Cosmologia de uma viagem aos Andes chilenos – quinta parte (montanhismos)

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Elaborei este pequeno pedaço de literatura ficcional durante jornada de teleférico até ao cimo de uma montanha andina. O autor tentava limpar a neve dos esquis com a pontinha do bastão verde marca Tsl (outdoor compact) e encarava o precipício que se abria para o solo. Estava a pensar nas montanhas, numa narrativa que ocorresse ali — mas as montanhas não estavam a pensar nele, as montanhas não dão a mínima.

SANTIAGO, CHILE

Joaquín Rapiman acordou assustado de um pesadelo e gritou para a esposa: mulher, não fiz nada nesta vida, tenho um emprego odioso, sinto que vou morrer. A esposa ajeitou-se na cama com dificuldade e com aquela indisposição de quem desperta antes do previsto fitou o marido — tinha a certeza de que ele endoidara. Quinze, vinte, trinta anos com a mesma pessoa, acreditando que conhece essa pessoa, que a compreende, mas a realidade é outro bicho: não conhece, muito menos compreende. Quero escalar as montanhas dos Andes, disse Joaquín. Quais?!, a esposa perguntou incrédula, na cordilheira há milhares. Qualquer uma, todas, a primeira que me aparecer, ele respondeu. Então Joaquín Rapiman comprou trajes adequados para escaladas e subiu aos Andes. Escalava uma, duas, às vezes três montanhas por tentativa. À medida que atingia o cimo de uma enorme formação rochosa, a fama do homem se espalhava. Todos queriam saber quem era aquele excêntrico sujeito que largara um estável cargo na prefeitura de Santiago para dedicar-se única e exclusivamente ao montanhismo. Muitos trabalhadores também largaram tudo, pediram demissão, almejavam seguir o exemplo de Joaquín Rapiman; a imprensa começara a chamá-lo de «o grande herói das montanhas», o subordinado que decidira se rebelar contra o sistema. No inverno de 2011, depois de ter obtido sucesso em todas as tentativas que empreendera, Joaquín achou que era altura de encarar o Aconcágua — a montanha mais alta dos Andes, 6.961 metros de altitude. Ele atravessara a fronteira com a Argentina, mirou na direção de Mendoza, seguiu uma sinuosa estrada secundária sobre a qual os flocos de neve caíam como se fossem pedaços de marshmallow. Antes de começar a escalada, Joaquín notou que uma multidão acenava e gritava o seu nome com grande entusiasmo. No céu, um helicóptero de TV acompanhava os movimentos do «herói das montanhas» à guisa de capturar imagens para um futuro documentário. A neve, no entanto, virou nevasca. Joaquín escalava e tornava-se cada vez mais um pontinho difuso no fundo branco do Aconcágua. Até que ele simplesmente sumiu. A multidão não conseguia enxergá-lo, o helicóptero perdera-o de vista. Joaquín Rapiman desaparecera sem deixar vestígio. Mesmo hoje, quase uma década depois do ocorrido, há quem acredite que ele esteja vivo, descansando em algum sítio isolado do Aconcágua, preparando-se para voltar — triunfante.

— P. R. Cunha

Turfe

Pablo acordou e viu a esposa coçando os olhos. Perguntou-lhe: ainda coçam? A esposa respondera que sim, coçam, muitíssimo. Tu devias procurar um oftalmologista, disse Pablo enquanto desligava o ventilador de teto. Tenho medo, a esposa disse, quando coço sinto uma dorzinha estranha, percebes? Pablo não percebia. Ele foi até à casa de banho. Lavou o rosto. Tomou um duche rápido e vestiu a roupa — uma t-shirt branca, calça jeans, tênis. Notou que havia vazamento numa das paredes da casa de banho. Outro vazamento, ele pensou. Pablo comeu quatro bolachas com manteiga, saiu, fechou a porta dando apenas uma volta à chave. Ao trancar a porta pensou em retornar e dizer novamente para a esposa ir ao oftalmologista. Apertou o botão do elevador fabricado por Atlas Schindler. Schindler. Nome que dava calafrios na espinha de Pablo. A porta do elevador se abriu e lá dentro encontrava-se a zeladora do prédio. A zeladora disse: bons-dias, Pablo. Pablo acenou com a cabeça, sem dizer palavra. Ele não ia muito com a cara da zeladora. Na rua, Pablo ergueu o braço para o táxi e o táxi não parou. Pablo odiava imenso quando isso acontecia. Sentia-se invisível, desprezado. Resolveu ir de autocarro. Quando entrou no autocarro um escolar sombrio ficou encarando Pablo. O escolar escutava rap estrangeiro e a voz do rapper estourava os auscultadores do escolar. Pablo sentou-se num dos bancos ao fundo, longe dos olhares agourentos do escolar. Na poltrona à direita dele, do outro lado do corredor, duas senhoras — sessenta/setenta anos, calculara Pablo — conversavam sem cerimônias, como se diz, a respeito das corridas de cavalos. Pablo nunca foi às corridas de cavalos, mas o avô paterno dele ganhara pequenas fortunas apostando nesse tipo de corrida. Há inclusive uma história curiosa na família de Pablo. Dizem que o nome dele é homenagem a um puro-sangue que se destacara pela velocidade, flexibilidade, dorso largo, reto, cabeça com formato fino, dois olhos bem separados (um metro e cinquenta e oito de altura). O avô paterno de Pablo teria apostado nesse cavalo homônimo, morrendo-se logo em seguida de — atestaram os médicos — ataque cardíaco fulminante. Uma coisa leva a outra. Pablo resolveu prestar atenção à conversa das senhoras. A mais velha disse que os comentaristas e os locutores das corridas de cavalos poderiam pelo menos tentar montar num cavalo antes de zangarem-se com os jóqueis, mesmo que nunca participem de corridas oficiais, ela disse, pelo menos compreenderiam a luta, a guerra, a batalha dos jóqueis ao turfe, entenderiam o quão aterrador é montar num cavalo, a ansiedade, ou melhor, corrigiu-se a senhora, a angústia dessa experiência, para que os comentaristas e os locutores pudessem ter alguma empatia antes de destruir, arruinar a carreira de um jóquei. A outra senhora apenas escutava. O autocarro trepidava. O asfalto não estava em boas condições. A voz da senhora era tão cadenciada, precisa, incisiva, gerava tanta calma aos ouvidos de Pablo que ele acabou por se esquecer de si próprio. A pouco e pouco deixara de se preocupar com o conteúdo da conversa. Percebeu que não gostava mesmo das corridas de cavalos, o assunto lhe aborrecia. Chegou a altura de descer na próxima paragem. Pablo desceu e viu que um rapaz com fato esportivo estava a pedir dinheiro. Pablo refletiu que o fato esportivo do gajo de certeza valia mais do que a t-shirt branca e a calça jeans que ele estava vestindo. Achou aquilo estranho. Ali estava Pablo na berma da avenida. Quando passou por uma padaria notou que o padeiro gritava com alguém. Como Pablo não parou para prestar atenção, nunca soube com quem o padeiro estava a gritar. O cheiro dos pães, no entanto, causara-lhe uma espécie de fome, branda, a ganhar intensidade. Mais adiante havia uma loja colorida que vendia bugigangas orientais. Dentro da loja uma dama com olhinhos puxados assistia ao noticiário matinal. Os olhinhos puxados da dama fizeram com que Pablo voltasse a pensar nos olhos da esposa. A loja cheirava-lhe a qualquer coisa agridoce. Pablo continuou a caminhar. Alguém esbarrou nele. Antes de zangar-se com a pessoa, a mulher abriu os braços para abraçá-lo e disse: Pablo!, ao tempo que não nos víamos… Pablo não se recordava da mulher.

