A demonstração

O pacato Gerson entra numa loja de armas e munições chamada MIRAGEM. Trata-se de um desses estabelecimentos com sininho na porta. Abre-se a porta, o sininho toca, Gerson entra e Eduardo — dono da MIRAGEM — observa o potencial cliente se aproximando de um fuzil 762 semi-automático. Eduardo vai até lá fazer-se à disposição: vejo que o senhor está em busca de potência, o dono diz enquanto retira o fuzil do mostruário. Gerson dá de ombros, como se tentasse não se impressionar, como se já tivesse visto armas muito mais mortíferas do que aquela, o que não é necessariamente verdade. A título de demonstração, Eduardo aponta o fuzil 762 na direção da cabeça de Gerson e sem saber que a arma havia sido carregada pelo funcionário do turno da manhã aperta o gatilho.

— P. R. Cunha

O alienígena

Pensem na quantidade de insetos que vocês já mataram, consciente ou inconscientemente — disse o professor, que a muito custo procurava manter a vista num ponto invisível, a dois palmos da tomada do ar condicionado. Nos últimos anos a universidade teve de lidar com uma série de casos de assédio envolvendo docentes e alunas; todo cuidado, como se diz, era pouco. O fio do ar condicionado, notara o professor, estava desencapado. Então, pensem na quantidade de insetos mortos, ele continuara, esses seres estúpidos e insignificantes. Os olhos do professor fizeram uma breve varredura na sala: os alunos pareciam apreensivos, uns confusos, outros com sono, se calhar até um pouco ansiosos para saberem a que conclusão o professor chegaria com essa ladainha de insetos estúpidos e insignificantes. Agora pensemos o seguinte, ele prosseguira, pensemos na possibilidade de vida alienígena inteligente, e todos nós sabemos que estamos à procura disso, oh!, sim, não medimos esforços para alertar ao Cosmos a nossa localização, não somos nada, nada discretos. Aqui o professor encosta-se na própria mesa, cruza os braços: as formigas também não são nada discretas quando saem do formigueiro. O que nos faz pensar, ele continua, o que nos faz pensar, em sã consciência, que nós não seríamos insetos inconvenientes para essas criaturas extraterrestres?

— P. R. Cunha

Quinta das irmãs gêmeas

As chuvas voltaram, aos poucos as sementeiras de frutos diversos mostram-se novamente em condições apresentáveis, enquanto o marrom da relva desidratada despede-se, já se vê o verde despretensioso da horta, as batatas estão em belo estado, os pomares têm boa desenvoltura, está em meio o apanho do tomate, cuja abundância trouxe aos fazendeiros da região um ânimo inédito. As velhas irmãs gêmeas Soraia e Cândida, porém, passam às bermas desses felizes acontecimentos.

Trancadas na quinta que receberam de herança de um tio distante — tipo sério e ranzinza que só botara os olhos nas gêmeas em duas ocasiões: 1) quando elas vieram ao mundo; 2) poucas horas antes da própria morte levá-lo alhures. Que a quinta ficasse sob a supervisão das sobrinhas sempre foi algo suspeitoso, principalmente porque nenhuma delas jamais possuíra qualquer intimidade com os pormenores da terra. No entanto, quis o destino que as irmãs se mudassem à antiga morada do falecido parente, onde ambas decidiram em comum desacordo passar o resto dos seus dias. 

Elas estão na sala principal da sede da quinta. Soraia abre as janelas que não eram abertas desde a primavera passada, o vento invade o interior do aposento como se, sufocado, desse enfim um longo suspiro de alívio. Cândida oscila na poltrona: rique-reque-rique-reque, é o barulho que faz a poltrona. Soraia passa o paninho molhado sobre os móveis. Cândida boceja e resmunga sem vontade de ser ouvida: velha!, passas a vida toda a limpar os móveis, que obstinação estranha. Soraia escuta, escuta cada palavra, continua a limpar os móveis reluzentes e sem se virar para a poltrona comenta: sabes, Cândida, estive cá a pensar numas coisas… talvez eu compre um trator, um trator enorme, com aquelas rodas gigantescas, desproporcionais, pois é, nem preciso de trator, nunca precisei de trator, mas talvez eu compre mesmo um, quero trator, está decidido. Ao virar-se para avaliar a reação da irmã sentada, Soraia percebe que o rique-reque da poltrona cessara. Cândida, por algum motivo, não balançava mais.

— P. R. Cunha

«Nova antologia de contos brasilienses», duas breves narrativas de P. R. Cunha

W3 Sul

Um fotógrafo brasiliense que durante mais de trinta anos batalhou pela vida, como se diz, fotografando acidentes automobilísticos foi atropelado por um ônibus na avenida W3 Sul. Para não perder a lucrativa oportunidade, o fotógrafo, ainda gemendo de dores, tirou do bolso da calça o próprio telemóvel e apontara a câmera para si. Ao que parece, o Correio Braziliense e o Jornal de Brasília pagaram, respectivamente, R$ 45 e R$ 50 pela selfie.

Sem pudores

Três sobreviventes de uma catástrofe aeronáutica viram-se obrigados a consumir a carne de outros passageiros mortos — do contrário teriam morrido à fome. Aquando da chegada do resgate disseram que, de início, enquanto mastigavam a carne humana, precisaram de fazer um esforço descomunal a fim de imaginar o gosto da carne bovina, mas logo aperceberam-se de que não havia muita diferença entre os dois tipos de carne; praticamente o mesmo sabor. Meses depois, durante entrevista a um canal televisivo, os três sobreviventes confessaram sem pudores que, agora, ao consumirem carne bovina, concentravam-se para lembrar do gosto da carne humana.

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