Miniperfil da persistência

Paul só queria ser artista.

Mas os professores da escola diziam que ele não tinha talento; e os pais costumam acreditar nos professores da escola. Os de Paul proibiram-no de mexer nos pincéis. Artista? Artista coisa nenhuma, trabalharia no banco, com transações monetárias, tal e qual o papá.

A título de sinceridade, os primeiros desenhos de Paul eram mesmo bastante ruins. Pouca emoção, estabanados, toscos, nem faziam sentido. Isso, contudo, não o desanimava. Às escondidas, Paul pintava. Quadros-atrás-de-quadros, dia-após-dia.

Numa altura, algumas telas pareciam se formar, as paisagens não eram apenas borrões desalinhados. Começava a surgir qualquer coisa. Porém, aos olhos dos críticos, Paul continuava a ser insuficiente. Quadros terríveis, disseram, Paul medíocre — falta-lhe talento, falta-lhe tudo.

A morte, como se sabe, sempre chega. Então veio a foice e jogou o papá de Paul à cova. O filho herdara muito dinheiro.

De repente, não precisava dar satisfações, nem lidar com o autoritarismo paterno. Aliviado, livre, Paul pintava cada vez mais, todos os dias, sem parar, a pintura tornara-se definitivamente a sua vida.

Até que aconteceu.

Após centenas, ou melhor, milhares de obras inconstantes, de quadros rejeitados, Paul enfim encontrara a própria voz, o próprio estilo — aprendera a pintar. E como se isso não bastasse, ele decidira ir além, superar-se, ultrapassar toda uma época, transformar-se em história, referência, construir novas formas de expressão. Paul nunca mais seria o tipo tímido e irascível que rabiscava às sombras.

Dali em diante, todos o conheceriam como Paul Cézanne, o pai da Arte Moderna.

— P. R. Cunha

O velho e imprevisível Hemingway

Aprendi a gostar de literatura com as coletâneas de contos de Ernst Hemingway. Minhas iniciações ficcionais. Passava as tardes (e noites, e madrugadas) a ler, a descobrir, a redescobrir, a me inquietar com aqueles excêntricos lenhadores perdidos no meio das florestas estadunidenses. Até que o tempo se alastrou, amadureci, encontrei outras vozes, outros bosques, escritoras e escritores que conversavam comigo num idioma mais de acordo com os meus novos interesses. 

Bom… não é mesmo verdade o que dizem: que a primeira obsessão nunca é a última obsessão?

Ainda consigo, entretanto, adequar-me aos ensinamentos do velho Hemingway, às dicas literárias que ele compartilhara com amigos, críticos e com quem mais quisesse ouvir. O Hemingway que escrevia e pensava a respeito do processo de escrever, da fazenda criativa. Por exemplo (e aqui parafraseio): trabalhar e datilografar as histórias em pé, verticalmente, fluxo, escutar o barulho da máquina de escrever, tac-tac-tac-tac, fazer os dedos dançarem ao som dessa melodia estrondosa, parar subitamente no meio de uma frase interessante, continuar no dia seguinte, a partir dessa frase interessante etc. E, antes de tudo, identifico-me com as angústias que Hemingway costumava sentir — como aquele terrível pavor de esgotamento, de não se ter mais nenhum assunto, de chegar à altura em que o poço se mostrará vazio, inutilizado, irrelevante.

Para Hemingway, escrever era ter fé — não uma fé religiosa, mas uma fé laica na própria capacidade cerebral. Acordar de manhãzinha, aguardar até que as ideias voltem, torcer para que não tenham se rebelado, averiguar se a sanidade não o abandonara, daí escrever, escrever, escrever até ao esgotamento físico/mental e, de novo, antes de dormir, a fé: a fé no recomeço, esperar que a próxima manhã também não seja a última.

Hemingway constantemente apontando para si o cano da espingarda, numa espécie de roleta russa literária.

— P. R. Cunha

Temporários

A obsessão dos maias pelo tempo levou-os a construir sofisticados observatórios para determinar estruturas de continuidade — padrões que hoje em dia, não sem um automatismo distraído, podem ser artificialmente especificados pelas entranhas de um qualquer relógio de pulso. Esses nativos americanos observavam com destreza o ambiente que os rodeava e assim procuravam estabelecer marcos que permitiriam análises importantes do tempo, ao qual sentiam-se submetidos. O império que olha para o céu e pergunta-se o que há para além, o que está a preencher os espaços vazios entre as estrelas, qual o propósito da vida.

