Quarta nota #6 — terraplanagem, Modiano a ressurgir do ostracismo, expectativas portuguesas e jogar xadrez à guisa de afastamentos melancólicos

§ Há livros que nos fazem querer largar tudo, largar todos; livros que desafiam a relatividade, o tempo, o Einstein. Encontra-os e procura mantê-los por perto.

§ BBC World News — entrevista com um sujeito em mangas de camisa que tenta explicar que a Terra é, em verdade, plana. Numa altura, ele diz à repórter: you’ve got to understand that the Flat Earth Society has millions of members all around the globe (grifo meu).

§ Faltam catorze dias para ir-me a Portugal receber o Prémio Aldónio Gomes, promovido pelo Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro. As possibilidades fotográficas que a terrinha lusitana me proporcionará acalmam um bocadinho este coração, que já não se aguenta de tanta ansiedade.

§ Estavam a conjecturar um bloqueio criativo do Modiano — por conta do Nobel da literatura dois mil e catorze. Paralisia pós-grande premiação, esse tipo de coisa. Mas já saíram as Lembranças adormecidas, livro com retratos de uma Paris fantasmagórica, nostálgica, desaparecida. É a última respiração antes de o mundo se desmoronar, confessa o autor. […]

§ […] «Uma luta contra o esquecimento, um sublinhar dos caminhos redentores da memória e da ficção, é Modiano» — comentário de José Riço Direitinho sobre Lembranças adormecidas.

§ Em 1879, desiludido com os rumos que a própria teoria tomara, Karl Marx lastimou-se: tudo o que sei é que não sou marxista.

§ A saída do Reino Unido da União Europeia apenas demonstra que ainda somos reféns da velha dinâmica imperial: ascensão, apogeu e queda. Bem-vindos, portanto, à nova era — a dos Trumps.

§ O xadrez é uma excelente companhia para homens tristes.

§ Já se sabe em que sítio poisará a sonda espacial da missão Marte 2020: cratera Jezero, com cerca de quarenta e cinco quilômetros de diâmetro, localizada ao norte do planeta vermelho. De acordo com a Nasa, há evidências de que o local já fora preenchido por um profundo lago, delta fluvial capaz de preservar provas de vida. A missão do veículo, com características muito semelhantes às do Curiosity — robozinho que há mais de seis anos explora o solo marciano —, será encontrar carbono e possíveis sinais de micróbios.

§ Acharam 115 copos, palhinhas, quatro garrafas, chinelos, sacos, escovas, potes de sorvete e um milhar de outros objetos — montante a pesar 5,9 quilos — dentro do estômago de uma baleia em estado de decomposição na costa sudeste da Indonésia. E há governantes a garantir que anda tudo limpinho, que o colapso global é trama da esquerda.

— P. R. Cunha

Escritores aluados

Os norte-americanos chamam de astronauta aquele ser humano que tenta escapar da gravidade terrestre. Os russos preferem cosmonauta. Em 1957, os soviéticos lançaram Sputnik, primeiro satélite artificial da história. Em 1961, Yuri Gagarin foi o primeiro homem a viajar pelo espaço — dentro da claustrofóbica Vostok (espaçonave com pouco mais de quatro metros de comprimento e dois metros e meio de diâmetro [basicamente do tamanho de uma casinha de cachorro moderna]). De aí o Kennedy ajeitou o topete numa tarde de ventos em Houston, Texas, mostrou que não estava para brincadeiras e disse, ou melhor, garantiu que os Estados Unidos logo realizariam uma alunagem e, o mais importante, trariam os astronautas de volta para casa sãos e salvos. Em 1969, Neil Armstrong e Edwin ‘Buzz’ Aldrin pisaram na Lua e toda a gente extasiou-se. Feitos inacreditáveis, sem dúvida. Mas a mim a cereja do bolo da chamada Guerra nas Estelas foi o caso da caneta lunática. Não é preciso nenhuma ciência de foguete para saber que as canetas comuns simplesmente não funcionam num cenário sem gravidade. Conta a lenda que a Nasa teria investido milhões e milhões em mecanismos que permitissem a utilização da famigerada tinta dentro dos módulos espaciais. Enquanto isso, os soviéticos optaram por alternativa um bocadinho mais em conta: карандаш (karandash), ou o bom e velho lápis*.

— P. R. Cunha


*Eventualmente a Fisher Pen Company de fato desenvolveria uma caneta com fluídos específicos que permitem escrever em ambientes sem gravidade. O nome da geringonça não poderia ser mais intuitivo: space pen.

Como ler livros incandescentes

Uma breve pausa na publicação de Fragmentos de um romance inacabável para falar sobre universos — sideral & literário.


Dizem que todo livro de verdade é ao mesmo tempo organizador e destruidor. E aqui utilizo a palavra «verdade» da forma mais abrangente possível: substantivo feminino cujo efeito pode (e deve) variar de acordo com o contexto dos nobres leitores. Não importa se você está a ler J. K. Rowling ou Tolstói, Asimov ou Gonçalo M. Tavares, Orwell ou Machado de Assis. O livro é seu, a sensação é sua, as personagens atraem a sua simpatia, as páginas brilham e por vezes ofuscam os olhos como um sol incandescente.

Mas quão perto do sol — e dos livros — podemos chegar? 

O Sol, estrela ao redor da qual o nosso planeta viaja a incríveis 110 mil km/h, é fonte primordial de vida aqui na Terra, mas também uma bola gigantesca com capacidades destruidoras inimagináveis. 

Daqui a oito dias (dezesseis horas e quarenta e um minutos), a Nasa lançará a Parker Solar Probe, um veículo espacial com formato de lanterna — daquelas que costumávamos encontrar na dispensa dos nossos avós. Essa curiosa espaçonave foi construída para estudar as brutais atividades solares. Mas, diferentemente de outras missões com objetivos parecidos, a Parker chegará perto, muito perto mesmo da superfície do Sol*.

Os riscos, segundo a Nasa, valem a pena. Por conta da aproximação inédita, a Parker produzirá imagens muito nítidas. Ao passo que os cientistas poderão pesquisar mais detalhadamente as peculiaridades solares, além de analisar outras possíveis ameaças desse Monstro de Fogo irascível.

Parker Solar Probe: nem tão perto a ponto de incinerar-se, nem tão longe a ponto de desfocar as lentes. E com isso ela nos dá, também, uma excelente aula de literatura.

— P. R. Cunha


*6.2 milhões de quilômetros — sete vezes mais perto do que qualquer outro objeto construído por seres humanos. Ou dez vezes mais perto do que Mercúrio, o planeta mais próximo do Sol. Estima-se que a Parker Solar Probe orbitará a estrela a uma velocidade de 192 quilômetros… por segundo. É um bocado rápido.