticar doenças, aperfeiçoamento da implementação do magnetismo, desenvolvimento de técnicas para se praticar engenharias… e não só.

Guardadas as devidas proporções, fazer literatura é como trabalhar no CERN. Lidamos com imprevisibilidades, desafios, com resultados fascinantes capazes de gerar incríveis efeitos colaterais. Tentamos descobrir como as coisas difíceis operam, como responder perguntas intricadas — somos desbravadores. Sim, é verdade, muitos morrem ao meio do caminho, ou perdem os botões, ou terminam sozinhos na cave de um sanatório. Mas os riscos valem a pena quando o que produzimos mostra-se capaz de mudar a vida de tantas pessoas. E é por isso que nos entregamos a tarefas tão absurdas, destrutivas, que (só parecem) não levar a nada.

— P. R. Cunha

Um gosto culto em literatura

Suponhamos que João, autodidacta, tem aquilo a que se chama «um gosto culto em literatura». João admira muitíssimo determinado livro — à laia de exemplo, vamos dizer que o livro é Relatório do interior, do Paul Auster. Quando começa a perceber que tantos outros também admiram um bocado o livro do Paul Auster, João perde o interesse. (Ou quando milhares de pessoas têm gosto parecido, e o sujeito sente-se menos único, menos especial, ele não é mais o transgressor [outsider] que gosta dos livros do Paul Auster, às escondias; ele agora faz parte de um grupo, clã, mar de gente. Tudo é copiado/copiável. O livro chega ao destinatário, destinatário não pensa [reflecte] a respeito do trabalho do autor do livro. Uma abordagem plausível seria: estou a ler a obra de certo autor, de um ser humano que dedicara tempo, anos, esforços para escrevê-la, talvez a empreitada tenha lhe custado uma perna, um casamento [ver também: amigos & familiares negligenciados porque fazendas literárias], valorizo tamanha coragem. Mas não pensa. Lê. Mastiga. Cospe. Até que o conjunto livro-autor é finalmente esquecido numa prateleira ao canto da sala de jantar e a vida meio que continua.)*

— P. R. Cunha


*Isto é claramente uma generalização arbitrária; se és lá um bom leitor (leitor educado, leitor atencioso, leitor-escritor), não te sintas atingido por palavras tão levianas.

Estamos em limpezas, eles diziam

Ted estacionou o automóvel perto de um enorme cipreste (Taxodium mucronatum), à esquerda da lanchonete com placa de saída em néon roxo que poderia muito bem ter servido de cenário para alguma série do David Lynch. O sol começava a desaparecer atrás das montanhas rochosas e aquela atmosfera taciturna, azul desânimo, mexia com o Ted, que lembrava-se das longas noites de copo com amigos que hoje não são mais amigos, pessoas com rostos que seriam mesmo irreconhecíveis para ele — caso as encontrasse, digamos, numa feira a comprar fatos esportivos de lycra (tipo spandex). Os altifalantes da aparelhagem da lanchonete tocavam «Can’t Help Falling in Love» do Hugo Peretti, mas na versão com voz arrastada, modorrenta, do Rei do Molejo: Elvis Presley. Ted caminhou mais alguns metros e sentia que o barulho das próprias botas Caterpillar Second Shift cor café a pisar no cascalho do estacionamento e a cacofonia voz-Elvis-like-a-river-flows-surely-to-the-sea começavam a lhe dar vontades de desistir de tudo, de voltar para o próprio automóvel, dirigir até à pensão na qual estava hospedado, assistir a algum filme do Chaplin a preto-e-branco, quem sabe ligar para uma rapariga loura que conhecera há dois anos quando andava pela região à guisa de resolver coisinhas, rapariga parecida com a Sophia Loren antes de a Sophia Loren trocar de rosto através de mutilações cirúrgicas (conhecidas pelo odioso eufemismo «procedimento estético»), rapariga que vivia em jeans e camiseta branca e que ficava apertando os botões do painel da carrinha do Ted e dizia sem parar: Ted, tens aqui uma belezinha tão gira, e o Ted nunca sabia se a rapariga estava a falar do painel ou se aquilo tinha uma qualquer conotação erótica etc. Ted chegou ao local combinado. Parou. Acendeu um cigarro. Ajeitou a aba do boné. Percebeu que, às traseiras da lanchonete, duas pessoas uniformizadas estavam a varrer restos de uma festa recém-terminada. Um homem e uma mulher que se desculpavam educadamente com quem passasse por perto — estamos em limpezas, eles diziam. Copos e pratinhos de plástico dançavam ao vento, esse tipo de panorama. A certa altura, o homem encostara o queixo na ponta do cabo da vassoura e comentara com ar filosófico: não, não sei se eu daria conta de matar o sujeito, sabe?, estou velho demais para essas coisas. E enquanto o homem falava e a mulher fingia que não escutava, o Ted quase se esquecera do motivo que o levara até àquele sítio desolador.