Eles não apenas registravam com minuciosidade os intricados ciclos de corpos celestes, como também acreditavam que tinham por obrigação auxiliar o Sol, criador do mundo, a manter a fábrica do tempo funcionando. De facto, as origens dos sacrifícios humanos realizados por essa antiga civilização, sobre os quais a historiografia muito já discutiu, vêm justamente da vital necessidade de alimentar com sangue o insaciável apetite dessa entidade cronológica, que, como sabemos, antes de desaparecer ao abismo do horizonte veste-se de vermelho. Dia e noite, luz e trevas, um presente que a qualquer momento poderia deixar de ser. Os maias encaravam constantemente a possível morte de tudo e um dos maiores símbolos dessa reverência é a Pirâmide de Kukulkán (El Castillo), construída em alguma altura entre os séculos VIII e XII na antiga cidade de Chichén Itzá. Tudo ali remete aos caprichos do tempo: 91 degraus, quatro lados (4 x 91 = 364), mais um último degrau que leva ao cimo — 365. Eficiente calendário arquitetônico a representar as passagens, as jornadas tirânicas que ao fim e ao cabo arrastam tudo pelo caminho.

Incertezas sobre a continuidade ou não do mundo modificaram-se à medida que a humanidade desenvolveu para si equipamentos mais precisos que auxiliaram astrônomos na tarefa de desvendar alguns dos mais estranhos mistérios do cosmos. No entanto, a era do controle absoluto, do total entendimento desse rio que corre adiante e é feito de acontecimentos, como dissera Marco Aurélio, parece longe de se concretizar. A ciência moderna orgulha-se de possuir relógios que funcionam baseados nas propriedades do átomo, e mesmo esses quase infalíveis mecanismos não são capazes de explicar o que está a acontecer quando dizemos o tempo passa. 

O tempo, coisa estranha que não se deixa apanhar facilmente nas malhas do nosso intelecto — o foi e não é mais, o será e ainda não é — continua a intrigar deveras. Essa abstração que atravessa os séculos, que desafia o bom senso daqueles que tentam elaborar discurso coerentes a respeito dos chamados deslocamentos para o futuro desconhecido.

De acordo com a mitologia grega, Cronos seria o deus primordial do tempo, que rege todos os destinos e a tudo devora. Nascido de Gaia (Terra) e de Urano (Céu) — a quem, ainda segundo a lenda, Cronos destronaria com um certeiro golpe de foice. O caráter destrutivo dessa perturbadora divindade que casara-se com a irmã Reia é intensificado depois de os progenitores terem-lhe garantido que o seu destino era mesmo ser superado por um dos filhos.

O poeta Hesíodo conta em La Théogonie que o poderoso Cronos devorava sem piedade as próprias crianças mal elas saíam do ventre da mãe, com o único propósito de impedir que qualquer outro brilhante descendente do Céu obtivesse o privilégio de reinar sobre os Imortais. Conta-se que conseguira engolir todos, exceto Zeus, «substituído por uma pedra enrolada num pano, amparado pela enorme Terra e mantido em segurança na vasta Creta», bem longe da voraz ira paterna. Hesíodo explica ainda que, mais tarde, Zeus, seguindo os conselhos de Prudência, levara a Cronos uma certa substância laxante que o fizera primeiro vomitar a pedra que tinha engolido e, depois, uma a uma, todos os filhos que jaziam dentro daquela gulosa barriga. Com a ajuda dos irmãos libertados, Zeus — figura invencível e a quem as preocupações jamais o atormentavam — supera Cronos e despoja o furioso pai de todos os privilégios divinos.

Parece significativo que nas antigas narrativas gregas pais e filhos se relacionem amiúde de forma tão tempestuosa, vingativa, cada um a querer destronar o outro, sem nem ao menos importar-se com a possibilidade de jogar o adversário familiar às profundezas do mundo subterrâneo, cujo símbolo mitológico é representado por Érebo, descendente direto do Caos. A crer no mito, Caos — personificação do vazio, do abismo insondável — gerara sozinho as trevas: Érebo e Nix (Noite), que juntos se opõem à luz. O primeiro, especificamente, designa as trevas infernais, o crepúsculo. A descendência desse deus das obscuridades é imprecisa, mas especula-se que da união entre Érebo e Nix tenham surgido os elementos que, não por acaso, a literatura da psicologia moderna costuma associar às condições melancólicas: Phobos (medo), Mors (morte), Invidentia (inveja), Keres (miséria), Deimos (terror), e por aí adiante.

