devaneios da própria máquina de escrever (episódio #39)

martin & a namorada decidiram ir nadar no lago. ela ficou de ligar para uma amiga & martin convidou o ignacio, que conta anedotas de um jeito tosco & teatral o que sempre arranca boas gargalhadas de toda a gente. encontrar-se-iam à orla por volta das 10h. algumas nuvens se amotinavam no céu matutino & a impressão era de que a tempestade desabaria a qualquer momento. o trajeto até ao lago, no entanto, é absolutamente tranquilo. fernanda estava ao volante — martin ainda não aprendeu a dirigir. ele abrira toda a janela do passageiro & por vezes colocava a cabeça para fora & sentia a brisa enquanto contava o número de vacas que pastavam despreocupadas. martin sentiu inveja do sossego das vacas. numa altura, precisaram de parar o carro no estacionamento de terra improvisado & seguir o resto do caminho a pé. fernanda ficava a levantar o próprio telemóvel bem alto a ver se encontrava sinal. a amiga dela respondera pelo whatsapp que não podia ir ao lago hoje, alguma coisa a respeito de um almoço com os pais. martin sentiu a primeira gota de chuva cair no ombro. ele andava na frente para abrir espaço entre as matas. quando chegaram à orla deserta, fernanda estendeu a toalha & martin colocou a mochila em cima de uma rocha ao lado. ela se afastou para analisar a superfície verde do lago. martin aproximou-se & segurou-a pela cintura. fernanda encostou a cabeça no tórax dele & percebeu que uma espécie de pé estava a boiar não muito longe de onde eles estavam. «merda, martin, diz que aquilo ali não é o que estou pensando», ela apontou para o corpo de bruços. não parecia real, não mesmo. parecia um objeto sintético, um daqueles robôs que recebem pele artificial para simular a aparência humana. martin riu-se contidamente: «deve ser coisa do ignacio». daí ele gritou & bateu palmas: «haha!, pronto, ignacio, essa foi boa, muita boa, agora chega de tretas», mas nada de ignacio. o corpo pálido, adiposo, continuava a boiar: jeans, camisa social branca, sapato desportivo nike desamarrado. fernanda pegou uma pedra da orla & jogou-a no cadáver. a pedra foi amortecida pela epiderme hipotônica & fez um barulho como se tivesse atingido um saco de batatas. «chega mais perto dele, martin», ela pediu. martin notou um rótulo de coca-cola grudado no braço esquerdo & percebeu também que havia um ferimento, ou melhor, uma grande abertura no dorso do cadáver, mas nenhuma mosca, nenhum cheiro. parecia um banhista distraído, talvez um pouco bêbado, que resolvera tirar uma pestana onde não devia. martin endireitou-se & fez uma varredura-trezentos-&-sessenta-graus no local. uma parte dele ainda tinha esperança de ver ignacio saindo de trás de alguma árvore, com aquele sorriso debochado & senil: é tudo brincadeira, seus idiotas. mas essa possibilidade se mostrava cada vez menos razoável. martin chegou ainda mais perto do cadáver & começou a dar uns chutes, bem de leve. depois, com força, sacudiu o morto, que desvirou-se na água feito um boneco de pano encharcado. fernanda soltou um rangido de susto & cobriu a boca com as mãos, não podia acreditar no que estava acontecendo. o rosto do homem lembrava uma gelatina derretida, o nariz torto, os globos oculares deslocados, a pele avermelhada. martin pediu para ela correr, pegar o telemóvel, ligar para a polícia. a chuva agora começara a cair com força. fernanda tentava desesperadamente levantar o aparelho para o céu, à procura de sinal, qualquer sinal.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #25)

