Dejeto humano

Em miúdo eu tive uma severa infecção alimentar — quase morri. Fiquei horas-e-horas em cima do troninho, como se diz. E sempre quando vejo alguém idolatrando outros seres humanos de forma cega, fanática e estúpida lembro-me dessa fatídica caganeira infantil. Como se Montaigne estivesse a sussurrar aos meus ouvidos: mesmo no mais alto trono do mundo, estamos ainda sentados sobre o nosso rabo. Noutros termos (e peço desculpa pelo linguajar indecoroso): os reis e os filósofos cagam; e os políticos também.

— P. R. Cunha

Quando a Musa visitar, estejam preparados, com os ouvidos atentos — ouçam

Alberto Manguel abre as portas de sua Library at Night dedicando-a para o Craig e a nos contar que o poeta otomano Abdüllatif Çelebi costumava dizer que os livros da biblioteca «são amigos leais e dedicados que afastam todas as preocupações». Muito bonita imagem.

Por vezes para lê-los (ou mesmo até para escrevê-los) a figura humana que lida com os verbos intransitivos precisa também de encontrar um sítio afastado, uma própria biblioteca à noite. 

Gesto de resistência: de dia, sou bombardeado por imagens alheias; agora, aqui, sentadinho num cômodo aprazível, permito-me criar fantasias sem os mediadores publicitários.

Ler e escrever com uma despreocupação que beira a leviandade, nos diz ainda o Manguel.

Enganam-se aqueles que acreditam que tais fugas são unicamente tentativas de abandonar o mundo, viver para o longe e não lidar com os desgostos da realidade. Vemos Montaigne escapulindo para o cume da torre, vemos Montaigne solitário, pensativo, concentrado nas leituras e na fazenda de ensaios. Mas depois observamos Montaigne a descer as escadas de volta para a família, para os amigos, para os afazeres administrativos. Montaigne à procura de si mesmo, recluso, mas sempre a retornar, sempre atento ao nobre objetivo de sair do silêncio um sujeito melhor, mais justo para os seus.

De aí apagamos a luz da escrivaninha, dormimos um sono revigorante e acordamos um bocadinho menos defeituosos. Recompensas dos esconderijos temporários.

— P. R. Cunha

Além da escrita #3

PR – Kelton Gomes (Superquadra 202 Norte)
— Kelton Gomes, Superquadra 202 N / Fotografia: P. R. Cunha

[…] Insisto — escrever é um trabalho solitário, mas o escritor não precisa ser de todo sozinho. Escritor que se isola para a torre de marfim, parte indissociável da lenda; porque romântico. Montaigne o fez, de fato, fugiu das gentes do castelo e anotara para si os ensaios, longe. Mas depois percebeu que não aguentaria escrever somente para as paredes de pedra lascada e publicara os próprios pensamentos em edições caprichadas (pelo menos se levarmos em conta o conceito de caprichado para os convivas do século dezesseis). Sai do bunker, ou levanta submarino de vez em quando, e tudo se torna fonte de inspiração. Quando se tem a sorte de lidar com amigos talentosos, tanto melhor. A música do Kelton Gomes, por exemplo, sempre me foi crucial. Thomas Bernhard dizia que o escritor deve alimentar-se de todas as formas de arte. Se por um acaso a escrita lhe cansava, refugiava-se na ópera, na música clássica, no violino, nas pinturas. E o Kelton é bem isso. Um refúgio. Artista que ainda tem o cuidado de pensar na narrativa musical, e muitos já não se importam mais com esses detalhes. Quer dizer, a ordem das músicas para o Kelton é imprescindível. Trata-se de um álbum, ele diz, e se uma determinada canção destoa das demais, preciso colocá-la de lado, é outra coisa. Isto, repito, numa época em que o shuffle e os dez mil temas armazenados no aparelho do ouvinte é meio que regra. Por vezes essas afinidades se transformam em parceria. O Kelton pediu para utilizar uma foto que tirei em Frankfurt para ser capa do disco Distraído concentrado. Ou mesmo quando a escrita me aborrece. Tiro da mochila a câmera fotográfica, o Kelton está ao estúdio produzindo belezas e me coloco a retratá-lo. Depois, no conforto do lar, como se diz, edito tudo numa sessão «metakelton» — Kelton fotografado, Kelton nos fones de ouvido.

— P. R. Cunha

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