— P. R. Cunha

Este electro-sítio está a comemorar aniversário (convosco)

Há um ano eu era uma múmia velha a vagar nenhures com o coração dilacerado tipo Hölderlin a buscar qualquer propósito numa vida absurda; Friedrich Hölderlin cuja imaginação amiúde o inclinava para o lado da fantasia, com relatos frequentes vezes romanceados porque já não dava conta de tanta dor, de tanto sofrimento — e agora que estou a me comparar com o Hölderlin sinto-me um bocadinho pedante, atrevido, abusado e justifico-me dizendo que também sou muitíssimo temperamental, influenciável a entusiasmos seguidos de arrependimento.

Há um ano eu era um zumbi errante que «mantinha-se em pé com grande dificuldade, à espera que a veemência da própria tristeza, a suprimir os espíritos vitais, o derrubasse morto ao solo», um zumbi que sabia que não escaparia incólume, mas buscava a fuga que o danificasse menos.

Há um ano eu escrevia no meu diário que a minha existência já não fazia sentido, não importava o tanto que me esforçasse para encontrá-lo (para criá-lo/inventá-lo), que ler — a atividade que sempre me dera os maiores prazeres — era-me um fardo insuportável, que caminhar lá fora deixava-me ainda mais melancólico, porque a vida dos outros também me parecia vazia, oca: despropositada.

Há um ano eu me sentava exatamente à mesa à qual estou sentado agora para começar um sítio web a ver se a empreitada conseguiria me distrair dos pensamentos catastróficos, dos pensamentos que me lembravam constantemente de que as pessoas morrem, de que aqueles que amamos muitíssimo (e de quem dependemos muitíssimo) estão morrendo, de que eu também morrerei, de que a confiança no mundo pode ser desmoronada em qualquer momento, de que muitas pessoas se tornam amargas pelo destino.

Há um ano eu começava este sítio web e agora, com aquela branda facilidade que o olhar retrospectivo nos oferece, percebo com total clareza que essa decisão foi o início das minhas recuperações, que escrever constantemente, mesmo sem nenhuma vontade de escrever constantemente, foi o que me salvara de um destino terrível — fatal.

Durante um ano de compartilhamentos, de teatros, de contos, de ensaios, de poesia, de desabafos, de jocosidades, de erros, de acertos, de relatos de viagem, de Aveiro, de Lisboa, de Brasília, de Portugal, de Brasil, de vídeos, de músicas, de fotos, de factos, de ficções, de literaturas, tive a oportunidade de conversar — mesmo que à distância — com seres humanos incríveis, cujos comentários enriqueceram não apenas este blogue, mas o meu modo de ver (e de aceitar) as conjunturas da vida.

Como forma de agradecimento, leitoras e leitores, gostava de compartilhar convosco mensagens que escreveram-me no decorrer desses últimos 365 dias.

E que a jornada permaneça.