porcaria, frank!, este rio está mesmo uma espelunca, & que fedor, nossa, não faz sentido pescarmos neste lixo, frank, não há peixes, frank! [frank está sentado à proa do barco, mordisca um caule de trigo, abraça distraidamente a vara de pescar enquanto dedilha o device eletrônico]: tu tinhas que dar uma olhada nisto aqui, diego, é mesmo qualquer coisa alienígena. [diego hesita. levanta os braços para o céu, faz que vai pedir ajuda a alguma divindade invisível. contorce o rosto enrugado. continua observando a superfície oleosa do rio, as pequenas marolas produzidas pelo sacolejar do barco, depois limpa o suor da testa com as mãos, solta uns grunhidos rancorosos]: aos diabos, deixa eu ver logo isto aí. [frank sorri sem tirar os olhos do ecrã & inclina o device para procurar um ângulo mais adequado, obstrui a luz do sol com o próprio boné]: sítio web de armazenamento de dados, tu colocas todas as tuas informações, sei lá, emails, cartas, tudo o que já publicaste nas redes sociais, as conversas, as tuas preferências, os filmes que mais gostas, as músicas que mais escutas, os livros que leras, enfim, colocas a tua vida aqui dentro, upload, & daí o algoritmo faz o resto, o algoritmo vai encontrar outros seres humanos com as mesmas preferências, inclusive as mulheres, diego, sim, as mulheres, as mulheres com as mesmas preferências, percebes o alcance deste troço? [diego coça a têmpora]: não sei não, frank. [como se falasse com um interlocutor invisível, frank dá de ombros]: & depois de morrermos, vê lá, depois de morrermos, o sítio web ainda mantém os nossos dados, impressionante, como uma espécie de sarcófago digital, ou [pensativo]… um mausoléu cibernético, tipo lênin-ciborgue, & as pessoas poderão acessar esse sarcófago, & nos fazer perguntas, quero dizer, fazer perguntas aos nossos dados acumulados, obviamente, & o algoritmo formularia as respostas. [diego se afasta do device. adota uma postura taciturna. oscila a vara de pescar. ao longe, a silhueta de uma lancha se aproxima.]

— p. r. cunha

Sobre a indústria dos «likes» e não só

Foi-se o tempo em que o escritor podia ficar em casa a escrever sossegado, a receber os cheques da editora, depois lançava o livro, comparecia a um par de eventos promocionais, dava algumas entrevistas, voltava ao próprio escritório para que o ciclo recomeçasse.

Vive-se hoje na era da participação, do compartilhamento, do gostei-não-gostei. Era dos likes — os onipresentes botões (coração vermelho, sinal de joinha, estrela etc. etc.) que por vezes se transformam em símbolos superestimados. Comparo-os com a tecnologia nuclear, que pode gerir imensa quantidade de energia (estímulos positivos), mas também constrói bombas devastadoras.

Há pouco tempo um blogueiro enviara-me a seguinte mensagem: percebo que você não dá likes nas minhas publicações, então vou deixar de dar likes nos seus textos. Assim, curto e grosso. 

O que está acontecendo aqui?

Compreendo que muitos leitores utilizam essa ferramenta (na falta de melhor termo) para mostrar ao autor que leram, que apreciaram de verdade o que estava escrito. A valsa, no entanto, costuma ser um bocadinho mais fúnebre.

Comecei a notar que alguns utilizadores da Romênia e da Turquia apertavam constantemente o botão de curtir das minhas publicações. A parte vaidosa do meu cérebro dizia: que barato!, romenos e turcos a ler os meus devaneios. Enquanto a parte racional aterrava-me sem piedade: por que cargas romenos e turcos leriam as coisas que tu escreves, cidadão? 

Daí acessava o sítio web deles, e não entendia nada, e obviamente não dava like nenhum. Com o tempo, os likes das minhas publicações também sumiam. Alas!, romenos, e turcos, e gregos, e paquistaneses de súbito perderam o interesse pela minha literatura trópico-experimental.

Repito: o que está acontecendo aqui?

Estamos atrás de leitores ou de recompensas? (Fico a pensar se a resposta explicaria fenômenos recentes como o jogo de caçar Pokemón.) Fulano pode ter ao rodapé do próprio blogue uma infinidade de likes, gentes de toda a parte do planeta, gentes que só estão a dar likes para receber likes de volta. Não pretendem ler, muitas vezes não fazem a ideia do que se trata, querem apenas a troca, a premiação, os diplomas na parede eletrônica. «Vê, mamã, quantas pessoas gostaram da minha receita de musse de maracujá que publiquei em sânscrito.»

Egotismo à parte e em termos evolutivos, minhas rotinas literárias talvez se aproximem mais dos modos de escritores de um passado recente — não é Montaigne, é DeLillo; nem Platão, é Wittgenstein. Ao mesmo tempo, procuro estudar sobre o que significa ser humano nos dias atuais, no século vinte e um, 11 de novembro de 2019, por isso tento manter este recanto cibernético abastecido.

É uma válvula, não um jogo de trocas. Uma busca — muito provavelmente, uma busca eterna.

O desafio seria sobreviver aos bytes-and-bites sem ser abatido pelos caçadores de recompensa. Pois, como diria David Foster Wallace, os escritores de ficção tendem a ser mirones ávidos, tendem a espreitar e a fitar, são observadores natos, espectadores, são as pessoas que vão no metropolitano e que têm qualquer coisa de certa forma sinistra no olhar desprendido. Porém, continua o sr. Wallace, os escritores de ficção tendem a ser extremamente autoconscientes. Tal como dedicam imenso tempo produtivo a analisar a impressão que as outras pessoas lhes causam, também dedicam imenso tempo produtivo a interrogar-se nervosamente sobre a impressão que causam às outras pessoas.

