As memórias, as sutilezas que fazem de nós o que somos

É um pouco como aquela história do Robson que passava horas & horas conversando pacientemente com a mãe da Karina a sra. Francisca (pois nutria sentimentos sexuais pela Karina) queria fazer boa figura enquanto o próprio pai (o pai do Robson se chamava Alan) vegetava em casa já nos últimos estágios de um tumor no cérebro & cuja companhia nem o Robson nem ninguém nem os irmãos aturavam mais porque há tempos que Alan não falava coisa com coisa &tc. 

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Estaria mentindo se falasse que nunca pensei no que poderia ter-me acontecido se eu não tivesse aceitado a proposta, escreve Ernesto. Pois, assim, em retrospectiva, com o coração a bater como da praxe, tudo parece claro, simples — óbvio até. Mas quando estamos no olho do furacão, quando precisamos de agir sem o luxo de poder olhar pelo retrovisor, cometemos vilezas indizíveis, metemo-nos em ciladas. Depois, à guisa de remorso, tu começas a procurar culpados. E se cavares fundo o bastante, e se fores realmente honesto, encontrarás, enfim, o verdadeiro responsável: o teu reflexo.

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Gallardo completa quarenta anos e a esposa sugere-lhe que faça os exames gerais. Gallardo não vai ao médico há quase uma década, sente-se bem, pratica natação regularmente, alimenta-se com moderações. Está saudável. Mas mesmo assim segue as recomendações da esposa, que sempre lhe tratou com um bocado de esmero, e vai ao médico fazer os tais exames. O médico se demora numa chapa de raio-x que mostra o tórax de Gallardo. O médico coça a barbicha, pensativo, hummmmm, aponta para um local aleatório da chapa de raio-x: está vendo?, não gosto disso, não gosto mesmo… Cabisbaixo, Gallardo volta para o apartamento e agora tem as certezas de que está para morrer.

— P. R. Cunha

Aceleracionismos

Um certo desrespeito aos autores porque começo a ler-ler-ler-ler leio pela manhã leio à tarde leio à noite leio antes de dormir leio na cama leio em pé leio sentado leio à mesa do jantar leio na latrina leio no jardim leio papel leio pixels leio sons e de repente me surge uma ideia um esboço uma faísca e já não sei se isso veio de Camus ou Melville ou Gontcharóv ou Jean Paul se Mark Fisher ou Donna Haraway ou Deleuze se Guattari se Foucault ou Derrida talvez Spinoza quem sabe Baudrillard ou Althusser ou Badiou não sei se Heidegger ou Wittgenstein se Agamben se Barthes talvez Bataille talvez Judith Butler realmente não saberia dizer — sou muitos.

— P. R. Cunha

Advertência literária (uma parábola)

Depois de ter passado por muitas desventuras ao emprestar meus livros para outros seres humanos — e nunca mais ter visto as cores dos mesmos —, comecei a adotar drásticas medidas preventivas, à moda mosteiros da Idade Média. 

Na folha de rosto de todos os exemplares (principalmente nos meus Bernhards e nos meus Sebalds [tanto nos originais quanto nas traduções]) anotei isto:

Para aquele que roube, ou empreste e não mais devolva este livro a seu proprietário (a saber: P. R. Cunha), que se mude em serpente venenosa e sua mão o destrua; que se veja vítima de paralisia e se percam seus membros ou coisa ainda pior; que sofra dor à maravilha pedindo toda a sorte de mercês em altas vozes diabólicas e que não haja cessar para a sua desastrosa agonia até que cante dissoluto; que vermes lhe roam as entranhas como lembrança do Grande Verme que não morre, e que quando vá a seu final castigo, que as chamas do Inferno dos Ladrões de Livros o consumam para sempre.

Coincidência ou não, após inseridas essas pragas monásticas o número de «furtos» caíra, digamos, consideravelmente.

E que o amor possessivo pela leitura esteja sempre convosco.

