Notas de um verão carioca (dezembro/2011)*

Tenho a certeza de que me chamarás de louco, mas te garanto, leitor, que existe uma longa linha imaginária a dividir as praias do Rio de Janeiro. De um lado, o calçadão, os bons modos, os tênis Nike, as pessoas vestidas com esmero, o asfalto, os automóveis com ar-condicionado; do outro, a areia, a devassidão, o calor, os biquínis, o futvôlei, os bumbuns, o suor, as peles bronzeadas. Vou a um restaurante de frutos marítimos a dez passos da praia, funcionário vestido de pinguim fica à porta e explica que ali não é permitida a entrada com fatos de banho, nem com calção tipo shorts. Perto do bufê há um enorme vidro panorâmico através do qual a clientela observa o baile das ondas. Ao sair do restaurante, tu bem poderias andar com um tapa-sexo de dez centímetros que gente nenhuma iria te incomodar, mas, dentro do restaurante, repito, dentro do restaurante é outra coisa. Dentro do restaurante impera a mais alta etiqueta da chamada civilização: todos usam muitas roupas, comportam-se direitinho, a mamã pede silêncio ao miúdo serelepe — é o lado recatado da linha imaginária, percebes? Depois do almoço, levo a minha espreguiçadeira e deito-me diante da brisa atlântica. Estou, naturalmente, com as pernas à mostra. Uma senhora por volta dos setenta passa perto e diz sem olhar nos meus olhos: tu tens aí umas pernas tão brancas, nunca apanhas sol? Sou de Brasília, Distrito Federal, preciso de descansar — respondo à queima-roupa.

— P. R. Cunha


*Crônica originalmente publicada na Folha de Icaraí.

Instafobia (a experiência de um antissocial nos limites do Instagram)

Estive em Niterói em maio e tirei uma porção de fotografias. Eu andava para cima e para baixo com a minha Canon T2i (cujo apelido é «Sei Shōnagon» [singela homenagem à autora de O livro do travesseiro]) e numa altura a recepcionista da pousada onde eu me hospedei, moça muito bonita por sinal, pediu-me para, como se diz, dar uma espiadinha nas fotos. Você não pode guardá-las consigo, ela falou, crie conta no Instagram, mostre-as para o mundo. 

Quem me conhece há mais de duas semanas sabe que tenho forte queda por damas de excelente figura que emitem delicadas opiniões a respeito das minhas fotografias. Ao passo que criei a bendita conta no Instagram. E como também não sei me divertir, comecei a escrever uma espécie de relatório informal (sic) a fim de problematizar as experiências como usuário da maior rede de compartilhamentos de imagens do mundo. Este sou eu, senhoras & senhoras.

Desde o início, estava ciente de que a empreitada só funcionaria se eu utilizasse a conta como portfólio — a saber: P. R.-fotógrafo-somente-atrás-das-câmeras-e-eis-aqui-as-minhas-fotos. Quase como se fosse uma continuidade da postura que costumo adotar neste blogue; só que em vez de palavras, escreveria à moda pixel. 

Bom. Toda essa lenga-lenga de distanciamento racional é muito bonita na teoria, mas na prática deslizei (diversas vezes) nas bananas da vaidade e publiquei retratos desta minha jovem face — mesmo que apenas em «Stories» e com a nobre finalidade (i.e.: desculpa esfarrapada) de divulgar projetos musicais.

Minhas primeiras publicações foram um verdadeiro, como é mesmo a palavra… fracasso. Cinco, sete, no máximo nove curtidas — ou likes, se preferir. A verdade é que nem a sempre encorajadora mamã estava a dar muita atenção para as minhas tentativas de socializar na rede web. Meu filho, ela disse, você não tem paciência para essas coisas, e aposto esta casa como daqui a um mês você já vai ter desativado a conta.

