Comboio-fantasma a nenhures

Acordar dez minutos antes de o sol «nascer», abrir as cortinas, a fresta da janela que deixa entrar a atmosfera matinal. Arrumar a cama (menos de quarenta segundos). Primeira tarefa cumprida. Sente-se bem ao ver o edredom estendido, o travesseiro alinhado. O banho. Passar a bucha nos pés. Não esquecer de lavar atrás das orelhas. Escovar os dentes durante o banho. Fazer o xixi durante o banho. Enxugar-se bem. Depois, os alongamentos. Uma série branda de flexões, polichinelos, exercícios para o pescoço, para os quadris. Descer, preparar o café, a torrada com manteiga, separar a garrafa com um litro de água (beber [aproximadamente] três garrafas durante o dia). Regar as plantas, verificar se tudo certinho com a horta — colher as hortaliças maduras. Sentar-se à escrivaninha antes das 8h, organizar o material de pesquisa, a leitura de descompressão, manter a chávena de café por perto, as canetas (cinco cores diferentes: azul, vermelha, preta, verde, ciano), os blocos de anotações, respirar fundo, escrever:

As comunicações por escrito têm qualquer coisa de fantasmagórico.

Se escrevemos algo para alguém, a pessoa que recebe as nossas palavras lida com aquilo que já não é — mesmo diante dos imediatismos modernos. 

O telemóvel vibra para avisar que há mensagem disponível, o dono do telemóvel mostra-se ocupado. Ao abrir a mensagem antes de dormir, está a ler reverberações. Talvez o remetente tenha até mudado de ideia.

Se a correspondência é feita à moda carta-de-papel, os fantasmas ganham novas intensidades. 

Num exemplo grotesco: poeta apaixonado envia poema para a amante; a moça recebe os versos dias depois; por motivos obscuros, ela demora para responder; a espera enche o coração do poeta de angústias; poeta perde as esperanças, e quando finalmente recebe a carta da moça, ele não a ama mais.

A amante tornara-se um espectro difuso, as palavras carinhosas que ela escrevera são como imagens psicografadas.

Assim como quando olhamos para o céu noturno e observamos a luminosidade de incontáveis estrelas que há séculos deixaram de brilhar. Estrelas moribundas, portanto.

A história do mundo nos mostra que quando uma pessoa é boa (i.e.: correta, dócil, prestativa, amistosa etc.) durante, digamos, 90% das vezes, mas, numa altura isolada comete deslize qualquer, ela será rotulada de falsa/enganadora/hipócrita: a máscara caiu, sabia que tu não eras aquilo tudo, sabia que pisarias na bola.

E se, ao contrário, a pessoa for ruim (i.e.: estúpida, hostil, ignorante, sem caráter, violenta, etc.) durante, digamos novamente, 90% das vezes, mas, numa altura isolada comete um discreto ato de bondade, não faltará quem, com os olhos lacrimejando, garanta: estão a ver?, até que o gajo não é assim tão mau, há esperança.

Expectativas, síndrome de salvação, ninguém nunca é bom o bastante, ou ruim o bastante: eis o tango, a bossa nova.

Bossa_nova_dance_pattern

Se estamos diante de uma fotografia, ou mesmo numa cerimônia fúnebre, estamos a lidar com vulnerabilidades, fantasias.

A mãe segura o retrato do filho, um criminoso terrível que fôra preso na semana anterior. A única voz ativa nessa cena é a perspectiva da mãe. O criminoso da foto não se manifesta. É uma estátua, um espectro de luz. A mãe pode (e irá) reconstrui-lo como quiser.

Do mesmo modo, aquele pai que em vida cometera grandes atrocidades, agira de forma abrupta, irascível e desonesta, recebe homilias enaltecedoras enquanto deitado dentro do caixão, o famigerado paletó de madeira. A figura pacífica, distante, pálida, frágil (os mortos não machucariam vivalma)… numa reviravolta difícil de explicar, os filhos, que antes tiveram de se defender do déspota, agora ajoelham-se diante do cadáver maquiado, o sacro boneco.

Há, enfim, uma característica que as fotografias e os cadáveres compartilham: o silêncio. O fotografado é mudo, o morto nem se fala. E se quisermos aproveitar um pouco das regalias que eles, sem esforço, conquistaram, talvez fosse melhor imitá-los: não dizer mais nada.