— P. R. Cunha

Passeio niteroiense

Para a Eva de Oliveira Cunha, minha avó

Nas ruas de Niterói há todos os tipos de figura: o jornaleiro, o barista, o engraxate, o sorveteiro, amoladores de faca que tocam o hino dos clubes cariocas enquanto afiam lâminas, fugitivos, cartomantes, turistas desorientados, diplomatas, funkeiros, crianças a brincar de pega, banqueiros, senhoras que caminham lentamente, escultores, tecelões, médicos, ourives, juristas, pintores, monges, andarilhos, escribas, cardeais, polícias, lavradores, senhoritas que se exercitam ao som de Tom Jobim, acrobatas, escritores de literatura, cervejeiros, poetas, bajuladores, vendedores de chapéu, preguiçosos, afoitos, mentirosos, ciclistas, jogadores de xadrez, jogadores de dominó; e o Menezes, que parece não se encaixar em nada disso.

— P. R. Cunha

Comboio-fantasma a nenhures

Acordar dez minutos antes de o sol «nascer», abrir as cortinas, a fresta da janela que deixa entrar a atmosfera matinal. Arrumar a cama (menos de quarenta segundos). Primeira tarefa cumprida. Sente-se bem ao ver o edredom estendido, o travesseiro alinhado. O banho. Passar a bucha nos pés. Não esquecer de lavar atrás das orelhas. Escovar os dentes durante o banho. Fazer o xixi durante o banho. Enxugar-se bem. Depois, os alongamentos. Uma série branda de flexões, polichinelos, exercícios para o pescoço, para os quadris. Descer, preparar o café, a torrada com manteiga, separar a garrafa com um litro de água (beber [aproximadamente] três garrafas durante o dia). Regar as plantas, verificar se tudo certinho com a horta — colher as hortaliças maduras. Sentar-se à escrivaninha antes das 8h, organizar o material de pesquisa, a leitura de descompressão, manter a chávena de café por perto, as canetas (cinco cores diferentes: azul, vermelha, preta, verde, ciano), os blocos de anotações, respirar fundo, escrever:

As comunicações por escrito têm qualquer coisa de fantasmagórico.

Se escrevemos algo para alguém, a pessoa que recebe as nossas palavras lida com aquilo que já não é — mesmo diante dos imediatismos modernos. 

O telemóvel vibra para avisar que há mensagem disponível, o dono do telemóvel mostra-se ocupado. Ao abrir a mensagem antes de dormir, está a ler reverberações. Talvez o remetente tenha até mudado de ideia.

Se a correspondência é feita à moda carta-de-papel, os fantasmas ganham novas intensidades. 

Num exemplo grotesco: poeta apaixonado envia poema para a amante; a moça recebe os versos dias depois; por motivos obscuros, ela demora para responder; a espera enche o coração do poeta de angústias; poeta perde as esperanças, e quando finalmente recebe a carta da moça, ele não a ama mais.

A amante tornara-se um espectro difuso, as palavras carinhosas que ela escrevera são como imagens psicografadas.

Assim como quando olhamos para o céu noturno e observamos a luminosidade de incontáveis estrelas que há séculos deixaram de brilhar. Estrelas moribundas, portanto.

A história do mundo nos mostra que quando uma pessoa é boa (i.e.: correta, dócil, prestativa, amistosa etc.) durante, digamos, 90% das vezes, mas, numa altura isolada comete deslize qualquer, ela será rotulada de falsa/enganadora/hipócrita: a máscara caiu, sabia que tu não eras aquilo tudo, sabia que pisarias na bola.

E se, ao contrário, a pessoa for ruim (i.e.: estúpida, hostil, ignorante, sem caráter, violenta, etc.) durante, digamos novamente, 90% das vezes, mas, numa altura isolada comete um discreto ato de bondade, não faltará quem, com os olhos lacrimejando, garanta: estão a ver?, até que o gajo não é assim tão mau, há esperança.