A consequência, conclui o sr. Wallace, é que por norma a maioria dos escritores de ficção não gosta de ser objeto da atenção das outras pessoas. Muito menos de se sentir o objeto das outras pessoas. Contudo, pelos vistos, é justamente isso que os meios de comunicação modernos estão a fazer connosco: meros replicantes descartáveis a apertar likes com a falsa promessa de que isso significa participar.

— P. R. Cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #22)

a revigorante liberdade de se escrever qualquer coisa à maquina numa manhã parcialmente nublada depois de gladiar-se com pensamentos intranquilos. cortinas abertas. ampla — a janela. café com baileys (o suficiente para ser tachado de alcoólatra pela parcela mais puritana da população) &tc.

querer-se-ia dizer: chegará a altura em que não teremos mais vocabulário (e.g. palavras adequadas que não se percam em metafísicas paradoxais) para designar as nossas eras. […] modernidade, pós-modernidade. certo, & agora? o que vem depois do pós? super-pré-modernismo — com uma escola arquitetônica cujo mentor seria uma mistura andrógina de oscar niemeyer com le corbusier? idade dos robôs, & daí a coisa toda meio que se reiniciaria («reboot», à guisa de descontração linguística). robôs que sonham com discussões filosóficas a respeito do tempo em que vivem & publicam os próprios apontamentos num sítio web com diagramação, como se diz, «clean». não é estranho? muito estranho.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #6)

imaginem um objeto de metal, retangular, vinte & oito centímetros de largura, trinta de profundidade. altura: oito centímetros. é verde, possui teclas com letras, números & outros símbolos próprios para a construção de textos. 

é a minha olivetti lettera.

conta a narrativa desta família que os pais do meu pai conheceram-se em niterói no início do século vinte, ocasionalmente, enquanto meu avô tentava manobrar a própria charrete & minha avó voltava de uma quitanda. já os pais da minha mãe apaixonaram-se na cidade do rio de janeiro depois de muitas investidas do meu avô, que trabalhava aos correios & anotava bilhetinhos secretos para a minha avó, na altura uma estudante de direito.

charrete, quitanda, carteiro, bilhetinhos românticos de papel: termos que de certeza denotam nostalgia. & o faço de propósito. 

obviamente que todas as odes ao passado possuem manchas estranhas: desigualdades sociais, despreparo para um escopo enorme de doenças, guerras, nepotismos, privações & não só.

gostava, no entanto, de focar no critério tecnológico.

as pessoas tinham essa vida desplugada, sem wi-fi, iam de charrete para todos os sítios, & ainda assim se apaixonavam, & trabalhavam, & sobreviviam. davam conta.

ontem observei com atenção um pai que tirava o telemóvel das mãos do miúdo, & quase tiveram de chamar o serviço social (ou o exército) para conter tamanho berreiro. exageros à parte: o choro do menino parecia uma sirene anunciando ataques nucleares. 

mas era só um telemóvel.

reflito aqui diante da minha olivetti se não estaríamos nos tornando o grupo de humanos mais mimado que já pisara neste planeta. 

sair de casa é para alguns um estorvo incontrolável. não se pode mais entrar numa cafeteria & pedir qualquer coisa sem os ruídos de fundo: «aqui tem wi-fi?; ei, moça/moço, a internet está lenta!; esta cadeira é tão desconfortável, a da minha casa é bem melhor, sabes». 

& mesmo quando tudo funciona direitinho, quando as mensagens do whatsapp percorrem distâncias inimagináveis quase à velocidade da luz, mesmo assim ainda conseguem encontrar defeitos — ou a operadora é gananciosa demais, ou a bateria do telemóvel descarregou (um absurdo ela durar apenas 12h!, sem fio, sem nada), ou é porque o aparelho esquenta demais, ou a tela touchscreen está engordurada demais, ou a companhia humana é enfadonha demais…

termino esta reflexão com uma imagem. ou melhor, com uma espécie de máquina do tempo. ressuscito o meu avô paterno, trago-o (de charrete!) para este brilhante século das comodidades; deixo que ele passe uma tarde aprazível dentro de um shopping mall — mas antes revisto todos os bolsos do vovô, à procura de objetos que, num momento de total desespero/angústia, possam tentá-lo a colocar termo à própria vida.

