Contra dicções

Em tempos de colégio tínhamos um treinador de futebol muito rigoroso — era o Mr. Bryan. Nunca se mostrava satisfeito. O Mr. Bryan era do Canadá, Québec. Vocês precisam de treinar mais, ele dizia. E mais. E mais. Numa altura chegamos a vencer quatro dos cinco torneios escolares disputados, e o Mr. Bryan ficou possesso porque não vencemos os cinco. Éramos para ter vencido os cinco, ele disse. Anos depois, encontrei-me com o Mr. Bryan num café arborizado. Os cabelos grisalhos, as rugas marcavam vales no rosto do canadiano. Contou-me que pouca gente o visitava em casa, pois onde ele morava havia uma quantidade absurda de mosquitos.

[…]

Imersão em trabalhos criativos, preocupar-se mais com os outros (com os estranhos, especialmente), tirar sarro da condição humana (ri-se na cara do absurdo, como se diz), escrever a respeito das próprias crises, procriar (ter filhos, adotá-los), cuidar da saúde, evitar os comportamentos obsessivos, viver melhor, viver mais, o marinheiro que ganha «uma noite ao bordel do vilarejo» antes de ser enforcado pelos outros marinheiros, viver melhor do que os pais, superar os pais, fazer parte de algum clube (group membership), ser menos intolerante com as religiões, resgatar o álbum de fotografias da família esquecido ao sótão, praticar desportes radicais/perigosos (paraquedismo, escalada em montanhas íngremes [sem o equipamento adequado]), experimentar drogas exóticas, cair ao abismo do álcool, cultivar múltiplas personalidades, negar a morte.

— P. R. Cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #38)

o menino acorda com os gritos da briga dos pais. é o quinto, ou melhor, o sexto domingo seguido que isso acontece. o menino acha que os pais brigam aos domingos porque é justamente o dia em que o pai, motorista de trator, fica em casa. os gritos trafegam em todas as frequências audíveis: graves, agudos, médios etc. o pai claramente é o contralto da orquestra. a voz da mãe modula-se de acordo com o andamento da partitura: por vezes tenor, daí soprano, noutras vezes barítono. a sinfonia é insuportável, pensa o menino. nos dias da semana, os pais não brigam porque cada um fica, como se diz, «na sua». o pai a dirigir trator, a mãe a vender miudezas na quitanda da dona célia, uma senhora redondinha que nunca tira o lenço da cabeça. o menino está claramente a desenvolver uma aversão aos domingos. ele sai de casa para arejar os próprios pensamentos. o sol da manhã já se mostra cruel. o menino vai até à beira do rio. a água do rio que passa & jamais volta, ele lera qualquer coisa do gênero na biblioteca da escola, em algum livro sobre o conceito de tempo, passagem do tempo, entropia, algo assim. o menino agacha-se & ao colocar a água na boca ele pensa que ninguém jamais tocará naquela água novamente. ele agora reflete se deve cuspir a água de volta para o rio, a ver se o acaso levaria aquela mesma porção de líquido às mãos de uma outra pessoa. antes de decidir (se cospe ou não cospe), o menino escuta um barulho distante de tiro de pistola. os pássaros assustados abandonam apressadamente os galhos das árvores. & o silêncio. aquele silêncio de morte, tão comum aos domingos, sussurra o menino.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #36)

a mãe está a dirigir o citröen. ela segura o aro do volante com imensa força, como se quisesse estrangular o automóvel. ao lado dela, a filha finalmente conseguira dormir um pouco, tem a cabeça largada no encosto do banco. a rodovia está deserta, um caminho reto & infinito para o sudeste. o sol tenta se esconder atrás de algumas montanhas descampadas & começa a produzir aquele ambíguo cenário ao crepúsculo. os pores-do-sol podem significar muitas coisas, a depender do humor de quem os observa. os noivos que resolvem se casar ao entardecer buscam uma atmosfera romântica; mas numa ocasião melancólica, os últimos raios solares parecem querer intensificar o sofrimento humano. a mãe inclina levemente a cabeça na direção do banco do passageiro, observa o sono agitado da filha, depois torna as atenções para a estrada & segura o volante com ainda mais força. a filha não merece sentir tudo isto, não tão jovem. o automóvel se aproxima de um posto de abastecimento. a mãe averigua o mostrador de gasolina no painel, que está um pouco abaixo da metade. na semana passada, o namorado da filha sofrera um acidente fatal não muito longe dali. o rapaz estava a participar de uma competição amadora de ciclismo quando uma furgoneta desgovernada o atingiu. a mãe enxuga as lágrimas, procura conter as próprias emoções, sabe que precisa de ser forte se pretende continuar a servir de boia salva-vidas para a filha. no dia anterior, a filha descera para o pequeno-almoço com uma disposição diferente, parecia até esboçar um tímido sorriso. a mãe de início mostrara-se muito esperançosa com aquela atitude. a filha sentou-se à mesa & em silêncio ficou a olhar pela janela. a mãe perguntou se a filha queria algo, ovos mexidos, café, leite, torradas… a filha balançou a cabeça negativamente & apontou para a janela. sabes, mamã — a filha respirou fundo antes de continuar —, estou a perceber que o alex na verdade ainda está aqui com a gente. a mãe largara a frigideira na pia, olhou pela janela & percebeu que a filha estava a apontar para a árvore do jardim. os galhos da árvore balançavam & faziam um som grave. a filha levantou-se para aproximar a mãe da janela & disse-lhe baixinho ao ouvido: escuta, mamã, escuta, é ou não é o som da voz do alex?