— P. R. Cunha


O Miau do Leão, em Assim era o Herbert

Não dá para deixar de ler seus posts, onde até os comentários são interessantes. Concordo. San Marino é um cenário perfeito para o estilo. Escrevo de uma praia no salto da bota italiana, na costa adriática. Há muito que se falar dos italianos. Bem, pelo menos parecem dar muito valor ao seu idioma. 90% das músicas tocadas são em italiano. Comunicar com eles só em italiano e mímica. Eu já tinha observado isso noutras andanças por aqui, mas a região do Solento ultrapassa tudo.

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Thaysminy Marques Coelho, em «And one more for the road», a solitude etílica

Eu sempre venho com calma te ler. Por que morro de medo de acabar. Hoje, estou contente com esses dois. 20h02 e me sinto compreendida.

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Filipa Santos Sousa, em Poucos esforços para não dar a perceber a vaga de sentimentos de saudade (série haiku com título relativamente longo)

Incrível, adorei! Muitos parabéns, é um prazer enorme ler os teus textos, com os quais me identifico tanto.

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Luis Morgado, em Só mais um bocadinho a respeito dos escritores que não escrevem

Muito bom. Lembrei-me da personagem Joseph Grand, na Peste de Camus, que andava há anos a escrever um romance. Um romance que faria com que o editor, ao lê-lo, se levantasse e tirasse o chapéu (ou qualquer coisa deste género). Mas Grand, por ser tão perfeccionista, ou incompetente, durante todos esses anos tinha estado obsessivamente ocupado a aperfeiçoar o primeiro parágrafo (o único que estava rascunhado).

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Moça com Brinco de Pérola, em «And one more for the road», a solitude etílica

Eu já apaguei da minha vida qualquer exigência em relação à escrita. Já sei que não adianta sentar na minha mesa cercada de tintas, uma janela diante da mesa que dá pras plantas e pra luz, não adianta passar café, não adianta glamorizar. Vai acontecer no meio duma música enquanto eu lavo louça, vai acontecer no meio de um outro texto, vai acontecer enquanto vou pagar contas. Só preciso estar munida de um Moleskine ou o bloco de notas do celular. Mas estar Frank Sinatra, num bar e The Cramberries de fundo é muito chique e simples também… É chique e é simples.

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Maria Vitoria, em Senhoras & senhores, descolagem autorizada

Porra, eu acho o modo como você escreve fodido pra caralho. Por mais que seja culto e me leve a séculos passados, ainda posso visualizar linha por linha de um modo contemporâneo. Parabéns, P. R.

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Cristileine Leão, em Fragmentos de um romance inacabável (parte I)

Um coração de literatura… Esse romance nunca terá fim.

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Lucas Luiz, em E-deias

O novo sempre traz desconforto para alguns. Mas é isso, o inevitável, em breve estaremos tão somente por meio algoritmo; tecendo nossas ideias, histórias, memórias e construindo nossa identidade apenas de modo virtual e sem qualquer receio nostálgico. É a ordem natural. Quem sabe, mais pra frente, armazenado por um download diretamente na cabeça do leitor? As possibilidades são infinitas. Pertinente reflexão e ótimo texto.

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Fidel Pereira, em Como eu escrevo

Meu caríssimo amigo P. R. Cunha, foi maravilhoso perceber que padecemos das mesmas angústias que assolam a alma de quem tem necessidade de escrever algo, não o trivial, mas sobre algo maior e profundo. Parabéns pelos seus textos.

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Emanuel Melo, em Fragmentos de um romance inacabável (parte IV) – exilado de si mesmo

Querido Paulo, como é possível que estejas a descrever os meus tormentos diários desta maneira sibilante? Desligo da televisão, do telemóvel, do computador portátil, da net, e quando me apetece a voltar, lá estás tu na minha caixa de mensagems a lembrar-me que devo desligar de tudo isso e voltar a sentar-me debaixo de uma árvore, com uma folha de papel e caneta/lápis na mão e sonhar.