— P. R. Cunha

Um gosto culto em literatura

Suponhamos que João, autodidacta, tem aquilo a que se chama «um gosto culto em literatura». João admira muitíssimo determinado livro — à laia de exemplo, vamos dizer que o livro é Relatório do interior, do Paul Auster. Quando começa a perceber que tantos outros também admiram um bocado o livro do Paul Auster, João perde o interesse. (Ou quando milhares de pessoas têm gosto parecido, e o sujeito sente-se menos único, menos especial, ele não é mais o transgressor [outsider] que gosta dos livros do Paul Auster, às escondias; ele agora faz parte de um grupo, clã, mar de gente. Tudo é copiado/copiável. O livro chega ao destinatário, destinatário não pensa [reflecte] a respeito do trabalho do autor do livro. Uma abordagem plausível seria: estou a ler a obra de certo autor, de um ser humano que dedicara tempo, anos, esforços para escrevê-la, talvez a empreitada tenha lhe custado uma perna, um casamento [ver também: amigos & familiares negligenciados porque fazendas literárias], valorizo tamanha coragem. Mas não pensa. Lê. Mastiga. Cospe. Até que o conjunto livro-autor é finalmente esquecido numa prateleira ao canto da sala de jantar e a vida meio que continua.)*

— P. R. Cunha


*Isto é claramente uma generalização arbitrária; se és lá um bom leitor (leitor educado, leitor atencioso, leitor-escritor), não te sintas atingido por palavras tão levianas.

Hotel Brasília

A impressão é a de que cheguei ao fim do mundo. Está tarde, mas posso ainda escutar os barulhos do centro, os autocarros a sair da rodoviária, a motocicleta rangendo, os gritos de amor no quarto ao lado, o choro de uma mulher idosa, marteladas na parede (o que estariam a pregar?), a televisão, o noticiário, um abajur ligado que não ilumina a leitura de ninguém. No restaurante do primeiro piso, vi um garçom aflito porque as mesas mostravam-se impecáveis, as toalhas brancas, os pratos alinhados, os talheres reluzentes, mas algumas taças de vinho, que supostamente deveriam brilhar de tão cristalinas, estavam borradas de batom — alguém lhe dissera às costas: tranquiliza-te, Francisco, ninguém desce para comer a uma hora destas.

— P. R. Cunha

Encontro com a sombra

Para a LPD

A duras penas Samara e Bianca abriram caminho entre as dezenas de funcionários barulhentos que estavam parados à porta do escritório do sr. Toledo. Antes de entrar, elas se viraram rapidamente para aqueles rostos angustiados que aguardavam resposta.

O escritório mostrava-se escuro. A pouca luz do crepúsculo que conseguia ultrapassar as brechas das cortinas de quatro janelas altas iluminava morosamente o piso de granito que em melhores tempos fora motivo de orgulho para aquela multinacional em ruínas. Samara fechou a porta atrás de si e as vozes desconexas foram de súbito abafadas pelo sistema de vedação. Ela respirou fundo e disse friamente: «Certo, Toledo, qual foi a decisão que você tomou?»

O sr. Toledo estava sentado numa dessas cadeiras giratórias que costumamos encontrar na sala dos presidentes de grandes empresas. Mantinha a cabeça baixa como uma criança que aprontara alguma; olhos pequenos, úmidos e retorcidos debaixo das peludas sobrancelhas. Mexia constantemente nos cabelos grisalhos, parecia querer aquecer a caixa craniana para que a substância esponjosa ali dentro funcionasse de uma vez por todas.

Bianca aproximou-se do sr. Toledo: «Você precisa tomar uma decisão, papai…»

Ouviram duas batidas na porta.

— P. R. Cunha