Sala de espera

Os períodos de transição causam tormentas imprevisíveis. Pode-se falar de sociologia, filosofia, política, economia, mas não é preciso de ir tão ao longe. O próprio ser humano guarda dentro de si o microcosmo da transitoriedade. A passagem da meninice para a adolescência, da juventude à vida adulta, de aí vêm a velhice e a morte. Etapas. Não é imprópria a imagem do limbo. O sujeito que se encontra na sala de espera leva dentro do coração duas feridas abertas: a nostalgia do que costumava ser e já não é mais, e a incerteza daquilo que será, mas ainda não o é.

— P. R. Cunha

Politicamente incorreto

Não é preciso de ir muito longe para perceber que se vive numa modernidade de polícias. O desafio talvez seja reconhecê-los, pois não utilizam necessariamente a indumentária marcial. Civis também fazem parte da gangue.

O vizinho mexeriqueiro, a colega de trabalho, o motorista do autocarro, a jornalista, o professor de direito, a médica. Todos suspeitos. Podem ser (e provavelmente são) polícias.

Eles sabem o que é certo para si, ou melhor, para si e para toda a humanidade. Farão de tudo para serem ouvidos, para serem levados em conta, para, se preciso for, enfiarem os próprios ideais corretivos na goela de toda a gente.

Daí vêm as culpas.

Como, por exemplo, dormir demais. Numa sociedade policialesca dormir demais é um pecado capital. Você poderia estar a fazer algo de útil, mas está a dormir. Um breve cochilo vespertino é motivo de crises profundas: afinal, o que vão achar de mim?

Não se pode nem comer um salgado sem que algum espião olhe de cara feia a pensar: esse aí está perdido, brinca com a obesidade, sente tanto prazer ao ingerir salgado gorduroso, que obsceno.

(As bebidas alcoólicas sofrem de estigmas análogos a respeito dos quais muito já se escreveu.)

«Eu sei o que é bom para a raça humana, eu conheço o segredo do sucesso, eu sei o que é uma vida plena, saudável, equilibrada», o sujeito lhe cospe isso antes de voltar ao próprio apartamento de 20mpara perder-se em pensamentos suicidas.

O maior alvo da geração-polícia provavelmente seja o tabaco. A lei que proíbe fumar em locais públicos é sensata, mas não é o bastante. E por que cargas seria? Se você acende um cigarro no conforto da sua casa, sem incomodar vivalma, só você e o cigarro, é bom, por precaução, trancar as portas e fechar as cortinas, pois se alguém observá-lo a cometer tamanho crime saiba que terá de ouvir infinitos sermões.

Roland Barthes escreveu imenso sobre o direito ao tabaco. Parafraseio: sei que faz mal, sei que causa cancro, mas se gosto de fumar, e posso fumar, irei fumar, sou adulto, não necessito de nenhum grupo de fatalistas para esclarecer o que é bom ou ruim para a minha vida, sumam daqui!

Faz lembrar Robert Burton, que em 1621 declarara: oh!, o tabaco, divino, raro, superexcelente tabaco, um elemento milagroso que causa tanto a elevação quanto a ruína da alma.

Ou mesmo aquele antigo beberrão que costumava repetir: a bebida mata, e é bem por isso que continuo a beber.

Acontece que essa independência, essa liberdade de escolha, de compreender e lidar com os riscos, essas posturas desafiadoras obviamente incomodam deveras os membros do Estado Babá. Ora!, como ousa ter esse tipo de autonomia, vontade própria, diz o polícia social, não sabe que vivemos em grupos, e que seguimos regras específicas, e que todos precisam de se comportar direitinho?

— P. R. Cunha

Sr. Anselmo – parte 12

Apontamentos aleatórios enquanto o sr. Anselmo escuta Shida Shahabi (Futō), fumando um cigarro às escondidas, a ler Raymond Carver — a chuva tamborila sobre capa protetora da piscina, algumas gotas respingam na mesa à qual o sr. Anselmo está sentado.