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Irina Marques, em Excerto provisório

Ainda não passei por essa dor, já vi quem tenha. Da forma como a expões, está uma descrição profunda do que provavelmente alguém que passe por essa experiência deve sentir. Julgo que sentiria o mesmo. Está muito bom o excerto.

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As Minhas Moniquices, em Questão de tempo / ou camadas do tempo segundo relatos de antigos relógios

Confesso que, por norma, costumo compreender o que leio, sem grandes dificuldades. Mas o que mais acho interessante na escrita de P.R.Cunha é que me obriga a fazer ginástica mental, tal é o raciocínio a que obriga, para compreender tamanha profundidade de reflexão. Parece que estou a ler algo de alguém que já viveu cem vidas e tem tantas histórias para contar. Mas gosto! É um exercício bom e eu gosto de desafios. Gostei desta visão profunda do tempo que nos obriga a ter tempo para o pensar e ver passar. Abraços!

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Rejane Leopoldino, em Autoestrada

Amo como eu consigo visualizar e sentir a cena nas suas escritas!

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Lunna Guedes, em Como ler livros incandescentes

Eu nunca fui muito amiga os raios solares, eles me incomodam, mesmo quando no outono que me faz pensar em calda de caramelo. Mesmo assim, eu prefiro fechar os olhos e sentir na pele, por dentro. E quanto aos livros, sim, contraditoriamente são o meu sol nos olhos, dos russos (ah, meu santo Karamazov) aos franceses (Baudelaire que me ajude) enfim, eu sou uma espécie de Parker a me aproximar (quase em queda no abismo) e a me afastar das páginas. Gostei daqui!

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Raul Coutinho de Almeida, em 90 centavos e o valor da dignidade humana 

Sua escrita me parece com fluxo de consciência, se eu estiver errado. P. R. Saramago Filho.

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Língua Portuguesa Dinâmica, em Assim era o Herbert

Que texto excelente. É parte de um livro? Se for… Parabéns. Uma vez fui me inteirar sobre o significado da palavra Alexitimia porque uma pessoa me disse que não conseguia explicar o que sentia. Na pesquisa que fiz a condição de alexítimo é bastante atual e muitas pessoas não sabem que passam por relevante processo interior. Quando você se refere a Hebert estudar cérebros me recordei do Dr. Simão Bacamarte do livro o Alienista, um texto que analisei há pouco tempo (e há ainda o que me aprofundar nele). Sabe, mostrar o mundo psicológico das personagens favorece o entendimento de alguns aspectos da realidade (função social da literatura que me encanta). O luto é mesmo um processo de transformação nos mais diversos aspectos da realidade, somente quem perde alguém querido sabe como é. Abraço.

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Sementes ao Leo, em O livro exige muita dedicação e por vezes as coisas não saem como havíamos imaginado

Gosto da tua escrita: irreverente e perspicaz! Muito legal!

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Peixinho de Prata, em Caderno de viagem: os fantasmas fugiram de Sintra

Eu, que moro em Lisboa, a 26.4 km de Sintra, já quase não consigo lá ir. A pressão turística é demasiada e não há época baixa. No entanto, pelo menos uma vez por ano, fazemos uma peregrinação para comer um travesseiro da Piriquita enquanto falamos mal do excesso de turismo. Adaptação aos novos tempos, suponho. Os seus textos sobre a viagem a Portugal são muito bons!

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Paula Neves, em Questão de tempo / ou camadas do tempo segundo relatos de antigos relógios

Você sente o tempo, amigo. Adorei.

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Brunno Vittorazze, em Quarta nota #5

E se formos apenas códigos num algoritmo? Trancafiados nessa matriz, observados como experiência por super-cientistas sociais. Os supostos planetas com possibilidades de conceder vida seriam apenas um alento à nossa espécie, uma brincadeira desses cientistas, uma alternativa futura caso destruamos esse aqui. Ou e se formos a espécie mais tecnologicamente desenvolvida desse universo e o ônus do primeiro contato com as civilizações extraplanetária fosse cargo nosso? E se?