Olhar para o céu e questionar-se, portanto, sobre esse fluir dentro da eternidade, o surgir e o desvanecer das estrelas, do Sol, o amanhecer e o anoitecer — movimentos que trazem vida, levam à morte. Quando a espécie humana compreende que, em matéria de tempo, temos apenas um bilhete de ida, e que esse tempo raramente passa como gostaríamos, volta então as atenções para o longe, foge para o infinito repleto de matéria escura. 

Em agosto de 1877, o astrônomo Asaph Hall apontou para Marte o telescópio de vinte e seis polegadas do Observatório Naval dos Estados Unidos e ao cabo de grande esforço encontrara os objetos que há muito procurava. Os satélites naturais do Planeta Vermelho não eram luas grandes como a da Terra; na verdade, nem ao menos chegavam a ser arredondados — tinham um formato exótico, achatado, pareciam batatas descascadas por algum cozinheiro distraído.

É possível, no entanto, imaginar a euforia desse obstinado explorador cósmico ao descrever os últimos detalhes da própria descoberta, ruminando a respeito de como deveria batizar as luas marcianas. No topo de um diagrama caprichosamente elaborado numa folha amarelada está a palavra «Marte» seguida por esta lacônica descrição com letras cursivas: deus romano da guerra, da carnificina, da impulsividade. Embaixo, dois objetos amorfos representam as luas recém-descobertas, e, em destaque, pode-se finalmente ler os nomes escolhidos pelo astrônomo norte-americano: FOBOS e DEIMOS  irmãos gêmeos, anota Hall, que instigavam em campos de batalha a covardia e o pavor no coração dos inimigos.

O planeta da guerra com os seus pequenos guardiões da perturbação — e o inevitável destino desta excêntrica família de astros. Estudos posteriores constatariam que Deimos, a lua menor, está a se afastar do campo gravitacional de Marte, enquanto Fobos se aproxima cada vez mais da superfície. Deimos fugirá para uma longa e solitária jornada pelo cosmos; Fobos em rota de colisão com o planeta que lhe deu abrigo durante milhares de anos. Terror do abandono. Medo de se desintegrar. 

Marte agora é o patriarca autoritário que observa, espera, indiferente, o fardo agonizante dos seus súditos condenados há tempos.

— P. R. Cunha


Moons – from Mars

Deixemos o sr. Hampton descansar em paz junto aos amigos de papel

Durante mais de quatro décadas o sr. Hampton dedicara-se à literatura, como se diz, com afinco. Lia cinquenta, sessenta, às vezes noventa livros por ano. Portanto, não é difícil de perceber que a vida social do sr. Hampton — isto é: estar com outras pessoas algures — sofrera danos irreparáveis por conta dessa predileção por personagens feitos de tinta e celulose. O mecanismo de autodefesa desenvolvido pelo velho Hampton consistia em explicar que, quando abria uma obra literária, viajava ao longe, nunca estava só. E que a única diferença, ele dizia, a única diferença entre o turista livresco e o turista que pavoneia noutros cantos da esfera terrestre é que este corre riscos desnecessários, enquanto aquele escapa sem sair do lugar. Para o sr. Hampton, trancar-se, ler e libertar-se durante o processo era um subterfúgio contra os absurdos da realidade como qualquer outro. Se estamos lá fora — ele escrevera certa vez para um dos sobrinhos —, estamos sempre à mercê da violência, do machismo, do genocídio, do racismo, da tristeza, da dor, da estupidez e ainda podemos levar uma bala no pulmão a qualquer instante. Nenhum ser humano, ele acrescenta ainda, tem condições de encarar essa bagunça toda por muito tempo. Daí cada um criar o próprio esconderijo fantástico, desenvolver rotinas estabilizadas. Há quem prefira mergulhar nas séries detetivescas, outros vão ao cinema a cada dois dias, outros tantos assistem às novelas, ao futebol, fuxicam as crises existenciais dos famosos, empanturram-se de remédios tarja preta, consomem drogas pesadas e assim por diante. Basicamente, resumia o sr. Hampton, andamos por aí afora a viver várias coisas, menos a bendita da realidade.

— P. R. Cunha