Pastel de natas (industrializado [Confeitaria da Torre]), Bier Hoff — desde 2002 —, Red Ale, cerveja forte, cerveja escura, 500 ml, 8,5% vol. O sr. Anselmo está vestido com uma camisa a dizer I WOULD PREFER NOT TO (prefiro não fazê-lo [tipologia Helvetica Neue]), Bartleby, Herman Melville.

A bebida e o cigarro são suicídios à prestação.

De dia, os revolucionários detestam determinado canal televiso, mas, à noite, os revolucionários continuam a consumir os produtos desse mesmo canal televisivo. 

Melhor ir-se acostumando com os drones (inclusive aos domingos).

A contagiosa doença de literatura. Parasitismo. Escreve-se e lê-se imenso, bem mais do que precisaria.

O baiacu é um peixe mortalmente venenoso — e nem por isso deixam de comê-lo.

Nesta sociedade absurda, o fantasma do fim do mundo mostrar-se-á, enfim, num tweet censurado.

Os escritores franceses escrevem até morrer. Estão no leito de morte, mal conseguem respirar, mas escrevem, até morrer.

— P. R. Cunha

A luz

O homem que mora dentro do farol marítimo a viver uma silenciosa, sedentária e solitária existência consigo mesmo, a ler vasta biblioteca de estudos oceânicos, a apontar a lente do monóculo aos barcos que vão-e-vêm, ou mesmo às estrelas, às crateras da Lua — que oferecem-lhe à noite uma pontada sutil no coração —, possui pouco, possui muito, possui o bastante, não deve nada a ninguém, não tem filhos para sustentar, esposa para agradecer, um mero espectador, como diria um antigo, sim, o homem que mora dentro do farol marítimo, um mero espectador dos infortúnios dos seres humanos, das aventuras, desventuras, de toda a gente, como agem, agiram, como devem agir, como devem seguir as ordens, como devem ler o noticiário, os rumores de guerras, de pragas, incêndios, inundações, assaltos, pandemias, bombas, assassinatos, massacres, meteoros, cometas, fantasmas, prodígios, cidades sitiadas, moradores trancafiados, gritos, denúncias, vigilâncias, tempos tempestuosos, tempos de vírus, piratarias, navios afundados, histeria, inimigos imaginários, prédios abandonados, alarmes falsos, ambulâncias, confusão, contradições, desejos, sirenes, ações, forças armadas, petições, processos, leis, proclamações, novas capas de jornais a cada manhã, novos panfletos, ataques, dores, lágrimas, mentiras, aproveitadores, manipulações, tropas de choque, opiniões, achismos, ódio, filosofias controvérsias, direitos, novos paradigmas, soluções, etc., casamentos cancelados, famílias enjauladas, parques vazios, praias vazias, funerais vazios, drones, bailes vazios, cremação, morte de príncipes, princesas, plebeus, traições, vacinas, roubalheiras, troféus, mentiras, bandidos, medalhas, retrospectivas, novas descobertas, velhas curas, outras doenças, futuros presidentes, outros governos, homens depostos, mulheres depostas, as devidas honrarias, o dinheiro, os bancos, o robô, os créditos, as empresas, os hospitais, a inteligência artificial, os interesses, e, de novo, as mortes, os números, as mortes, os gráficos, os casos, as causas, as mortes, as simulações, os famintos, os dados, as mortes, os ricos, os que precisam, os que nunca precisaram, as risadas, as brincadeiras, o choro, o tédio, o nada.