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Dulce Delgado, em Tudo isto é como uma zombaria sobre o sentido e o fim da própria existência

O bebé de papá & mamã… que nasceu exactamente entre os meus dois filhos (1983 e 1987), já sabe muito bem o caminho que vai seguir! Porque quem escreve histórias como as que vamos lendo neste blog, em que a ficção, a realidade, a história e um humor cheio de personalidade se misturam com tanto tacto, não pode ter dúvidas! O seu destino está nas palavras! Com absoluta confiança!

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Aguarela de Viagens, em Quarta nota #5

Paulo, partilho as homenagens e as visitas, justíssimas. Foram os seus textos em Quarta nota e na dialética à volta da realidade que me sugeriram Platão. Obrigado. Abraços, AV.

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Bia Ribeiro, em Alguns trechos sinuosos e (talvez) paradoxais

Dicas fabulosas! Ir aos lugares importantes é uma dica que não se vê por aí… Eu tenho uma nota em meu celular com a frase “sair para escrever”, para não esquecer de mudar de perspectiva, caminhar, ver o mundo.

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Gerlusa, em Tripulante de convés

P. R., que incrível ver um texto assim falando sobre um dos conceitos mais abstratos da filosofia — o ‘ser’ e o ‘estar’ no mundo — relacionado à solidão, que talvez seja um dos estados mais difíceis de aceitarmos em nossas vidas… És grande!

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Joana Alencastro, em Oceanauta – trechinhos

P. R., teu texto me lembrou uma das poesias mais lindas que já li na vida: «O Norte Secreto dos Argonautas Gregos». Foste sublime. Um beijo!

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Jorge Santos, em Questão de tempo / ou camadas do tempo segundo relatos de antigos relógios

Você se tornou num som gerador de paisagens e a absorção crescente, a folhagem nítida sou eu a ler tudo quanto você escreve (muito obrigado), mesmo, muito obrigado.

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Lucio Data, em «And one more for the road», a solitude etílica

No hay ningún contrasentido mientras se busca… Todo nos parece menos bello. La espera es dura, y las musas sobrevuelan el bar… Y tú, despistándolas, disfrazado a lo Frank Sinatra… No tienes piedad de ellas… Tienes que invitarlas a una copa, Paulo. ¡Cuídate bueno!

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Isabella Alves, em Perambular com paciência

Uau! Que escrita cativante… Parabéns!

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Jorge Sasgarante, em Como ler livros incandescentes

Véi, véi, véi, todo texto seu que leio, concluo: he knows the magic of textual awesomeness. Abraços e tudo de bom!

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Débora Albuquerque, em A arte e a maneira de abordar escritores que porventura escreveram livros ruins

Obrigada pelas bonitas palavras de encorajamento, P.R.! Acontece que, para mim, exemplos funcionam mais do que palavras e seu entusiasmo com as letras e com a arte me encorajaram a não apenas escrever e publicar mais, como também voltar para as artes cênicas. Encontrei um grupo que estava iniciando uma peça e, há duas semanas, estamos ensaiando. A propósito, parabéns pelo prêmio da novela! Minha admiração e gratidão por você já são eternas. Abraço!

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One Feeling a Day, em Curriculum vitae / résumé (outro trecho autobiográfico com apêndice)

Adorei. Nunca deixe de escrever.

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Estrella RF, em Tardinha para o Atlântico

Las ideas bullen, las palabras se atropellan, mi mano se desliza en el papel, ordenando las letras, dándoles vida una vez más, emociones, amor, odio, pasión, haciendo que mi vivir, tenga sentido…¿Qué le pasa al bebé? está aprendiendo a vivir. Un abrazo.

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Maby Ferreira, em A certeza de que nada será como antes

Não dá, sempre que te leio, eu cá penso: toma aqui o seu Nobel de literatura!

