Excerto provisório

Volto em particular ao leitor deste electro-sítio e compartilho um muito breve trecho de certo romance em que estou trabalhando a tempo inteiro. Agradeço in advance que empregues teus lazeres nestes assuntos de tão mínima importância.


[…] Eis que dias mais tarde vem a morrer o seu pai, ao que não pôde resistir. Geralmente um glaciar introspectivo, sua resolução de súbito o abandona e ele se desfaz em lágrimas e lamentações. Chora, é criança novamente. A medida, na verdade, já estava a derramar deveras, e uma coisa de nonada bastaria para abater-lhe o otimismo, provocar-lhe um transbordamento de tristeza. Mas a dor sofrida quando se perde um pai está além de qualquer expressão, como se nenhum substantivo pudesse ilustrar adequadamente semelhante desespero — sente raiva por isso, os verbos não lhe servem mais de auxílio, sente-se traído, petrificado. De qualquer forma, insiste, batalha, luta, põe-se a golpear a cabeça qual louco a demonstrar extrema aflição, pois pretende transmitir esse embrutecimento sombrio, como tinha lido algures, embrutecimento que corrói a nossa «alma», embrutecimento surdo, mudo, embrutecimento que se apodera de nós quando as ocorrências (estou citando de memória), quando as ocorrências nos esmagam e por vezes ultrapassam o que nos é dado suportar. Esta dor excessiva. Morte do pai.

— P. R. Cunha

Uma vez que temos um encontro marcado com uma amiga

Não é fácil de explicar quando (e como) é que o escritor ultrapassa de fato a fronteira para a chamada maturidade. Isso pode acontecer até bem cedo, depois de uma qualquer tragédia que lhe causa traumas — as chamadas cicatrizes da alma. Ou bem tarde, quando já é tarde demais. A escrita, como repetiram muitas vezes, é lá uma arte solitária, e quem a pratica está quase sempre muito particularmente só consigo mesmo. Daí a dificuldade de se perceber alterações. Há também quem defenda o alastramento da ingenuidade; que o escritor livre das mazelas do mundo adulto (i.e. real [?]) tem mais chances de anotar textos honestos. É a romantização do asceta, do retirado, do melancólico, da eterna criança. Imprescindível lembrar que apesar dos esforços de se permanecer completamente alheado, o monge lida lá com alguns seres humanos — e, como costuma ocorrer, cria laços, mesmo que sem muitas complexidades. Aqui o problema é orgânico: as pessoas simplesmente morrem. E não há antídoto eficaz para curar as dores da saudade. Quer dizer: não importa a fortaleza que se cria, o tamanho da murada, a finitude dará sempre um jeito de invadir o bunker do escritor. Rezam as crônicas que somente depois dessas provas, de lidar com a decadência dos queridos, lidar com a própria morte, com a imprevisibilidade da morte, e sentir o gosto de ferrugem que ela deixa atrás de si, somente depois disso o escritor entraria para a fase madura — fase em que não brinca mais com fadas, mas com fantasmas.

— P. R. Cunha