Bonatti, astrofísico

Hipótese: à maré
Interferência —
propriedade
das ondas.

Bonatti, nascido a 14 de outubro de 1965, frequentara a Universidade de São Petersburgo e tornara-se um astrofísico de renome. Parece que era uma pessoa verdadeiramente encantadora até, como se diz, perder os botões. Bonatti está agora ao terraço do laboratório doméstico, encosta-se na balaustrada e fica a olhar para o próprio telescópio — está com medo de apontá-lo para a Lua e, com esse simples gesto, iniciar uma irrefreável reação em cadeia. «Se eu apontar o telescópio para a Lua», pensa Bonatti consigo mesmo, «minha esposa fica irritada, com a irritação da minha esposa o vizinho também se aborrece, com o aborrecimento do vizinho as luzes são acesas, por causa da claridade o ladrão se assusta, por causa do susto do ladrão os cachorros latem, os latidos acordam a velha senhora do bairro, a velha senhora tem sede e escorrega da escada, com a morte da velha o neto marceneiro entra num período de luto, por causa do luto do marceneiro a escrivaninha que eu havia encomendado não fica pronta», e assim por diante, até ao infinito. Bonatti ajeita os óculos sobre o nariz pontudo, faz um aceno de cabeça, como que a enfatizar a veracidade de suas observações, e pergunta-se novamente: «Devo mesmo apontar o telescópio para a Lua?».

— P. R. Cunha

Tripulante de convés

Em Niterói conheci um velho marinheiro que acabara de chegar do noroeste de Inglaterra. Confessou-me, não sem um certo embaraço, que não tinha pretensões de se meter novamente numa viagem transoceânica, que ali estava bem, sentado a jogar o baralho com os amigos, em terra firme. Usava o cabelo grisalho penteado para trás, segurava as cartas de um modo canhestro e expressava-se, assim me pareceu, com uma cortesia de antigamente. Meses solitários ao mar, disse o marinheiro, solidão que destrói a alma. A marinhagem se faz presente, mas você nunca consegue fugir de um terrível isolamento. O oceano e o nada, ele disse ainda, você e o nada. Solitude de morte que lhe faz refletir se tem mesmo o direito de estar, ou melhor, de ser sozinho. O navio, ele continuou, as ondas, observar os abismos do mundo que caem para o horizonte sem fim. Mas o gelo, disse-me finalmente o marinheiro, glacial que lhe deixa vazio, disso a literatura marítima não pode jamais esquecer.

— P. R. Cunha