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Farley Santos, em Como ler livros incandescentes

‘Não importa se você está a ler J. K. Rowling ou Tolstói, Asimov ou Gonçalo M. Tavares, Orwell ou Machado de Assis. O livro é seu, a sensação é sua, as personagens atraem a sua simpatia, as páginas brilham e por vezes ofuscam os olhos como um sol incandescente.’ Trecho perfeito.

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Eduardo Jauch, em Quarta nota #7 — vende-se

Instigante. As três primeiras linhas. Levam longe… Do resto, só a pena. Mas a pena já não tem força, ao que parece.

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Geraldo Cunha, em «Nova antologia de contos brasilienses», duas breves narrativas de P. R. Cunha

Ótimos contos, objetivos, bens estruturados e com um sarcasmo peculiar sobre os atropelos da vida. Parabéns.

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Cristina, em Danças macabras

Uno siempre piensa en la muerte como algo lejano, e incluso como algo que “sólo le sucede a los demás”. Estamos envueltos en una sociedad en la que hablar acerca de la muerte sigue siendo un tema tabú.

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Nausíkaa, em Escritores solteiros casam-se com a própria obra

Excelente! Gosto muito de te ler, P. R. Cunha… Mais um escrito que nos puxa com a força gravitacional de um planeta. Quanto ao dito de Vila-Matas: hijos sin hijos de veras? Criamos os filhos para o mundo. O que são os escritos senão produções para o Outro, com efeitos imprevisíveis? Criações que se desenvolvem para além do criador. Apenas uma reflexão.

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AmagM, em Caderno de viagem: Évora entre ossos e feridos

Foi a primeira vez que li tal descrição da Capela dos Ossos… Gostei, pois vai de encontro ao que sinto. Évora é lindíssima.

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Lucas Lopes, em Autoestrada

Sinestésico. E se foi intencional, acertou em me causar agonia.

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Mãe de Ludo e Vico, em «And one more for the road», a solitude etílica

Mais um texto seu que me fez rir, refletir e esperar o próximo.

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Alan Barroso, em Álbum à vista

Amigo, que beleza de momento. Suas músicas são muito inspiradoras! Este ano comecei um curso técnico de música, estou aprendendo, violão e piano, saber ouvir-te é tão bonito, mas compreender-te é mais profundo. Musicalizar-se é transcender o estado do espírito, saber falar com a alegria e a tristeza dos dedos, que erram e acertam e erram e acertam como nós assim fazemos.

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Nuno Veríssimo, em O manipulador de vidas

O miúdo no quarto com o jogo de computador é o mesmo que o jovem millennial que vive o ‘aqui e a agora’, sem género, sem história, sem fronteiras… sem outra identidade que aquela que vai criando digitalmente nos perfis das redes sociais, infinitamente adaptável, mas infinitamente vazia também… não há carrinho de bebé antes de existir e não haverá nada mesmo depois de existir… vivemos um momento histórico interessante, alimentado a tecnologia e ideologia… seria interessante ler Nabokov sobre o novo milénio… Magnífico texto. Um abraço.

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África Vaidosa, em A certeza de que nada será como antes

A vida em etapas… Gostei.

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Jéssica Fernandes, em Caderno de viagem: os fantasmas fugiram de Sintra

E nos lugares mais desconhecidos, escondidos e simples, encontramos um sentimento extraordinário, inesperado, uma visão que fascina, que nos faz refletir, valorizar e descobrir o essencial, o grande.

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Salomão Rovedo, em Dois embarques

Cunha, sempre dás um viés lusitano à tua linguagem. Isso faz-me rir e pensar que a escrita fica bem fácil e feliz, assim tipo salada-de-frutas. Quer dizer: esse tempero lisboeta é ficção ou veia de raiz de lá mesmo? De qualquer modo, é invenção e fica bem.

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Ana Gimenez, em Sobre «VBA Rules» & Dulce Delgado

Me encanta leer tus escritos acá en tu blog, es como pasear en otro mundo…

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Douglas Rodrigues, em Pergunta # 4 — António Guimarães (editor de livros) em conversa com P. R. Cunha

‘Meu gênero sempre foi a mentira’. Genial, Paulo!