— p. r. cunha

Obstáculos

Conversa com a Jessy, à noitinha. O que define um ser humano. Atualmente –> o trabalho, a profissão; perguntam: o que você é? Geraldo é arquiteto, Priscila engenheira, Otávio cabeleireiro. O mercantilismo (principalmente desde a Revolução Industrial) que rotula. Você é aquilo que faz (?), ou talvez (outra hipótese): conjunto de atributos –> uma pessoa encantadora, hostil, esforçada, severa, batalhadora, preguiçosa. Notar, porém: atributos pessoais (via de regra) são adjetivos com conotações positivas — tendem a ser brandos. Suponhamos o Fred; Fred trabalha como contador numa empresa detestável; Fred chega em casa exausto, infeliz (a imagem moderna da insatisfação [passo o dia todo num trabalho odioso!]) — Fred não quer ser definido por aquilo que faz; meu «eu», ele diz, vai muito além; sou muito mais do que isso; não sou um mero contador; em verdade, odeio a contabilidade etc. Agora, ali está Miranda, pinta paisagens –> adora/venera o aspecto calmo e tranquilo que adota ao preparar tela sobre o cavalete, as cores, os pincéis, o Händel a tocar nos auscultadores. Sente-se em casa, confortável (a figura é esta: o lar, o abrigo). A pintura é tudo para si; Miranda confunde-se com os próprios quadros. Diferentemente de Fred: Miranda + atividade = própria definição (ou características previsíveis/plausíveis [criatividade, curiosidade, improvisos, introspectividade, não conformismo {e assim por diante}]) de artista plástico; ao que Miranda se envaidece (sim, sou uma artista, sou [também] os quadros que pinto). Aquilo que fazemos/criamos (fiz isto com as minhas próprias mãos), aquilo que reflete o nosso estado interior (sem misticismo), aquilo que nos faz sentir orgulhosos — eis o que poderia nos definir. Os adjetivos, os rótulos, os atributos vêm/viriam desse tipo de empreitada, naquela altura em que até conseguimos escutar os batimentos do coração.

— P. R. Cunha

Versos satíricos (uma réplica)

Num determinado encontro de escritores brasilienses — que ocorrera no Setor Comercial Sul e ao qual (felizmente?) não compareci — fui, segundo fontes críveis, citado por um dos participantes que utilizara de tais palavras para descrever a minha postura literária: «P. R. Cunha é um tipo completamente alheado do mundo, que não consegue compreender que o Brasil está a passar por um momento de exceção, e que não trata, pelo menos no seu blogue, das coisas que realmente importam» etc.

Não sou um sujeito belicoso. Poderia apenas desculpar-me e dizer ao supracitado vivente que há vários sítios mais calorosos do que este em que costumo me expressar sem pretensões homéricas, e que se as coisas que realmente importam estão alhures, pois fique então com alhures. Mas talvez seja altura de, como se diz, colocar os pingos nos is.

Quais são as intenções deste espaço eletrônico, o que o autor pretende com o blogue?

Como já comentei inúmeras vezes: um médico pratica a medicina, um professor ensina, um pesquisador pesquisa, e um escritor… bem, um escritor escreve. E se o escritor levar a sério a empreitada, ele vai escrever praticamente todos os dias. Mesmo que não escreva no papel, pode estar a fazê-lo mentalmente — enquanto passeia com uma adorável companhia, está também a tomar notas abstratas dentro da própria cabeça para uma breve posteridade.

Há os livros que precisam de ser escritos, e revisados, e editados, e enviados aos prêmios literários. E há aquela descompromissada produção que acontece nos interlúdios da fazenda livresca; tudo aquilo que não é aproveitado no livro, ou que não tem nada que ver com o tema do livro. É esse material que costumo publicar aqui no blogue.

Nunca sei se realmente valerá a pena disponibilizá-lo. Faço-o, porém, para que o excedente não se perca dentro das gavetas da minha escrivaninha. E, afinal, mostro-me aqui sem os filtros da praxe, sem ambições, vivendo num brando isolamento, liberto de sugestões e influências selváticas. Em tais medidas, corro o risco de não ser lido, ou mesmo de ser acusado de «não tratar das coisas que realmente importam».

No entanto, como diria um antigo, se este raciocínio intimidasse a todos, imaginem o que se teria perdido. Porque por vezes acontece de voltarmos com as melhores experiências justamente daquelas caminhadas para as quais não dávamos a mínima.

A verdade é que a World Wide Web é lá uma feira onde se encontra mesmo de tudo. Se as maçãs desta tenda estão podres, o ilustre leitor pode (e deve) procurar mercadorias mais apetitosas noutras barraquinhas. Porque nunca lhe faltará sumo mais intrigante, ou vendedores com verve à manifesto. 

— P. R. Cunha