— p. r. cunha

Valsas filosóficas

Escrevo isto com uma caneta Pentel Wow! 1.0 mm, BK440, verde.

Sempre quando sai de casa, algo ruim (estranho desconforto) acontece. Quando volta, porém, as coisas se estabelecem novamente, se acalmam — a velha imagem do retorno.

Haiku com aparência aleatória, ato mínimo de enunciação que diz: escrevo hoje, agora, escrevo aqui, presente.

luz de mesa
folha de ideias
dúvida no coração

O processo é este: átomo —> matéria, do mínimo, do fragmentado (é Barthes) ao contínuo.

Uma barata quando se desespera começa a balançar as patas para todas as direções: uma forma de desespero.

Wittgenstein e Heidegger (mas também Cassirer & Jaspers [de forma branda, à moda «não queremos bater no peito pateticamente para ofender o outro»]) disseram que filosofar é estar a dois passos do desfiladeiro. Aponto, então, as atenções do meu observatório para o mais vertiginoso de todos os precipícios: o vale da minha consciência, dos meus pensamentos — que raras vezes me dão sossego, que me despertam tarde da noite e me colocam a escrever tudo o que se passa quando a força reflexiva destrói os diques que procuram proteger, sem lograr êxito, a tranquilidade do meu cérebro.

Filosofar: olhar ao redor, tentar compreender o absurdo de existir. Não é necessário recriar as correntes da praxe. Pode-se utilizar (adaptar[?]) o vasto banco de dados. Neste caso, especificamente: dançar a valsa fúnebre do século vinte, com todos os tons contraditórios, ora otimistas, ora a cantar barbáries.

De forma que estas hipóteses que vos apresento agora são tão minhas como de qualquer outro que porventura tenha chegado às mesmas conclusões; ou mesmo que tenha se aproximado delas, porém com outras terminologias. Estas coisas acontecem.

Por que cargas d’água eu existo? Começo com esta clássica pergunta.

Exemplo de realidade (nada muito aprofundado, como se verá): marco um encontro com Alguém, este Alguém comparece ao encontro — corroborando a ideia de que nós dois havíamos nos comunicado (por telemóvel, digamos), marcado o encontro (num determinado espaço, num determinado tempo). Ambos estamos ali, ao passo que a nossa conversa (marcação do encontro) só pode ter acontecido (naquilo a que chamamos de «realidade»), do contrário, não estaríamos ali.

A pergunta que se segue: se um de nós dois (eu ou Alguém) deixasse de existir, o que aconteceria?

Enquanto eu existo, tudo existe. Se eu deixo de existir, tudo também deixa de existir. Pois a realidade (como eu a vejo) é mediada pela minha consciência de existir. Eu-vejo, eu-sinto, eu-represento etc. etc.

Suponhamos que o Alguém deixasse de existir — morresse, portanto. Havíamos, como se sabe, marcado um encontro. Eu compareço ao encontro (eu-existo), o Alguém não. Alguém está morto. O encontro continua a valer, porque eu ainda estou aqui. Alguém não vai.

Se Alguém deixa de existir, eu, no entanto, continuo a existir. O outro (grosseiramente falando) não é fundamental para a minha realidade/existência, apenas modifica (posso ficar triste quando Alguém morrer, mas isto não altera o facto de eu-estar-vivo-agora).

Vejamos, entretanto, o que aconteceria se eu morresse. Se eu morro, a luz se apaga (eis aqui uma tosca justificativa ao haiku introdutório). Se eu morro, não há encontro. Pois a mediação da minha consciência foi desligada. Alguém pode até aparecer — mas eu-não-estou-lá. O mediador foi-se embora.

Repito à guisa de reforço: eu existo, tudo existe. Minha consciência morre/cessa, nada mais existe. Nem mesmo o universo em expansão, as estrelas, a Bulgária, a costureira que mora no apartamento 502. Isto vale mesmo para qualquer indivíduo que se meta em filosofias (i.e. apuros) desta natureza.