— P. R. Cunha

O café

Há um café ao qual o sr. Vargas vai todas as manhãs para tomar o pequeno-almoço. E isto assim se passa há mais de trinta anos. O sr. Vargas acorda, banha-se, veste-se, vai ao café, toma lá o pequeno-almoço. O café fica perto do apartamento do sr. Vargas, de modo que ele vai caminhando. Essas caminhadas muito agradam ao médico do sr. Vargas, que estava a ficar preocupado com o sedentarismo do velho paciente. Havia uma altura, reflete o sr. Vargas, havia uma altura em que as pessoas íam aos cafés para olhar outras pessoas a tomar o pequeno-almoço, ou a comer a torta de morango, ou apenas para fingir que liam o jornal enquanto observavam as outras pessoas convivendo às mesas — e assim por diante. Acontece que agora os cafés têm Wi-Fi. E por terem Wi-Fi acabam por receber um dos tipos mais capciosos de clientela: o escritor de café. O perfumado escritor de café com o próprio computador, os auscultadores Bluetooth, a cabeça orgulhosamente erguida, como uma girafa ao público, impossível de não se notar. Por todos os cafés há assim um disparate dessa laia, pensa o sr. Vargas. E isso bole-o com os nervos.

— P. R. Cunha

O shopping mall

Tancredo sentia-se desolado, de forma que desligou a televisão e foi dar um passeio no shopping mall a ver se preenchia o vazio que lhe perturbava imenso. Tancredo compra roupas, entrega-se às gulodices na praça de alimentação, irrita-se com o ar viciado do shopping mall e depois volta para o próprio apartamento. Agora ele é um vazio de ressaca moral, com barriga cheia e vestimentas novas.

— P. R. Cunha

A camaradagem nos tempos do WhatsApp

Eles vão querer que você seja criativo, sim, com certeza, criativo…, mas criativo dentro de certos limites, e nada de ultrapassar esses certos limites, por favor, nada de hiperprodutividades, e compartilhar todas as hiperprodutividades, todos os fluxos de consciência, o melhor manuscrito desde aquela história lá com o Holden Caulfield, blá-blá-blá, você e suas manias de grandeza, é muita coisa, sem dúvida, imensa coisa, risco de afogamento, eles não dão conta, definitivamente, não dão conta, muita informação, só querem que você seja criativo, é isso, mastigado, sucinto, vá de mansinho, está a perceber?, e numa altura é provável que eles peçam favores, ah, sim, os favores, as ajudas, os auxílios, as emergências e ao final de ajuda-auxílio-emergência-favor eles irão garantir: puxa!, fico lhe devendo essa, mano/nem sei como lhe agradecer/que grande caráter/conte comigo para o que der e vier/viu, falo a sério, conte comigo mesmo, mesmo, mesmo e é bem capaz de serem palavras, como se diz, «da boca pra fora», boas intenções, nada mais do que boas intenções, existe a probabilidade (71%, 85,4%, 92,33% [complicadíssimo calcular esse tipo de tretas]) de você nunca receber ajuda-emergência-auxílio-favor de volta para si, ilusão, fantasia, como foi cair nessa, onde estava com a cabeça, mas eles podem — afinal, nada é certo nesta vida —, veja lá, eles podem comparecer ao seu casamento, que tal?, bom, não é?, de repente mandar algumas fraldinhas tamanhos P & M quando o seu(sua) filho(a) nascer, eles podem também ir ao velório de algum parente que lhe é caro, ou não ir ao velório de algum parente que lhe é caro, pedem as desculpas, dizem que não estavam na cidade na ocasião do velório, mentem que não estavam na cidade, mentem na cara dura, porque em verdade toda a gente percebe que estavam na cidade, a internet sabe que eles estavam na cidade, mas disseram que não estavam na cidade, que estavam fora, no estrangeiro, longe, pois não queriam lidar com o luto, compreende direitinho?, que chatice encarar a própria finitude, que disparate estragar o fim de semana com esses «rendez-vous dos mortos», e depois eles podem desaparecer, claro, há sempre essa chance, desaparecer, sumir, vão-se embora como se jamais tivessem existido ou algo nesses moldes.

— P. R. Cunha