Expectativas, síndrome de salvação, ninguém nunca é bom o bastante, ou ruim o bastante: eis o tango, a bossa nova.

Bossa_nova_dance_pattern

Se estamos diante de uma fotografia, ou mesmo numa cerimônia fúnebre, estamos a lidar com vulnerabilidades, fantasias.

A mãe segura o retrato do filho, um criminoso terrível que fôra preso na semana anterior. A única voz ativa nessa cena é a perspectiva da mãe. O criminoso da foto não se manifesta. É uma estátua, um espectro de luz. A mãe pode (e irá) reconstrui-lo como quiser.

Do mesmo modo, aquele pai que em vida cometera grandes atrocidades, agira de forma abrupta, irascível e desonesta, recebe homilias enaltecedoras enquanto deitado dentro do caixão, o famigerado paletó de madeira. A figura pacífica, distante, pálida, frágil (os mortos não machucariam vivalma)… numa reviravolta difícil de explicar, os filhos, que antes tiveram de se defender do déspota, agora ajoelham-se diante do cadáver maquiado, o sacro boneco.

Há, enfim, uma característica que as fotografias e os cadáveres compartilham: o silêncio. O fotografado é mudo, o morto nem se fala. E se quisermos aproveitar um pouco das regalias que eles, sem esforço, conquistaram, talvez fosse melhor imitá-los: não dizer mais nada.

— P. R. Cunha

Running

Helena veste o casaco, o casaco é vermelho, grená, tipo a cor da camisa de futebol da Associazione Sportiva Roma, Helena não assiste ao futebol, de forma que essa comparação cromática não faz muito sentido, a não ser que ela passasse na frente de uma vitrina especializada & lá estivesse exposta a camisa da Associazione Sportiva Roma num daqueles manequins sem face que assustam as crianças propensas a ideias mais fantasiosas, «veja, é a mesma cor do meu casaco», dir-se-ia, no entanto, & isto é importante, teria de ser a camisola estilo home, uniforme principal, pois o segundo modelo é branco, e aí mesmo que a comparação não iria fazer sentido para a Helena, que achara o tom do casaco vermelho-grená agradável, & agora veste-o para sair às ruas vazias da própria cidade à laia de praticar o running com o Sérgio, ex-namorado da irmã da Helena, ao que esta prática desportiva não deixa de ter também uma pitadinha de desconforto, de inadequação, de travessura, de ousadia, a ver se a modernidade está mesmo preparada para uma guinada dessas (pensamento dela), etc., ainda mais se levarmos em consideração que Sérgio/irmã da Helena só oficializaram o término do relacionamento na tarde anterior, aproximadamente às 16h32, pouco antes da consulta oftalmológica da Helena, cujo grau (miopia & astigmatismo) aumentara menos do que se esperava, o que não vem ao caso, pois agora ela & Sérgio correm na berma da outrora movimentada avenida central da cidade, o clima deleitoso, o vento refrescante do início da noite, o suor que começa a escorrer pelas têmporas, o Sérgio que de quando em vez olha para o rosto da Helena, mas Helena está compenetrada na berma da avenida, então Sérgio desvia o olhar, & Helena que olha para o rosto do Sérgio, que está compenetrado na berma da avenida, no hidrante amarelo pelo qual ambos passam a uma boa velocidade, no exato momento em que Helena sente umas cócegas estranhas na região da cintura, algo que lhe pinica deveras, & ela começa a se coçar, tenta ser discreta, mas ninguém consegue praticar o running/coçar-se/ser discreto, & quando ela coloca a mão dentro da roupa, percebe que não retirara a etiqueta com o preço do casaco, etiqueta grande, do tamanho de uma carta de baralho, com a palavra «LIQUIDAÇÃO» destacada com marca-texto amarelo, & Sérgio, constrangido pelo próprio voyeurismo, limita-se a sorrir sem mostrar os dentes.

