À cerimônia de casamento — por vezes acontece de o noivo não aparecer

Tudo o que posso falar é o que eu vi. O sentimento interno desta ou daquela pessoa torna-se um exercício de subjetividade, e não é do meu feitio meter-me em especulções. Como definir a alegria alheia, ou a melancolia sentida por um outro alguém, e o que dizer do desespero? 

Ainda que a informática constantemente se manifeste a favor de mecanismos telepáticos, o controle do cérebro humano, leituras de pensamentos (etc. etc. etc.), tal tecnologia ainda não se faz disponível — pelo menos não para mim, este mero mortal que sofre de enxaqueca. 

De modo que, repito, tenho de confiar nesses dois globos oculares e, sem misticismos, na minha intuição. O itálico a sugerir qualquer coisa de ambíguo. 

Estamos a tratar de um casamento. Do casamento do meu Melhor Amigo. Não tenho carta de motorista e meu pai teve de me levar até à cerimônia na carrinha vermelha que o pessoal do nosso rancho costuma utilizar nos dias de chuva. O rancho foi uma espécie de herança que meu pai recebera de certa tia cujo nome não me lembro. A família dele é grande. Antes de desaparecer completamente, minha mãe chegou a levantar sérias questões a respeito dessa «tia» (as aspas também podem sugerir ambiguidade [e não só]: ironia, sarcasmo, deboche). 

Acontece que minha mãe achava, ou melhor, tinha a certeza de que meu pai andava por aí a dar uns amassos numa donzela rica E INGÊNUA (negrito e maiúsculas são de mamã).

A donzela rica teria morrido de causas misteriosas e, à laia de discrição, a família da moça (segundo a hipótese elaborada por mamã) teria oferecido o rancho supracitado ao meu pai, que, em troca, prometeria absoluto sigilo (papai a fazer aquele cômico movimento de fechar a boca com um zíper e depois jogar a chave invisível fora [ainda segundo a cabeça de mamã, por sinal, uma cabeça deveras criativa]).

Não me recordava do quão barulhenta era a carrinha do rancho, mas não havia outra forma de chegar ao casamento do meu Melhor Amigo. Papai de vez em quando soltava uns catarros nojentos do pulmão e cuspia tudo pela janela. Ele fazia umas caretas de decepcionado consigo mesmo, ruminava, depois balbuciava para alguma entidade religiosa «que assim não podia ser, assim não tenho muito tempo, e isto não é justo, sempre fiz tudo certo», de aí ele se acalmava e acendia um cigarro.

Quando chegamos ao local da cerimônia havia este sujeito muito elegante de terno alinhado a nos esperar (manobrista), e ele abriu a porta da carrinha sem esconder o desdém. Dei uma breve espiadela ao redor e logo percebi o porquê. Até àquela altura o sujeito muito elegante tivera apenas de abrir a porta dos automóveis mais luxuosos (Mercedes-Benz, BMW, Porsche, Ferrari). E, assim, de súbito, ele suja a luvinha branca com a maçaneta da carrinha do rancho do meu pai, possivelmente herdado depois de um relacionamento extraconjugal que terminara em tragédia (pelo menos se levarmos em consideração todas as partes envolvidas [moça rica, primordialmente {pois papai parecia bastante satisfeito com o resultado do processo, isso é certinho}]).

A vida tem dessas.

Despedi-me do velho dando duas batidinhas no capô do automóvel e ele saiu à louca com a carrinha. Olhei para o sujeito de terno alinhado, depois apontei para a fumaça criada pelo atrito dos pneus e disse: ele andou bebendo de novo, é triste ver alguém a matar-se dessa maneira, não achas? Não me lembro de ter recebido resposta do manobrista.

Entrei no salão, que já estava repleto de gente. Uma festa de casamento, pensei, é quase a antimatéria de um funeral. Na festa de casamento todos sorriem; no funeral, sem sorrisos / na festa de casamento há dois protagonistas (noivo & noiva); no funeral, apenas um / na festa de casamento há salgadinhos, doces, cadeiras para sentar; no funeral, há poucas cadeiras, sem comidinhas nem nada.

O que uniria esses dois universos: as lágrimas?, o terno do noivo, o terno do morto, o vestido rendado da noiva, o tecido rendado do caixão?, o facto de que quando ambas as cerimônias terminam permanece uma sinistra atmosfera de ruínas?

No canto da grande sala, perto do palco onde aconteceria o concerto musical, estava a noiva. Percebi que ela conversava com o fotógrafo da festa. Ela pedia para ser fotografada sempre de perfil, perfil direito de preferência, pois era o ângulo em que se saia melhor. A noiva deixou cair alguma coisa no chão e ela se agachou para pegar e o fotógrafo ficou olhando para o decote do vestido e depois o fotógrafo virou a cabeça para ver se alguém tinha notado que ele olhara para o decote do vestido da noiva enquanto ela se agachava para pegar alguma coisa no chão e foi aí que ele (o fotógrafo) percebera que eu tinha visto a cena toda e tentei fazer-me de decepcionado como quem diz: isso não se faz, tsc-tsc, que vergonha, que vergonha, que vergonha.

— P. R. Cunha