— P. R. Cunha

Em Brasília pode-se ficar morto por muito tempo — parte IV

O Paul Auster certa vez escreveu que mais do que ver o caixão ser baixado na terra, foi o ato de jogar fora as gravatas do pai que personificou a ideia do sepultamento. Auster livra-se de utensílios do guarda-roupa paterno e afinal compreende que o dono daquele vestuário não voltará a vesti-lo jamais. De minha parte, acreditei que visitar papai ao cemitério após oito anos de negação pudesse ser esta oportunidade simbólica cujo significado permite o processo de luto na consciência humana. Enquanto seguia pelo largo caminho que me levava de volta para o estacionamento, detive-me algumas vezes para observar as nuvens que desde a minha chegada se acumulavam preguiçosamente no horizonte e que agora pareciam prontas para chover.

Abertura

Esse silêncio que antecede a tempestade, a respeito do qual muito já se escreveu, me fez refletir que não seria má ideia montar um escritório ali no meio do Campo da Esperança, onde eu pudesse finalmente reaver meus estudos das narrativas de W. G. Sebald e Robert Walser, tarefa interrompida várias vezes ao longo dos últimos anos por motivos, reconheço, os mais parvos. Há muito eu havia desistido de escrever romances e tinha decidido me devotar em período integral, como se diz, às análises minuciosas desses escritores que influenciaram diretamente a construção do meu caráter, mas pelas mais diversas razões que se possa conceber boicotei cada etapa desse processo.

O facto é que o cenário ideal para criar e/ou pensar literatura não pode ser completamente adaptado aos critérios da realidade, ponderei olhando para as nuvens que se aproximavam. Há sempre qualquer coisa. Mesmo que se tenha muito dinheiro, uma cabana isolada de toda a gente, uma vasta coleção de «livros canônicos», mesmo assim o sujeito ainda será perturbado por vários temores, pensamentos inquietantes: é um empréstimo que ainda não foi pago ao banco, um sócio que tenta lhe enganar, cresce o mato no jardim, a criminalidade assusta, instabilidades políticas, terrorismos, a economia do país está em ruínas, alguém da família está doente, outro morreu, aquele suicidou-se. Pode-se citar como exemplo figurativo o semblante do escritor que tenta se concentrar na fazenda do próprio livro mas se vê incapaz de escrever uma única frase porque o mundo é injusto consigo: as olheiras; o cabelo ralo; o aspecto de um pugilista nocauteado; a roupa desalinhada, que de início fora escolhida de modo a disfarçar a precária situação deste pobre-diabo. Confiantemente aceitam-se esses clichês pré-fabricados da alma atormentada que decide se dedicar à arte, embora «ninguém valorize nem arte, nem artista».

Começou a chover e procurei abrigo embaixo da cobertura de zinco que cobria a pequena entrada da recepção do cemitério, à qual encontrava-se um homem de idade indefinível a pelejar com o chapéu-de-chuva que insistia em não abrir. Sr. Dionísio, como em breve fiquei sabendo, era funcionário do Campo da Esperança desde 1996 e já fazia planos para a aposentadoria, sublinhando particularmente o transtorno que era lidar não com os mortos, como se imaginaria numa situação dessas, mas com os sobreviventes, aqueles que, segundo ele mesmo, tinham o rosto transtornado pelos esforços das perdas. A certa altura, fitou o portão de saída do cemitério de um modo que a mim me pareceu um bocado teatral, completamente absorto, como se julgasse que aquela estrutura gradeada não fosse inteiramente segura, e confessara que também sentia falta de uma pessoa querida, uma amiga a quem em tempos estivera muito ligado, uma amante, ele acrescentara, e que nunca mais na vida se sentiu tão confortável como na companhia dessa enigmática mulher. Quando Joana morreu, disse o Sr. Dionísio, fui até a casa em que ela trabalhava como cozinheira, aliás, invadi a casa, sim, invadi seria o termo adequado, invadi e consumi todas as garrafas de uísque que o patrão dela mantinha num barzinho de mogno. Esvaziei aqueles recipientes cor de caramelo e transformei esse estúpido delito num ritual fúnebre, dá para acreditar?, ele murmurou para si próprio. Enquanto entornava essa quantidade absurda de bebida, continuou o Sr. Dionísio, enquanto eu me embebedava feito um cão raivoso, pensei na influência paralisadora que determinadas pessoas, mesmo depois de mortas, ainda conseguem exercer naqueles que permaneceram. Espiava dentro do gargalo da garrafa vazia e compreendia a idiotice que é estar vivo, correr atrás de tanta coisa sem cabimento. Bom, ele disse após um breve silêncio, pelo menos foi esse o meu caso, e o chapéu-de-chuba, veja você, resolveu cooperar.

Sr. Dionísio despediu-se com uma discreta cortesia, atravessou o portão do cemitério e aos poucos se transformara numa imagem difusa no meio da forte tempestade, estranho prelúdio ao próprio desaparecimento e ao daqueles que ele momentaneamente deixava para trás.

— P. R. Cunha