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Foureaux, em Manual de sobrevivência do escritor (um monólogo epistolar)

Uma carta intrigante e instigante, com a devida vênia para a pobre rima. Texto limpo que vai direto ao ponto, sem deixar de lado a delicadeza da inventividade… Gostei. Obrigado por partilhar!

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Marina López Fernández, em Evento de Teatro seguido de Garrafa de Leite/Conserva de Aspargo

!Braaaavo! Es una puta locura. Me encanta. Teatro del absurdo. Cojonudo. Muchísimas gracias por dedicármelo. Ahora lo sé: ‘Teoría del caos’. — Es mi sello. Un placer y un honor, P. Todo un verdadero honor.

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Paulo Paniago, em O dia em que conheci o Enrique Vila-Matas

Não apenas o texto está ótimo, trouxe-me memórias incríveis de Paraty e das loucuras de escritores, essa gente meio destrambelhada, mesmo que à margem do processo todo, como um poeta desencontrado que recita versos ruins e não nota. Os velhinhos, categoria da qual me aproximo a passos galopantes, são também uma gente curiosa, os mantenedores da leitura num país inteiro constituído de analfabetos, inclusive entre os principais governantes de todos os quadrantes. Os velhinhos, quero crer, certamente os responsáveis por ajudar a manutenção da roda da barafunda que são os eventos literários. Senti falta do seu texto a respeito da outra mesa de Vila-Matas, sozinho, a ler um texto com intenção de afastar os leitores (o que efetivamente conseguiu), queria suas impressões por escrito desse fenômeno, mas, enfim, não se pode querer tudo. E o que você deu é muito, muitíssimo.

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Elvira Lorenzo López, em Pergunta #13 — António Guimarães (editor de livros) em conversa com P. R. Cunha

El miedo a la incertidumbre, a no controlar nuestros pasos porque no sabemos a dónde nos llevan… Así se puede decir que la misión del escritor es ‘terrible’ por los mundos que es capaz de mostrar, siempre infinitos, siempre enriquecedores.

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João Maria, em Buraco negro (ou: toda a humanidade vive já há imenso tempo no exílio)

Gostei muito, mas muito. Adorava ver isto encenado cá em Portugal, Lisboa tem um circulo de produções independentes excelente. O conceito está tão refinado que dá borboletas na barriga, embora ache que não seja para qualquer público. Nem tem de ser.

Dois blocos com pensamentos concretos — Brasília

Quando Niemeyer foi convidado por Juscelino Kubitschek para desenhar os edifícios de Brasília, o arquiteto já tinha mais de meio século de planeta Terra. Deram-lhe oportunidade para construir uma nova morada para si e para milhares de brasileiros; um refúgio livre, cheio de curvas, onde o modernista poderia aproveitar os, como se diz, anos de glória. Porém, depois do exílio durante os 1960, Niemeyer jamais olharia para as traseiras brasilienses com a mesma ternura incondicional. Preferiu a França, as praias do Rio de Janeiro, o calor das belas raparigas cariocas. Vivera até aos 104 anos, a dizer adeus aos amigos, a sentir aquele vazio amargo de quem foi traído pelo filho transtornado.

Pistas e pontes a cair, patrimônio cultural da humanidade, estádio e aeroporto que custaram bilhões aos cofres públicos, rodovias esburacadas à moda superfície lunar, prédios sucateados, jardins artificiais, bibliotecas inacabadas, estantes sem livros, torre de televisão a rachar, funcionários públicos que se jogam do Congresso Nacional, cidade-automóvel que não suporta automóveis, novos (e velhos) militares a dar tiros para o alto, os ciclistas atropelados, as quadras fantasmagóricas, a W3, a L4, a L2, o calor, o barro, a terra vermelha — Brasília.

— P. R. Cunha