— P. R. Cunha

Trânsitos

Mulher maia do século doze
contempla a imponente escadaria
da Pirâmide de Kukulkán
«El Castillo»
ela sorri
sente-se orgulhosa do próprio povo
que construção magnífica
não percebe que quase
novecentos anos depois
homem holandês
tira fotografias
do mesmo templo
de Yucatã
& o que antes impunha respeito
poder & adoração
agora se faz ruína
paisagem para o álbum
de lembranças digitais

Cada dia
cada nuvem
cada chuva
cada neve
cada lua
cada noite
— a estranha renovação
a certeza de que
os impérios não perduram

Nem os maias
nem os incas
nem os gigantes
de pedra vulcânica
da Isla de Pascua

Um estado confuso entre
realidade & maravilhamento

Aceitar o facto
como diria um antigo
de que todas as coisas
são passageiras
eles também
ou melhor
nós também
em quedas

Mundo transitório
mudança ininterrupta
&tc.
algo havia
mudado
para sempre

Não respires a poeira lunar

Começas com uma imagem
um plano à cabeça
mas escreves com rapidez
de acordo com os teus impulsos

Causa & efeito
evento (A) no passado
gera evento (B) no presente
que afeta o evento (C) no futuro

A –> B –> C

O tempo segue
numa linha estreita
de (A) para (C)
o futuro incerto
depende das ações
do passado/presente

Como aquele casal
taciturno
sentado no banco do parque
enquanto na superfície da lagoa
vê-se uma mão
a chacoalhar.

— P. R. Cunha

Acidental

O afoito e desajustado Raul está à portaria do apartamento de Milena. Ele segura um buquê de flores que colhera sem grandes pretensões no meio do caminho: conjunto amorfo de alamandas (Allamanda cathartica) e cinerárias (Senecio cruentus). No jantar de ontem, Raul mastigou qualquer coisa pontuda que arrancara-lhe um pedaço considerável do segundo pré-molar esquerdo. Ele olha para os dois lados da rua, aperta o botão do interfone, e com a ponta da língua começa a pressionar a cratera afiada do dente quebrado. O interfone faz então barulho de rádio sem frequência e uma voz feminina diz: é quem? É Raul, ele responde. A porta estala e se abre. Raul sobe.

— P. R. Cunha

Armário embutido

Tendo voltado de um longo & ardiloso dia de trabalho, Sebastião é recebido pela filha pequena com os beijinhos & os abraços & ele pergunta: mamã, onde está?, a filha diz que mamã está no quarto, & antes de Sebastião abrir a porta do quarto eis que surge a mamã; ela aparece para recebê-lo com assaz de alegria, alegria desmedida, pensou Sebastião, que há tempos não notava um sorriso no rosto da esposa, talvez nos primeiros anos de casamento, nos bons primeiros anos de casamento, mas depois ela, ou melhor, à guisa de sinceridade, ambos perderam o hábito do sorriso, ao que a mamã fechou a porta atrás de si, empurrara o marido para o corredor, disse-lhe que oh!, foi pega de surpresa, não imaginava que ele fosse chegar tão cedinho, que ela mesma tivera um dia longo & ardiloso de trabalho, que o quarto estava uma bagunça, percebes?, que talvez fosse melhor ele, Sebastião, aguardar lá na sala, ao que ele disse: tudo bem, vou apenas colocar a minha maleta no armário & espero lá na sala com a filhota, eles poderiam brincar de aviãozinho, Sebastião levantaria a filha & fingiriam que estavam a flutuar no céu azul da Galícia, & a esposa de repente começara a suar, uma transpiração fria, descontrolada, segurara na alça da maleta, garantira que ela mesma guardaria a maleta no armário, não te preocupes, não havia mesmo a necessidade de ele entrar no quarto, que estava uma bagunça, ela insistira, uma baderna, não gostava que visses aquela algazarra, ela disse, mas Sebastião deu de ombros, fez que nem era com ele & entrou no quarto mesmo assim & abriu a porta do armário mesmo assim & lá dentro guardara a própria maleta como sempre fizera ao chegar da firma.