— P. R. Cunha

Sr. Anselmo – parte 14

Não há objetivo, diz o sr. Anselmo, nem propósito, tu não estás em jornada nenhuma. Há travesseiros, confortos artificiais, buscas pelo entretenimento sintético. Há fugas, explica o sr. Anselmo. E cada organização antropocêntrica criou/cria/criará para si ilusões de estabilidade, fantasias de permanência: Sócrates, Pedro I da Rússia, o Iluminismo, as bombas, Alexandre, Platão, o terremoto de Lisboa, o Muro de Berlim, Nero, as Torres Gêmeas, os incas, Sêneca, os maias, toda a filosofia grega, toda a filosofia romana, os sumérios, a astronomia grega, o Império Romano, a biblioteca de Alexandria, Napoleão, os Habsburgo, a queda de Constantinopla, os Romanov, o Império Austro-Húngaro, Schopenhauer, a Revolução Francesa, Sputnik, Hitler, os invernos, Newton, Homero, a Revolução Russa, o Albert Camus, Mussolini, Apollo 13, Lênin, Tutancâmon, os medievais, o Sebald, Gutenberg, Galileu Galilei, Thomas Bernhard, os babilônicos, Cioran, os outonos, Einstein, as grandes guerras mundiais, Montaigne, o Enuma Elish, o Gavrilo Princip, a Dinastia Sung, Nietzsche, o Canato Turco Ocidental, os verões, Gilgamesh, o Império Otomano, a Dinastia Yuan, o Califado Omíada, o Império do Grande Qing, a peste bubônica, a gripe espanhola, o Salazar, o Francisco Franco, o Hermann Göring, a Comuna de Paris, o arquiduque Francisco Ferdinando. Todos passaram, insiste o sr. Anselmo, tudo ruínas, miragens. Tudo desaparece.

— P. R. Cunha

Sr. Anselmo – parte 12

Apontamentos aleatórios enquanto o sr. Anselmo escuta Shida Shahabi (Futō), fumando um cigarro às escondidas, a ler Raymond Carver — a chuva tamborila sobre capa protetora da piscina, algumas gotas respingam na mesa à qual o sr. Anselmo está sentado.

Pastel de natas (industrializado [Confeitaria da Torre]), Bier Hoff — desde 2002 —, Red Ale, cerveja forte, cerveja escura, 500 ml, 8,5% vol. O sr. Anselmo está vestido com uma camisa a dizer I WOULD PREFER NOT TO (prefiro não fazê-lo [tipologia Helvetica Neue]), Bartleby, Herman Melville.

A bebida e o cigarro são suicídios à prestação.

De dia, os revolucionários detestam determinado canal televiso, mas, à noite, os revolucionários continuam a consumir os produtos desse mesmo canal televisivo. 

Melhor ir-se acostumando com os drones (inclusive aos domingos).

A contagiosa doença de literatura. Parasitismo. Escreve-se e lê-se imenso, bem mais do que precisaria.

O baiacu é um peixe mortalmente venenoso — e nem por isso deixam de comê-lo.

Nesta sociedade absurda, o fantasma do fim do mundo mostrar-se-á, enfim, num tweet censurado.

Os escritores franceses escrevem até morrer. Estão no leito de morte, mal conseguem respirar, mas escrevem, até morrer.

— P. R. Cunha

Sr. Anselmo – parte 10

Em situações saturadas de paranoia muitas pessoas sentem medo e não suportam perceber que outros não sentem medo nenhum. Os que têm medo exigem que todos sigam as mesmas regras, que compartilhem o mesmo pânico, a mesma paralisia, o mesmo pavor de morte, como se os espelhos quebrados justificassem o próprio sofrimento. Os que têm medo parecem não conseguir compreender que alguns simplesmente aceitam o absurdo da situação, que alguns não lutam contra a insignificância humana — «se for assim o futuro, prefiro nem lá chegar», etc. —, que alguns não dão a mínima, indiferentes, continuam a própria vida sem grandes expectativas. Sim, a verdade é que as pessoas que sentem um medo patológico nutrem ojeriza insuportável por aqueles que não se importam tanto assim, por aqueles que preferem abraçar o absurdo e de uma maneira libertadora compreendem que tudo é caos, mudança, vazio — escreve o sr. Anselmo enquanto tenta acender o charuto.

— P. R. Cunha

Sr. Anselmo – parte 8

O sr. Anselmo está esparramado na cama a ler, sem compromisso, um artigo na Real Sociedade de Química (Londres). A revista explica que o ser humano é basicamente formado por seis elementos — carbono, oxigênio, hidrogênio, nitrogênio, cálcio e fósforo. Ele ajeita a cabeça no travesseiro: substâncias que poderiam ser encontradas em qualquer farmácia de esquina. A continuação da leitura do artigo publicado na Real Sociedade de Química reforça a ideia de que o animal humano é um conjunto temporário de átomos e memórias vagas. Todo o alvoroço pelo corpo, pensa o sr. Anselmo, adoração pelo corpo, manutenção do corpo, o corpo esbelto, o corpo santuário, o corpo rígido, o corpo flácido, as aparências brevemente mostrar-se-ão infrutíferas. Pois quando deixamos de ser, sobram-se os dejetos orgânicos. E as minhocas famintas esfregam a barriga à espera do banquete.