Pois vejam como a vida é irônica… passaram-se dois meses, a conta sobrevive, e se eu tivesse feito um contrato formal com mamã (assinaturas reconhecidas em cartório, advogados, testemunhas etc.) hoje teria uma casa para chamar de minha. Não o fiz, paciência.

No meu despretensioso «Dossiê Instagram» — a nomenclatura é temporária — dou especial atenção ao modus operandi dos seres humanos que ali compartilham, conversam, gostam, odeiam, ignoram, paqueram, ironizam, aparecem, desaparecem, seguem, deixam de seguir. E antes que alguém me acuse de charlatanismo, esclareço que, em certa medida, tive/tenho/terei um pouquinho de cada perfil analisado. Então é isto: selecionei alguns excertos da pesquisa e gostava de anexá-los à guisa de recreio.

Minhas calorosas saudações,

— P. R. Cunha*


[ANEXO: DOSSIÊ INSTAGRAM / EXCERTOS]

O perfil artista frustrado
Aquele ser humano que publica fotos estranhas, mas que prefere acreditar que são fotos incríveis, surreais; comporta-se como se fosse um fotógrafo incompreendido, um fotógrafo do futuro, à espera do verdadeiro reconhecimento que lhe convém. Amiúde, comenta com os amigos que «os usuários do Instagram não sabem apreciar arte, e é por isso que só recebe duas curtidas a cada postagem», esquecendo-se, inclusive, de perguntar por que diabos nem os próprios amigos estariam «apreciando» esse amontoado de esquisitices.

O perfil caça-likes
Este ser humano vai curtir a foto de toda a gente, inclusive as fotos abstratas (na falta de melhor termo) dos artistas frustrados (ver perfil anterior). E tudo isso em troca de corações. Parece claro que o cúmulo dessa prática é a famigerada hashtag «likeforlikes» — e que tais relacionados.

O perfil à espreita
Basicamente, aquele usuário que monitora todos os seguidores, e quer saber quem está curtindo as suas fotos, e quem começou a segui-lo, e quem deixou de segui-lo, e se alguém deixou de segui-lo ele bloqueia esse alguém, e passa dias, semanas, um bocado injuriado a questionar-se por que esse alguém deixara de segui-lo, e assim por diante.

O perfil voyeur
Há aos montes. Este introspectivo ser humano raramente compartilha alguma coisa e por vezes só sabemos da sua existência quando vemos o rosto dele nos registros das «Stories». Ingênua variante voyeurística: o usuário que aprecia a fotografia alheia, acompanha francamente as publicações dos colegas, mas de fato não tem muito tempo (ou paciência) para atualizar a própria conta.

O perfil crítico-fotográfico/só-que-não
Se minha opinião valesse para alguma coisa, diria que este é o perfil mais odioso desde que o mundo é mundo. Trata-se daquele ser humano que se acha entendedor das belas fotografias, garante ter muito conteúdo, uma reputação a zelar, não pode se expor curtindo «qualquer coisinha por aí» (palavras dele), só vai curtir a foto alheia se a imagem for nível-National-Geographic para cima. Consigo claramente vê-lo esparramado num sofá com terríveis almofadas verdes, a empanturrar-se com toda a sorte de salgadinhos industrializados (Ruffles, primordialmente), a dar o scroll down e o scroll up com aquela patética fisionomia de desdém, a dizer: esta foto não merece o meu apreço, esta outra foto é ruim, que fotógrafo medíocre. (Desnecessário ressaltar que o perfil crítico-fotográfico/só-que-não jamais curtiria uma publicação do perfil artista frustrado).


