devaneios da própria máquina de escrever (episódio #6)

imaginem um objeto de metal, retangular, vinte & oito centímetros de largura, trinta de profundidade. altura: oito centímetros. é verde, possui teclas com letras, números & outros símbolos próprios para a construção de textos. 

é a minha olivetti lettera.

conta a narrativa desta família que os pais do meu pai conheceram-se em niterói no início do século vinte, ocasionalmente, enquanto meu avô tentava manobrar a própria charrete & minha avó voltava de uma quitanda. já os pais da minha mãe apaixonaram-se na cidade do rio de janeiro depois de muitas investidas do meu avô, que trabalhava aos correios & anotava bilhetinhos secretos para a minha avó, na altura uma estudante de direito.

charrete, quitanda, carteiro, bilhetinhos românticos de papel: termos que de certeza denotam nostalgia. & o faço de propósito. 

obviamente que todas as odes ao passado possuem manchas estranhas: desigualdades sociais, despreparo para um escopo enorme de doenças, guerras, nepotismos, privações & não só.

gostava, no entanto, de focar no critério tecnológico.

as pessoas tinham essa vida desplugada, sem wi-fi, iam de charrete para todos os sítios, & ainda assim se apaixonavam, & trabalhavam, & sobreviviam. davam conta.

ontem observei com atenção um pai que tirava o telemóvel das mãos do miúdo, & quase tiveram de chamar o serviço social (ou o exército) para conter tamanho berreiro. exageros à parte: o choro do menino parecia uma sirene anunciando ataques nucleares. 

mas era só um telemóvel.

reflito aqui diante da minha olivetti se não estaríamos nos tornando o grupo de humanos mais mimado que já pisara neste planeta. 

sair de casa é para alguns um estorvo incontrolável. não se pode mais entrar numa cafeteria & pedir qualquer coisa sem os ruídos de fundo: «aqui tem wi-fi?; ei, moça/moço, a internet está lenta!; esta cadeira é tão desconfortável, a da minha casa é bem melhor, sabes». 

& mesmo quando tudo funciona direitinho, quando as mensagens do whatsapp percorrem distâncias inimagináveis quase à velocidade da luz, mesmo assim ainda conseguem encontrar defeitos — ou a operadora é gananciosa demais, ou a bateria do telemóvel descarregou (um absurdo ela durar apenas 12h!, sem fio, sem nada), ou é porque o aparelho esquenta demais, ou a tela touchscreen está engordurada demais, ou a companhia humana é enfadonha demais…

termino esta reflexão com uma imagem. ou melhor, com uma espécie de máquina do tempo. ressuscito o meu avô paterno, trago-o (de charrete!) para este brilhante século das comodidades; deixo que ele passe uma tarde aprazível dentro de um shopping mall — mas antes revisto todos os bolsos do vovô, à procura de objetos que, num momento de total desespero/angústia, possam tentá-lo a colocar termo à própria vida.

— p. r. cunha

Cristas temporárias (como um relógio de Dali)

Nos anos 1990 meus pais trouxeram de Portugal um daqueles galos do tempo — que a revista Ípsilon chamara de «objecto (quase) obsoleto». O nosso também ficava em cima da televisão. Papai gostava de deixar a janela aberta para que o bondoso galo avisasse possíveis tempestades. Muitas vezes mudava-se de cor, mas não acertava na meteorologia. Minha mãe, que aprendera a admirar as façanhas do galito del tiempo, metia a culpa nos filhos. Pelos vistos, os nossos dedinhos oleosos a tocar na escama sensível do meteorologista afetavam sobremaneira a capacidade do galo de prever se chuva ou sol.

* * *

Quem passeia à tardinha pela Quadra Interna 28, mais especificamente ao conjunto 2, consegue observar monsieur Dimanche trabalhando em alguma pintura impressionista. O ateliê do belga naturalizado brasileiro fica ao rés da rua e uma enorme fachada de vidro oferece aos transeuntes um honesto espetáculo pictórico: Dimanche a mover cores com tanto à vontade e confiança. A claridade opaca do entardecer realça o cenário, além de emprestar um estilo descompromissado às pinturas. Dir-se-ia ainda que os pincéis fazem parte da companhia de dança do teatro Bolshoi, tamanha a leveza de toda a operação. Certa feita tomei coragem e aproximei-me da vidraça. O pintor descansara os óculos arredondados no compartimento do cavalete e ofereceu-me uma chávena de café. Madame Dimanche trouxe-nos também uns docinhos apetitosos. O pintor sorrira e tirara da estante empoeirada o meu Paraquedas – um ensaio filosófico: livro taciturno, mas um bom livro, ele disse. A biblioteca contava ainda com edições raras de Charles Dickens, Ovídio e Sêneca. Enquanto tomávamos silenciosamente o café, olhei em redor: uma data de telas com pontilhados milimetricamente dispostos, como se o ateliê fosse uma espécie de alucinação onírica. Sobre a escrivaninha de Dimanche, que (um pouco como Man Ray) escreve o que não deseja pintar e pinta o que não pode escrever, havia um desgastado galo do tempo português. Dimanche tocara nos meus ombros e num tom divertido dissera: às vezes funciona, outras tantas vezes não funciona.

— P. R. Cunha

Mar morto

Por vezes cai-se numa estranha cilada nostálgica, a tal busca da repetição daquilo que já se passou. Uma viagem ao estrangeiro deixa-lhe marcas, o tipo regressa para casa com a certeza de dever cumprido. Ou encontrar-se com uma pessoa adorável e têm lá aos Andes chilenos um fim de semana revigorante. Pouco a pouco essas satisfações desvanecem, o cérebro busca recompensas, quer passar pelo mesmo, para sentir-se o mesmo. Daí volta-se ao estrangeiro e a jornada não é nada parecida com a anterior, a mala foi extraviada no aeroporto, a recepcionista do hotel pede desculpas porque a reserva não fora devidamente registrada no sistema, o passeio ao parque no centro da cidade — que há cinco anos tinha-lhe sido um dos mais encantadores — é um terrível desastre, chove o tempo inteiro. Algo análogo se passa quando voltam aos Andes, ela não é mais a mesma, ele tampouco, a neve bloqueia a estrada e ambos ficam horas dentro de um automóvel miúdo à espera de resgate. Não seria de todo estranho perguntar-se os porquês dessa obsessão pelo retorno. Como se a memória apenas hibernasse num cantinho algures, a bastar uma simples pesquisa aos arquivos neurológicos para sentir qualquer coisa parecida com o que se sentiu numa altura da vida em que as coisas estavam a andar direitinho. A realidade, contudo, insiste em mostrar que navegamos através de um gélido oceano do esquecimento, da indiferença e, principalmente, das mudanças. Porque as ondas nunca batem à praia com o mesmo formato. Não raro, quando o sujeito se depara com essas inquietações percebe que um dia os momentos agradáveis pelos quais passou modificar-se-ão, eventualmente desaparecem. Resigna-se: vou-me embora com as minhas experiências e logo ninguém dará por isso.

— P. R. Cunha