— P. R. Cunha

O alienígena

Pensem na quantidade de insetos que vocês já mataram, consciente ou inconscientemente — disse o professor, que a muito custo procurava manter a vista num ponto invisível, a dois palmos da tomada do ar condicionado. Nos últimos anos a universidade teve de lidar com uma série de casos de assédio envolvendo docentes e alunas; todo cuidado, como se diz, era pouco. O fio do ar condicionado, notara o professor, estava desencapado. Então, pensem na quantidade de insetos mortos, ele continuara, esses seres estúpidos e insignificantes. Os olhos do professor fizeram uma breve varredura na sala: os alunos pareciam apreensivos, uns confusos, outros com sono, se calhar até um pouco ansiosos para saberem a que conclusão o professor chegaria com essa ladainha de insetos estúpidos e insignificantes. Agora pensemos o seguinte, ele prosseguira, pensemos na possibilidade de vida alienígena inteligente, e todos nós sabemos que estamos à procura disso, oh!, sim, não medimos esforços para alertar ao Cosmos a nossa localização, não somos nada, nada discretos. Aqui o professor encosta-se na própria mesa, cruza os braços: as formigas também não são nada discretas quando saem do formigueiro. O que nos faz pensar, ele continua, o que nos faz pensar, em sã consciência, que nós não seríamos insetos inconvenientes para essas criaturas extraterrestres?

— P. R. Cunha

Quem é que está a rir agora

SALA DE INTERROGATÓRIO, 21H54

O polícia Ionesco fecha a porta atrás de si. Joga a pasta com os documentos de investigação sobre a mesa. A mesa de metal range e balança como se fosse uma velha locomotiva soviética. A mulher sentada assusta-se imenso com o barulho, recua. Os dedos nodosos dela movem uma madeixa de cabelos que está a cobrir-lhe o olho direito (especificamente o olho direito). A mulher parece embriagada, ou sob efeito de soníferos (calm caps).

IONESCO: dama, vou precisar que repita… [breve pausa, Ionesco fita a câmera de segurança, prossegue], por obséquio, preciso que repita o seu nome.

[Sem olhar para o polícia, a mulher diz: Marta.]

IONESCO: de quê?

MARTA: isto é mesmo necessário?

IONESCO [toma notas, levanta a manga do paletó, olha para o próprio relógio, depois compara-o com as horas do relógio de parede da sala de interrogatório]: sim, dama, completamente necessário.

MARTA: marta, marta de albuquerque, senhor. [um «senhor» que soa teatral, jocoso, como um soldado rebelde que responde sem vontade aos superiores.]

IONESCO: gostava que a senhora Marta de Albuquerque contasse-me o que realmente aconteceu na noite de ontem.

MARTA [olha para as mãos de Ionesco, sem anel]: já foste casado?

IONESCO: como é?

MARTA: não sejas um idiota, a pergunta é simples. Já foste casado?

IONESCO: não compreendo como isso pode nos ajudar aqui, senhora Marta de Albuquerque.

MARTA: briga entre marido e mulher, foi isso, uma simples briga entre marido e mulher. Se tivesses sido casado, compreenderias.

IONESCO [sem esboçar qualquer tipo de reação abre um dos envelopes e tira uma pilha de fotografias. As imagens mostram um homem roxo com inúmeras facadas no peito, o pescoço aberto, os olhos vidrados e sem vida parecem antever um encontro com o próprio diabo. Ionesco organiza metodicamente as fotos sobre a mesa, tal qual psicólogo durante aqueles estranhos testes de sanidade]: simples briga entre marido e mulher.

MARTA [solta um desdenhoso humn]: francamente… [pausa]. estávamos no quarto. a minha irmã tinha acabado de ligar. E ela tem um daqueles casamentos perfeitinhos, sabes?, o marido perfeitinho, os filhos perfeitinhos que tiram notas perfeitinhas, e passam as férias a ler gontcharóv, tchekhov, escutando claude debussy, e escrevem resenhas a explicar os porquês de acharem que o niilismo de sartre faz mais sentido do que o niilismo de nietzsche. eu desligo o telemóvel e digo: francisco, quero o divórcio, do jeito que está não pode. mas o francisco nem me olha, fica a ler o jornal, como se, sei lá, como se eu estivesse a fazer a previsão do tempo, se chuva, se sol, essas coisas. então eu decido insistir, porque, sabes, quero mesmo resolver tudo de uma vez por todas. O francisco continua lá lendo o jornal: francisco, estou a falar a sério, quero o divórcio. devo ter repetido isso umas cinquenta vezes, percebes? e estava a aturar o silêncio do francisco da melhor maneira possível, eu inspirava e expirava e dizia para mim mesma: tem calma, mulher, tem calma. Até que numa altura eu disse: francisco, estamos a nos divorciar, amanhã vem aqui uma advogada, vamos nos divorciar, e o francisco ri-se, um daqueles risos que duram apenas alguns segundos, riso de escárnio, prepotente, riso imbecil, de uma superioridade desprezível. [marta olha para a mesa, dá duas batidinhas com o indicador na superfície lisa de uma das fotografias do homem mutilado]: pois bem, garanhão, quem é que está a rir agora?

— P. R. Cunha