*Numa rara demonstração de coragem, humildade e resiliência, o autor deste blogue compartilha aqui o endereço da própria conta no Instagram: @pierre_cunha

Tripulante de convés

Em Niterói conheci um velho marinheiro que acabara de chegar do noroeste de Inglaterra. Confessou-me, não sem um certo embaraço, que não tinha pretensões de se meter novamente numa viagem transoceânica, que ali estava bem, sentado a jogar o baralho com os amigos, em terra firme. Usava o cabelo grisalho penteado para trás, segurava as cartas de um modo canhestro e expressava-se, assim me pareceu, com uma cortesia de antigamente. Meses solitários ao mar, disse o marinheiro, solidão que destrói a alma. A marinhagem se faz presente, mas você nunca consegue fugir de um terrível isolamento. O oceano e o nada, ele disse ainda, você e o nada. Solitude de morte que lhe faz refletir se tem mesmo o direito de estar, ou melhor, de ser sozinho. O navio, ele continuou, as ondas, observar os abismos do mundo que caem para o horizonte sem fim. Mas o gelo, disse-me finalmente o marinheiro, glacial que lhe deixa vazio, disso a literatura marítima não pode jamais esquecer.

— P. R. Cunha

O amor praticado por duas personagens que conversam entre si, discutem, brigam e depois ficam tranquilas

Por um fim de tarde de primavera, deambula com a Maria Júlia pela praia de Copacabana, contempla as ondas que Tom Jobim imortalizara, rodeia com um braço sentimental os ombros dela e diz: a paisagem do Rio de Janeiro é composta por praias, montanhas, calçadão, pedras portuguesas, Corcovado, trilhas, táxi amarelo, Maria Júlia, areia, céu, Lua — estrelas.

Se o escritor brasileiro não ganha prêmio, ele reclama. «Então tome um prêmio, escritor brasileiro.» Agora o escritor brasileiro, na sua insolência sempre voltada para o exagero opulento, diz que o prêmio paralisa, entorpece. Neve do prêmio, solidão do prêmio, as inúmeras possibilidades secretas do prêmio. Sentir-se culpado por ganhar o prêmio, e por aí vai.

«A biografia do escritor é tudo aquilo que, acoplado ao sufixo, revele a sua natureza de aglutinações sígnicas. Geografia e lexicografia, viagem e linguagem» — João Alexandre Barbosa, 1979.

É necessário escrever de uma vez, numa sentada, como se diz, antes que o cérebro atrofie. As pessoas podem/devem achar uma porção de coisa: não estou a crer que este ser humano ganhara prêmio no estrangeiro. Voltar à normalidade.

Mal du prix — mal do prêmio. Dor aguda, debilitante, febre temporária, pois não.

O que é que me entusiasmava… Estar entre o mar e o longe. Desde que o tempo estivesse razoável.

— P. R. Cunha

Tardinha para o Atlântico

E ninguém há-de entender mais nada — nem o Rio, nem Brasília, nem a Tristeza, nem Eu, nem Niterói.

Um eterno colocar-se em buracos, poços, situações humilhantes, menosprezar-se, fracassar, para depois escrever, sim, sempre a escrita, a ver se ela lhe tira desses abismos; sempre foi assim, desde pequeno. Passar a vida inteira sobre os papeis, com uma caneta queixosa, satisfazendo a própria demanda por literaturas. Fluxo inesgotável de ideias. Onde colocar todas elas? Como organizá-las em arquivos cerebrais? 

Sem inclinações para o comércio, disseram-no, muito menos para o trabalho braçal, coloca-se a serviço da única atividade capaz de absorver as ambições de uma consciência brandamente alienada: fábrica de livros, fábrica de estórias.

Ou colisão aleatória de diferentes palavras. Surge um texto. E com mutação gramatical espontânea, produz-se universo de incertezas, mentiras, não-ditos. Há pessoas que chamam a isto Escritor —— ou Deus.

[À deriva para sudeste]
Pois que tenho no
interior um oceano
muito mais agitado

Suave, o som da maré. Então, aos poucos, com a força cumulativa de uma extinção em massa, todo aquele sentimento chegou ao fim. O que parecia mútuo, revelou-se frágil, inconstante. E o que parecia para sempre, foi apenas um por-enquanto. Etc.