— P. R. Cunha

Depoimento de um náufrago

«Desejava, para satisfazer a curiosidade de muitos, relatar como foi que passei duas noites à deriva no meio das águas turbulentas do oceano Atlântico ao lado de tubarões. Aqui não colocarei mais do que aquilo que vi, senti e me pareceu.

Na segunda-feira, 14 de outubro, parti para uma breve viagem marítima que, quis o destino, levou-me aos confins do mar sem que, de início, eu me apercebesse do que estava de facto a acontecer. Se na minha discreta despedida uma tarde soalheira desejava-me os melhores presságios, logo o meu veleiro (Frederico, cujo nome é homenagem ao meu falecido pai) estava no meio de chuvaceiros torrenciais e medonhos relâmpagos que decapitavam as nuvens carregadas em redor. Fez o capitão e único tripulante (este que agora vos fala) todas as diligências para contatar terra firme, o que não fora absolutamente possível, visto que os equipamentos de rádio mostravam-se já avariados pelas intempéries da tempestade — isto é: encharcados de água salgada. O receio do pior encolheu-me à proa do veleiro quando observei uma monstruosa onda de uns nove metros de altura a se formar atrás da embarcação e a cair sem piedade sobre o Frederico. A fúria da parede marítima foi mais que o suficiente para despedaçar o veleiro, que mais parecia um brinquedo de miúdos que se espatifara no chão. Vi-me completamente aturdido no meio dos destroços e consegui — mesmo hoje não saberia explicar ao certo como — reunir forças para abraçar o leme que boiava de forma absurda perto do meu ombro esquerdo. O pedaço de madeira era tão instável que bastava um pequeno descuido de minha parte para ser sugado às profundezas, até ser lançado novamente à superfície ondulante do oceano. Quando as nuvens se dissiparam, percebi com pavor que o sol se escondia atrás da linha do horizonte e a noite glaciar trazia as intempéries da praxe. Depois que minhas pupilas se acostumaram à escuridão, cada movimento errático da água trazia-me a certeza de que algum animal marinho estava a se aproximar para ter-me de banquete. Minha vontade era ceder de uma vez por todas ao cansaço e deixar meu corpo cair até ao fundo. Mas a madrugada passou e eu continuava debruçado sobre o leme, sem saber o que pensar da situação. Como que por instinto, tirei minha camisa de manga longa para amarrar meus punhos no pedaço de madeira, juízo que acabaria por salvar a minha vida. Os raios solares castigavam-me sem piedade quando enfim notei a presença de barbatanas cinzentas e pontiagudas, pareciam o estabilizador vertical de um aeroplano. Fechei os olhos e talvez o terror de morte desregulara a química do meu cérebro, pois passei a ter alucinações com o rosto do meu velho pai. A boca dele mexia-se lentamente, aconselhava-me um afogamento cauteloso, sem histeria, uma despedida honrosa, digna. Devo então ter caído num sono profundo, já que a partir do incidente das barbatanas nada me vem à memória. No dia seguinte, quando abri os olhos, as mãos nodosas de dois pescadores que estavam à procura de lagostas não muito longe dali puxaram-me com dificuldade e caímos os três na popa do pesqueiro. Ainda confuso e perplexo, perguntei sem motivo nenhum que horas eram, em que dia estávamos. Os pescadores permaneceram em silêncio, como se não me compreendessem. Fitei a bandeira que tremulava no mastro e entendi o porquê: eram finlandeses. Enquanto o pesqueiro voltava para a costa, larguei minha cabeça na balaustrada de metal e lembrei-me do rosto do meu pai, as rugas desfiguradas, a voz sinistra, a travessia entre a vida e a morte pela qual ele passou, e pela qual, um dia, eu também passarei, mas não agora, não dentro das mandíbulas de um tubarão.»

— P. R. Cunha