Na rua, o choro de um bebezinho que ainda não fala. ————— O que sentirá?

— P. R. Cunha

Dias / três

É do Harold Pinter que eu gosto mais, sabes?, ela disse. Fala de mim um bocadinho — também gosto do jeito que tu escreves.

*

A viagem é um efeito Doppler: alastra-se. Início, difuso; fim, incerto. Quantas vezes não precisei de prolongados distanciamentos à guisa de digerir metrópole alienígena?

*

Fotografia
escrever —
à luz.

*

Niterói é uma cidadela nostálgica, casa das férias, da meninice. Lembranças que ficaram muito para trás no passado. Niterói nunca foi minha, sempre foi dos meus pais, do meu irmão mais velho. Ela não se incomoda, recebe-me com carinho, acolhe-me com esmero. Niterói por vezes é ausência, é saudade, que dói, destrói, corrói. Niterói.

*

E só havia mais uma pessoa no Icaraí Café — ela. De manhãzinha, passeio no Campo de São Bento; fiquei um bocado parado ao sol, a pensar em qualquer coisa, ao que minha pele possui agora aquele curioso tom vermelho-molho-de-tomate-aguado. Ela olhou para a chávena de café, e depois para mim, daí olhei para ela, e ela olhou para a chávena de café, e assim por diante. Não nos movemos. Apenas olhos, chávenas de café, vermelho-molho-de-tomate. Até que os passos afastaram-se, e então silêncio. Como se ela nunca lá tivesse estado.

*

Daqui às vezes ouve-se o Atlântico. Mas é precisa muita atenção, porque ondas preguiçosas:

Ao mar
os rapazes
esperam
as moças
esperarem
as senhoras
e os senhores
à espera
da velhice
passar.


Texto e fotografia: P. R. Cunha

Sob o efeito de John Cage — cinco ou sete doses de Baileys

Depois de uma noite de bebedeiras ao botequim [na Lopes Trovão, perto do Campo de São Bento] — estamos de ressaca: o mar & eu.

Influenciado pelos escritores do caótico e especialmente pelo azedume dos Ex.{mos} srs. Bernhard e Oswald de Andrade e H. de Campos (Eurico Browne) e A. de Campos (IRMÃOS) este outro-eu-autor/actor (escrevente brasileiro sempre a pensar nas coisas mais essenciais do país tropical &tc [porta-voz]) eu-autor/actor/outro-eu a escrever um sem-número de conto-macchina portanto em Niterói 496.696 habitantes alguns felizes outros nem tanto eu-autor/actor/eu descrevendo entre outros 1) bêbados 2) jogadores de xadrez 3) baristas que não tomam café porque Niterói é quente 4) artistas do teatro 5) boêmios em geral.

conto-macchina — é a recepcionista da pousada que me confundira com o fantasma de Dylan (Dylan não morreu, eu lhe disse; Dylan está morto, ela disse, hospeda-se o fantasma de Dylan nesta nossa pousada, Niterói [inútil insistir quando nos tomam por fantasma de Dylan] desisto). conto-macchina estilo mecânico como o próprio nome sugere ———— industrial sirenes de ambulâncias experimental: o afiador de facas da rua Otávio Carneiro, liberdades & gramaticais & estilísticas (não definir o que é estilo [?]), pontua-se como/e onde/e quando (se) quiser, os fogos de artifício que iluminam o Morro do Cavalão, conto-macchina, não se preocupar com rimas (n’outros termos: tudo bem se rimar as palavras afinal ou rimam ou não rimam), 50% porcento percentagem, o vendedor de picolé queimou o pé nas areias de Camboinhas/Sossego, bolhas no pé do vendedor de picolé, conto-macchina, museu de arte contemporânea ——————— o.Niemeyer, disco, voador, ARQUItecto de um futuro que ultra|passado. conto-macchina, um pouco de tudo.


Texto e fotografia: P. R. Cunha